Fundado em 2009 por Ineida Sena, o grupo de São Domingos preserva o batuku e reúne diferentes gerações de batucadeiras que já levaram a cultura cabo-verdiana ao exterior
O grupo de batucadeiras Herança Di Nos
Terra, fundado por Ineida Sena a 29 de novembro de 2009, na localidade de
Lagoa, em São Domingos (Santiago), tem vindo a representar o batuku há três
décadas a nível nacional, mas também a levar a cultura tradicional
cabo-verdiana além das fronteiras.
Em entrevista ao Balai, a representante Ineida Sena, que
é agente da Polícia Nacional, contou sobre o percurso do grupo e abordou a
importância deste género musical e de dança.
Conforme explica, o grupo surgiu a 29 de novembro de
2009. “Eu ainda era criança e fundei o grupo juntamente com a minha mãe que foi
uma das primeiras integrantes.”
Segundo a entrevistada, a criação surgiu da necessidade
de manter viva a prática do batuku na comunidade numa altura em que não existia
um grupo fixo. Depois de várias tentativas de reerguer o batuku em São
Domingos, conta que a irmã incentivou-a a criar o seu próprio grupo como
gostava de cantar e dançar.
“Os jovens, idosos e a comunidade de São Domingos
concordaram com a criação, então avancei com a iniciativa.”
Após a sua decisão a representante explicou que como
ainda não sabia que nome atribuir ao grupo decidiu juntar as ideias de herança
e tradição e com a junção das duas palavras surgiu o “Batucadeiras Herança di
Nos Terra”.“O batuku é algo que nós herdamos dos nossos antepassados, então se
herdamos representa a herança da nossa terra”.
Atualmente, o grupo é formado por 16 elementos “incluindo
rapazes, meninas de diferentes faixas etárias como também mulheres idosas com
idades entre 50 a 60 anos.”
Os ensaios decorrem tanto na residência de Ineida, no
bairro da Achadinha, na cidade da Praia, como na localidade de Lagoa, no
concelho de São Domingos.
“Nós ensaiamos uma ou duas vezes por semana porque
normalmente não temos tempo para ensaiar todos os dias”, confessa a presidente
do grupo.
Contudo estas batucadeiras são muito solicitadas para
atividades: “Fazemos batuku todos os dias porque participamos quase sempre em
casamentos, aniversários e noutros eventos.”
Já atuaram em vários concelhos de Santiago e noutras
ilhas, nomeadamente no Maio, Sal, Boa Vista e São Vicente. Mas o grupo também
já tem presença internacional, participaram em espetáculos em Portugal,
Luxemburgo, Holanda, Bélgica e Brasil.
Apesar de ter a sua profissão, Ineida afirma que não
procura validação enquanto artista individual e sim tem como missão ajudar o
grupo.
Um género musical dominado por mulheres
No âmbito do Dia da Mulher Cabo-verdiana, que se assinala
anualmente a 27 de março, Ineida Sena salienta que este é um género dominado
por mulheres e exalta que as “cabo-verdianas são cheias de força e resiliência”
sendo que o batuku simboliza justamente estas qualidades.
Apesar de ser dominado por mulheres, tem sido cada vez
mais comum encontrar rapazes a dar “ku tornu”. É o caso de Edmilson Almeida, o
único rapaz do grupo atualmente, que destacou a importância dos homens
participarem neste género e deixou uma mensagem de incentivo para que mais
homens participem de grupos de batuku.
“Acho que é uma cultura bonita e é bom ver um homem no
batuku a dar “ku tornu”, tchabeta e tumba. Sinto-me feliz a dançar porque é
algo que gosto muito”, afirmou, apesar de confessar que às vezes sente receio
por ser o único rapaz do grupo em meio de tantas mulheres.
Maior valorização do batuku
Para Ineida Sena, o seu maior sonho é que o “batuku seja
elevado a Património Cultural Imaterial da Humanidade”. “O batuku é um género
que veio para Cabo Verde antes de funaná, morna, coladeira”, diz e defende que
esta tradição “não está ainda no lugar que deveria”.
De salientar que a 31 de julho, Dia da Mulher Africana,
foi instituído, em 2021, o Dia Nacional do Batuco. Atualmente, o Instituto do
Património Cultural (IPC) está a trabalhar para a classificação deste género
como Património Nacional, passo essencial para a internacionalização. Só depois
deste processo é possível seguir com uma candidatura formal para a sua elevação
a Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.
Para a integrante do grupo Alexandra Mendes, o batuku faz
parte da sua vivência. “Aprendi muito com a Ineida e tive a oportunidade de
conhecer vários lugares que não conhecia. É uma experiência muito boa e prefiro
estar no grupo a noutras atividades.”
A jovem defende que este género deve ser valorizado
porque é algo que “faz parte da nossa cultura e está presente em toda a
diáspora”.
Também a batucadeira Elisy Mendes deixa uma mensagem para
a devida valorização deste género musical e de dança. Nádia Pires – Cabo Verde
in “Balai Cabo Verde”
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