Em seu derradeiro livro, Helio Brasil reconstrói, com uma linguagem dura, sem adornos, o mundo violento da periferia carioca
I
Este lead já estava pronto quando veio a notícia infausta: o autor faleceu dia 14 de março de 2025, sexta-feira, no Rio de Janeiro, aos 93 anos, deixando vasta obra que inclui livros de contos, novelas, romances e memórias, especialmente sobre o bairro carioca de São Cristóvão, onde, praticamente, sempre morou.
Seu último livro reúne contos que retratam o dia a dia que se vive numa grande metrópole, como o Rio de Janeiro, em que as pessoas saem às ruas todos os dias sem saber se voltam, tal a escalada de violência. O desprezo pelo ser (não só humano) atinge indiscriminadamente a todos, como se observa pelo conto que abre a obra, “Anima vili”, locução que se emprega a propósito de experiências científicas feitas originariamente em animais. Neste texto, conta-se a desdita de um chimpanzé de nome Bob, que, nascido em cativeiro, “habituado em experiências leves, seguidas por afagos e a oferta de frutas”, perdera a agressividade das feras e era “quase um homem entre homens”. Apesar disso, não escaparia de seu destino trágico, que não se conta aqui para que o leitor não perca o momento de surpresa, característica definidora do conto bem urdido.
Para Eliezer Moreira, escritor e jornalista, autor do excepcional romance Crônica da Passagem do Inglês (Recife, Companhia Editora de Pernambuco – Cepe, 2024), autor do prefácio, neste livro, “as palavras dizem o que as coisas são e como são, sem qualquer preocupação com a assepsia que o politicamente correto pretende impor à linguagem”. O que significa que aqui os personagens falam como se ouve nas ruas, esbanjando preconceito, grosseria e vulgaridade.
É o que o leitor irá encontrar no miniconto intitulado “Não perca contato” em que o morador de um prédio faz uma análise despudorada de pessoas que o cercam diariamente: “(...) Não gosto daquela gente. Só converso com o Zenilson. É um pau-de-arara legal, meio boboca. Faz a limpeza do prédio como a cara dele... Agora, comigo é bem legal... Mas tem gente que não gosta de mim. É a cor. Quem nasce preto sabe disso muito cedo. “Ah, que garotinho bonitinho, gracinha... pena que é pretinho”. Já ouvi de muita boca bonita ou desdentada (...)”.
II
Já no extenso conto “As sentenças”, que encerra o livro, o que o leitor vai acompanhar é a desdita de um coronel médico chamado Amoroso – que não se perca pelo nome... –, que vive numa confortável casa, depois de uma carreira coroada como caçador de esquerdistas à época da ditadura militar (1964 a 1985), “habituado a ver ordens cumpridas e jamais discutidas”, que, hoje sabe-se por relatórios escapados dos arquivos norte-americanos, incluíam o “desaparecimento” sumário de muitos que não concordavam com aquele regime de arbítrio e violência.
Para azar do coronelzão, a filha Lúcia, apesar dos traços físicos da mãe, sairia com o gênio autoritário do pai. Só para contrariá-lo, ela ainda por cima haveria de namorar com toda a libertinagem um esquerdista pobretão. O destino de ambos seria cruel, vítimas de uma tocaia armada por dois marginais da periferia.
Como se vê, o que o leitor terá pela frente nestes onze contos é uma linguagem crua, sem adornos, como no miniconto “O último brilho da tarde”, que reproduz uma cena que ocorre no barraco de uma favela carioca em que um marginalizado, de nome Tonga, apaga outro, conhecido como Carneirinho, a mando de um comandante do tráfico: “(...) Tonga disparou. Uma vez. O outro retorceu-se, dobrando o corpo sobre a tábua, mão esticada na esperança de alcançar... o quê? Outro disparo. A brancura da face salpicou-se de vermelho enquanto os dedos crispavam-se no objeto procurado. Terceiro disparo. Um livro de encadernação negra voou qual morcego pelo aposento, batendo contra a parede. Carneirinho caiu no chão de terra batida e achatou-se na sopa rubra que lhe escorria do peito (...)”.
Enfim, como diz Eliezer Moreira, “são histórias de um Rio de hoje, que, no entanto, têm um olhar para o de ontem. E pelo menos no que se refere à violência e ao submundo do sexo e da malandragem, as diferenças entre o que era e o que é a cidade são muito pequenas. É isso que mostra “Na Rua do Pecado”, por exemplo, conto ambientado no velho Mangue”.
III
Helio Brasil Corrêa da Silva (1931-2025), formado em 1955 em Arquitetura pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), trabalhou no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), atual BNDES, de 1955 a 1984, tendo supervisionado o projeto de construção da nova sede da entidade, inaugurada em 1982. Projetou em equipe edifícios residenciais, comerciais e industriais no Rio de Janeiro e em outros Estados. Lecionou durante 20 anos a disciplina Projeto de Arquitetura na Universidade Santa Úrsula e foi professor-visitante na UFRJ e na Universidade Federal Fluminense (UFF).
Depois que se aposentou, passou a se dedicar totalmente à literatura, tornando-se um dos mais importantes ficcionistas da atualidade, com extensa obra que abarca variados gêneros. Dedica-se à escrita ficcional desde 1958, tendo obtido menções em concursos de contos.
Fez estreia tardia em livro, aos 64 anos, com O Anjo de Bronze e Outros Contos (Oficina dos Livros, 1995). Depois publicou os romances A Última Adolescência (Bom Texto, 2004) e Ladeira do Tempo-Foi (Synergia Editora, 2017), ambientados no tradicional bairro de São Cristóvão, retornando ao gênero do conto em 2018 com O Perfume que Roubam de Ti... e Outras Histórias (Synergia Editora), título assumidamente inspirado nos versos da famosa canção “As rosas não falam”, do compositor carioca Angenor de Oliveira, o Cartola (1908-1980).
Nas áreas de História e de Arquitetura, como memorialista, publicou ainda o excelente São Cristóvão: Memória e Esperança (Prefeitura do Rio de Janeiro/Relume-Dumará, Coleção Cantos do Rio, 2004), O Solar da Fazenda do Rochedo e Cataguases (2010), em colaboração com José Rezende Reis; e Tesouro: o Palácio da Fazenda, da Era Vargas aos 450 anos do Rio de Janeiro (Editora Pébola, 2015), em parceria com o historiador e arquiteto Nireu Cavalcanti, ex-diretor da Escola de Arquitetura da UFF.
Como novelista, publicou Pentagrama Acidental (Editora Ponteiro, 2014). Participou também das coletâneas de contos Doze Autores e Suas Histórias (2003); A Marquesa de Santos (2004); Tempos de Nassau (2005); Ásperos e Macios (2010); e O Feitiço do Boêmio (2010), em comemoração aos 100 anos do compositor e sambista Noel Rosa (1910-1937), publicadas pela Editora Bom Texto; e O Rei, o Rio e Suas Histórias (2013), publicada pela Editora 7 Letras.
Em 2016, publicou Cadernos (Quase) Esquecidos (Sarau do Beco), crônicas autobiográficas em edição artesanal, e, em 2019, Delírios, poesias (edição de autor). Foi ainda artista plástico, sendo o responsável pelo guache que ilustra a capa de Delírios. São também suas as ilustrações que constam do livro Crônicas Históricas do Rio Colonial (Civilização Brasileira, 2004), de Nireu Cavalcanti.
IV
Ao comunicar a amarga notícia, Nireu Cavalcanti disse que havia perdido seu “irmão mais velho” e fez um retrospecto da amizade que mantiveram. “Foi em 1974 que tive um encontro, na Escola de Arquitetura da Universidade Santa Úrsula, com um “baixinho de terno e gravata” que vinha, pela primeira vez, lecionar no Curso de Arquitetura”, lembrou.
“Procurei o baixinho para nos conhecermos. Helio disse que era carioca de São Cristóvão, arquiteto modernista e que gostava de cinema, teatro e de artes plásticas. Escrevia contos, poesias, crônicas, romances e produzia artigos sobre a cidade do Rio, sua paixão, publicando-os no jornal do BNDE, onde trabalhava. Era um homem bom e muito culto”, acrescentou, ressaltando que o amigo se “tornou um excelente professor, querido por seus alunos”.
“Nas férias de 1974, encontramo-nos, por acaso, em Recife: Helio, com sua mulher, Clóris, eu e Regina Prado, minha mulher. Nesse momento, selou-se uma amizade entre os casais que se espalhou entre as duas famílias. Nossos corações se identificaram e nos tornamos amigos profundos. Irmãos adotivos”, recordou. “A nossa amizade cresceu com as realizações conjuntas nas áreas de projetos de arquitetura, de elaboração de textos sobre arquitetura e história urbana, assim como na literatura”, acrescentou.
“O encontro com o Helio me engrandeceu e me ensinou sobre a bondade, a integridade moral, a solidariedade, a criação, a cultura, o trabalho sério e a importância da amizade”, disse Nireu. “Sou muito agradecido ao amigo-irmão por termos nos encontrado e sei que no céu ele ensinará muito aos seus amigos e amigas que serão desenhados magistralmente”, ressaltou. E concluiu: “Que inveja fico desses santos, santas e anjos que lhe cercarão. Acho que Deus estava com inveja dos mortais terrestres que desfrutavam de sua amizade!”.
Casado com Clóris, Helio Brasil deixa três filhos: Gustavo, Glaucia e Livia. E uma vasta obra para ficar na história da Literatura Brasileira. Adelto Gonçalves - Brasil
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Onze Contos Malditos, de Helio Brasil, com prefácio de Eliezer Moreira e texto de apresentação de Gilberto Moog. Rio de Janeiro: Editora Lacre, 106 páginas, R$ 60,00, 2024. Site: www.editoralacre.com.br
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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012), Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, LetraSelvagem, 2015), e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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