Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

domingo, 25 de janeiro de 2026

A ave











A ave

 

Ninguém sabia donde viera a estranha ave.

Talvez o último ciclone a arrebatasse

de incógnita ilha ou de algum golfo

ou nascesse das algas gigantescas do mar;

ou caísse de uma outra atmosfera,

ou de outro mundo ou de outro mistério.

Velhos homens do mar nunca a haviam visto nos gelos

nem nenhum andarilho a encontrara jamais:

era antropomorfa como um anjo e silenciosa

como qualquer poeta.

Primeiro pairou na grande cúpula do templo

mas o pontífice tangeu-a de lá como se tange um demônio doente.

E na mesma noite pousou no cimo do farol;

e o faroleiro tangeu-a: ela podia atrapalhar as naus.

Ninguém lhe ofereceu um pedaço de pão

ou um gesto suave onde se dependurasse.

E alguém disse: “essa ave é uma ave má das que devoram o gado.

E outro: “essa ave deve ser um demônio faminto”.

E quando as suas asas pairavam espalmadas dando sombra às crianças cansadas,  

até a mães jogavam pedras na misteriosa ave perseguida e inquieta.  

Talvez houvesse fugido de qualquer pico silencioso entre as nuvens

ou perdesse a companheira abatida de seta.

A ave era antropomorfa como um anjo

e solitária como qualquer poeta.

E parecia querer o convívio dos homens

que a enxotavam como se enxota um demônio doente.

Quando a enchente periódica afogou os trigais, alguém disse:  

— A ave trouxe a enchente.

Quando a seca anual assolou os rebanhos, alguém disse:

— A ave comeu os cordeiros

E todas as fontes lhe negando água,

a ave desabou sobre o mundo como um Sansão sem vida.

Então um simples pescador apanhou o cadáver macio e falou:  

— Achei o corpo de uma grande ave mansa.

E alguém recordou que a ave levava ovos aos anacoretas.

Um mendigo falou que a ave o abrigara muitas vezes do frio.  

E um nu: a ave cedeu as penas para meu gibão.

E o chefe do povo: era o rei das aves, que desconhecemos.  

E o filho mais moço do chefe que era sozinho e manso:

— Dá-me as penas para eu escrever a minha vida

tão igual à da ave em quem me vejo

mais do me vejo em ti, meu pai.

 

Jorge de Lima – Brasil

in A Túnica Inconsútil, (1938, Rio de Janeiro, Editora Cooperativa Cultural Guanabara)

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Jorge Matheus de Lima – Considerado um dos poetas mais esquecido do Brasil, nasceu na União dos Palmares, Estado de Alagoas a 23 de abril de 1893 e faleceu no Rio de Janeiro a 15 de novembro de 1953. Poeta, romancista, pintor, político, médico e ensaísta brasileiro, considerado um dos principais autores do modernismo no Brasil. Poesia: escreveu os seguintes livros de poemas, XIV Alexandrinos, 1914; O Mundo do Menino Impossível, 1927; Poemas, 1927; Novos Poemas, 1929; Poemas escolhidos, 1932; Tempo e Eternidade, 1935; A Túnica Inconsútil, 1938; Anunciação e encontro de Mira-Celi, 1943; Poemas Negros, 1947; Livro de Sonetos, 1949; Obra Poética, 1950; Invenção de Orfeu, 1952; Castro Alves – Vidinha, 1952; Antologia Poética, 1962. Baía da Lusofonia

Jorge de Lima, Poeta esquecido

Injustamente, Jorge de Lima anda esquecido, mas venerado por especialistas e leitores mais bem informados como é o meu caso. Ana Maria Paulino, uma das maiores estudiosas do poeta, atribui o fato ao epíteto de "poeta cristão" de que foi tachado e a qualidade de "poesia religiosa" conferida a seus versos, o que teria afastado deles o leitor dos anos 60. Segundo Paulino, o leitor estaria mais interessado em obras cujo tema abordasse o momento político-social vivido pelo país.

Nascido em União dos Palmares (AL) e falecido no Rio de Janeiro, filho de um senhor de engenho. Descendendo de uma antiga linhagem rural do Nordeste, sua infância de engenho, na plantação paterna de cana-de-açúcar, explica sua inclinação à terra natal e a simpatia para com a raça negra. Lançou-se escritor, menino ainda, com um soneto parnasiano: "O Acendedor de Lampiões" (1907). Ainda da fase parnasiana cito XIV Alexandrinos (1914).

Em 1911, iniciou o curso de Medicina em Salvador, tendo concluído no Rio de Janeiro em 1915. Ainda em 1915, retornou a Maceió para exercer a Medicina. Em 1919 elegeu-se Deputado Estadual pelo PRAL-Partido Republicano de Alagoas. Em 1930, transferiu-se para o Rio de Janeiro por desavenças políticas, e ali na Capital exerceu a clínica médica e foi professor de Literatura Brasileira na Universidade do Brasil. O seu consultório na Cinelândia tornou-se famoso como centro de reunião de intelectuais e amigos. Após a queda do Estado Novo, militou na política, elegendo-se vereador no antigo Distrito Federal, pela UDN. De 1937 a 1945, teve sua candidatura à Academia Brasileira de Letras recusada por seis (sic) vezes. Em 1952, é fundada a Sociedade Carioca de Escritores (SOCE), da qual foi o primeiro presidente provisório.

Em 1925 aderiu ao Modernismo, mas pertence à chamada "geração de 30", segunda geração de modernistas. Época de seus belos poemas regionais (negros). "Essa Negra Fulô" (1928) lhe trouxe êxito estupendo, nacional e mundial, tendo a artista argentina Berta Singerman uma intérprete incomparável.

A partir de 1930, dedica-se à militância católica. Em feliz associação com Murilo Mendes, escreveu um livro de poemas religiosos: Tempo e Eternidade (1935). Essa mesma tendência revelou-se em A Túnica Inconsútil (1938), espécie de profissão de fé do eu-lírico que se coloca no mundo regido pela lei divina, composta por 73 poemas de forma livre (dentre os quais se destaca o poema "O grande desastre aéreo de ontem", dedicado a Cândido Portinari: Vejo sangue no ar... Chove sangue sobre as nuvens de Deus. E há poetas míopes que pensam que é o arrebol.) e Anunciação e Encontro de Mira-Coeli (1950), com sua linguagem místico-religiosa.

Fase negra: É de 1947 o livro Poemas Negros, cujo tema é a realidade africana no Brasil e a vida nas regiões Norte e Nordeste do país.

Mas há de ser na fase hermética/(neo)classizante com o Livro dos Sonetos (1949) e Invenção de Orfeu (1952) que a excelsa inspiração do poeta alcançará seu ponto culminante e seu lugar definitivo, graças ao domínio técnico do verso, o poder onírico, a originalidade e o sopro épico bebido nas fontes da grande tradição da arte ocidental. Em Invenção de Orfeu (retorno à epopeia, embora utilize heterogeneidade de formas como soneto, sextilha, quadra, oitava, terça; rima, bem como gênero híbrido: épico X lírico. Conforme E. R. Curtius: O poeta épico navega em um grande navio no amplo mar; o poeta lírico em um barquinho pelo rio, Jorge de Lima revisita Camões, construindo uma épica camoniana subjetivada. Segundo João Gaspar Simões, é o caso de uma epopeia interior: o primeiro poema de brasilidade interior.

Destacou-se Jorge de Lima em diversas áreas de sua exemplar atuação: médica, política, literária (extraordinária contribuição poética, crítico-histórica e novelística) e artística (como pintor e escultor, fazia fotomontagens).

José Santiago Naud assim definiu o poeta alagoano: "Jorge de Lima é como um painel. Total. Registro das nossas raízes, linguagem criada ou herdada, mito e mistério, a complexidade do universo referida pelo local. Assim como Drummond estabeleceu o código do dizer poético em brasileiro, Jorge de Lima abriu peculiaridades ao universal." Mário Celso Rios – Brasil in “saojoaodel-rei.blogspot”

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Mário Celso Rios – Natural de Barbacena, Minas Gerais, onde nasceu no ano de 1952 e onde veio a falecer a 13 de outubro de 2020. Foi um professor, pesquisador, escritor e presidente da Academia Barbacenense de Letras, com forte atuação na cultura, na história e no magistério local.

 

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