O aumento do calor extremo está a redefinir a agricultura no Brasil, com impactos crescentes na produção e na segurança alimentar, segundo um relatório divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO)
No documento, elaborado em conjunto
com a Organização Meteorológica Mundial, afirma-se que "o calor extremo
está a tornar-se uma das ameaças mais graves para a agricultura a nível
global", afetando culturas, pecuária, pescas e florestas de forma
simultânea.
No caso brasileiro, o relatório inclui um estudo
específico sobre a onda de calor de 2024 e 2025, destacando efeitos combinados
de temperaturas elevadas e seca sobre vastas áreas agrícolas.
Segundo o relatório, estes fenómenos estão ligados às
alterações climáticas - ampliadas por um forte El Niño - e tendem a
tornar-se mais frequentes e intensos nas próximas décadas.
A FAO sublinha que o calor extremo
"atua como um multiplicador de risco", agravando impactos já
existentes sobre a produção alimentar, com quebras de colheitas e redução da
produção nacional, inclusive na pecuária, o que pressiona a inflação de alimentos.
Em relação à soja, alimento que o Brasil mais exporta, a
FAO observou que a produção foi duramente atingida, pois as temperaturas
"excederam o limite crítico de 30°C" em mais de 60% dos dias durante
a sua estação de crescimento.
Devido ao "stresse térmico implacável", a
estimativa oficial para a colheita brasileira de soja foi reduzida em quase
10%, resultando em milhões de toneladas de alimentos perdidos.
O calor extremo também favoreceu a proliferação de
pragas, como a "mosca-branca e fungos", que atacaram plantações de
batata, feijão e cana-de-açúcar em várias áreas produtoras no estado de São
Paulo.
A pecuária também foi amplamente afetada, com efeitos
registados em praticamente todo o território brasileiro.
A pecuária leiteira também sofreu um "impacto
significativo na saúde e produtividade" das vacas, especialmente no
Sudeste brasileiro, segundo o documento.
Vacas sob forte stresse por calor, acrescenta-se no
relatório, produzem menos leite e podem gerar descendentes com "desempenho
reduzido", o que representa uma perda económica irreversível para o
produtor rural.
Segundo a mesma fonte, em 2024 registou-se o "maior
número de focos de incêndio e de área queimada" desde 2010, sendo que os
picos mais evidentes foram no Centro-Oeste do Brasil atingindo os biomas da
Amazónia, Pantanal e Cerrado.
"Os incêndios florestais devastaram uma área
equivalente ao tamanho de Itália e causaram grave poluição atmosférica por
micropartículas", sublinhou.
Sem a alteração climática induzida pela atividade humana,
destaca-se no estudo, fenómenos devastadores como os incêndios no Pantanal em
2024 teriam sido "10.000
por cento menos frequentes" no território brasileiro.
Sobre a Amazónia, a FAO alerta que a combinação de calor
extremo, seca e degradação ambiental pode reduzir a resiliência da floresta,
aumentar o risco de incêndios e afetar o papel da floresta na regulação do
clima global.
No relatório estima-se que cerca de 7% da floresta seja
destruída para cada grau de aumento na temperatura global acima do limite de
1,5 °C.
Se o crescimento da floresta tornar-se negativo,
aponta-se no estudo, a região corre o risco crítico de transitar para uma fonte
líquida de emissões, acelerando o aquecimento global.
No relatório, chama-se a atenção para o mecanismo de
retroalimentação, gerado pela perda de cobertura florestal e pela exposição do
solo, o que provoca aquecimento da região.
Segundo a FAO, "em áreas da Amazónia, este ciclo de
retroalimentação com solos expostos pode aumentar os efeitos locais do
aquecimento em mais de 300%", agravando o impacto climático. In “Expresso
das Ilhas” – Cabo Verde com “Lusa”
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