Punctum
Recebo fotos pouco
nítidas,
às vezes tortas,
de roseiras florindo,
pedaços de nuvens,
luzes de Natal,
um inseto alado,
velhos cães,
bolinhos de chuva,
meu pai, alegre,
sob as laranjas do pé,
no quintal
onde também se sofre.
É amor o que recebo,
do tipo que mais punge:
imperfeito
Ana C. dos Santos – Brasil
In Voo breve sob o sol (2025, Porto Alegre, Edição
Círculo de Poemas, Editora Fósforo)
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Ana Cláudia
Costa dos Santos – Nasceu em 1984 na cidade de Porto Alegre, onde ainda
vive. Escritora, poeta e investigadora, é doutora em letras pela Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde atua como revisora e investigadora. Publicações:
É autora do livro de contos O que faltava ao peixe (Libretos, 2011) e
dos livros de poemas Móbile (Patuá, 2017), Fabulário (Confraria
do Vento, 2019) e Voo breve sob o sol (2025, Edição Círculo de Poemas, Editora
Fósforo).
“Se
entre os feitos mais admiráveis da poesia está a capacidade de dividir com os
leitores um momento que é tão fugaz quanto eterno — fugaz como captado
pelo poema, eterno porque captado pelo poema —, a poeta em Voo breve
sob o sol faz com que nos deparemos, a cada página, com essa força rara,
que entrega nas nossas mãos os cacos ainda quentes de uma experiência que se
desfaz rapidamente, mas que, ao mesmo tempo, afeta de modo indelével nossa
sensibilidade.
Composto
por poemas escritos antes, durante e depois da pandemia, Voo breve sob o sol
sintetiza a atmosfera de insegurança que se adensou no período de isolamento (‘um
corpo/ ausente habita/ todos os cômodos’), mas demonstra que nossos medos não
nasceram nas trevas pandémicas, tampouco se desfizeram quando pudemos voltar à
luz do sol. Em verdade: ‘atravesso este dia como quem/ atravessasse um rio/
perigoso// recordo a meio caminho/ que não sei nadar’.
No
luto pela avó, por exemplo, que aparece ‘suspensa/ entre a vida e a morte’, é
possível ver um horizonte mais amplo, que abraça a nossa existência frágil.
Somos, afinal, pássaros de ‘voo breve’, como tantos que batem asas nestas
páginas. Procuramos luz (no sol, nos vaga-lumes, nos versos), mas colidimos.
Por isso, se aquela “suspensão” se tornou mais aguda na pandemia, em momento
algum ela é menos angustiante diante do olhar da poeta, que se sabe refém do
acaso e da incompletude: ‘tudo o que escrevo quando tentava escrever outra
coisa/ e tudo o que jamais caberá neste poema’.
Para
nossa sorte, é sempre muito — e muito intenso — o que cabe nos versos de Ana
Costa dos Santos: quando ela fala e, não menos, quando ela cala.” Círculo de
Poemas
Prémios: 2004 Revelação Literária na Feira - Conto vencedor na categoria “Eu conto.com”, Habitasul; 2005 Revelação Literária na Feira - Conto destaque na categoria Palavra de Autor, Habitasul; 2008 Bolsa FUNARTE de Estímulo à Criação Artística - Categoria Criação Literária, FUNARTE; 2009 Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio - Menção honrosa, Secretaria de Estado da Cultura do Paraná; XIX Concurso Nacional de Contos José Cândido de Carvalho - Primeiro lugar, Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima; 2017 Prémio Governo de Minas Gerais de Literatura - Categoria Poesia, Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais; 2018 Prémio Açorianos de Literatura - Finalista na categoria Poesia, Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre; 2020 Prémio Açorianos de Literatura - Finalista na categoria Poesia, Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre; Prémio Minuano de Literatura - Categoria Poesia, Instituto Estadual do Livro / Instituto de Letras da UFRGS. Baía da Lusofonia com “Círculo de Poemas”
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