Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 28 de julho de 2026

Brasil - Unesco reconhece teatros da Amazónia como Património Mundial

Os teatros da Amazónia, nesta segunda-feira (27/07), foram aprovados, na cidade de Busan, Coreia do Sul, como Património Mundial


Após uma grande avaliação, a Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), na sua 48.ª edição que se realizou em Busan, na Coreia do Sul, anunciou que o Teatro Amazonas, em Manaus, e o Theatro da Paz, em Belém, seriam reconhecidos como Património Cultural Mundial, representando os primeiros bens culturais da região Norte a conseguirem tal feito.

O Teatro Amazonas é um dos maiores símbolos culturais do Brasil e um dos mais famosos da América Latina. A sua história está ligada diretamente ao Ciclo da Borracha, que ocorreu no final do século XIX, sendo este um período de grande movimentação económica no estado. A sua construção ocorreu para mostrar a prosperidade e o desenvolvimento da cidade.

O Teatro foi inaugurado em 31 de dezembro de 1896, tendo como a sua primeira apresentação a ópera “La Gioconda", do compositor italiano Amilcare Ponchielli. A arquitetura do Teatro possui materiais importados de toda Europa, como por exemplo mármore italiano, vidros e cristais franceses e estruturas metálicas da Inglaterra.

Após um declínio económico da cidade de Manaus, o teatro passou por um longo período com poucas atividades, sendo assim obrigado a fechar por vários anos. Na segunda metade do século XX, o edifício foi restaurado.

Atualmente, o Teatro Amazonas virou um património histórico para todo o Brasil. Há diversos concertos, óperas, apresentação de dança, peças de teatro e eventos culturais, como o Festival Amazonas de Ópera.


Já o Theatro da Paz, em Belém, surgiu também por conta do ciclo da Borracha, no século XIX. O objetivo de construir o Theatro era para suprir os desejos da elite paraense de assistir a espetáculos e óperas. A sua arquitetura representa o estilo neoclássico.

O seu projeto começou em 1869, mas só foi concluído em 1878 por conta de atrasos e mudanças no projeto. Em 1878, foi inaugurado com a apresentação do drama françês “As Duas Orfãs”, do dramaturgo Adolphe d’Ennery. Até hoje, o Theatro da Paz recebe óperas, companhias de teatro e concertos.

Os dois teatros foram candidatados pelo Governo Brasileiro como “Teatros da Amazónia”, criando dois grupos, sendo assim: o Teatro Amazonas e o Largo de São Sebastião, em Manaus, e o Theatro da Paz e a Praça da República, em Belém.

Desta forma, o Brasil passou a ter 26 sítios reconhecidos pela organização da ONU, sendo eles 16 culturais, 9 naturais e 1 misto. In “Vatican News” – Vaticano

A presença portuguesa nos teatros da Amazónia aconteceu logo no final do séc. XIX através da Companhia de Operetas Portugueza dirigida pelo maestro Thomaz Del Negro e propriedade do empresário Juca Carvalho. Nela participou o ator Alfredo Carvalho. Primeiro, a Companhia apresentou-se no Teatro Amazonas em Manaus, tendo o teatro perdido o seu arquivo da época. Seguidamente a Companhia deslocou-se para o Theatro da Paz em Belém, onde a comunicação social referenciou a sua presença, destacando os enormes êxitos dos espetáculos e cuja investigação de Mário Alexandre Dantas Barbosa do Colégio Pedro II e da Universidade Federal do Rio de Janeiro compilou em documento apresentado no final de 2015.

Nele, o autor destaca a notícia publicada no jornal A Província do Pará, publicado a 09 de dezembro de 1899, na página 3, na secção Espectáculos e Concertos onde se elogia o maestro Thomaz Del Negro como diretor musical da Companhia Portugueza de Operetas e compositor de uma das peças por ela postas em cartaz. Aqui fica o seu registo:

“Maestro Thomaz Del Negro - Entregue á laboriosidade do seu cargo de empresario e director da orchestra da companhia portugueza de operetas que acaba de nos deixar, mal teve tempo para uma modesta ividenciação, despercebida tem sido entre nós a estada de Thomaz Del Negro, uma incontestavel individualidade musical do paiz nosso irmão e amigo.

Para os que andam ao corrente da actividade da vida artistica dos grandes centros europeus e que acompanham o movimento d’esses meios de arte - para esses, diziamos, o nome que epigrapha estas linhas não é o de um desconhecido; desde annos e bem annos que a sua reputação se tem vindo fazendo, consolidando-se no merito, fortificando-se no esforço intelligente, alentando-se nas próprias difficuldades que aqui como em toda a parte surgem aquelles que trilham a verdade da arte. Está hoje entre nós, e muito não é que esta secção, dedicada exclusivamente á divulgação de tudo que de perto ou de longe se ligue a coisas de arte, registre a sua estada no Pará, noticie mesmo o seu breve apparecimento em publico, rodeado e solicitado como está pelas nossas melhores summidades musicaes.

Motivos estranhos ao nosso espontaneo desejo fazem com que deixemos escapar esta occasião para transladarmos aqui notas biographicas de importantes revistas italianas e portuguezas sobre o merito do musicista primoroso e compositor fulgurante. O pouco que possamos dar extrahimol-o d’O Amphiom, o magnifico jornal de arte pouco avezo ao elogio e mais rigorista nos seus principios.

É um modesto que só um grande valor tem conseguido inferiorizar aquella qualidade, diminuindo o prejuizo que lhe tem causado. Vivendo para si e para a sua arte, os applausos e os encomios não o têm despertado para a exteriorização da vida; entregue ao goso do seu intimo, tem olvidado do o que há de carencia para o artista, quando este se isola no seu merito e deixa que a fama leve nas azas pandas da reclame muita vulgaridade desvalorizada pelo commum.

Apezar de todo o seu temperamento contrario á divulgação, Thomaz Del Negro não tem conseguido passar desconhecido, razão pela qual o seu valor é de ha muito tempo conhecido, inclusive no Brazil, onde trabalhos seus têm merecido honrosíssimas referencias da imprensa e critica fluminense.

Como Cyriaco Cardoso, Alfredo Kell, Freitas Gazul, Arnoso e outras celebridades musicaes de Portugal, o maestro Del Negro é hoje no seu paiz um dos compositores valorizados pelo seu inconstestavel merito, valor que se accentuou desde o seu primeiro anno como discipulo do conservatorio de Lisboa, estabelecimento onde Del Negro tem o seu nome como o do alumno mais premiado. Mais tarde foi nomeado professor de instrumentos de metal do mesmo estabelecimento.

Cêrca de vinte e cinco annos foi o 1º trompa de São Carlos, ocupando idêntico logar durante dois annos no Real Theatro de Madrid. Por essa occasião foi agraciado com a nomeação de musico da real camara da côrte de Madrid. Ao regressar ao seu paiz, o rei dom Fernando concedeu-lhe identica graça.

Já no reinado do finado rei dom Luiz foi por este soberano agraciado Cavalleiro da Ordem de Christo.

A notavel agremiação musical Vinte e Quatro de Junho, de Lisbôa, por diversas vezes o teve como seu director, e ainda estão á memoria de muitos os grandes concertos classicos que organizou em Portugal, por si dirigidos, e dos quaes faziam parte músicos taes como Barbieri, Metra, Ed.Colenne, Rodroff e outras notabilidades.

Voltando novamente a Espanha, foi nomeado 1º trompa da grande sociedade de concertos de Madrid, e sócio honorario da Union Musical d’aquella cidade.

Como maestro, tem regido as orchestras do Principe Real, Dom Affonso e São João, do Porto, e Gymnasio e Dona Amelia, de Lisbôa. Além de innumeras peças para piano, canto, bandas, pequenas operetas, revistas, etc.

Thomaz Del Negro tem partituras suas de um grande successo, como sejam: Kinfá na China, Filhos do Capitão Mór, Tentação, Kiki, Ilha do Diabo, Capitão Lobisomen, Aventura Regia, Basoche, Rosario - peças estas representadas nos theatros de Lisbôa, Porto e Rio de Janeiro, onde despertaram grande agrado. Não é, portanto, uma vulgaridade o artista de quem hoje nos occupamos; tem um passado supedaneando o presente, e este não é mais do que a prova da sua intelligencia, o resultado do seu estudo, a consequencia do seu trabalho.

Apresentando-o, não o fazemos para os seus irmãos de arte, estes o conhecem pelo seu merito; trazemos o seu nome a publico como uma noticia que queremos dar e que despertará na nossa sociedade espiritual e de gosto delicado uma anciedade: alguns membros da honrada colônia portugueza, unidos a distinctos musicistas do Pará, promovem um sarau dramatico musical em homenagem ao nosso distincto hospede.

Se visar este fim o motivo d’estas linhas, uma outra utilidade ellas tiveram: evidenciar o merito onde elle existe.” Rio de Janeiro, v. 29, n. 1, p. 165-179, jan./jun. 2016

173 Revista Brasileira de Música - Programa de Pós-Graduação em Música - Escola de Música da UFRJ

Joaquim Thomaz Del Negro era tio materno do poeta José Miguel Barros de Seixas. Baía da Lusofonia