Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

“Ele está no meio de nós”: um romance místico

                                                          I
Depois de lançar, ao final de 2017, Tibete: de quando você não quiser mais ser gente (Rio de Janeiro, Editora Jaguatirica), o mais recente exemplo de um bildungsroman (romance de formação) na Literatura Brasileira, Silas Corrêa Leite (1952) retorna à cena literária com Ele está no meio de nós (Curitiba, Kotter Editorial, 2018), que pode ser definido como um romance místico, religioso ou ecumênico. Tendo sido iniciada em 1998, a obra foi concluída em 2015 e é a primeira de uma anunciada trilogia. É de se destacar que, nos últimos tempos, o romancista lançou também Goto, a lenda do reino encantado do barqueiro noturno do Rio Itararé (Florianópolis: Clube de Autores Editora, 2013), romance pós-moderno, considerado a melhor obra do escritor, e Gute-Gute, barriga experimental de repertório (Rio de Janeiro: Editora Autografia, 2015).

A exemplo daqueles três romances que foram recebidos com boas críticas, Ele está no meio de nós não foge à regra, preservando o estilo anárquico e demolidor do seu autor. Desta vez, porém, Silas Corrêa Leite entra num campo místico, às vezes, e evangélico, outras vezes,  narrando a história de um cidadão da mítica cidade de Itararé, localizada na divisa entre os Estados de São Paulo e Paraná, que ficou para a história como local de um episódio pitoresco da chamada Revolução de 1930, quando Getúlio Vargas (1882-1954) partiu de trem de Porto Alegre rumo ao Rio de Janeiro, então a capital federal, para empolgar o poder político, num golpe de estado típico em que a nascente elite industrial derrotou a decadente elite cafeicultora representada pelo presidente Washington Luís (1869-1957) e alguns velhos oligarcas de São Paulo e Minas Gerais. Não por acaso, Itararé é também a cidade natal do autor.

                                               II
O romance narra as vicissitudes vividas por um cidadão pobre, renegado pelo pai empresário rico da cidade de origem, que, depois de décadas de muito trabalho e estudos na cidade de São Paulo, conseguiu subir na vida, tornando-se um new rich da chamada alta sociedade paulistana.  Apesar disso, Paulo de Tarso Trigueiro, o filho renegado, conseguiu seguir os passos tortuosos do pai e enriquecer, em meio a negócios nem sempre lícitos. Mas, um dia, o então chamado doutor Paulo de Tarso, ao sair de um luxuoso jantar numa zona nobre da capital paulista, teve uma visão que o fez descobrir que de pouco vale ajuntar tesouros na Terra.

Ao contemplar do alto de um prédio os periféricos cantões miseráveis da cidade, o empresário recuperou a sensibilidade sublimada com muito dinheiro acumulado de forma não necessariamente legal. E viu a situação de degradação a que muitos foram relegados para que corruptos pudessem usufruir a riqueza, através de negócios escusos, geralmente envolvendo recursos públicos, desviados para bancos estrangeiros.

É o que se pode constatar neste trecho de uma carta deixada pelo rico empresário a um filho: “Nasci pobre filho bastardo de pai rico que ignorou minha própria existência, lutei muito, trabalhei feito um espeloteado, passei fome, vi minha mãe morrer com o pouco que eu lhe pudera dar, no entanto, vim para Sampa e aqui carreguei meu fardo, combati o meu combate, fiquei rico, casei bem, tive filhos maravilhosos, tinha status, dinheiro, poder, força, a influência política, no entanto, NUNCA FUI FELIZ” (p. 116).

Ferido na alma, a personagem de Silas Corrêa Leite decide tomar uma decisão radical na vida, disposto a largar tudo e doar o muito que tem aos fracos e oprimidos, atendendo a uma máxima que Cristo preconizou nos Evangelhos, indo morar nas ruas com os fracos e oprimidos, para assim tentar encontrar Deus e ser salvo. Refugou a esposa, preparou os papéis legais para a nova vida, deixando a empresa para os filhos e a herança para quem de direito, doando parte de sua fortuna a casas de caridade. Como se tivesse sido tomado por um arrebatamento no caminho de Damasco, o doutor Paulo viraria o irmão Saulo ou o beato Saulo, indo morar nas ruas com os humilhados e ofendidos, como forma de encontrar Deus.

                                               III
Na periferia e nos escombros da grande cidade de São Paulo, conhece também o mundo do crime, o mundo-cão. “Também, ali num ermo subterrâneo fétido, úmido e cheio de ratos de um canto na Avenida Paulista com a Estação Paraíso do Metrô, havia um Banco de Sangue que supria – à custa de doadores forçados (principalmente as instruídas vítimas do rol dos miseráveis) – os bancos paulistas, brasileiros e mesmo latino-americanos, pertencentes à chamada iniciativa privada. (...) Quando alguém morria por seguidas doações – eles estimulavam quimicamente – eram simplesmente desossados e os ossos vendidos como se de animais para fábricas de goma arábica, ou exportados” (p. 128).

Adaptado à nova (e sofrida) vida, escreveria mais tarde a um dos filhos: “Não tenho que ouvir discursos pomposos, chatos, cheios de falsidade. Não tenho que apertar a mão de um ladrão e chamá-lo de “colega” quando são espertos e não experts, mesmo sabendo do superfaturamento de obras, de obras públicas inúteis, de quadrilhas de doutores, bacharéis, liberais e “autoridades” constituídas” (p. 118).

Por depoimento do autor ao final do livro, o leitor vai descobrir também que a história deste Paulo de Tarso moderno seria verídica, tendo o autor muito ouvido falar dele em sua Itararé natal e, depois, procurado parentes da personagem, que confirmariam muito do que ouvira, embora muitos tivessem preferido não se identificar, bem como mendigos recuperados que teriam assegurado a veracidade de muitos fatos.

Além disso, teria localizado em Itararé os cadernos de rascunhos, que reproduz no livro. “Não inventei nada, nem enfoque ideológico ou religioso. Apenas formatei um relato do que de inteiro e crível entendi”, garante o autor. Cabe agora ao leitor conhecer e avaliar este livro que constitui um testemunho de esperança e fé na espécie humana, apesar de tudo.

                                               IV
Silas Corrêa Leite é poeta, romancista, letrista, professor, desenhista, jornalista, resenhista, ensaísta, conselheiro diplomado em Direitos Humanos e membro da União Brasileira de Escritores (UBE), além de blogueiro e ciberpoeta. É formado em Direito e Geografia, além de ter cursado extensões e pós-graduações nas áreas de Educação, Filosofia, Inteligência Emocional, Jornalismo Comunitário e Literatura na Comunicação. Tem mais de 20 livros publicados, entre os quais Porta-Lapsos (poemas) e Campo de Trigo Com Corvos (contos). É autor ainda do primeiro livro interativo da Internet, o e-book O rinoceronte de Clarice. Foi finalista do Prêmio Telecom, Portugal. Adelto Gonçalves - Brasil

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Ele está no meio de nós, de Silas Corrêa Leite. Curitiba: Kotter Editorial (Sendas Edições), 208 páginas, 2018. E-mail da editora: contato@kotter.com.br E-mail do autor: poesilas@terra.com.br
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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Um mergulho na história de Minas Gerais

                                                          I
O território de Minas Gerais talvez tenha sido, entre as 27 unidades que compõem a federação brasileira, o mais contemplado até hoje por estudos acadêmicos, desde os tempos que antecedem a capitania de São Paulo e Minas de Ouro, criada em 1709, e a capitania de Minas Gerais, surgida em 1720, passando à província do Império a partir de 1822 e estado com a República em 1889. Mas, como sempre há muito o que se descobrir e estudar, tudo o que diz respeito à região de Minas Gerais atrai o olhar dos especialistas, resultando em estudos enriquecedores que satisfazem o leitor de bom gosto.

Um bom exemplo disso são os trabalhos apresentados durante os dois seminários organizados pelo Instituto Cultural do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG Cultural) para comemorar os seus 30 anos de atuação nas áreas de artes e cultura. O primeiro foi realizado em dezembro de 2017, com curadoria da professora Eliana de Freitas Dutra, e discutiu a cidade de Belo Horizonte como espaço de história e cultura.

Já o segundo, realizado em maio de 2018, com curadoria do professor Caio César Boschi, procurou abordar, de maneira ampla, a trajetória de Minas Gerais à luz do processo histórico. Os textos lidos pelos conferencistas nos dois seminários foram reunidos em Estudos sobre Belo Horizonte e Minas Gerais nos trinta anos do BDMG Cultural (Belo Horizonte, BDMG Cultural, 1ª ed., 2018).

                                               II
Um dos mais lúcidos ensaios é “Os caminhos da economia de Minas: passado, presente e futuro”, do economista Paulo Roberto Haddad, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento (1992-1993), incluso na segunda parte desta obra (“Minas e seus caminhos”) e apresentado durante o seminário realizado em maio de 2018. Neste texto, o economista, depois de apresentar as causas para as quatro décadas de baixo crescimento pelas quais o Estado de Minas tem passado, defende a necessidade de se implantar um novo ciclo de expansão para melhorar os indicadores de emprego, de renda, de condições de vida da população.

Para Haddad, não basta atribuir os problemas de baixo crescimento e de desemprego em Minas à recessão econômica brasileira, mas é preciso arquitetar um “novo modelo de desenvolvimento sustentável, tendo como fundamentos ideias renovadas, instituições revitalizadas e instrumentos e mecanismos reconstruídos do velho modelo que se exauriu”.

Outro trabalho de muitos méritos é “Sentido e sentimento de Minas” em que o jornalista João Paulo Cunha, ex-professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC-MG), pesquisador da Escola de Saúde Pública de Minas Gerais e presidente do BDMG Cultural, procura tentar definir “o que é ser mineiro”.

Para tanto, faz uma digressão sobre as obras daqueles autores que contribuíram para a formação desse sentido de mineiridade, ou seja, os intérpretes de Minas, como Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Alceu Amoroso Lima (1893-1983), Sylvio de Vasconcellos (1916-1979), João Camillo de Oliveira Torres (1915-1973), Otto Lara Resende (1922-1992), Darcy Ribeiro (1922-1997), Pedro Nava (1903-1984), Afonso Arinos de Mello Franco (1905-1990), Francisco Iglesias (1923-1999), José Carlos Reis e outros, para concluir com uma visão do trabalho da professora Sônia Maria Viegas Andrade (1944-1989).

Educadora e pensadora de muito destaque nas décadas de 1970 e 1980, esta autora publicou A Vereda Trágica do “Grande Sertão: Veredas” (São Paulo, Loyola, 1985), sua dissertação de mestrado, uma leitura filosófica do romance de Guimarães Rosa (1908-1967), e teve sua obra reunida em Escritos: Filosofia de Sônia Viegas (Belo Horizonte, Tessitura, 2009, 3 v.), organização do professor Marcelo Pimenta Marques (1956-2016).

                                               III
Já na primeira parte do livro dedicada ao seminário “Escrita, memória, movimento: BH 120 anos”, são de se destacar os dois textos de abertura:  “Belo Horizonte entre palavras e formas: o que restou as modernidade”, de Carlos Antônio Leite Brandão, professor aposentado de Arquitetura da UFMG, e “Milhares de brilhos vidrilhos – Mário, Drummond e Nava na Belo Horizonte dos anos 1920”, de Wander Melo Miranda,   professor emérito e professor titular de Teoria da Literatura na UFMG. Nestes textos, os autores se debruçam sobre as palavras e formas que desenharam a modernidade belo-horizontina e “respondem pelas suas sobrevivências, ou esbatimentos, no presente”, como observa o texto de abertura a curadora do seminário, Eliana de Freitas Dutra.

Outro ensaio que se destaca é “Cidade e canção: narrativas sobre o espaço e o tempo”, de Bruno Viveiros Martins, doutorando em História pela UFMG e autor do livro Som Imaginário: a reinvenção da cidade nas canções do Clube da Esquina (Editora UFMG, 2009),  em que o ensaísta procura  decodificar a fisionomia de Belo Horizonte por meio do mapa sono criado pela canção popular.

Enfim, como observa o historiador Caio César Boschi na apresentação que fez para a segunda seção do livro, o que se pode dizer é que toda esta obra é um convite para se conhecer um pouco mais esse mistério chamado Minas Gerais.

                                                           IV
Eliana de Freitas Dutra, doutora em História pela Universidade de São Paulo (USP), com pós-doutoramento na École des Hautes Études em Sciences Sociales na França, é  professora do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), além de pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e vice-presidente do International Committee of Historical Sciences. É autora de O Ardil Totalitário – Imaginário Político no Brasil dos Anos de 1930 (Belo Horizonte, Ed. UFMG, 2012, 2ª ed.), Rebeldes Literários da República (São Paulo, Humanitas, 2005), entre outras obras.  

       

Caio César Boschi, doutor em História Social pela USP, é professor titular aposentado de História do Brasil da UFMG e professor titular do Departamento de História da PUC-MG. Entre 1999 e 2009, foi professor convidado e leitor em História do Brasil na Universidade de Lisboa e na Universidade do Porto. É membro da Academia Mineira de Letras, da Academia Portuguesa de História e do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil (IHGB).

É autor de Os Leigos e o Poder: irmandades e política colonizadora em Minas Gerais (São Paulo, Ática, 1986); Barroco Mineiro: arte e trabalho (São Paulo, Brasiliense, 1986); Por que estudar História? (São Paulo, Ática, 2007); O Brasil-Colônia nos arquivos históricos de Portugal (São Paulo, Alameda, 2011); O Cabido da Sé de Mariana (1745-1820): documentos básicos (Belo Horizonte, Fundação João Pinheiro; Ed. PUC-MG, 2011); e Exercícios de pesquisa histórica (Belo Horizonte, Ed. PUC-MG, 2011).

Na área da Arquivística, publicou Fontes primárias para a História de Minas Gerais em Portugal (Belo Horizonte, Fundação João Pinheiro, 1998) e é co-autor do Inventário da Coleção Casa dos Contos, livros – 1700-1891 (Belo Horizonte, PUC-MG; Fapemig 2006). Elaborou os catálogos da documentação avulsa das capitanias de Minas Gerais, Maranhão, Pará e Rio Negro do acervo do Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), de Lisboa. Em 1997, foi distinguido pelo governo português com a comenda da Ordem do Infante Dom Henrique. Adelto Gonçalves - Brasil

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Estudos sobre Belo Horizonte e Minas Gerais nos trinta anos do BDMG Cultural, de Eliana de Freitas Dutra e Caio C. Boschi (orgs.). Belo Horizonte, BDMG Cultural, 408 p., 2018.


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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Para se conhecer a história do Rio de Janeiro


                                                          I
O jornalista Elio Gaspari, autor de cinco inolvidáveis livros sobre o regime militar (1964-1985), em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, dia 30 de janeiro de 2019, observou que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso gosta de relembrar uma cena na qual o historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) discutia o tamanho de algumas figuras do Império e ensinou: "Doutora, eles eram atrasados. Nós não temos conservadores no Brasil. Nós temos gente atrasada". Em seguida, o jornalista fez uma relação sucinta de males causados ao Brasil e à população brasileira por atitudes e decisões tomadas por gente despreparada e inculta, ou seja, “atrasada”, que chegou ao poder tanto pela força das armas como por acordo entre elites ou pelo voto popular.

Para ter uma ideia dos males que esse tipo de “gente atrasada” já causou à cidade do Rio de Janeiro, o antigo Distrito Federal, o leitor não pode deixar de ler Efemérides Cariocas (Rio de Janeiro, edição dos autores, 2016), dos historiadores Neusa Fernandes e Olinio Gomes P.  Coelho.  Ali pode constatar um dos maiores atentados à inteligência e à cultura nacional que foi a demolição a 5 de janeiro de 1976 do Palácio Monroe, projetado para representar o Brasil na Exposição Internacional de Saint Louis, nos Estados Unidos, e inaugurado em 30 de abril de 1904.

O edifício abrigou o Ministério de Viação e Obras Públicas, a Câmara dos Deputados e o Senado Federal, a partir de 1915, até a sua mudança para Brasília, em 1960. Apesar dos protestos da população e de entidades ligadas à engenharia e à arquitetura, o ditador da época, Ernesto Geisel (1907-1996), determinou ao ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen (1935-1997), a demolição do palácio, sem quaisquer justificativas técnicas e culturais. O local seria revitalizado com a instalação de um antigo chafariz da cidade e a construção de uma garagem subterrânea (p.24-25).

Outro exemplo está à página 457 onde aparece a foto do antigo solar do marquês de Inhambupe, na Praça da República, 25, que foi demolido em 1978 para que o Banco do Brasil, seu então proprietário, ali instalasse um centro operacional de computação. O local funciona até hoje como estacionamento de veículos do Corpo de Bombeiros, a exemplo do edifício neoclássico onde funcionou a Escola Nacional de Belas Artes, na Avenida Passos e Rua Gonçalves Ledo, projetado pelo arquiteto francês Grandjean de Montigny (1776-1840), inaugurado em 1816 e mandado derrubar em 1936 pelo então ministro da Fazenda, Arthur de Souza Costa (1893-1957), conforme se lê no livro Tesouro: o Palácio da Fazenda da Era Vargas aos 450 anos do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, Pébola Casa Editorial, 2015, p.88-91), dos professores, arquitetos e pesquisadores Helio Brasil e Nireu Cavalcanti. Lá, hoje também funciona um estacionamento de veículos.

Através de vários verbetes, o leitor pode acompanhar também a trajetória do engenheiro Francisco Pereira Passos (1836-1913) que, como prefeito de 1902 a 1906, promoveu a renovação urbanística da região central do Rio de Janeiro, especialmente com a abertura da Avenida Central, hoje Avenida Rio de Branco, liderando a política do bota-abaixo, que modificou o cenário carioca e destruiu vários prédios remanescentes do período colonial e da época do Império, além de expulsar a população pobre, fazendo-a subir os morros para residir em moradias precárias (favelas).

                                               II
O livro reúne outros principais fatos que ocorreram na cidade do Rio de Janeiro e que merecem ser conhecidos, além de “abrir caminhos para novas avaliações e pesquisas”, como observam os autores no texto de apresentação. É de se ressaltar que a pesquisa não ficou limitada a fatos políticos, mas procurou percorrer o processo histórico da cidade, reunindo um número significativo de verbetes e a reprodução de dezenas de imagens e documentos.

Enfim, é um livro que contempla mais de 451 anos de História, oferecendo imagens que completam a informação e preenchem uma lacuna na historiografia do Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa, título dado pelo escritor maranhense Coelho Neto (1864-1934), como escreve a historiadora Neusa Fernandes no texto de abertura. Já o arquiteto Olinio Gomes P.  Coelho ressalta que o livro não pretende ser um tratado da história do Rio de Janeiro, mas oferece subsídios para a sua elaboração.

Ele cita outros livros de referência, como Efemérides Brasileiras (1946), de José Maria da Silva Paranhos Júnior, o  Barão do Rio Branco (1845-1912), com fatos ocorridos até o final do século XIX, Efemérides Cariocas (1965), de Antenor Nascentes (1886-1972), com acontecimentos até maio de 1946,  Efemérides do Teatro Carioca, de Otto Carlos Bandeira Duarte (c.1880-?), com fatos até agosto de 1957, e Efemérides Luso-Brasileiras, de Heitor Lyra (1893-1973), publicado em Lisboa em 1971, com casos ocorridos entre 1807 e 1970. Além desses livros, a pesquisa foi fundamentada no levantamento e análise de outras fontes impressas, como documentos oficiais e jornais, com consultas em arquivos públicos e particulares, museus, bibliotecas e coleções particulares.

                                               III
Neusa Fernandes, nascida no Rio de Janeiro, tem graduação em Pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), 1960, e em Museologia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFRJ), 1968, além de mestrado em História Social, 1999, e doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), 2002, e pós-doutorado pela UERJ, 2009. É pós-graduada em História pela Universidade de Madri.

Professora de História do Estado do Rio de Janeiro, título conquistado por meio de concurso público, no qual obteve o primeiro lugar, atuou em várias universidades cariocas. Foi pró-reitora de Pesquisa na Universidade Severino Sombra, em Vassouras, e diretora do Museu da República, Museu do Primeiro Reinado, Museu da Cidade e outras instituições. Pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), presta serviços ao Instituto Brasileiro de Medicina de Reabilitação. É vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro (IHGRJ) e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Vassouras (IHGV).

É autora de 14 livros de História e de Museologia, entre os quais A Inquisição em Minas Gerais (Rio de Janeiro, Mauad X, 2016), Eufrásia e Nabuco (Rio de Janeiro, Mauad Editora, 2012) e Dicionário Histórico do Vale do Paraíba Fluminense, em co-autoria com  Irenilda Cavalcanti e Roselene de Cássia Coelho Martins (Vassouras, IHGV/Nova Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro, 2016).

Olinio Gomes Paschoal Coelho, carioca, arquiteto, urbanista, livre-docente e doutor em Arquitetura pela UFRJ, especialista em conservação e restauração de monumentos e sítios históricos pelo Centro de Estudos para a Preservação e Restauração de Bens Culturais da Universidade de Roma/Unesco, é professor titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, da Universidade Santa Úrsula, do Instituto Bennett de Ensino e das Faculdades Integradas Silva e Souza.

Foi autor e executor de diversos projetos de conservação e restauração, entre os quais a primeira restauração do chafariz da Praça XV de Novembro, a restauração do Solar Del Rei, em Paquetá, da casa da antiga Fazenda do Capão do Bispo, da cobertura do Museu Nacional de Belas Artes e do Palácio Nilo Peçanha, para a instalação do Museu Histórico do Estado do Rio de Janeiro, entre outras obras.

É autor de Do Patrimônio Cultural e Catálogo Geral de Desenhos e Pinturas de Grandjean de Montigny e co-autor de 75 Anos do Crea-RJ e Efemérides Vassourenses. É sócio efetivo do IHGRJ e presidente do IHGV, além de membro do Conselho Municipal de Cultura do Rio de Janeiro. Adelto Gonçalves - Brasil

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Efemérides Cariocas, de Neusa Fernandes e Olinio Gomes P. Coelho. Rio de Janeiro, edição dos autores, 780 p., 2016, R$ 41,90.


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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

terça-feira, 27 de novembro de 2018

A arte do azulejo em Portugal e no Brasil

                                                          I
Considerada arte menor ou apenas decorativa, a azulejaria ganha agora foro de expressão artística com o estudo Desenhadores & Azulejeiros – Ensino e Aprendizagem, Arquitetura e História (Rio de Janeiro, Synergia Editora, 2018), de Clara Emília Sanches Monteiro de Barros Malhano e Hamilton Botelho Malhano (1947-2017), que resgata a história de vida de dois artistas portugueses – José Colaço (1868-1942) e Manuel Félix Igrejas (1928) –, além de analisar o ensino das Belas Artes no Brasil, o que inclui a azulejaria, e a sua relação com a arquitetura neocolonial e modernista. Para tanto, o trabalho, segundo definição dos autores, procura entender as “técnicas artesanais, manufatureiras e industriais da produção cerâmica azulejeira luso-brasileira em relação a outras produções de azulejos enquanto arte de caráter internacional”.

Nascido no Tânger, Marrocos, Colaço, de origem aristocrata, com formação acadêmica, pensou em emigrar para o Brasil e chegou a adquirir bilhete de viagem, mas deixou de fazê-lo porque a morte o alcançou antes, já na idade madura. Deixou atrás de si uma série de trabalhos, dos quais os mais famosos são os painéis de azulejos que decoram o grande átrio da Estação de São Bento, no Porto, desde 1915, e até hoje encantam os passageiros que por lá passam pela primeira vez ou não, e a parede de uma sala na Casa do Alentejo, próxima aos Restauradores, em Lisboa, de 1918.  No Brasil, porém, é mais conhecido pelos painéis da fachada principal do Estádio de São Januário, do Clube de Regatas Vasco da Gama, no Rio de Janeiro, que produziu na década de 1930.

Caricaturista e pintor de fama à época, Colaço esteve no Brasil em 1908 para participar da Exposição Nacional Comemorativa do 1º Centenário  da Abertura dos Portos do Brasil às Nações Amigas de Portugal e Algarves, onde se encontrou com o arquiteto português Ricardo Severo (1869-1940), seu amigo, ligado ao famoso escritório Ramos de Azevedo, de Francisco de Paula Ramos de Azevedo (1851-1940), de São Paulo, responsável pela construção de muitas casas e edifícios, que haveria de indicá-lo para vários trabalhos. Estabelecido temporariamente no Brasil, Colaço haveria de realizar a azulejaria do edifício-sede da Granja Guarany, em Teresópolis, da casa César Rabelo, em Petrópolis, da varanda do palacete Ortigão, no Cosme Velho, no Rio de Janeiro, e de algumas residências em Belo Horizonte e São Paulo, algumas projetadas por Ricardo Severo e Ramos de Azevedo. A casa de Ricardo Severo, a chamada “casa lusa”, na rua Tanguá, na capital paulista, também receberia painéis do artista, bem como a sua casa de praia no Guarujá.

De volta a Portugal, haveria trabalhar na Fábrica de Cerâmica Lusitânia, em Lisboa, fazendo painéis para várias residências particulares, como a do historiador de arte e etnógrafo açoriano Luís Bernardo Leite de Ataíde (1883-1955), atual Convento de Nossa Senhora de Belém, em Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel, nos Açores. O prédio do Aquário Vasco da Gama, no Dafundo, no município de Oeiras, próximo a Lisboa, embora tenha sido inaugurado em 1898, só em 1931 receberia no frontão um painel de Colaço, em que se vê Netuno em carro puxado por cavalos marinhos em meio ao mar.

Em 1934, Colaço haveria de ir a Pangim, em Goa, trabalhar o tema “Os Lusíadas” para a entrada do Instituto Vasco da Gama, atual Instituto Luís de Meneses Bragança. De acordo com os autores, Colaço seria também o primeiro pintor de azulejos a utilizar a técnica de serigrafia ou silk screen na decoração azulejar de um conjunto de painéis executados para uma vila no Alentejo. Seus painéis iriam também decorar residências e edifícios em Angola e Moçambique. Em 1937, o conde António Dias Garcia (1859-1940) haveria de encomendar três imensos painéis a Colaço sobre a Escola de Sagres e o infante D. Henrique (1394-1460) a fim de ofertá-los ao Liceu Literário Português, do Rio de Janeiro.

                                               II
Já Manuel Félix Igrejas, autodidata, nascido na vila de Melgaço, no Alto do Minho, Norte de Portugal, próximo à fronteira com a Galiza, província da Espanha, emigrou em 1952  para o Brasil, passando a morar no Rio de Janeiro, onde deixou uma extensa folha de serviços prestados com vários de seus trabalhos expostos nas paredes de instituições luso-brasileiras, inclusive também na antessala da diretoria do Vasco da Gama no Estádio de São Januário e no Liceu Literário Português.

Depois de comandar a direção cultural da Casa do Minho, no Rio de Janeiro, por largos anos, Igrejas mudou-se em 2015 para a cidade de Campinas, ao lado da esposa, para ficar mais próximo da filha mais velha. Infelizmente, muitas das obras azulejares de Igrejas, bem como as de Colaço, no Brasil foram destruídas não só pela incúria do tempo como pela estupidez e ganância humanas e, especialmente, por dirigentes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que, segundo os autores, haveriam de promover uma “caça predatória aos exemplares de arquitetura neocolonial”.

Em entrevista com o pintor de azulejos, a professora Clara Emília pôde reconstituir com maiores detalhes a sua trajetória, desde a infância na vila de Melgaço, onde o pequeno Manuel se punha a imitar o irmão António Eduardo, oito anos mais velho, que já gostava de desenhar. Ambos se valiam de um espólio de esboços, pinturas e desenhos deixado por um irmão, Ventura (1906-1928), primogênito, que, aos 16 anos, deixara a pequena localidade por sentir que ali não haveria muito futuro para si e sua arte. Seguiria para a África e, dois anos mais tarde, iria para Belém do Pará, onde morreria ainda muito jovem.

Da infância, Igrejas recorda de abrir com sofreguidão um suplemento de desenhos coloridos intitulado Mickey, baseado no personagem do criador norte-americano Walt Disney (1901-1966), que saía encartado no diário O Primeiro de Janeiro, do Porto, o que era possível porque um de seus tios fazia a assinatura do jornal. Da adolescência, lembra de quando, aos 14 anos de idade, fez a sua primeira exposição mostrando trabalhos executados a carvão e a pastel. Aos 19 anos, já fazia cartazes para o cinema da vila.

Sem perspectivas, Igrejas, em meados de 1952, decidiu aceitar uma passagem sem volta para o Rio de Janeiro oferecida por um tio. Chegaria ao Brasil no começo de setembro e procuraria outro tio que era atacadista e tinha uma loja de casimiras no centro da cidade e morava no Catumbi. Lá, o azulejista viveria até 1954, quando haveria de se casar. Teve vários empregos até que conheceu um empresário do ramo, para quem passou a trabalhar num atelier que produzia ornamentos em louças e azulejos.

A partir de então, a carreira de Igrejas como azulejista foi rápida e em ascensão. Logo estaria fazendo painéis para o salão do Clube Carnavalesco Fenianos, na Lapa. Na mesma época, faria quatro painéis de grande porte para um hotel em Assunção, no Paraguai. Imagens de santos da Igreja Católica, da Sagrada Família e dos meninos Cosme e Damião, entre outras, povoariam os seus azulejos, sem contar os painéis votivos de maior monta, “além de figuras de baianas na lavagem da escadaria do Senhor do Bonfim”. Segundo os autores, a sua pintura reproduz efeitos de aquarelas, pastéis e óleos, “utilizando-se de todas as técnicas acadêmicas”.

Enfim, como observa o arquiteto e historiador Nireu Cavalcanti, doutor em História pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no prefácio que escreveu para este livro, a partir da trajetória desses dois profissionais diferenciados, Clara Emilia e seu marido Hamilton Malhano construíram uma obra de grande importância para a história da arquitetura e da cidade do Rio de Janeiro. De fato, daqui para frente, esta obra torna-se referência incontornável para quem quiser estudar a arte da azulejaria em Portugal e no Brasil.

                                               III
Clara Emília Sanches Monteiro de Barros Malhano obteve título de doutora em História Social pelo IFCS/UFRJ, assim como o de mestre em História e Antropologia da Arte pela Escola de Belas Artes da mesma Universidade. Foi pesquisadora do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro.

É autora dos livros: Aldeamento de São Fidélis; o sentido do espaço na iconografia (Ministério da Cultura-MinC/Iphan, 1995); e Da materialização à legitimação do passado: a monumentalidade como metáfora do Estado - 1920-1945 (Lucerna/Faperj, 2002). Escreveu e organizou outros livros em co-edição e publicou vários artigos em revistas especializadas. Em 2013, publicou o livro Sobragy dos Baronetes e da Saudade, obra sobre a produção de café na Zona da Mata Mineira no período de 1850 a 1950. Com Hamilton Botelho Malhano, escreveu também São Januário-Arquitetura e História (Mauad/Faperj, 2002).
Hamilton Botelho Malhano obteve os títulos de mestre em História e Antropologia da Arte pela Escola de Belas Artes da UFRJ e de doutor em História Social pelo IFCS/UFRJ. Etnólogo, atuou em áreas indígenas e realizou estudos e pesquisas na área de museologia e museografia. Publicou o projeto “Construção do espaço de morar entre os Karaja do Araguaia: aldeia, casa, cemitério” no Boletim do Museu Nacional, nº 55, de 1986. Foi autor de verbetes para a Encyclopedia of Vernacular Architecture of the World, publicada pela Cambridge University Press, em 1997. Com o falecimento de seu esposo, a professora Clara Emília Malhano é responsável agora pela Encyclopedia of Vernacular Architecture of the World, que está sendo reeditada e atualizada pelo escritório VMSA (Victor Mestre e Sophia Aleixo), de Lisboa. A nova edição será bilingue (português- inglês). Adelto Gonçalves - Brasil

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Desenhadores & Azulejeiros: Ensino e Aprendizagem, Arquitetura e História, de Clara Emília Sanches Monteiro de Barros Malhano e Hamilton Botelho Malhano, com prefácio de Nireu Cavalcanti. Rio de Janeiro: Synergia Editora, 1ª edição, 494 páginas, R$ 80,00, 2018. E-mail: comercial@synergiaeditora.com.br   Site: www.synergiaeditora.com.br
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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

domingo, 25 de novembro de 2018

Contos que exalam perfume

                                   
                                                           I
Depois de ambientar os seus dois primeiros romances – A última adolescência (Bom Texto, 2004) e Ladeira do Tempo-Foi (Synergia Editora, 2017) –  no tradicional bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, o escritor Helio Brasil retorna aos contos, gênero em que fez sua estreia tardia na literatura, aos 64 anos de idade, com a publicação de O anjo de bronze e outros contos (Oficina do Livro, 1994). Desta vez, em O perfume que roubam de ti... e outras histórias (Synergia Editora, 2018), título assumidamente inspirado nos versos da famosa canção “As rosas não falam”, dos compositores cariocas Angenor de Oliveira, o Cartola (1908-1980), e Guilherme de Brito (1922-2006), reúne 26 contos que retratam personagens de diversos momentos da vida brasileira, desde  o Brasil Colônia até os dias atuais.

Aparentemente, estas histórias são o resultado de uma vida inteira dedicada ao vício da literatura, amor escondido a sete chaves até que, já na idade madura, o autor, arquiteto de talento reconhecido por suas obras no Rio de Janeiro e também celebrado como professor universitário, resolveu deixar o excesso de modéstia de lado e transformar-se também em escritor. Ganhou a literatura de Língua Portuguesa, pois, desde então, o autor passou a fazer parte de um seleto grupo de escritores cujas carreiras começaram tardiamente, o que não os impediu de alcançar a fama e o reconhecimento literário, de que bons exemplos são José Saramago (1922-2010),  Pedro Nava (1903-1984) e Cora Coralina (1889-1985).

Agora, Helio Brasil decidiu revirar o baú para dar a público histórias inéditas que reúnem todos os sentimentos humanos, os bons e os maus, como amor, violência, solidão, preconceito, heroísmo, conspirações, desejo, fé, traição, intrigas, sedução, mistério e outros. Ao mesmo tempo, reedita alguns contos que já haviam sido publicados anteriormente em coletâneas.

São narrativas que podem ter como cenário um trem lotado no subúrbio carioca ou os salões do palácio real ou ainda os quartos e salas de casas modestas ou apartamentos grã-finos do Rio de Janeiro. Assim, figuras históricas como o holandês Maurício de Nassau (1604-1679), Estácio de Sá (1520-1567), dom João VI (1767-1826) e Domitila de Castro Canto e Melo (1797-1867), amante de dom Pedro I (1798-1834), primeiro imperador do Brasil, são recriadas por Helio Brasil em alguns destes contos, que trazem também personagens populares como uma faxineira, “agridoce rosa suburbana”, que é assediada por um empresário, seu patrão, um padre às voltas com a volúpia carnal, um empreiteiro que enriquece com a construção de Brasília, participando do jogo sujo do poder, ou  um escritor ghost writer endividado e atormentado pela necessidade de entregar um livro a ser assinado por algum endinheirado.

                                               II
Em outros contos, o leitor vai encontrar as peripécias da vida de uma amazona de um circo decadente, um jovem assediado e atormentado pela atração física que lhe produz sua suposta tia, ou ainda uma viúva cinquentona “esquecida por Deus”, moradora numa casa de cômodos no  decadente bairro do Catumbi, que, de repente, é descoberta e escolhida por um jovem interessado apenas em alguns minutos de prazer.

Para se ter uma ideia do estilo conciso e direto, que, de certa maneira, lembra o de outro escritor carioca famoso, Machado de Assis (1839-1908), segue um trecho do conto “Um alguidar cheio de frutas”, que conta a história daquela viúva, que nunca imaginaria que um rapaz ainda pudesse querer se aproximar dela apenas pelo deleite carnal, sem nenhuma má-intenção :

(...) Ziza percebeu que o medo não chegava aos olhos. Espanto. Não era o medo que lhe acelerava o peito. Suspendeu a respiração ao sentir os lábios do rapaz sobre os seus, enquanto o corpo forte a prendia contra o colchão. A mulher enlaçou-o com os braços e as pernas. Entre estranhas névoas de desejo, entregou-se inteira.

Como observa o escritor, lexicólogo e tradutor Ivo Korytowski na apresentação que escreveu para este livro, a nova obra de Helio Brasil exala um metafórico cheiro que faz lembrar de O perfume (1985), romance de sucesso internacional do alemão Patrick Süskind. Diz: Além do “perfume que roubam de ti”, perpassam pelas narinas do leitor “o perfume forte dos abacaxis, das laranjas e o odor sensual dos pêssegos”, “o perfume do jasmin”, “o perfume de tia Celeste” e “a suave e perfumada mão de Dorothy”. Para Korytowski, desde o livro de Süskind, “não se escrevia uma obra literária tão... perfumosa!”. Pois bem, depois desta apresentação, não resta ao leitor outra alternativa que não seja a de abrir bem as narinas e sair à procura deste novo livro de Helio Brasil. Não irá se arrepender.

                                               III
Nascido no Rio de Janeiro em 1931, Helio Brasil, formado em 1955 em Arquitetura pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), trabalhou no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), atual BNDES, de 1955 a 1984, tendo supervisionado o projeto de construção da nova sede da entidade, inaugurada em 1982. Projetou em equipe edifícios residenciais, comerciais e industriais no Rio de Janeiro e em outros Estados. Lecionou durante 20 anos a disciplina Projeto de Arquitetura na Universidade Santa Úrsula e foi professor-visitante na UFRJ e na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Depois que se aposentou pelo BNDES, passou a se dedicar à literatura, tornando-se um dos mais importantes ficcionistas brasileiros da atualidade. Dedica-se à escrita ficcional desde 1958, tendo obtido menções em concursos de contos. Frequentou a Oficina Literária do professor e escritor Ivan Cavalcanti Proença, editor da Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro, na década de 1980, pela qual teve trabalhos publicados em coletâneas. 

Sobre o bairro de São Cristóvão escreveu uma trilogia, composta de um livro de não-ficção – São Cristóvão: memória e esperança (Prefeitura do Rio de Janeiro, 2004) – e dois romances: A última adolescência e Ladeira do Tempo-Foi, romance dramático que tem como fulcro uma ladeira imaginária do bairro de São Cristóvão, à época da redemocratização pós-Estado Novo (1937-1946).

É autor também de O Solar da Fazenda do Rochedo e Cataguases (Synergia Editora, 2016), em co-autoria com José Rezende Reis; Cadernos (quase) esquecidos (2016), edição artesanal; Tesouro: O Palácio da Fazenda, da Era Vargas aos 450 anos do Rio de Janeiro (Editora Pébola, 2015), em co-autoria com Nireu Cavalcanti; e Pentagrama acidental, novelas (Editora Ponteiro, 2014).

Participou também das coletâneas de contos Doze autores e suas histórias (2003); A Marquesa de Santos (2004); Tempos de Nassau (2005); Ásperos e Macios (2010); O feitiço do boêmio 2010 (comemorando 100 anos de Noel Rosa), publicadas pela Editora Bom Texto; e O Rei, o Rio e suas histórias (2013), publicada pela Editora 7 Letras. Adelto Gonçalves - Brasil


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O perfume que roubam de ti... e outras histórias, de Helio Brasil, com apresentação de Ivo Korytowski. Rio de Janeiro: Synergia Editora, 1ª edição, 220 páginas, R$ 40,00, 2018. E-mail:comercial@synergiaeditora.com.br 
Site: www.synergiaeditora.com.br
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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

sábado, 10 de novembro de 2018

Um romance com a sensibilidade à flor da pele

                                                     I
Foi o escritor catalão Eduardo Mendoza, o romancista espanhol que mais vende livros na Espanha contemporânea, quem, a propósito da obra da escritora brasileira (de origem galega) Nélida Piñon, alertou este resenhista para o fato de que as mulheres olham para a vida por uma janela que sempre esteve vedada aos homens. Por isso, quando escrevem romances, criam personagens mais densas, provavelmente, porque as veem com maior sensibilidade.

Esta observação foi feita em janeiro de 1990, a uma mesa do café Samoa, que fica em frente à Casa Milà, também conhecida como La Pedrera, em Barcelona, e sua validade só tem sido confirmada ao longo destes 28 anos. De fato, essa observação pode ser confirmada também com a leitura do recém-lançado de Desamores da portuguesa, primeiro romance da escritora brasileira Marta Barbosa Stephens, que conta a história de vida de uma portuguesa, de 41 anos, sem nome, que vive um triplo autoexílio: do país, da língua e do passado.

Escrito em linguagem em que a autora demonstra domínio do ofício, como observa o escritor Luiz Ruffato na contracapa do livro, Desamores da portuguesa reconstitui a trajetória de uma mãe de três filhos que, em poucos anos, fracassara por três vezes na tentativa de formar uma família estável. E optara pela solidão, vivendo na fria Londres, longe de tudo e de todos, mas sem entender o que falavam nas calçadas, limitada apenas a rápidos diálogos com compatriotas. “Sua maior frustração era não ajudar as filhas nas tarefas escolares”, escreve a personagem que conta a história, uma brasileira, que, a exemplo da autora, também vive um autoexílio. “Ela não tentou aprender inglês, nem antecipou sua volta para casa. Insistiu a seu modo, esperando que um milagre a salvasse”.

Em poucas e resumidas palavras, o enredo começa com o primeiro casamento da portuguesa com um brasileiro, Estevão, que a levara para morar na casa de sua família num bairro elegante e verde da cidade de São Paulo. A vida corria com certa folga: a portuguesa era auxiliada por empregadas no serviço doméstico, a filha crescia, até que, um dia, aconteceu o inesperado. Ao portão da casa, apareceram alguns bandidos e anunciaram um assalto quando a família chegava em seu automóvel. Os marginais levaram o carro e por pouco não levaram também a criança que estava no banco traseiro. “Foi naquele momento que a portuguesa sentiu raiva do Brasil pela primeira vez”, conta a autora. Depois disso, ela isolou-se cada vez mais, com medo de sair às ruas onde já não conseguia distinguir um operário de um bandido. A consequência é que, um dia, resolveu largar tudo: aquele país violento, o marido, a sogra, as empregadas, o conforto. Voltou para Portugal.

                                               II
Em Lisboa, conheceu Laerte. E passou a viver com ele, mas sobrevivia da pensão do ex-marido. Cuidava de uma criança e da tia idosa. Teve uma filha com ele, mas o relacionamento igualmente não durou muito. Como os pais já haviam emigrado para a Inglaterra, um dia, ela resolveu largar tudo de novo e foi embora sozinha para Londres. Lá, numa reunião de uma igreja que fazia cultos em português, conheceu Martinho, um português de 65 anos de idade, de quem logo engravidou. A vida, porém, não seguiria o rumo esperado: Martinho logo sofreria um derrame e, depois de semanas no hospital, passaria a viver com o auxílio de uma cadeira de rodas.

Por este pouco alentado resumo, o leitor já pode ter uma ideia do que vai encontrar neste romance que representa a expatriação, tema tão presente no Brasil de hoje em que as cabeças mais pensantes não encontram outra saída para o País que não seja o portão de embarque dos aeroportos internacionais. Mais importante: vai encontrar um enredo bem urdido, que o estimula a conhecê-lo de uma assentada. Provavelmente, porque a autora como diria Mendoza, sabe passar para suas personagens a sua vivência feminina, sua sensibilidade e emoção, o que romancistas homens, dificilmente, conseguem quando têm de transmitir para o papel o sentimento de uma mulher.

Em outras palavras: como bem observa o editor, cronista e escritor Alexandre Staut na apresentação que fez para o livro, este romance permite que o leitor conheça por dentro as “personagens, em suas frustrações e desencantos”, mas, ao mesmo tempo, constitui um libelo “sobre a esperança possível e a fé na vida”, ou seja, a vontade de se reconstruir depois de cada fracasso pessoal. É o que o leitor vai encontrar aqui num texto bem escrito, direto e maduro, apesar da juventude da autora, o que permite antever que o leitor ainda será brindado com outros excelentes romances desta autora.

                                             III
Marta Barbosa Stephens, nascida no Recife, Pernambuco, é jornalista e crítica literária, com mestrado pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo. Residente em Londres há alguns anos, divide seu dia-a-dia com tarefas como cuidar de seus dois filhos e dedicar-se à escrita, além de trabalhar como jornalista para garantir a sobrevivência da família, inclusive como correspondente da revista eletrônica Prazeres da Mesa. Quando encontra tempo, costuma ir a National Gallery, onde busca inspiração para seus exercícios literários.

É autora também de Voo luminoso de alma sonhadora (2013), seu primeiro livro de contos. Alguns de seus contos estão em diversas coletâneas, como A mulher em narrativas (2017) e Perdidas – histórias para crianças que não têm vez (Imã Editorial, 2017). Tem concluído o seu segundo romance, As viúvas passam bem.  Adelto Gonçalves - Brasil


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Desamores da portuguesa, de Marta Barbosa Stephens. Rio de Janeiro: Livros de Criação: Ímã Editorial, 112 páginas, 2,99 euros, 2018. Site da editora: imaeditorial.com
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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br