A Costa do Marfim e o Gana continuam a dominar largamente a produção global, assegurando mais de metade da oferta mundial, seguidos por países como Nigéria e Camarões. Esta concentração geográfica confere à região um papel determinante na formação dos preços internacionais
A evolução recente do preço do cacau
nos mercados internacionais tem sido marcada por uma forte correcção, com
quedas acumuladas na ordem dos 65% em cerca de dois anos, depois de um período
de máximos históricos que alimentou expectativas de escassez prolongada. Depois
de um pico de 11.675
USD/ton que aconteceu em Dezembro de 2024, o preço nos mercados internacionais
tem vindo a cair até ao mínimo de 2798 USD/Ton em Janeiro deste ano, tendo no I
trimestre de 2026 valorizado ligeiramente. Esta inversão reflecte, em primeiro
lugar, um ajustamento entre oferta e procura, após um ciclo de forte
valorização impulsionado por choques climáticos na África Ocidental e por
constrangimentos logísticos globais.
Com a normalização parcial das colheitas, sobretudo na
Costa do Marfim, e a reposição de stocks por parte das grandes indústrias
transformadoras, os preços começaram a ceder, num movimento também influenciado
pela desaceleração do consumo em mercados-chave, como a Europa e EUA,
pressionados por inflação e perda de rendimento disponível. A isto junta-se a
componente financeira, com investidores a reduzirem posições especulativas em commodities
agrícolas, acelerando a trajectória descendente das cotações. É neste contexto
de volatilidade que se reafirma a centralidade da África Ocidental no mercado
mundial do cacau.
A Costa do Marfim e o Gana continuam a dominar largamente
a produção global, assegurando mais de metade da oferta, seguidos por países
como Nigéria e Camarões. Esta concentração geográfica confere à região um papel
determinante na formação dos preços internacionais, mas também expõe o mercado
a ciclos de instabilidade, dado que qualquer perturbação climática ou
fitossanitária nestes países tem impacto imediato na oferta global.
Apesar deste domínio africano, começa a desenhar-se uma
reconfiguração gradual do mapa produtivo, com a América Latina a ganhar
protagonismo. O Equador destaca-se como o principal produtor fora de África,
consolidando uma estratégia assente na qualidade, nomeadamente no segmento de
cacau fino e de aroma, destinado a nichos premium da indústria do chocolate.
Peru, República Dominicana e Colômbia seguem o mesmo caminho, ainda que com
volumes mais modestos, mas com maior incorporação de valor. Esta aposta evidencia
uma tentativa de fugir à lógica tradicional de exportação de matéria-prima,
procurando capturar uma fatia mais significativa da cadeia de valor.
Já a Indonésia, que no passado ocupou posições cimeiras
no ranking mundial, enfrenta actualmente uma trajectória mais errática.
Continua a ser o maior produtor asiático, mas tem perdido competitividade
devido ao envelhecimento das plantações, à menor renovação tecnológica e a
problemas de produtividade, factores que têm limitado o seu peso relativo no
mercado global.
Apesar da diversidade crescente de produtores, o destino
do cacau mantém-se altamente concentrado. A esmagadora maioria da produção
mundial é exportada para a Europa, onde se localizam as principais indústrias
de transformação e fabrico de chocolate. Este desequilíbrio estrutural
evidencia uma clivagem persistente: os países produtores, maioritariamente em
África e na América Latina, continuam dependentes da exportação de cacau em
bruto, enquanto o valor acrescentado é capturado nas economias industrializadas,
perpetuando uma relação desigual numa das cadeias agroindustriais mais
relevantes à escala global. Hermenegildo Ferreira – Angola in “Expansão”
Sem comentários:
Enviar um comentário