O cantor guineense Charbel Pinto afirmou esperar que a Guiné-Bissau ultrapasse as “brigas entre irmãos”, ao lançar uma música que descreve como “grito de socorro” e apelo à paz
A música Dur (dor, em
português) foi escrita em crioulo guineense, no dia do último golpe de Estado
no país e surge como uma intervenção social: “Relata que estamos cansados de
cair e levantar, de ver os irmãos a brigarem. Está na hora de nos abraçarmos e
seguirmos em frente”, disse o músico, em entrevista à Lusa, a partir de Bissau
para a cidade da Praia.
“Eu canto muito em crioulo de Cabo Verde porque amo a
língua e acredito que a música não tem fronteiras. Sinto que guineenses e
cabo-verdianos são irmãos de luta e de sangue, graças ao nosso grande líder e
pai, Amílcar Cabral”, referiu.
Mas o contexto político levou Charbel a abrir uma exceção
no seu percurso artístico, cantando em crioulo da Guiné-Bissau e desviando-se
da habitual temática romântica e festiva, dizendo que não pode “ver o país a
sofrer” e ficar calado.
“Dur tinha de sair para acalmar as pessoas e tocar
os seus corações”, explicou.
Segundo o cantor, a música não faz referências a partidos
nem a figuras políticas, mas denuncia a realidade do país e defende a
democracia.
“É uma reflexão e apelo à paz. Não quero que ninguém a
interprete como perseguição. Luto por um país democrático. Não podemos viver
numa ditadura onde não se pode falar quando as coisas estão mal”, afirmou.
O videoclipe divulgado na Internet aborda ainda
desigualdades sociais e violência, com destaque para as más condições das
infraestruturas públicas.
“Mostrei escolas degradadas. Ter boas escolas e hospitais
não é um favor, é uma obrigação”, disse, acrescentando que “as mães perdem os
seus filhos nos hospitais com uma facilidade que não se vê noutros países”.
Além da mensagem no seu novo tema, na entrevista à Lusa,
o músico alertou para o desgaste da população e para a instabilidade económica,
apontando o aumento dos preços dos bens essenciais.
“Sem estabilidade, a única grande fonte de riqueza do
país, a castanha de caju, não atrai investimento estrangeiro”, referiu.
Charbel apontou também para o risco de instabilidade
social caso a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) não
responda de forma alinhada com a vontade da população.
“O povo espera uma resposta final da CEDEAO. Se não for a
favor, pode haver revolta. Isso seria um desastre para o país”, afirmou,
defendendo o respeito pelos resultados eleitorais.
“Se existe um resultado verdadeiro, não importa quem
venceu. Que o vencedor assuma o poder e que seja o povo a julgar, não os
militares”, disse.
Desde o lançamento da música, a 19 de dezembro, afirmou
ter recebido mensagens de apoio, mas também críticas e ameaças.
“Recebi muitas mensagens positivas e algumas negativas,
de perseguição, com ameaças de violência”, disse.
“Deixo uma mensagem para que este seja um ano de paz e de
calma. Os guineenses já sofrem muito”, acrescentou.
A 26 de novembro, um dia antes do anúncio dos resultados
provisórios das eleições presidenciais e legislativas, os militares depuseram o
Presidente Umaro Sissoco Embaló, no poder na Guiné-Bissau, desde 2020, e
suspenderam o processo eleitoral.
O candidato da oposição Fernando Dias da Costa, que
reclama a vitória, refugiou-se na Embaixada da Nigéria, em Bissau, apontando o
golpe como uma orquestração de Embaló para evitar a divulgação dos resultados
eleitorais.
O líder do Partido Africano para a
Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), Domingos Simões Pereira, está
detido e mantido incontactável desde o dia do golpe, sem que haja culpa
formada. In “Balai Cabo Verde” – Cabo Verde com “Inforpress” e “Lusa”
Sem comentários:
Enviar um comentário