Vários advogados defenderam à Lusa que a posição oficial do Governo de Macau sobre a língua portuguesa contrasta com a “erosão silenciosa” desta enquanto idioma oficial na região
O Chefe do Executivo de Macau, Sam Hou
Fai, realizou uma visita oficial a Portugal de 18 a 21 de Abril, marcada por
encontros institucionais e declarações diplomáticas de reforço da cooperação
entre Portugal e a China, e em que destacou que “a língua [portuguesa] não é
questão que mereça preocupação”, quer ao nível do ensino, quer no uso pelos
tribunais.
No entanto, de acordo com a advogada Sofia Linhares, a
trabalhar no território, “o sorriso diplomático contrasta com a realidade
administrativa”, marcada pela “erosão silenciosa do português” como língua
oficial na região. Linhares recorda que a Lei Básica de Macau estabelece que “o
português é igualmente uma língua oficial”, e que decretos-lei consagram que “o
chinês e o português têm igual dignidade”.
No entanto, a advogada alertou existir “resistência de
funcionários e magistrados ao uso do português em funções oficiais” e uma
diminuição da proficiência entre os quadros da administração pública.
Uma delegação parlamentar portuguesa, que visitou Macau
em Dezembro de 2025, identificou num relatório resistência de funcionários
públicos e de alguns magistrados locais à utilização da língua portuguesa no
exercício das suas funções, bem como a necessidade de responder ao aumento da
procura por cursos de português, num contexto em que existe o risco de
contratação directa de docentes por parte da China.
Para a advogada, a contradição é evidente: de um lado,
Portugal e China celebram a “dinâmica cooperação” e do outro, “muitos cidadãos
– e até funcionários públicos – não conseguem recorrer ao português em
procedimentos administrativos rotineiros”. “Documentos são predominantemente em
chinês, tribunais enfrentam atrasos por falta de quadros bilingues e serviços
públicos redirecionam falantes de português para cantonês ou inglês”, alertou.
Apesar disso, Linhares reconheceu existir uma
“resistência tenaz em Macau” por parte de “uma pequena comunidade de juristas,
tradutores e funcionários públicos” que continua a usar o português diariamente
nos órgãos administrativos, funcionando como “guardiões da linha temporal até
2049”.
De acordo com a Declaração Conjunta, assinada por Pequim
e Lisboa e que levou à transição de administração de Macau em 1999, a cidade
deveria manter os direitos, liberdades e garantias durante um período de 50
anos. Mas, sem reforço sistémico de Lisboa e Pequim, “a extinção prática do
português administrativo ocorrerá muito antes” dessa meta temporal.
O advogado Sérgio Almeida Correia partilha a mesma
preocupação, considerando que “a situação da língua portuguesa nos tribunais e
na administração pública tem sofrido uma involução nos últimos anos”. “Estamos
pior do que há cinco ou dez anos,” alertou à Lusa. De acordo com Correia,
embora haja mais pessoas a aprender o idioma, “são cada vez menos os que falam
português nos tribunais”. O jurista disse que “mais grave são os despachos,
promoções, sentenças e acórdãos em chinês na primeira instância, embora haja
alguns juízes sensíveis ao problema”.
A situação nos serviços do Ministério Público “é
dramática”, diz Correia, descrevendo que “ultimamente, não há um despacho, uma
notificação que seja, que chegue em língua portuguesa”. “Ao menos podiam
recorrer às ferramentas de tradução que usam a inteligência artificial, que
atualmente estão cada vez mais perfeitas, dizendo-o no despacho ou notificação.
Já seria uma ajuda”, notou.
O advogado critica a falta de tradutores qualificados e
considera incompreensível que “uma região com orçamentos superavitários, que
factura só no jogo mais de 20 mil milhões de patacas todos os meses”, não
consiga contratar “gente qualificada e bem paga” para fazer traduções nos
tribunais ou na Polícia Judiciária.
Nos tribunais, acrescenta, “os tradutores estão
sobrecarregados e a tradução durante diligências é muitas vezes incompleta,
deixando advogados e arguidos em desvantagem”. “O Código de Procedimento
Administrativo e a Lei Básica garantem que os residentes podem apresentar
requerimentos e receber resposta numa das línguas oficiais. Nos tribunais isto
é muitas vezes ignorado” descreveu.
Para o profissional de advocacia, isto contraria a
Declaração Conjunta e a Lei Básica, e é “mau para Macau e é mau para a China”.
“Dá uma péssima imagem da justiça que aqui se faz”, concluiu. In “Ponto
Final” – Macau com “Lusa”
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