De que forma é que o império português moldou as percepções sobre raça, pertença e direitos em Macau? A Fundação Rui Cunha recebeu uma sessão conduzida pelo académico MC Loureiro, autor de “Colonial Citizenship” – a primeira obra jurídica dedicada a analisar as relações complexas entre o colonialismo e o acesso aos direitos de nacionalidade no antigo império português
A Fundação Rui Cunha (FRC) acolheu uma
sessão subordinada ao tema “Cidadania Colonial: a Rota de Macau”. O evento tem
como inspiração o livro Colonial Citizenship, da autoria do orador
convidado MC Loureiro, a ser publicado em 2026 pela editora Bristol University
Press.
O trabalho académico de MC Loureiro, professor adjunto de
Direito na Universidade de Leicester, incide sobretudo em tópicos como o
direito colonial, a cidadania e a teoria jurídica. Esta nova publicação
debruça-se especificamente sobre o império português e as discussões sobre
raça, cidadania e pertença que este suscitou – e continua a suscitar – nas
ex-colónias.
Em comunicado, a FRC sublinha que Colonial Citizenship
é a “primeira obra jurídica a abordar de forma abrangente a pertença colonial,
a assimilação e o acesso aos direitos no império português da Ásia e da
África”, estabelecendo uma linha cronológica que vai desde o século XV ao
presente pós-colonial.
A monografia do académico incide sobre a forma “como a
cidadania surgiu e se desenvolveu” no contexto do império português, bem como o
impacto que ainda persiste na actualidade. Segundo defende MC Loureiro, os
vestígios do passado colonial de Portugal continuam hoje a “moldar a realidade
jurídica portuguesa e o acesso à nacionalidade e à cidadania”.
A apresentação na FRC vai aprofundar a posição peculiar
de Macau entre as ex-colónias, com “particularidades demográficas, políticas,
geográficas e jurídicas” que lhe conferem um papel estratégico “na análise das
condições jurídicas imperiais portuguesas”. Fazendo uso de “uma abordagem
crítica da cidadania, uma visão matizada do império português e novas
descobertas de arquivo”, a sessão de MC Loureiro é um convite a uma reflexão
sobre “raça, pertença e direitos”, pensados no contexto pós-colonial e actual.
“Fundamentalmente, impõe-se a questão: quem é elegível, na concessão de
direitos e cidadania durante e após o império?”, escreve a FRC.
Antes de entrar para a Faculdade de Direito de Leicester,
MC Loureiro foi investigador na Universidade de Birmingham e na Escola de
Estudos Orientais e Africanos (SOAS) da Universidade de Londres, onde leccionou
sobre impérios coloniais, direitos constitucionais e direitos de cidadania.
Numa nota auto-biográfica publicada na Universidade de
Leicester, o académico define-se como um “teórico socio-jurídico” cujo
principal interesse de investigação gira em torno da questão do colonialismo,
especialmente através da sua expressão nos antigos impérios português e
britânico. Inclui-se aqui Macau, que, “de entreposto comercial estrangeiro à
última colónia portuguesa”, mantém uma relação de quase meio milénio com
Portugal.
A sessão foi realizada em língua inglesa e moderada por
Ângelo Patrício Rafael, professor assistente na Faculdade de Gestão e Direito
da Universidade de São José (USJ). Carolina Baltazar – Macau in “Ponto
Final”
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MC Loureiro - Ingressei na Faculdade de Direito de Leicester após ter trabalhado na Universidade de Birmingham e na SOAS University of London, onde lecionei e pesquisei sobre impérios coloniais, direitos constitucionais e direito da cidadania. Concluí um doutorado com bolsa integral na Universidade de Birmingham, com uma tese que propunha uma integração crítica entre a teoria alemã dos direitos subjetivos e as experiências jurídicas imperiais por meio da análise do império português. Anteriormente, obtive um mestrado em Ciências Sociais com foco em Estudos de Migração pela Universidade de Montpellier III, um mestrado em Mediação Intermediterrânea pela Universidade Autônoma de Barcelona e um título de Laurea Magistrale em Ciências Políticas e Estudos Culturais sobre a travessia do Mediterrâneo pela Universidade Ca' Foscari de Veneza. Concluí minha graduação em Direito após ter estudado direito constitucional, comparado e internacional nas Universidades de Coimbra, de Estrasburgo e nas Universidades Federal e Estadual do Rio de Janeiro.
Anteriormente, também trabalhei com litígios
constitucionais, mediação e arbitragem internacional, e formulação de políticas
da UE sobre migração em instituições europeias e latino-americanas. University
of Leicester
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