Projeto prevê três volumes que, por
sua pluralidade de temas, tornar-se-ão instrumento de consulta obrigatória para
historiadores, professores e estudantes
I
Setúbal,
a cidade onde nasceu o poeta Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805),
acaba de ganhar um projeto editorial que pretende se tornar a maior obra de
investigação sobre a história do município, trazendo à luz informações sobre
temas pouco conhecidos, além de incentivar novas investigações. Nesse sentido,
foi lançado em julho de 2025 o primeiro volume do Dicionário de História
de Setúbal, trabalho coordenado pelo historiador Albérico Afonso
Costa e publicado pelo jornal O Setubalense, com o apoio da
Administração dos Portos de Setúbal e Sesimbra e da Câmara Municipal de
Setúbal.
Para julho de 2026, está previsto o
lançamento do segundo volume. E, para julho do ano seguinte, o terceiro e
último. O primeiro volume marcou também a passagem do 170.º aniversário de
fundação de O Setubalense, o mais antigo jornal em circulação em
Portugal continental. No total, os três volumes contam com a colaboração de
quase uma centena de profissionais de áreas como arqueologia, sociologia,
antropologia, economia, arquitetura e jornalismo.
Com a participação de 76 historiadores, o
primeiro volume, que já foi distribuído para as bibliotecas escolares da
cidade, traz cerca de 500 entradas que vão de A até E e, como os demais,
abrange um período de cerca de dois mil anos, desde a presença romana, quando o
vilarejo era conhecido como Cetóbriga, até a época contemporânea (ano de 1976),
sendo os temas dos séculos XIX e XX de maior presença, como observa o
coordenador no prefácio. Por isso, o leitor vai encontrar nos três volumes
desde a época em que o burgo não passava de uma medieval vila amuralhada contra
piratas e invasões até a sua transformação numa cidade industrial e moderna.
De surpreender é que, ao contrário do que
comumente se lê em tradicionais livros de História, os verbetes trazem também
referências sobre a chamada Setúbal rebelde, ou seja, sobre as lutas de
tendência anarquista que a levaram a ser conhecida como Barcelona portuguesa,
sem deixar de mostrar igualmente a
cidade assolada pela opressão fascista nos anos salazaristas (1933-1974), bem
como a luta dos menos favorecidos que moravam em bairros com construções
precárias, até se transformar num burgo industrial a partir da década de 1960, situado
na margem norte do estuário do rio Sado, a cerca de 50 quilômetros ao Sul de
Lisboa. Enfim, uma cidade com fortes ligações com o mar, a pesca e o turismo,
famosa também por suas mulheres conserveiras, que trabalhavam nas indústrias de
conservas de pescado e eram parte integrante de um proletariado que buscava um
futuro digno.
II
Como não poderia deixar de ser, a família
Bocage recebeu largo espaço neste Dicionário, a começar pela entrada
dedicada ao famoso poeta, que vai da página 195 à de número 199, de autoria do
professor e historiador António Chitas, que foi vice-presidente do Centro de
Estudos Bocagianos (2006-2014) e é autor de numerosos artigos e crônicas sobre a
história e figuras de Setúbal. Com base em quatro obras do historiador Daniel
Pires, especialmente a mais recente, O essencial sobre Manuel
Maria de Barbosa du Bocage (Lisboa, Imprensa
Nacional-Casa da Moeda, 2023), do investigador Jorge Morais, autor de Bocage
Maçon (Coimbra, Via Occidentalis Editora, 2007), e sobretudo deste
articulista, Bocage: o Perfil Perdido (Lisboa,
Editorial Caminho, 2003), além da citação de uma famosa conferência do poeta
Olavo Bilac (1865-1918) no Teatro Municipal de São Paulo, em 1917, Chitas
traça, em rápidas palavras, a trajetória do poeta, desde sua infância e
adolescência em Setúbal, sua vida um tanto desregrada em Lisboa, suas viagens, a
partir de 1786, a princípio como guarda-marinha, a Goa e, posteriormente, já como desertor, a
Surrate, na Índia, Cantão e Macau, na China. Quatro anos depois, já de volta à
Lisboa e sua vida boêmia, Bocage inicia uma carreira literária com sua
inscrição na Nova Arcádia e a publicação, a partir de 1791, de pelo menos três
obras. Influenciado pelo clima de liberdade provocado pela Revolução Francesa
(1789-1799), produz poemas e traduz obras que não haveriam de agradar às
autoridades constituídas, o que o levou até a projetar uma fuga para o Brasil,
que lhe não foi possível empreender. Acusado de autor de “papéis ímpios,
sediciosos e críticos”, seria colocado na Cadeia do Limoeiro e, depois,
transferido para os cárceres da Inquisição. Recuperaria a liberdade no último
dia de 1798 e passaria a trabalhar como revisor e tradutor na Tipografia do
Arco do Cego, período em que, em 1799, publicaria o segundo tomo de suas Rimas,
cuja primeira edição é de 1791.
Em 1802, ainda seria denunciado como
pedreiro-livre (maçom) e passaria por novos dissabores, que incluiriam seu
encarceramento. Em 1804, publica o terceiro volume de Rimas para, no ano
seguinte, adoecer gravemente, vítima de um aneurisma nas carótidas, e vir a
falecer a 21 de dezembro, com apenas 40 anos. Da família Bocage, há ainda
verbetes sobre Gilles Hedois Ledoux du Bocage, avô materno do poeta, Mariana
Joaquina Caetana Xavier Lustoff du Bocage, sua mãe, Gil Francisco Barbosa du
Bocage, seu irmão mais velho, José Luís Soares de Barbosa, seu pai, além de
outros parentes. Sem contar as entradas que tratam das comemorações bocagianas
que se realizaram durante os séculos XIX e XX, entre as quais a história da
colocação da estátua do poeta na antiga Praça do Sapal que passaria a ser
chamada de Praça Bocage, inaugurada no dia 21 de dezembro de 1871.
III
Nos demais verbetes, o leitor tomará
conhecimento de vários aspectos que emolduram a história de Setúbal, como, por
exemplo, fatos que ocorreram em 1949, à época da realização de eleições para a
presidência da República, quando pela primeira vez, após o golpe de 28 de maio
de 1926, hostes contrárias ao regime concorreram, tendo à frente o general
Norton de Matos (1867-1955), contra o general Óscar Carmona (1869-1951),
candidato da situação. Como diz em extenso verbete o historiador Albérico
Afonso Costa, o movimento, iniciado em 1948, “tentará reerguer dos escombros o
movimento antifascista que havia sido destroçado no pós-guerra”.
Da resistência ao fascismo salazarista, há
ainda vários verbetes que tratam da história de vida de setubalenses militantes
da causa da liberdade que foram perseguidos pela PIDE, a polícia política do
regime, inclusive à época das eleições marcadas para 1958, que apoiavam a
candidatura do general Humberto Delgado (1906-1965), igualmente derrotado em
pleito fraudulento contra o almirante Américo Tomás (1894-1987), candidato do
regime.
Além de fatos ligados diretamente à
História de Setúbal, o leitor irá encontrar centenas de verbetes que relembram
personagens que foram reconhecidos por suas atuações na cidade, biografias de
personalidades políticas, culturais, desportivas, militares e religiosas, além
de jornalistas, empresários, artistas plásticos, pintores, escultores, médicos,
poetas, escritores, jogadores de futebol e outros profissionais. Como observa o
coordenador, houve a preocupação de selecionar apenas pessoas já falecidas.
Outra preocupação, segundo ele, foi a de
dar realce àqueles que habitualmente são esquecidos pela História e que,
“fazendo parte de sua matéria-prima, deixaram no seu mundo/cidade uma nítida
impressão digital”. Nesse sentido, também foram lembradas instituições que
marcaram (e ainda marcam) sua existência na História de Setúbal, como a Casa de
Bocage, onde se acreditava erroneamente que teria nascido o poeta, a Casa dos
Pescadores, o Casino Setubalense, associações representativas de diversas
profissões, clubes de futebol, jornais e publicações impressas já
desaparecidas, igrejas, conventos, ermidas e capelas católicas, confrarias e
irmandades negras, além de relatos de viajantes estrangeiros que estiveram na
Setúbal nos séculos XVIII e XIX. Enfim,
trata-se de uma obra que, com certeza, ficará na História de Setúbal.
IV
Albérico Afonso Costa (1951) é historiador
e investigador integrado do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de
Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa (UNL). Professor
coordenador na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal
(IPS). Doutor em História Contemporânea, na especialidade de História Cultural
e das Mentalidades, pela FCSH da UNL, tem colaborado e coordenado projetos na
área da História, formação de professores e formação profissional.
Tem vários trabalhos publicados nestas
áreas de investigação, com destaque para: FPA, a Fábrica Leccionada
— Aventuras dos Tecnocatólicos no Ministério
das Corporações (2008); Roteiro Republicano de
Setúbal, coord. (2010); História e Cronologia
de Setúbal - 1248-1926 (2011); Salazar
e a Escola Técnica — Uma reforma tolerada
num regime intolerante (2011); Setúbal sob a
Ditadura Militar – 1926-1933 (2014) e Setúbal Cidade Vermelha
— Sem perguntar ao Estado qual o caminho
a tomar —1974/1975 (2017); Lugares de José Afonso
na Geografia de Setúbal (2019); Setúbal no
Centro do Mundo, 165 anos do jornal
O Setubalense, coord. (2020); Setúbal sob o Estado
Novo – A Resistência a
Salazar, vol. 1, 1933-1949, 2021, e Setúbal sob o Estado
Novo – A Resistência a Salazar e a
Caetano, vol. 2, 1950-1974 (2023); e O Círculo Cultural
de Setúbal – De Ninho Oposicionista a Quartel-General
da Revolução, um redondo vocábulo, pela
mão de José Afonso (2024).
Tem proferido dezenas de comunicações e
conferências sobre os temas de História Contemporânea e formação de
professores. Tem ainda publicações em livros coletivos, revistas e atas de
eventos científicos. Diretor da revista Medi@ções da Escola
Superior de Educação de Setúbal, é também coordenador do Departamento de
Ciências Sociais e Pedagogia e membro do Conselho Técnico Científico da Escola
Superior de Educação do IPS.
Em 2019, recebeu da Câmara Municipal de Setúbal a medalha de honra da cidade na classe de atividades culturais. Em 2020, foi homenageado pela Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão (LASA) pelo “valioso contributo que tem dado à comunidade setubalense”. Adelto Gonçalves - Brasil
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Dicionário
de História de Setúbal, vol. I:A-E, de Albérico Afonso Costa
(coordenação). Setúbal, Jornal O Setubalense, 20 euros, 456
páginas, 2025. E-mail: geral@osetubalense.com
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Adelto Gonçalves (1951),
jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e
Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela
Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira,
1999), Barcelona brasileira (Lisboa,
Nova Arrancada, 1999; Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Editorial Caminho, 2003;
Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012), Direito
e Justiça em terras d´el-rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os vira-latas da madrugada (José Olympio
Editora, 1981; Letra Selvagem, 2015) e O reino, a colônia e o poder: o
governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre
outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global
Trends (Londres, Robbin Laird, editor, 2024), lançado na Inglaterra e
nos Estados Unidos. E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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