Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Bangladesh - Tecelagem de saris está por um fio

O sari de Tangail, no Bangladesh, luta pela sobrevivência, com os tecelões a alertarem que a automação e as pressões económicas estão a levar o artesanato secular à beira do colapso, apesar do seu reconhecimento global.


Em Dezembro de 2025, os desenhos detalhados e as texturas delicadas das peças produzidas na cidade de Tangail, no centro do país, foram classificados pela UNESCO como património cultural imaterial, reflectindo “práticas sociais e culturais locais”. Mas, isso trouxe pouco alívio às oficinas locais sobrelotadas, onde a transição para teares automatizados, as escolhas de moda em constante evolução, a instabilidade dos preços dos fios e a falta de apoio governamental têm pressionado os tecelões.

Ajit Kumar Roy, que passa o dia a entrelaçar os fios da teia e da trama enquanto movimenta a lançadeira para a frente e para trás, afirma que a homenagem pouco contribuiu para atenuar as dificuldades diárias.

“É um trabalho árduo”, disse o tecelão de 35 anos à AFP enquanto trabalhava no tear manual que opera há quase duas décadas. “As mãos, as pernas e os olhos precisam de se mover em sincronia. Se eu cometer um erro, temos um problema”, explicou.

Geralmente, os homens lideram o trabalho de tecelagem, tingimento e desenho, enquanto as mulheres preparam os fios, aplicam amido de arroz e dão os últimos retoques.

Outrora considerada uma profissão bem remunerada, a tecelagem sofreu com uma crise de mercado que começou durante a pandemia. Segundo Roy, o proprietário da sua fábrica costumava operar 20 teares manuais, mas agora só tem 10. “Algumas fábricas fecharam completamente”.

Com a quebra da procura e o aumento dos custos, muitos tecelões abandonaram o ofício, passando a trabalhar como motoristas ou na construção civil. “Ganhámos 700 taka (cerca de 46 patacas) por sari, e demorámos pelo menos dois dias a fazer um. Como é que uma família de quatro pessoas pode viver com 350 taka por dia?”

Raghunath Basak, presidente de uma associação de comerciantes de saris, teme que o artesanato possa acabar com ele. Os seus antepassados ​​migraram em busca de clima e água adequados para a tecelagem antes de se estabelecerem em Tangail, situada numa planície aluvial perto do rio Jamuna.

“Também introduzi o meu filho na profissão, mas não sei como se vai desenrascar depois de eu partir”, disse Basak, de 75 anos.

Apesar de ter clientes de alto nível – desde líderes políticos no Estado de Bengala Ocidental, na Índia, à ex-primeira-ministra do Bangladesh, Sheikh Hasina, que usou um sari seu para discursar na Assembleia Geral da ONU – Basak insiste que o sector está a enfrentar dificuldades.

A paragem do comércio terrestre com a vizinha Índia, após tensões diplomáticas, também afectou os negócios. “Costumávamos exportar saris por via terrestre e importar fio quando os preços locais disparavam. Agora, as fronteiras terrestres de ambos os lados estão fechadas. A exportação tornou-se praticamente impossível”, apontou.

Na década de 1960, o sari emergiu como um símbolo cultural, à medida que os bengalis, no então o Paquistão Oriental, abraçavam a sua identidade étnica. Mas, a preferência do consumidor está a mudar lentamente.

Kaniz Neera, de 45 anos, compra duas dúzias de saris de Tangail por ano, preferindo os padrões distintos e o design confortável, mas teme que a geração mais jovem se esteja a afastar da moda. “O sari é parte integrante da nossa identidade. A minha mãe usa saris em casa e na rua. Uso-os sobretudo na rua. Mas, as raparigas hoje em dia só usam saris em ocasiões especiais”.

Os investigadores, contudo, permanecem cautelosamente optimistas. Shawon Akand, autor de um livro sobre o assunto, observa que o sari de Tangail é uma evolução relativamente recente, criada pelos descendentes dos tecelões de musselina de Dhakai, cujas criações outrora cativaram os governantes mongóis e a aristocracia europeia.

“Os tecelões de Tangail herdaram técnicas de tecelagem de fios finos dos seus antepassados ​​e adaptaram-nas com desenhos únicos para o sari de Tangail”, destacou Akand, antevendo que o sari de Tangail “vai evoluir” e “perdurar”. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “AFP”


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