A ave
Ninguém sabia donde viera
a estranha ave.
Talvez o último ciclone a
arrebatasse
de incógnita ilha ou de
algum golfo
ou nascesse das algas
gigantescas do mar;
ou caísse de uma outra
atmosfera,
ou de outro mundo ou de
outro mistério.
Velhos homens do mar nunca
a haviam visto nos gelos
nem nenhum andarilho a
encontrara jamais:
era antropomorfa como um
anjo e silenciosa
como qualquer poeta.
Primeiro pairou na grande
cúpula do templo
mas o pontífice tangeu-a
de lá como se tange um demônio doente.
E na mesma noite pousou no
cimo do farol;
e o faroleiro tangeu-a:
ela podia atrapalhar as naus.
Ninguém lhe ofereceu um
pedaço de pão
ou um gesto suave onde se
dependurasse.
E alguém disse: “essa ave
é uma ave má das que devoram o gado.
E outro: “essa ave deve
ser um demônio faminto”.
E quando as suas asas
pairavam espalmadas dando sombra às crianças cansadas,
até a mães jogavam pedras
na misteriosa ave perseguida e inquieta.
Talvez houvesse fugido de
qualquer pico silencioso entre as nuvens
ou perdesse a companheira
abatida de seta.
A ave era antropomorfa
como um anjo
e solitária como qualquer
poeta.
E parecia querer o
convívio dos homens
que a enxotavam como se
enxota um demônio doente.
Quando a enchente
periódica afogou os trigais, alguém disse:
— A ave trouxe a enchente.
Quando a seca anual
assolou os rebanhos, alguém disse:
— A ave comeu os cordeiros
E todas as fontes lhe
negando água,
a ave desabou sobre o
mundo como um Sansão sem vida.
Então um simples pescador
apanhou o cadáver macio e falou:
— Achei o corpo de uma
grande ave mansa.
E alguém recordou que a
ave levava ovos aos anacoretas.
Um mendigo falou que a ave
o abrigara muitas vezes do frio.
E um nu: a ave cedeu as
penas para meu gibão.
E o chefe do povo: era o
rei das aves, que desconhecemos.
E o filho mais moço do
chefe que era sozinho e manso:
— Dá-me as penas para eu
escrever a minha vida
tão igual à da ave em quem
me vejo
mais do me vejo em ti, meu
pai.
Jorge de Lima – Brasil
in A Túnica Inconsútil, (1938, Rio de Janeiro, Editora Cooperativa Cultural
Guanabara)
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Jorge Matheus
de Lima – Considerado um dos poetas mais esquecido do Brasil, nasceu na União
dos Palmares, Estado de Alagoas a 23 de abril de 1893 e faleceu no Rio de
Janeiro a 15 de novembro de 1953. Poeta, romancista, pintor, político, médico e
ensaísta brasileiro, considerado um dos principais autores do modernismo no
Brasil. Poesia: escreveu os seguintes livros de poemas, XIV
Alexandrinos, 1914; O Mundo do Menino Impossível, 1927; Poemas,
1927; Novos Poemas, 1929; Poemas escolhidos, 1932; Tempo e
Eternidade, 1935; A Túnica Inconsútil, 1938; Anunciação e
encontro de Mira-Celi, 1943; Poemas Negros, 1947; Livro de
Sonetos, 1949; Obra Poética, 1950; Invenção de Orfeu, 1952; Castro
Alves – Vidinha, 1952; Antologia Poética, 1962. Baía da Lusofonia
Jorge de Lima, Poeta esquecido
Injustamente,
Jorge de Lima anda esquecido, mas venerado por especialistas e leitores mais
bem informados como é o meu caso. Ana Maria Paulino, uma das maiores estudiosas
do poeta, atribui o fato ao epíteto de "poeta cristão" de que foi
tachado e a qualidade de "poesia religiosa" conferida a seus versos,
o que teria afastado deles o leitor dos anos 60. Segundo Paulino, o leitor
estaria mais interessado em obras cujo tema abordasse o momento político-social
vivido pelo país.
Nascido
em União dos Palmares (AL) e falecido no Rio de Janeiro, filho de um senhor de
engenho. Descendendo de uma antiga linhagem rural do Nordeste, sua infância de
engenho, na plantação paterna de cana-de-açúcar, explica sua inclinação à terra
natal e a simpatia para com a raça negra. Lançou-se escritor, menino ainda, com
um soneto parnasiano: "O Acendedor de Lampiões" (1907). Ainda da fase
parnasiana cito XIV Alexandrinos (1914).
Em
1911, iniciou o curso de Medicina em Salvador, tendo concluído no Rio de
Janeiro em 1915. Ainda em 1915, retornou a Maceió para exercer a Medicina. Em
1919 elegeu-se Deputado Estadual pelo PRAL-Partido Republicano de Alagoas. Em
1930, transferiu-se para o Rio de Janeiro por desavenças políticas, e ali na
Capital exerceu a clínica médica e foi professor de Literatura Brasileira na
Universidade do Brasil. O seu consultório na Cinelândia tornou-se famoso como
centro de reunião de intelectuais e amigos. Após a queda do Estado Novo,
militou na política, elegendo-se vereador no antigo Distrito Federal, pela UDN.
De 1937 a 1945, teve sua candidatura à Academia Brasileira de Letras recusada
por seis (sic) vezes. Em 1952, é fundada a Sociedade Carioca de Escritores
(SOCE), da qual foi o primeiro presidente provisório.
Em
1925 aderiu ao Modernismo, mas pertence à chamada "geração de 30",
segunda geração de modernistas. Época de seus belos poemas regionais (negros).
"Essa Negra Fulô" (1928) lhe trouxe êxito estupendo, nacional e
mundial, tendo a artista argentina Berta Singerman uma intérprete incomparável.
A
partir de 1930, dedica-se à militância católica. Em feliz associação com Murilo
Mendes, escreveu um livro de poemas religiosos: Tempo e Eternidade
(1935). Essa mesma tendência revelou-se em A Túnica Inconsútil (1938),
espécie de profissão de fé do eu-lírico que se coloca no mundo regido pela lei
divina, composta por 73 poemas de forma livre (dentre os quais se destaca o
poema "O grande desastre aéreo de ontem", dedicado a Cândido
Portinari: Vejo sangue no ar... Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há
poetas míopes que pensam que é o arrebol.) e Anunciação e Encontro de
Mira-Coeli (1950), com sua linguagem místico-religiosa.
Fase
negra: É de 1947 o livro Poemas Negros, cujo tema é a realidade africana
no Brasil e a vida nas regiões Norte e Nordeste do país.
Mas
há de ser na fase hermética/(neo)classizante com o Livro dos Sonetos
(1949) e Invenção de Orfeu (1952) que a excelsa inspiração do poeta
alcançará seu ponto culminante e seu lugar definitivo, graças ao domínio
técnico do verso, o poder onírico, a originalidade e o sopro épico bebido nas
fontes da grande tradição da arte ocidental. Em Invenção de Orfeu
(retorno à epopeia, embora utilize heterogeneidade de formas como soneto,
sextilha, quadra, oitava, terça; rima, bem como gênero híbrido: épico X lírico.
Conforme E. R. Curtius: O poeta épico navega em um grande navio no amplo mar; o
poeta lírico em um barquinho pelo rio, Jorge de Lima revisita Camões,
construindo uma épica camoniana subjetivada. Segundo João Gaspar Simões, é o
caso de uma epopeia interior: o primeiro poema de brasilidade interior.
Destacou-se
Jorge de Lima em diversas áreas de sua exemplar atuação: médica, política,
literária (extraordinária contribuição poética, crítico-histórica e
novelística) e artística (como pintor e escultor, fazia fotomontagens).
José
Santiago Naud assim definiu o poeta alagoano: "Jorge de Lima é como um
painel. Total. Registro das nossas raízes, linguagem criada ou herdada, mito e
mistério, a complexidade do universo referida pelo local. Assim como Drummond
estabeleceu o código do dizer poético em brasileiro, Jorge de Lima abriu
peculiaridades ao universal." Mário Celso Rios – Brasil in “saojoaodel-rei.blogspot”
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Mário Celso Rios – Natural de Barbacena, Minas Gerais, onde nasceu no ano
de 1952 e onde veio a falecer a 13 de outubro de 2020. Foi um professor,
pesquisador, escritor e presidente da Academia Barbacenense de Letras, com
forte atuação na cultura, na história e no magistério local.
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