O sari de Tangail, no Bangladesh, luta pela sobrevivência, com os tecelões a alertarem que a automação e as pressões económicas estão a levar o artesanato secular à beira do colapso, apesar do seu reconhecimento global.
Em Dezembro de 2025, os desenhos detalhados e as texturas
delicadas das peças produzidas na cidade de Tangail, no centro do país, foram
classificados pela UNESCO como património cultural imaterial, reflectindo
“práticas sociais e culturais locais”. Mas, isso trouxe pouco alívio às
oficinas locais sobrelotadas, onde a transição para teares automatizados, as
escolhas de moda em constante evolução, a instabilidade dos preços dos fios e a
falta de apoio governamental têm pressionado os tecelões.
Ajit Kumar Roy, que passa o dia a entrelaçar os fios da
teia e da trama enquanto movimenta a lançadeira para a frente e para trás,
afirma que a homenagem pouco contribuiu para atenuar as dificuldades diárias.
“É um trabalho árduo”, disse o tecelão de 35 anos à AFP
enquanto trabalhava no tear manual que opera há quase duas décadas. “As mãos,
as pernas e os olhos precisam de se mover em sincronia. Se eu cometer um erro,
temos um problema”, explicou.
Geralmente, os homens lideram o trabalho de tecelagem,
tingimento e desenho, enquanto as mulheres preparam os fios, aplicam amido de
arroz e dão os últimos retoques.
Outrora considerada uma profissão bem remunerada, a
tecelagem sofreu com uma crise de mercado que começou durante a pandemia.
Segundo Roy, o proprietário da sua fábrica costumava operar 20 teares manuais,
mas agora só tem 10. “Algumas fábricas fecharam completamente”.
Com a quebra da procura e o aumento dos custos, muitos
tecelões abandonaram o ofício, passando a trabalhar como motoristas ou na
construção civil. “Ganhámos 700 taka (cerca de 46 patacas) por sari, e
demorámos pelo menos dois dias a fazer um. Como é que uma família de quatro
pessoas pode viver com 350 taka por dia?”
Raghunath Basak, presidente de uma associação de
comerciantes de saris, teme que o artesanato possa acabar com ele. Os seus
antepassados migraram em busca de clima e água adequados para a tecelagem
antes de se estabelecerem em Tangail, situada numa planície aluvial perto do
rio Jamuna.
“Também introduzi o meu filho na profissão, mas não sei
como se vai desenrascar depois de eu partir”, disse Basak, de 75 anos.
Apesar de ter clientes de alto nível – desde líderes
políticos no Estado de Bengala Ocidental, na Índia, à ex-primeira-ministra do
Bangladesh, Sheikh Hasina, que usou um sari seu para discursar na Assembleia
Geral da ONU – Basak insiste que o sector está a enfrentar dificuldades.
A paragem do comércio terrestre com a vizinha Índia, após
tensões diplomáticas, também afectou os negócios. “Costumávamos exportar saris
por via terrestre e importar fio quando os preços locais disparavam. Agora, as
fronteiras terrestres de ambos os lados estão fechadas. A exportação tornou-se
praticamente impossível”, apontou.
Na década de 1960, o sari emergiu como um símbolo
cultural, à medida que os bengalis, no então o Paquistão Oriental, abraçavam a
sua identidade étnica. Mas, a preferência do consumidor está a mudar
lentamente.
Kaniz Neera, de 45 anos, compra duas dúzias de saris de
Tangail por ano, preferindo os padrões distintos e o design confortável, mas
teme que a geração mais jovem se esteja a afastar da moda. “O sari é parte
integrante da nossa identidade. A minha mãe usa saris em casa e na rua. Uso-os
sobretudo na rua. Mas, as raparigas hoje em dia só usam saris em ocasiões
especiais”.
Os investigadores, contudo, permanecem cautelosamente
optimistas. Shawon Akand, autor de um livro sobre o assunto, observa que o sari
de Tangail é uma evolução relativamente recente, criada pelos descendentes dos
tecelões de musselina de Dhakai, cujas criações outrora cativaram os
governantes mongóis e a aristocracia europeia.
“Os tecelões de Tangail herdaram
técnicas de tecelagem de fios finos dos seus antepassados e adaptaram-nas com
desenhos únicos para o sari de Tangail”, destacou Akand, antevendo que o sari
de Tangail “vai evoluir” e “perdurar”. In “Jornal
Tribuna de Macau” – Macau com “AFP”
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