Um navio de investigação japonês iniciou uma missão inédita com o objectivo de extrair terras raras das suas águas profundas, visando reduzir a dependência económica do país face à China
O Chikyu, um navio de perfuração
científica em águas profundas, partiu do porto de Shimizu, na cidade de
Shizuoka (centro-leste), por volta das 09:00, com destino à isolada ilha
japonesa de Minami Torishima, no Pacífico, onde as águas circundantes podem ser
ricas em minerais preciosos.
Esta viagem de teste ocorre num momento em que a China,
de longe o maior fornecedor mundial de terras raras, aumenta a pressão sobre o
país vizinho.
A viagem do Chikyu, adiada um dia devido ao mau tempo,
pode levar à produção nacional de terras raras, afirma Shoichi Ishii, diretor
de programas do Gabinete do primeiro-ministro. “Estamos a considerar
diversificar as nossas fontes de abastecimento e evitar uma dependência
excessiva de determinados países”, afirmou aos jornalistas reunidos no porto,
enquanto o navio se preparava para partir.
Estima-se que a zona em torno de Minami Torishima, ilha
situada nas águas económicas do Japão, contenha mais de 16 milhões de toneladas
de terras raras, o que a tornaria, segundo o jornal económico Nikkei, a
terceira maior jazida do mundo.
As “terras raras”, 17 elementos metálicos não
particularmente raros, mas difíceis e caros de extrair, são essenciais para
setores inteiros da economia – automóvel, energias renováveis, digital, defesa
–, servindo para a fabricação de ímanes potentes, catalisadores e componentes
eletrónicos.
A China representa quase dois terços da produção mineira
mundial de terras raras e 92% da produção refinada, de acordo com a Agência
Internacional de Energia (AIE).
O país há muito tempo usa o seu domínio nessa área como
alavanca geopolítica, inclusive na sua guerra comercial com o Presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump.
No entanto, o Japão depende da China para 70% das suas
importações de terras raras. E isso apesar de ter-se esforçado para
diversificar as suas fontes de abastecimento desde um conflito anterior em
2010, durante o qual Pequim suspendeu as suas exportações por vários meses.
Tóquio e Pequim estão envolvidos há dois meses numa crise
diplomática, desencadeada por declarações da primeira-ministra japonesa, Sanae
Takaichi, sobre uma possível intervenção militar em caso de um ataque chinês a
Taiwan, cuja soberania é reivindicada por Pequim.
Sinal do agravamento das tensões bilaterais, Pequim
anunciou na semana passada que iria reforçar os controlos sobre a exportação
para o Japão de bens chineses de dupla utilização civil e militar, o que
poderia incluir os metais raros. A missão do Chikyu deverá durar até 14 de
fevereiro. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”
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