O livro O Emigrante, de Acácio Pinto, coloca no centro do debate literário a emigração portuguesa para França nas décadas de 1960 e 1970. A obra parte de um encontro entre duas personagens no Sud Express para retratar trajetórias marcadas pela separação familiar, pela deslocação forçada e pelos silêncios que atravessam gerações. O romance constrói-se a partir de memórias individuais e coletivas, abordando a identidade, a herança emocional e as escolhas feitas longe de Portugal, num contexto em que milhares de portugueses partiram em busca de melhores condições de vida.
A apresentação da obra realizou-se na Biblioteca
Municipal D. Miguel da Silva, em Viseu, no final de 2025, e contou com a
intervenção do deputado José Cesário, antigo secretário de Estado das
Comunidades Portuguesas, e atual deputado eleito pela emigração pelo círculo de
fora da Europa, sublinhando a relevância histórica e social do fenómeno
migratório. Com uma narrativa assente em contextos reais, Acácio Pinto dá
continuidade a um percurso literário focado em temas estruturantes da sociedade
portuguesa, conferindo visibilidade a uma experiência que marcou regiões como o
distrito de Viseu e que permanece atual na leitura do passado e do presente da
diáspora portuguesa.
O que o levou a escrever O Emigrante e que
história quis contar a partir desse encontro fortuito entre duas personagens no
Sud Express, num contexto marcado pela emigração portuguesa dos anos 1960?
O Emigrante
nasce das minhas memórias e das memórias de muitos ex-emigrantes com quem
falei. A emigração marcou profundamente a minha infância e juventude. Nos anos
1960, o meu pai partiu para França para garantir condições de vida e estudo aos
filhos. Eu e o meu irmão ficámos em Portugal com a minha mãe, que fez a escolha
de permanecer para nos acompanhar e assegurar esse caminho. Essa divisão da
família, motivada pelo futuro, deixou marcas que atravessam este livro. Aliás,
ainda tenho bem presentes os dias em que eu ia com o taxista da minha aldeia
levar o meu pai à estação de Mangualde para apanhar o Sud Express que, no final
do mês de agosto, depois das férias de verão, ia sempre à pinha. Nesse último
dia de férias, a minha mãe ficava em casa a chorar e o meu pai, que só vinha a
Portugal uma vez por ano, partia para mais uma viagem, em pé ou sentado nos
corredores, naquele comboio carregado de emigrantes portugueses. E, esse
encontro fortuito de dois emigrantes na viagem de comboio narrada no romance,
um da região de Viseu, outro do concelho da Figueira da Foz, não é mais do que
a primeira cena e o clique para o início de uma história que, sendo sobre a
emigração, é também sobre identidade, sobre aquilo que herdamos sem saber e
sobre as perguntas que só surgem quando já somos adultos. Para além da
emigração, o livro fala dos silêncios que atravessam as famílias e das verdades
que ficam suspensas durante anos. Não se pense, porém, que este é um romance
biográfico, que é sobre o meu pai. Não, não é. As personagens ganham vida
própria e corresponderão às vidas de milhares de emigrantes desses anos em que
Portugal foi alvo de um forte êxodo populacional, dos campos e das cidades, e
que tornaram Paris a segunda cidade do mundo com maior número de portugueses.
Quais foram as principais motivações pessoais, históricas
ou literárias que estiveram na origem desta obra centrada na emigração a salto
para França?
Fixar em romances aspetos de tempos históricos tem sido
um dos objetivos literários da minha escrita de há alguns anos a esta parte.
Trata-se de partilhar com os leitores um olhar sobre esses acontecimentos
resultantes das minhas vivências, das minhas observações, leituras e conversas
com inúmeras pessoas que deles tenham conhecimento. E depois construo aquilo de
que gosto, cenas e intrigas, de grande verossimilhança com os tempos e com os
espaços que são tratados na respetiva obra. Ou seja, dou azo à ficção com base
na realidade que está sempre muito presente nas minhas narrativas, através de
espaços geográficos concretos e de personagens de base real, umas mais
travestidas do que outras. No caso deste romance, vivi nos meus tempos de
infância e juventude a saga de inúmeras famílias que tinham de se “empenhar”,
pedindo dinheiro emprestado, para se entregarem a um passador e arriscarem uma
viagem clandestina e perigosa para tentarem dar uma vida digna a si e à sua
família, uma vez que Salazar impedia a saída de portugueses.
Quais considera serem os pontos centrais de O
Emigrante, em termos de identidade, memória, sacrifício e impacto das
escolhas feitas longe de Portugal?
Os pontos centrais de O Emigrante têm a ver com o
sacrifício que tantos portugueses tiveram de fazer nessa aventura migratória.
Trabalhar “no duro”, num país em que a língua era diferente, vivendo muitas
vezes em barracas (os designados bidonvilles), longe da família e numa enorme
solidão, não era, seguramente, uma tarefa fácil para esses nossos concidadãos,
verdadeiros heróis de um tempo politicamente escuro e persecutório, que se
vivia em Portugal, mergulhado numa ditadura que já levava quatro décadas. A
acrescer a essas dificuldades, teci um enredo que coloca os emigrantes deste
romance ante outros dilemas, mas estas questões, da identidade, da memória e
dos desígnios da vida, são de natureza romanesca, embora bastante ancoradas em
contextos que conhecemos.
Na sua perspetiva, qual é a importância dos emigrantes
para regiões como o distrito de Viseu, tanto no passado como na atualidade, do
ponto de vista humano, social e económico?
Os emigrantes tiveram sempre um papel capital no nosso
país. No distrito de Viseu, particularmente, eles foram importantíssimos,
contribuindo com as suas remessas de divisas para o desenvolvimento económico
das suas terras: construíram e requalificaram moradias, espaços comerciais,
colocaram os filhos a estudar e trouxeram uma outra visão da sociedade que
permitiu um outro olhar sobre o mundo que nos rodeia. Dialogar com as nossas
comunidades, com os emigrantes, com muitos que se tornaram empresários de sucesso,
apresentando-lhes perspetivas de investimento, oportunidades de negócio nas
terras de onde um dia abalaram, deve ser uma estratégia a prosseguir e a
incrementar, quer pelo Governo quer pelas autarquias locais.
De que forma decorreu a apresentação do livro na
Biblioteca Municipal D. Miguel da Silva, em Viseu, e que significado teve para
si ver a obra apresentada por José Cesário, num espaço simbólico para a região?
A apresentação que teve lugar na Biblioteca Municipal D.
Miguel da Silva foi para mim um momento especial pelo facto de Viseu ser a
minha cidade do coração, onde estudei (no Liceu Alves Martins e no Magistério
Primário) e onde desempenhei funções políticas durantes vários anos no Governo
Civil. Para além disso, estava ladeado por dois amigos e dois políticos com
créditos firmados, João Azevedo, o atual presidente da Câmara Municipal de
Viseu, e José Cesário, deputado à Assembleia da República. Já agora acrescento
que quando comecei a pensar na apresentação deste livro em Viseu quis logo que
fosse efetuada por José Cesário, não só pelo facto de ser meu amigo e ter sido
meu colega, mas sobretudo por ele ser um profundo conhecedor da diáspora
portuguesa e do fenómeno da emigração. Ele, para além de ser eleito deputado
pelos nossos concidadãos espalhados pelo mundo, desempenhou as funções de
Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, o que lhe confere uma visão
holística desta realidade. Estou-lhe muito grato pela sua disponibilidade
imediata para a leitura do livro e para a sua apresentação e estou, igualmente,
grato ao Município de Viseu e ao seu presidente pela sua presença, que muito me
honrou, e pela colaboração e cedência das instalações.
Que outras obras literárias já publicou e de que forma O
Emigrante dialoga ou se distingue do seu percurso anterior como escritor?
Tendo algumas obras publicadas, desde 2003, permito-me,
porém, referir nesta oportunidade os meus outros dois anteriores romances, O
Volframista e O Leitor de Dicionários, ambos vencedores do prémio
literário Cónego Albano Martins de Sousa, respetivamente, nos anos de 2022 e
2024. Direi que, sendo os três romances baseados em factos verdadeiros e em
realidades históricas, sociais e políticas que marcaram épocas em Portugal e no
Mundo — O Volframista, que se foca na “febre do ouro negro” e leva o
leitor até aos tempos da Segunda Guerra Mundial e O Leitor de Dicionários
até aos tempos do ensino nos seminários e nos colégios particulares, à falta de
oferta de ensino público, no tempo do Estado Novo —, O Emigrante
centra-se numa temática bem mais universal e intemporal ontem como hoje. Só
mudam as geografias de partida e de chegada. Ou seja, se há alguma distinção a
fazer no meu percurso como escritor, ela começa em 2022, com uma maior
preocupação e dedicação a temas marcantes da nossa sociedade. Isto é, tendo por
base territórios que vivencio, Portugal em geral e a Beira-Alta em particular,
e tempos históricos que bem conheço ou cujo estudo aprofundo, tenho-me centrado
na criação de tramas, intrigas e personagens fortes e rigorosamente ancoradas
nesses espaços e nesses tempos.
Em que locais ou canais o público pode adquirir O
Emigrante e qual tem sido, até ao momento, a receção dos leitores?
Os meus livros podem ser adquiridos na região de Viseu em
várias livrarias e papelarias, ou então serem solicitados através do site da
editora www.letraseconteudos.pt ou ainda na plataforma www.wook.pt. Está claro
que se alguém se dirigir a mim através das redes sociais eu também tratarei de
expedir o livro para os interessados. Quanto à reação e recetividade dos
leitores ela tem sido excelente com vários deles a fazerem-nos chegar as suas
opiniões que são genericamente muito positivas. Aliás, estamos já a caminho da
3.ª edição.
Para quem ainda não o conhece, quem é Acácio Pinto?
Sou natural de um concelho do interior
de Portugal, Sátão, um concelho rural, onde nasci em 1959. Os meus pais, como
já referi, viveram a emigração, ele partindo e a minha mãe ficando, para que eu
e o meu irmão pudéssemos estudar. Em termos profissionais fui professor do 1.º
ciclo e, mais tarde, de Geografia, no Ensino Secundário. Com uma forte ligação
à vida associativa e cultural, tive uma incursão na comunicação social tendo
estado na fundação de alguns projetos de imprensa e de rádio e mantive uma colaboração
regular, ao longo de décadas, com jornais regionais e nacionais. Desempenhei,
igualmente, inúmeras funções públicas de natureza política, de que destaco as
de Governador Civil do Distrito de Viseu e de Deputado à Assembleia da
República, sempre pelo Partido Socialista, a cujos órgãos regionais e nacionais
pertenci. Atualmente, estou aposentado, dedicando-me à escrita e à edição de
livros, residindo em Sátão e na Praia de Quiaios. Ígor Lopes – Brasil in “Bom dia
Europa”
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