Aos 76 anos, o psiquiatra e divulgador mais conhecido de Portugal abre o coração sobre o seu novo livro, "Outonecer", e reflete sobre a saúde mental, a pressão do mundo digital e o papel reconfortante da família. Sentado descontraidamente na Mealhada, Júlio Machado Vaz não aparenta os 76 anos que o cartão de cidadão insiste em marcar. O tom de voz é o mesmo que, durante décadas, embalou os portugueses através das ondas da rádio e dos ecrãs de televisão, desmistificando tabus sobre a sexualidade e a mente humana. Mas hoje, o tema é outro, ou talvez seja o mesmo de sempre, visto de uma perspetiva diferente: a passagem do tempo. O seu mais recente livro, intitulado “Outonecer”, é o ponto de partida para uma conversa que toca na fragilidade, na memória e no futuro
O título, explica ele com um sorriso,
não é um erro gramatical, mas uma homenagem. “Fui buscar o verbo ‘outonecer’ a
Sophia de Mello Breyner Andresen. Achei um verbo lindíssimo e roubei-o”,
confessa, entre risos. Para o psiquiatra, o outono da vida não tem de ser um
prelúdio sombrio do inverno, mas sim uma estação de maturação onde, apesar das
dores nas articulações, a cabeça ainda se sente com menos 10 ou 15 anos.
Diferente de obras anteriores, como O Tempo dos Espelhos, que era focado
na figura dos seus pais, Outonecer é assumidamente autobiográfico. “Só
se eu me consultasse a mim próprio... o que posso fazer ao espelho, e sempre
poupo o dinheiro da consulta”, brinca. Este livro surge como uma associação
livre de ideias sobre o processo de envelhecimento, um exercício de honestidade
onde Júlio partilha não apenas o que aprendeu como médico, mas o que sente como
homem que vê o mundo a mudar a uma velocidade estonteante. Partilhar medos e
fragilidades nunca foi um problema para Machado Vaz.
Ele recorda, com um misto de ironia e seriedade, o choque
que causou há 30 anos quando admitiu publicamente ter sofrido de depressão. Na
altura, colegas de profissão ligaram-lhe preocupados: “Quem é que vai a um
psiquiatra que esteve deprimido?”. O resultado foi exatamente o oposto, as
pessoas começaram a procurá-lo mais, sentindo que, finalmente, tinham alguém
que as compreendesse de verdade. “As pessoas gostam de ser compreendidas e
ouvidas”, afirma, sublinhando que a empatia é a ferramenta mais poderosa de qualquer
terapeuta. Apesar de ser reconhecido como psiquiatra, sexólogo, escritor e professor,
Júlio Machado Vaz afirma que, neste momento da sua vida, os papéis de pai e avô
são os que mais o ajudam a aceitar a passagem do tempo. “É muito reconfortante
rever-me nas gerações mais novas. O facto de os meus filhos falarem dos meus pais
aos meus netos, que já não os conheceram, cria uma continuidade que nos dá paz”,
explica. No entanto, ser avô também traz uma nova fonte de ansiedade. Ao olhar para
o estado do mundo — a crise da habitação, as alterações climáticas, as guerras
e a instabilidade digital — Machado Vaz confessa preocupação pelos que cá
ficam. Para quem tem 70 anos, o futuro parece “afunilado”, mas para quem tem
20, esse futuro é um campo vasto e, por vezes, assustador.
Um dos temas mais prementes da conversa é a forma como a
sociedade atual lida com o tempo. Vivemos na era do “frenesi”, onde já não
agimos, apenas reagimos. Júlio exemplifica com a sua própria rotina: “Vou sair
daqui, ligar o telemóvel e aposto que tenho três mensagens. Este estímulo constante
não nos deixa pacificar com o mundo que nos rodeia”. Para o psiquiatra, envelhecer
com qualidade exige que lutemos contra esta pressa imposta pela tecnologia. O
mundo digital, embora útil, criou um reflexo condicionado que nos impede de
refletir. No seu consultório, ele continua a aprender com os seus pacientes que
todos têm algo para ensinar, desde que estejamos dispostos a ouvir com atenção.
Machado Vaz foi um dos pioneiros em trazer a saúde mental para o debate público
em Portugal, embora partilhe os louros com outros colegas. Hoje, ele defende
que a saúde mental não deve ser apenas uma preocupação de técnicos (psicólogos
e psiquiatras), mas de toda a sociedade. “Devemos falar muito mais de saúde do
que de doença”, defende, citando as diretrizes da Organização Mundial de Saúde.
Ele recorda os tempos em que ir ao “médico dos nervos” era um segredo
vergonhoso, especialmente para os homens. Durante as primeiras décadas da sua
carreira de 50 anos, a grande maioria dos seus pacientes eram mulheres.
Para os homens, admitir problemas
emocionais era visto como uma ameaça à sua masculinidade. “Se partirem uma
perna, vão ao ortopedista sem problema. Mas falar com alguém sobre sentimentos
era impensável. Felizmente, isso está a mudar”, nota com satisfação. A conversa
não termina sem uma nota de carinho pela comunidade portuguesa no estrangeiro.
Júlio recorda o período em que viveu na Suíça como imigrante. Apesar da sua
posição privilegiada como médico, nunca esqueceu o acolhimento que recebeu nos
cafés portugueses, entre pessoas que trabalhavam em limpezas ou obras. “Fui
acolhido de uma maneira que nunca esquecerei”, diz. Até hoje, quando viaja, a
sua primeira preocupação é saber se existe um restaurante português por perto —
um hábito que faz a sua mulher rir, mas que demonstra a sua ligação profunda às
raízes. Quanto ao futuro, Machado Vaz mantém a curiosidade de uma criança. Tem
em mãos um projeto de livro que envolve conversas com o seu amigo Manuel Sobrinho
Simões, embora admita, com a sua característica humildade, que o desafio será
transformar essas conversas em algo que interesse verdadeiramente aos leitores.
No final, a mensagem de Júlio Machado Vaz é clara: o outono da vida é um tempo de
balanço, mas também de partilha. Entre o "outonecer" e a esperança, o
psiquiatra continua a ser um farol de humanidade, lembrando-nos que,
independentemente da idade, o mais importante é manter a capacidade de aprender
com os outros. Paulo Perdiz – Canadá in “Milénio
Stadium”
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