Alarico da Costa Ximenes, decano da faculdade de Ciências
Sociais e Políticas da Universidade Nacional Timor-Leste, explica a importância
de Macau na diplomacia timorense, que “opta por não se concentrar num só poder
hegemónico”. É uma “ponte para os países lusófonos; e parte integrante da
China”
– Qual é o projeto específico que o trouxe a Macau?
Alarico da Costa Ximenes – O projeto organizado pelo professor Francisco Leandro
diz respeito a uma conferência sobre o estudo de Macau na sua relação com a
Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Através da Universidade de
Macau, convidou-me a vir aqui apresentar o meu trabalho, visitar vários
lugares, e conhecer melhor a Universidade de Macau e a cooperação que leva a
cabo com outros membros da CPLP.
– Qual é hoje em dia a importância da CPLP para
Timor-Leste?
A.C.X. – Esse
bloco estratégico, como aqui expliquei na minha apresentação, é muito
importante para Timor-Leste. Não é só a minha opinião, mas sim a ideia mais
comum entre a população e os nossos políticos, porque o país adoptou o
português – e o tétum – como línguas oficiais. Por isso a CPLP é importante
para Timor-Leste, não apenas para a construção e desenvolvimento de
infraestruturas, mas também para melhorar o desenvolvimento da língua
portuguesa. Recordo que, naquela época da ocupação de Indonésia – durante 24
anos – o português era proibido em Timor-Leste. Hoje continua a ser muito
importante desenvolver a língua portuguesa, a mais adequada para o futuro de
Timor-Leste.
– Língua portuguesa, que se tornou um fator central na
construção de identidade; um dos pilares da independência…
A.C.X. – Sim,
claro; até pelas circunstâncias em que a decisão foi tomada. A língua
portuguesa, em geral, é central na construção da identidade dos países membros
da CPLP; especialmente em Timor-Leste. Estamos longe, em termos geográficos, e
a língua portuguesa faz de Timor-Leste um caso único e especial no Sudeste
Asiático. É uma identidade que nos diferencia de outros países membros da
ASEAN, e de todos os países do Sudeste Asiático. Isso permite-nos,
simultaneamente, desenvolver relações com os países da CPLP e da ASEAN.
– Quando olham para Macau pensam na ponte para a
Lusofonia? Ou, sobretudo, numa via que facilita as relações com a China,
nomeadamente por via do Fórum de Macau?
A.C.X. – As
duas coisas. Em primeiro lugar em termos de língua, porque o português também é
aqui língua oficial; para além de um fator de identidade, é um laço forte entre
Macau e Timor-Leste. Por outro lado, durante a invasão indonésia estiveram aqui
[em Macau] muitos timorenses fugidos da guerra, o que reforça ainda mais a
relação. Já no que toca à relação com a China, a questão não se coloca na
língua, mas no campo da infraestrutura económica. Timor não vai esquecer Macau,
porque a História nos liga; mas também porque nos ajuda a estar não só na
ASEAN, com a mais-valia de pertencermos ao bloco dos países lusófonos. Macau é
importante para Timor-Leste.
– Essa relação está a crescer, ou está estabilizada?
A.C.X. – Do meu
ponto de vista está a crescer. Temos aqui o Fórum de Macau, que tive a
oportunidade de visitar; e isso quer dizer que Macau não é uma relação do
passado, mas sim do presente. Temos aqui um representante no Fórum de Macau;
pelo que, comparado com o passado, posso dizer que a relação com Macau agora
cresce mais do que antes.
– Potências maiores, como o Brasil, têm relações
bilaterais tão fortes com a China que torna difícil criar em Macau novas
oportunidades. No caso de Timor-Leste, Macau pode assumir-se como instrumento
estratégico nas relações com a China?
A.C.X. –
Timor-Leste vê as duas coisas: Macau como ponte para os países lusófonos; e
parte integrante da China.
– Dupla estratégia…
A.C.X. – Sim, é
uma dupla visão. Beneficia Timor-Leste como país membro da CPLP; mas também na
relação com a China. Em termos de relações internacionais, Timor-Leste opta por
não se concentrar num só poder hegemónico, prefere multiplicar as relações.
Isso em termos gerais; não vale especificamente para Macau.
– Ou seja, Macau é duplamente importante; garante
relações com a China, e toda a Lusofonia. No fundo, é uma ponte para essa
diversificação, essa estratégia não monolítica.
A.C.X. – Exatamente; isso é o que Timor está a fazer. Paulo
Rego – Macau in “Plataforma”
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