Após anos a guardar composições na gaveta, o músico cabo-verdiano regressa ao estúdio, incentivado pela família. Este incentivo levou Arlindo Martins a começar agora a mostrar ao público as canções que guardou durante décadas, num regresso discreto, mas carregado de significado
A música Espera pa bô nasceu de
forma inesperada, num momento de inspiração solitária. Sozinho em casa, com a
guitarra nas mãos, Arlindo Martins começou a escrever sem grandes planos,
deixando que as palavras surgissem naturalmente.
“Nem sei bem como terminei”, confessa o músico, ainda
admirado com a rapidez com que a letra foi composta.
Só após parar para descansar é que percebeu o tema que
tinha criado. “Fui ver o que tinha escrito e achei que a letra ficou boa.
Fiquei admirado, porque foi tudo muito rápido”, recorda.
O resultado é uma música, lançada no final de 2025, que
já está a conquistar os ouvintes e que marca um novo capítulo na sua ligação
com a música.
Este lançamento, segundo o músico, em entrevista ao Expresso
das Ilhas, representa um primeiro passo num regresso feito com calma e
maturidade.
“Posso continuar a escrever, embora a minha idade já não
permita meter-me totalmente na música. Apesar de ter começado muito cedo no
mundo musical, cheguei a entrar em estúdio, mas acabei por largar tudo. Mais
tarde, a minha família, os meus filhos e a minha esposa incentivaram-me a fazer
alguma coisa. Foi então que comecei com esta música, dedicada à família e aos
amigos. Depois deste tema, pretendo fazer as coisas com calma”, assevera.
Com esse resultado, Arlindo Martins já se encontra
novamente em estúdio, embora admita estar, por agora, numa fase de descanso.
Ainda assim, o plano é continuar ligado à música.
“Os meus filhos e a minha esposa disseram-me para fazer
alguma coisa. Foi aí que nasceu esta música, dedicada à família e aos amigos”,
relata.
Arlindo Martins conta que o trabalho foi gravado no
estúdio de um amigo, Vítor, conhecido artisticamente como Cucs.
A estratégia passa por lançar os temas gradualmente e,
mais tarde, reuni-los num CD. “Vamos fazer tudo com calma”, sublinha.
Morna e coladeira
Desde muito cedo, Arlindo Martins nutre uma grande paixão
pela morna e pela coladeira, dois estilos musicais cabo-verdianos da sua
preferência.
“Foi com essas sonoridades que comecei a fazer serenatas,
acompanhado do irmão e de amigos. São os estilos de que gosto mais”, afirma.
O acolhimento positivo do primeiro lançamento reforçou a
motivação para investir nessa área. “Sinto-me feliz. Dá-me vontade de trabalhar
mais, porque sinto que está a ser bem aceite e que abre portas para outros
trabalhos”, diz.
Durante muitos anos, Arlindo compôs e tocou as suas
próprias canções, guardando-as sem as divulgar. Apenas uma delas chegou a ser
cantada por Damião Martins, irmão da sua mãe, com quem chegou a gravar um tema.
“De resto, ficava tudo na gaveta”, admite.
A decisão de gravar surge agora como resultado de um
incentivo familiar e de um desejo antigo de partilhar o que foi criando ao
longo do tempo.
França
Além da música, Arlindo Martins trabalha na área da
pintura, em França, país onde vive desde os anos 90. Ainda assim, mantém uma
ligação forte com Cabo Verde, para onde viaja sempre que pode.
“Gosto de ir à minha terra, ver a família e os amigos. A
idade está a chegar e queremos aproveitar para estar mais próximos da nossa
origem”, afirma, sem esconder o desejo de um regresso definitivo no futuro.
Defensor do formato físico, o músico confessa continuar a
valorizar o CD numa era dominada pelo digital. “Gosto de ter o CD nas mãos,
saber quem participou naquele trabalho, para falar com conhecimento”.
Por isso, disse que sempre que regressa ao país, a Cabo
Verde, faz questão de comprar os CDs mais recentes para levar consigo para
França.
Inspiração
Entre os muitos artistas cabo-verdianos que admira,
Arlindo Martins destaca Paulino Vieira como a sua maior referência.
“Mesmo as músicas mais antigas, estou sempre a ouvi-las”,
afirma, reconhecendo que cada artista acaba por ter um ídolo.
Sobre o uso da inteligência artificial na música, o
artista assume uma posição equilibrada. “Hoje é mais fácil fazer música; não
sou contra, mas prefiro ficar com o meu passado”, diz, reforçando a sua
preferência pelas sonoridades de outros tempos.
Futuro
O próximo single poderá ser uma morna, embora o artista
também aprecie outros géneros tradicionais, como o funaná, o batuque e a
tabanca. No entanto, deixa claro que a morna e a coladeira continuam a ser o
seu porto seguro.
“Gosto de morna e coladeira. Isso não quer dizer que não
goste de ouvir outros estilos musicais da nossa terra. Costumo ouvir tabanca,
funaná e batuque, mas a minha preferência continua a ser a morna e a
coladeira”, destaca.
Quanto aos palcos, Arlindo Martins não ambiciona grandes
espectáculos para apresentar o seu trabalho.
“Não tenho ideia de lançar os meus trabalhos em grandes
espectáculos. Se estiver num lugar e me pedirem para cantar, canto. Mas
organizar espectáculos, não. Posso, no entanto, cantar em bares ou
restaurantes”, afirma.
Para o músico, a música é parte essencial da sua vida.
“Posso dizer que a música é 90% de mim. Adoro música. Ouço todo o tipo de
estilos, embora tenha as minhas preferências. Se for um trabalho novo, ouço com
tranquilidade, mas sou daqueles que ouvem a música do início ao fim. Gosto de
ouvir, apreciar e dar sempre palavras de incentivo para a pessoa continuar”.
Martins cresceu rodeado de instrumentos e de músicos na
família, uma herança que continua a marcar o seu percurso.
Sobre a vivacidade da música
cabo-verdiana, disse que as coisas estão um pouco difíceis, mas que há grandes
compositores e músicos. “Espero que melhore ainda mais”. Dulcina Mendes –
Cabo Verde in “Expresso das Ilhas”
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