Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Portugal - “Meteorizações” de Filipa César em Serralves reflecte sobre ecos coloniais da Guiné-Bissau

Os elementos água, terra, ar e fogo são o fio condutor de “Meteorizações”, a primeira exposição antológica de Filipa César inaugurada em Serralves, Porto, convocando o passado colonial da Guiné-Bissau e ecos no presente.


“Tínhamos de encontrar uma forma de organizar todas estas obras e pensámos em organizá-las através dos elementos [água, terra, ar, fogo]”, explicou Filipa César, durante uma visita à imprensa, sobre a sua primeira grande exposição antológica no Museu de Serralves, no Porto.

Na primeira sala da exposição, “Meteorizações” é dedicada à água e o visitante é envolvido em sons de água a correr que Filipa César explica ser o fluxo do Rio Trancoso a entrelaçar-se com vozes das gentes das “escolas do mangal”. As “escolas do mangal” são espaços que promovem a educação ambiental e o desenvolvimento comunitário focado na protecção e restauração dos mangais na Guiné-Bissau.

“A sala da água convoca muitos fluxos, desde os passadores através do Rio Trancoso, como as escolas do mangal na Guiné-Bissau, como também um excerto de um filme com Marinho de Pina [contador de histórias guineense], sobre os conflitos que nós [Filipa e Pina] tínhamos nos processos destes trabalhos colaborativos”, descreve a artista nascida em 1975.

O percurso da exposição leva o visitante a uma nova sala que convoca o elemento Terra. É naquele espaço que aparecem, por exemplo, imagens de Amílcar Cabral (1924-1973) noutro filme. Amílcar Cabral, político e agrónomo nascido em Bafatá, na Guiné, sob domínio colonial português, liderou a luta pela libertação e independência da Guiné-Bissau e de Cabo Verde.

“Interessava-se muito pelo solo como um corpo histórico”, afirmou a artista sobre o co-fundador do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde.

O título da exposição – “Meteorizações” – remete para uma noção oriunda da geologia, reinterpretada por Amílcar Cabral, que entende a terra “como um produto de forças naturais e de dinâmicas históricas e políticas em permanente mutação”, lê-se no dossiê de imprensa.

“Foi a partir daí que desenvolvi muitos textos de pesquisas, filmes que partem desse princípio comum de um solo como um corpo inscrito e a que chamei de agropoética, que é essa relação de pesquisa, mas o solo como um ponto de partida para pensar as possibilidade e as condições da terra em relação à humanidade que a habita”, acrescenta Filipa César.

Filipa César tem vindo a investigar a prática de cinema militante e a agropoética do movimento de libertação africano na Guiné-Bissau – ou seja, no contexto dos movimentos políticos e sociais que lutaram pela descolonização da África -, através da produção de oficinas, textos, filmes, performances, publicações e encontros comunitários.

O percurso da exposição tem duas outras salas. Na dedicada ao ar, “aos pensamentos e ideias”, há uma colecção de tecelagem e várias questões sobre os ‘panu di pinti’, tecido tradicional da Guiné-Bissau feito à mão.

O ‘panu di pinti’ “inscreve muitas questões que nos ligam e que trazem a questão do crioulo como um local de encontro, de união e de transformação e não um espaço de separação”, sublinha Filipa César.

Há também a sala dedicada ao elemento fogo, onde é possível ver um filme e uma instalação que exploram como as tecnologias ópticas de design militar e colonial – desde as lentes Fresnel dos faróis até aos sistemas globais de navegação por satélite – informam e são informadas pelos modelos ocidentais de conhecimento, adoptando uma abordagem crítica às ideologias por trás do desenvolvimento desses instrumentos de orientação e vigilância.

Todo o percurso expositivo tem filmes, diversos livros (alguns foram proibidos em Portugal durante a ditadura de Salazar), documentos e materiais inéditos, desde obras iniciais como “The Embassy” (2011), até produções mais recentes da artista.

A exposição antológica revela um processo contínuo de investigação ao longo dos últimos 15 anos, contou Filipa César, destacando que não é só feita por si, mas em colaboração com investigadores, cineastas e comunidades locais, incluindo uma estreita colaboração com o realizador guineense Sana na N´Hada, que filmou a guerrilha e foi responsável do Instituto Nacional de Cinema e Audiovisual da Guiné-Bissau.

É uma exposição que “constrói relações transversais entre diferentes tempos, suportes e contextos”, convidando “o público a pensar criticamente o passado colonial e os seus efeitos no presente”.

O texto de apresentação destaca “filmes, objectos e documentos que evocam eventos históricos como a desobediência antifascista portuguesa e a resistência anticolonial guineense”, num percurso que atravessa “arquivos audiovisuais do período das lutas de libertação, reflexões sobre o mangal, políticas da óptica e da tecelagem, e o pensamento agropoético de Amílcar Cabral”.

A exposição, produzida pela Fundação de Serralves, tem curadoria de Inês Grosso, curadora-chefe do Museu, e de Paula Nascimento. A mostra inclui ainda uma publicação inédita, com ‘design’ de Bárbara Says e coordenação de Amarante Abramovici, reunindo um arquivo de ensaios, conversas, correspondência que acompanhou o processo de pesquisa dos últimos 15 anos.

Filipa César é cineasta, educadora e organizadora comunitária e, desde 2011, tem vindo a investigar colectivamente a prática de cinema militante.

A exposição “Meteorizações” vai ficar patente em Serralves até 31 de Maio. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”


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