Estava convocada para quarta-feira passada uma marcha a nível nacional para exigir a restauração da ordem constitucional na Guiné-Bissau. No entanto, o protesto, que se pretendia pacífico, foi impedido pelas forças de segurança, segundo afirmou à DW Vigário Luís Balanta, porta-voz do movimento cívico “Pô de Terra”, um dos organizadores da iniciativa.
Apesar disso, Balanta, que falou à DW a partir de local
incerto, garante que vão continuar a protestar contra o golpe de Estado de 26
de Novembro.
“Percebemos que no dia 31 seria muito difícil. As forças
de segurança estavam preparadas e posicionadas para nos impedir, então
antecipámos para o dia 30. Em todos os cantos da cidade havia homens das forças
de segurança. Em cada cruzamento das principais artérias de Bissau estavam dois
agentes bem armados e fardados. Com isso, percebemos que seria complicado,
porque depois da manifestação do dia 30, junto à nossa base central, enviaram
homens durante a noite e permaneceram lá até ontem. Não conseguimos realizar a
nossa reunião. Tentámos ir para outro local, mas fomos perseguidos até à zona
do aeroporto de Bissau. Fomos também para Safim, mas a perseguição continuou.
No entanto, conseguimos escapar e regressámos às ruas no momento da celebração
da passagem de ano, fazendo uma pequena passeata, mas havia pouca gente nas
ruas. Algo nunca visto na Guiné-Bissau, porque normalmente, nesta altura, há
muita gente a celebrar. Este ano, só havia crianças, porque houve um reforço da
presença das forças de defesa, que revistavam pessoas com mochilas, sacos ou
qualquer objecto”, explicou.
À DW, o activista adiantou que “as pessoas têm medo,
porque o regime que temos aqui é muito perigoso: persegue, espanca e até
vasculha residências. Então, as pessoas estão com medo. Não é porque o povo não
perceba. O povo está connosco. Na semana passada, apelámos às pessoas para
vestir roupas pretas e publicar nas redes sociais, e vimos milhares a seguir o
apelo. Mas ainda têm medo de ir à marcha”.
De qualquer modo promete que vão continuar. “Neste
momento, a situação da educação não está boa. Estamos a convocar toda a classe
estudantil, líderes das associações de estudantes de diferentes escolas e
universidades para se juntarem a nós, porque temos de ser estratégicos. Temos
de ampliar a consciencialização e sensibilização para libertar o povo e fazê-lo
ganhar consciência. Só assim teremos resultados. Posso confirmar que,
brevemente, em menos de duas a três semanas, vamos realizar outra marcha, mas
esta terá uma dimensão diferente. Não será apenas coordenada pelo Movimento “Pô
de Terra” e pelo Pacto Social, mas também incluirá movimentos estudantis.
Estamos com espírito de coragem e bravura, independentemente da adesão, e vamos
continuar a trabalhar, porque quanto mais passarmos a mensagem e dermos a cara,
mais as pessoas vão sentir confiança para se juntar à luta. É isso que está a
acontecer”, concluiu.
ONU insta junta a libertar detidos
As Nações Unidas instaram a junta militar na
Guiné-Bissau, instaurada há um mês após um golpe de Estado, a acabar com as
detenções arbitrárias e formas de intimidação, bem como a libertar todos os
detidos.
“A libertação, na terça-feira, de seis figuras da
oposição detidas na Guiné-Bissau é um passo encorajador. É preciso fazer mais”,
declarou, em comunicado, o porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas
para os Direitos Humanos, Thameen al-Kheetan.
As autoridades devem pôr fim a todas as detenções
arbitrárias e a todas as formas de intimidação, incluindo ataques físicos a
defensores dos direitos humanos e restrições à liberdade de expressão,
associação e reunião pacífica, acrescentou.
“O nosso gabinete teve acesso a quatro indivíduos detidos
na semana passada, o que constitui um passo importante. No entanto, as famílias
de vários outros detidos continuam sem informações sobre o seu destino,
paradeiro ou acusações contra eles. Tal pode constituir um desaparecimento
forçado”, alertou o porta-voz.
Por fim, apelou à junta militar que garanta a libertação
imediata e incondicional de todas as pessoas detidas pelo exercício dos seus
direitos humanos.
Opositor Simões Pereira continua detido por decisão
judicial diz governo
O ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de
transição da Guiné-Bissau, João Bernardo Vieira, informou a Comunidade
Económica de Estados da África Ocidental (CEDEAO) que o opositor Domingos
Simões Pereira continua detido por questões judiciais em curso.
A informação consta de uma carta dirigida ao presidente
da comissão da CEDEAO, Omar Alieu Toray, consultada pela Lusa nas redes
sociais. No documento, João Bernardo Vieira informa Touray que as autoridades
competentes procederam à libertação de três cidadãos guineenses detidos, mas
que estes se terão recusado a sair da prisão sem o presidente do Partido
Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), Domingos Simões
Pereira.
A carta não identifica os detidos em causa, mas outros
relatos de guineenses nas redes sociais indicaram que se trata dos deputados
Marciano Indi e Octávio Lopes, ambos do PAIGC, e do advogado Roberto Mbesba,
dirigente do Partido da Renovação Social (PRS).
De acordo com a carta do chefe da
diplomacia do governo de transição guineense, os três teriam afirmado que só
sairão da prisão “caso o cidadão Domingos Simões Pereira seja igualmente
libertado”. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “DW” e “Lusa”
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