Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Para se conhecer a história do Rio de Janeiro


                                                          I
O jornalista Elio Gaspari, autor de cinco inolvidáveis livros sobre o regime militar (1964-1985), em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, dia 30 de janeiro de 2019, observou que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso gosta de relembrar uma cena na qual o historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) discutia o tamanho de algumas figuras do Império e ensinou: "Doutora, eles eram atrasados. Nós não temos conservadores no Brasil. Nós temos gente atrasada". Em seguida, o jornalista fez uma relação sucinta de males causados ao Brasil e à população brasileira por atitudes e decisões tomadas por gente despreparada e inculta, ou seja, “atrasada”, que chegou ao poder tanto pela força das armas como por acordo entre elites ou pelo voto popular.

Para ter uma ideia dos males que esse tipo de “gente atrasada” já causou à cidade do Rio de Janeiro, o antigo Distrito Federal, o leitor não pode deixar de ler Efemérides Cariocas (Rio de Janeiro, edição dos autores, 2016), dos historiadores Neusa Fernandes e Olinio Gomes P.  Coelho.  Ali pode constatar um dos maiores atentados à inteligência e à cultura nacional que foi a demolição a 5 de janeiro de 1976 do Palácio Monroe, projetado para representar o Brasil na Exposição Internacional de Saint Louis, nos Estados Unidos, e inaugurado em 30 de abril de 1904.

O edifício abrigou o Ministério de Viação e Obras Públicas, a Câmara dos Deputados e o Senado Federal, a partir de 1915, até a sua mudança para Brasília, em 1960. Apesar dos protestos da população e de entidades ligadas à engenharia e à arquitetura, o ditador da época, Ernesto Geisel (1907-1996), determinou ao ministro da Fazenda, Mário Henrique Simonsen (1935-1997), a demolição do palácio, sem quaisquer justificativas técnicas e culturais. O local seria revitalizado com a instalação de um antigo chafariz da cidade e a construção de uma garagem subterrânea (p.24-25).

Outro exemplo está à página 457 onde aparece a foto do antigo solar do marquês de Inhambupe, na Praça da República, 25, que foi demolido em 1978 para que o Banco do Brasil, seu então proprietário, ali instalasse um centro operacional de computação. O local funciona até hoje como estacionamento de veículos do Corpo de Bombeiros, a exemplo do edifício neoclássico onde funcionou a Escola Nacional de Belas Artes, na Avenida Passos e Rua Gonçalves Ledo, projetado pelo arquiteto francês Grandjean de Montigny (1776-1840), inaugurado em 1816 e mandado derrubar em 1936 pelo então ministro da Fazenda, Arthur de Souza Costa (1893-1957), conforme se lê no livro Tesouro: o Palácio da Fazenda da Era Vargas aos 450 anos do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, Pébola Casa Editorial, 2015, p.88-91), dos professores, arquitetos e pesquisadores Helio Brasil e Nireu Cavalcanti. Lá, hoje também funciona um estacionamento de veículos.

Através de vários verbetes, o leitor pode acompanhar também a trajetória do engenheiro Francisco Pereira Passos (1836-1913) que, como prefeito de 1902 a 1906, promoveu a renovação urbanística da região central do Rio de Janeiro, especialmente com a abertura da Avenida Central, hoje Avenida Rio de Branco, liderando a política do bota-abaixo, que modificou o cenário carioca e destruiu vários prédios remanescentes do período colonial e da época do Império, além de expulsar a população pobre, fazendo-a subir os morros para residir em moradias precárias (favelas).

                                               II
O livro reúne outros principais fatos que ocorreram na cidade do Rio de Janeiro e que merecem ser conhecidos, além de “abrir caminhos para novas avaliações e pesquisas”, como observam os autores no texto de apresentação. É de se ressaltar que a pesquisa não ficou limitada a fatos políticos, mas procurou percorrer o processo histórico da cidade, reunindo um número significativo de verbetes e a reprodução de dezenas de imagens e documentos.

Enfim, é um livro que contempla mais de 451 anos de História, oferecendo imagens que completam a informação e preenchem uma lacuna na historiografia do Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa, título dado pelo escritor maranhense Coelho Neto (1864-1934), como escreve a historiadora Neusa Fernandes no texto de abertura. Já o arquiteto Olinio Gomes P.  Coelho ressalta que o livro não pretende ser um tratado da história do Rio de Janeiro, mas oferece subsídios para a sua elaboração.

Ele cita outros livros de referência, como Efemérides Brasileiras (1946), de José Maria da Silva Paranhos Júnior, o  Barão do Rio Branco (1845-1912), com fatos ocorridos até o final do século XIX, Efemérides Cariocas (1965), de Antenor Nascentes (1886-1972), com acontecimentos até maio de 1946,  Efemérides do Teatro Carioca, de Otto Carlos Bandeira Duarte (c.1880-?), com fatos até agosto de 1957, e Efemérides Luso-Brasileiras, de Heitor Lyra (1893-1973), publicado em Lisboa em 1971, com casos ocorridos entre 1807 e 1970. Além desses livros, a pesquisa foi fundamentada no levantamento e análise de outras fontes impressas, como documentos oficiais e jornais, com consultas em arquivos públicos e particulares, museus, bibliotecas e coleções particulares.

                                               III
Neusa Fernandes, nascida no Rio de Janeiro, tem graduação em Pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), 1960, e em Museologia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UFRJ), 1968, além de mestrado em História Social, 1999, e doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), 2002, e pós-doutorado pela UERJ, 2009. É pós-graduada em História pela Universidade de Madri.

Professora de História do Estado do Rio de Janeiro, título conquistado por meio de concurso público, no qual obteve o primeiro lugar, atuou em várias universidades cariocas. Foi pró-reitora de Pesquisa na Universidade Severino Sombra, em Vassouras, e diretora do Museu da República, Museu do Primeiro Reinado, Museu da Cidade e outras instituições. Pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), presta serviços ao Instituto Brasileiro de Medicina de Reabilitação. É vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro (IHGRJ) e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Vassouras (IHGV).

É autora de 14 livros de História e de Museologia, entre os quais A Inquisição em Minas Gerais (Rio de Janeiro, Mauad X, 2016), Eufrásia e Nabuco (Rio de Janeiro, Mauad Editora, 2012) e Dicionário Histórico do Vale do Paraíba Fluminense, em co-autoria com  Irenilda Cavalcanti e Roselene de Cássia Coelho Martins (Vassouras, IHGV/Nova Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro, 2016).

Olinio Gomes Paschoal Coelho, carioca, arquiteto, urbanista, livre-docente e doutor em Arquitetura pela UFRJ, especialista em conservação e restauração de monumentos e sítios históricos pelo Centro de Estudos para a Preservação e Restauração de Bens Culturais da Universidade de Roma/Unesco, é professor titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, da Universidade Santa Úrsula, do Instituto Bennett de Ensino e das Faculdades Integradas Silva e Souza.

Foi autor e executor de diversos projetos de conservação e restauração, entre os quais a primeira restauração do chafariz da Praça XV de Novembro, a restauração do Solar Del Rei, em Paquetá, da casa da antiga Fazenda do Capão do Bispo, da cobertura do Museu Nacional de Belas Artes e do Palácio Nilo Peçanha, para a instalação do Museu Histórico do Estado do Rio de Janeiro, entre outras obras.

É autor de Do Patrimônio Cultural e Catálogo Geral de Desenhos e Pinturas de Grandjean de Montigny e co-autor de 75 Anos do Crea-RJ e Efemérides Vassourenses. É sócio efetivo do IHGRJ e presidente do IHGV, além de membro do Conselho Municipal de Cultura do Rio de Janeiro. Adelto Gonçalves - Brasil

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Efemérides Cariocas, de Neusa Fernandes e Olinio Gomes P. Coelho. Rio de Janeiro, edição dos autores, 780 p., 2016, R$ 41,90.


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Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015) e Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

UNESCO – Rio de Janeiro vai ser Capital Mundial da Arquitetura em 2020

A cidade do Rio de Janeiro, no Brasil, foi designada Capital Mundial da Arquitetura em 2020, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), anunciou esta entidade, na sua sede, em Paris



O anúncio daquela que será a primeira Capital Mundial da Arquitetura foi feito na presença da diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, do presidente da câmara do Rio de Janeiro, Marcello Crivella, e de Thomas Vonier, presidente da União Internacional dos Arquitetos (UIA).

Esta escolha surge na sequência de uma parceria firmada entre a UNESCO e a UIA, no sentido de designar uma capital mundial da arquitetura, que deverá acolher o congresso mundial da União dos Arquitetos, evento que decorre a cada três anos.

O objetivo é que a Capital Mundial da Arquitetura se torne, em 2020, um fórum de debates sobre os desafios globais na perspetiva da cultura, do património mundial, do urbanismo e da arquitetura.

Neste sentido, o Rio de Janeiro irá ser palco de uma série de eventos sob o tema "Todos os mundos. Só um mundo", para promover o 11.º objetivo da Agenda Internacional 2030 para o Desenvolvimento Sustentável: "Tornar as cidades e aglomerados humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis".

A UNESCO, a UIA e as instituições locais vão organizar atividades para promover projetos que envolvem arquitetos e urbanistas, assim como responsáveis políticos, instituições sociais e profissionais de outros setores, incluindo artistas e escritores, num espaço de diálogo criativo e inovador.

Organização não-governamental com sede em Paris, a União Internacional dos Arquitetos (Union Internationale des Architectes, em francês) foi fundada em Lausana, na Suíça, em 28 de junho de 1948, logo após o final da II Guerra Mundial, com o objetivo de unir e representar os arquitetos de todo o mundo, independentemente da nacionalidade, raça, religião ou opção arquitetónica, bem como de federar as suas organizações nacionais.

A UIA - presidida pelo norte-americano Thomas Vonier - reúne atualmente organizações profissionais de 123 países e territórios, representando mais de 3,2 milhões de arquitetos em todo o mundo. In “Revista Port. Com” - Portugal

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Lusofonia - 10ª edição do Festival Internacional das Artes da Língua Portuguesa

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) atribuiu apoio institucional à 10ª edição do Festival Internacional das Artes da Língua Portuguesa (FESTLIP_ON), que acontece entre os dias 8 e 11 de novembro de 2018, no Rio de Janeiro, apresentado pela Talu Produções. Nesta edição, o festival aposta na temática da tecnologia e homenageia a companhia Teatro Meridional, com sede em Lisboa, que apresentará no evento uma das suas produções: “As Centenárias”.

A organização do evento indica que o festival vai ser transmitido em direto via internet e, ainda, conta com a cobertura televisiva realizada pela TPA Internacional – rede de televisão de Angola – para um programa a ser exibido em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Europa.

A programação contempla uma master class de culinária, ministrada por chefs de Angola e Portugal, via streaming; uma apresentação do espetáculo “Sonoridade Poética”, dirigido por Miguel Seabra, do Teatro Meridional, que reúne, pela primeira vez, atores dos nove países que compõe a CPLP (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste); o FESTLIPinho, com atividades destinadas ao público infanto-juvenil; o FESTLIPSHOW, prometendo uma tarde de ritmos angolanos, com o espetáculo de voz e o violão do músico Paulo Matomina; e ainda durante todos os dias do FESTLIP, o “Zazá Bistrô” recebe a mostra culinária FESTGourmet, que inclui paladares dos noves países da CPLP, criada pela chef Flávia Campos. CPLP

Mais informações aceda aqui.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Brasil - Museu Nacional – A nossa história em chamas



Incêndio no Museu Nacional tem grande impacto na vida dos brasileiros

Um incêndio ainda sem muitas explicações transformou em cinzas parte da história de todos os brasileiros. No início da noite do último domingo (3/09), o Museu Nacional localizado no Rio de Janeiro teve um princípio de incêndio que rapidamente se espalhou no prédio com 200 anos de existência.

Para quem não conhece, o Museu Nacional é um dos mais importantes do Brasil foi criado em 1818 por D. João VI e possuía um acervo que começou a ser construído pela família imperial há dois séculos. Ali existiam registros e informações que ajudaram a construir o nosso país e que mundialmente tem papel fundamental para entendermos toda a história que fez com que chegássemos nos dias de hoje.

O Museu Nacional é um dos principais das Américas e, a critério de comparação, seria como se a França perdesse o Museu do Louvre. Luzia – como foi denominada -, a primeira brasileira que viveu na pré-história tinha o seu fóssil mantido neste museu e assim como outros materiais virou cinzas. Uma perda sem precedentes e de enorme significado para TODOS NÓS.

Como vamos ser impactados?

É de extrema importância que a memória de um país seja mantida para ajudarmos a construir um futuro e ajudar na educação de todas as gerações.

O conhecimento gera discussões e aprimoramento intelectual, logo, uma catástrofe como esta faz com que a nossa cultura fique ainda mais frágil e com chances de cair no esquecimento daqui há alguns anos.

Nossa história e boa parte da oportunidade de aprendermos mais sobre nós mesmo virou cinzas junto com as importantes obras (quase não sobrou nada).

De quem foi a culpa?

O Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro ainda não conseguiu identificar os motivos da causa do incêndio, mas segundo registros da própria administração do museu, há mais de 4 anos ele não passava por reformas e manutenção adequada.

Este fato faz com que nos leve a reflexão até onde o poder público teve responsabilidade neste caso. Uma lástima termos que chegar neste momento para levantar esse questionamento.

Lembre-se que o nosso país é composto por diversos fatores e a cultura é uma delas que ajudam a sermos mais desenvolvidos. In “Vá de Cultura” - Brasil

sábado, 15 de julho de 2017

‘Ladeira do Tempo-Foi’, um romance machadiano

                                                            I
É como se Machado de Assis (1839-1908) tivesse vivido mais meio século e tido a oportunidade de passar os seus derradeiros anos no tradicional bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro da década de 1950, recolhendo material e passando para o papel o que vira e sentira em meio aos seus moradores. É assim que se haverá de sentir o leitor ao acabar de ler o romance Ladeira do Tempo-Foi (Rio de Janeiro, Synergia Editora, 2017), do arquiteto e professor Helio Brasil, sua segunda experiência no gênero.

Obviamente, este já é outro Rio de Janeiro que se percebe neste livro, se comparado aos romances machadianos, mas a alma das ruas é a mesma, bem como os seus logradouros, praças, calçadas, ladeiras, portões, sobradões, janelas, esquinas, quartéis, mercearias, armarinhos, botequins, igrejas e escolas. Até porque quem o descreve é um carioca de quatro costados, nascido e vivido em São Cristóvão, autor de outro livro que igualmente resgata o bairro, São Cristóvão - memória e esperança (Rio de Janeiro, Prefeitura do Rio de Janeiro/Editora Relume Dumará, 2004), que viria a ser reeditado em 2016 pela Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado do Rio de Janeiro (Faperj) na obra coletiva Cantos do Rio – imagens literárias de bairros e localidades cariocas, volume que reúne 13 textos.

E que, em sua primeira experiência no romance, A última adolescência (Rio de Janeiro, Editora Bom Texto, 2004), já havia explorado a mesma paisagem de São Cristóvão, a exemplo do que faria em vários contos. Para ele, São Cristóvão é metaforicamente um território pessoal de vivências ou “uma bela e colorida amostragem do brasileirismo e do carioquismo”, como diz na dedicatória. Em outras palavras: Ladeira do Tempo-Foi constitui uma bem sucedida, onírica e proustiana busca de um tempo perdido na memória do autor.

Sem contar que o seu saboroso estilo é indisfarçavelmente inspirado no texto machadiano, ainda que adaptado aos nossos dias. Enfim, trata-se de “uma viagem ao mundo carioca e brasileiro dos meados do século XX, conduzida com vigor narrativo neste romance que surpreende a cada passo”, como bem observa Gustavo Barbosa, escritor, professor, consultor editorial, consultor de comunicação, editor e produtor de conteúdo multimídia, no texto de apresentação que escreveu para este livro. 

                                                           II
Num cenário que lhe é extremamente familiar, o romancista cria (ou transporta personagens reais para a ficção?) uma ampla galeria de personagens – imigrantes portugueses e espanhóis, professores, comerciantes, senhorios, burocratas, donas de casa, prostitutas, policiais, malandros, boêmios, pobres, ricos e remediados, brancos, gringos e portugas, pretos e mulatos, trabalhadores braçais, funcionários e doutores e outros tipos típicos das ruas cariocas daquele tempo, por onde ainda se podia andar sem medo de ser surpreendido por uma bala perdida.

É nesse ambiente que o leitor vai acompanhar a vida do professor Carlos Jordão, morador na Ladeira do Tempo-Foi, ao pé do morro, leitor assíduo de estudiosos como Anísio Teixeira (1900-1971) e Gilberto Freyre (1900-1987), casado com Leonor, de família açoriana chegada havia pouco ao Brasil, mãe de seu filho recém-nascido Felipe e moça “esculpida pela educação camponesa, mas não rústica”. Viviam num sobrado, vizinhos de outras famílias, mas alimentavam o sonho de abrir uma conta na caixa econômica para fazer um pé-de-meia e comprar uma casa, para escapar daquela vizinhança de gente pobre.

A vida familiar vai bem até que, um dia, chegam num caminhão de mudanças os rústicos e poucos móveis de uma vizinha, Idália, jovem pobre, ex-operária da fábrica de tecidos de Bangu, que traz apenas o seu filho, Lula, menino doente, deficiente mental. E vai morar no porão do velho sobrado. Acontece que a morena Idália é também uma mulher de formas exuberantes, que atrai o olhar dos homens nas ruas por onde passa. E o seu cheiro feminino começa a inebriar também o jovem professor.

Nasce, então, um romance às escondidas entre o professor e a morena, que não é interrompido nem mesmo quando a mulher é despejada do porão do sobrado por falta de pagamento do aluguel. Sem alternativa, ela vai viver num sobrado da Rua Riachuelo, perto da Lapa, que fora transformado em rendez-vous. 

Idália vira prostituta, mas continua a receber entre os seus clientes o jovem professor, embora fosse perseguida por seu antigo amante, o rufião Ranulfo. A vida familiar do professor é, então, abalada por uma denúncia anônima que vem num papel mal escrito e faz a açoriana largar a casa, levando consigo o filho Felipe. O lar burguês só seria refeito quando ocorre a tragédia que marca o romance: Idália e o filho doente, um dia, seriam mortos a facadas pelo malandro Ranulfo.

                                                           III
Se o Rio de Janeiro – e, por extensão, o Brasil – e o contexto em que se passa o romance já não são aqueles das obras de Machado de Assis, ainda havia na sociedade brasileira da década de 1950 os sinais do clientelismo e do patriarcalismo que, ao lado da escravidão, constituíam as formas sociais que dominavam o País à época machadiana. Os conflitos de classe seriam, praticamente, os mesmos e o professor Jordão, ainda que não fosse alguém que pudesse ser visto como uma pessoa bem posta na vida, não poderia assumir publicamente o seu relacionamento com a lasciva mulata Idália.  

Outro personagem que parece saído de um romance machadiano – mas, quem sabe, seja antes o protótipo do brasileiro médio – é o professor José Lírio, colega de Jordão na escola municipal do bairro, o Ginásio Santa Cordélia, onze anos mais velho, casado, mas que mantém um romance igualmente clandestino com uma aluna, Ana Luíza, 17 anos declarados, mas que, na verdade, seria uma adolescente de apenas 15 anos.

Empregado também num ministério da República, Lírio transitava com certa facilidade nos corredores da política no Distrito Federal. E, com o retorno de Getúlio Vargas (1882-1954) ao poder, agora por meio de eleições livres, e a entrada no Ministério da Educação de Simões Filho (1886-1957), respeitado intelectual, via a oportunidade de cavar para si e para o colega de trabalho no Santa Cordélia uma colocação no grupo que haveria de preparar um livro encomiástico sobre a trajetória de Vargas. Um seria assessor do outro.

Como se vê, a exemplo de Machado de Assis, a visão que Helio Brasil tem de seus personagens não é sentimental, mas realista. Ao mesmo tempo, não se pode deixar de reconhecer no autor um tom saudosista do tempo que ele mesmo viveu no bairro de São Cristóvão. Tudo isso faz deste livro um dos lançamentos mais auspiciosos da Literatura Brasileira neste começo de século XXI. 

                                                           IV
Helio Brasil (1931), nascido no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, é formado em 1955 pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi funcionário do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE, hoje BNDES), entre 1955 e 1984, tendo realizado projetos para as instalações da instituição. Projetou edifícios comerciais, industriais e residenciais no Rio de Janeiro e em outros Estados. Foi professor da disciplina Projeto de Arquitetura, durante vinte anos, na Universidade Santa Úrsula, na UFRJ e na Universidade Federal Fluminense (UFF).

É autor de São Cristóvão – memória e esperança; O anjo de bronze e outros contos (Rio de Janeiro, Oficina do Livro, 1994); A última adolescência; Tempos de Nassau: um príncipe em Pernambuco, ficções, com vários autores (Rio de Janeiro, Bom Texto, 2004); Cadernos (quase) esquecidos (crônicas autobiográficas, edição de autor) e Pentagrama acidental (novelas, Editora Ponteio, 2014). É co-autor com Nireu Cavalcanti de O Tesouro – O Palácio da Fazenda, da Era Vargas aos 450 anos do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, Pébola Casa Editorial, 2015) e com José Rezende Reis de O Solar da Fazenda do Rochedo e Cataguases (memórias, Synergia Editora, 2016), em segunda edição. Participou ainda de coletâneas de contos das editoras Uapê, Bom Texto e 7Letras. Adelto Gonçalves – Brasil

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Ladeira do Tempo-Foi, de Helio Brasil, com texto de apresentação de Gustavo Barbosa. Rio de Janeiro: Synergia Editora, 220 págs., R$ 40,00, 2017. Site: www.synergiaeditora.com.br
E-mail: synergia@synergiaeditora.com.br

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Adelto Gonçalves é mestre em Língua e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br


terça-feira, 2 de maio de 2017

Brasil - Rio de Janeiro investe em Energia Solar com lançamento do Atlas RioSolar


O Governo do Rio de Janeiro junto a PUC do Rio, a EGP Energia e ao EDF Norte Fluminense elaboraram o Atlas RioSolar.

O principal objetivo deste atlas é o de desenvolver o investimento na energia do Sol, em especial a heliotérmica e a fotovoltaica. Além de buscar o crescimento das indústrias que trabalham com energia fotovoltaica.

Essa parceria, realizou um trabalho de pesquisa análise de informações com relação a ocorrência solar no estado de RJ, buscou encontrar formas de estimular o uso de sistemas que utilizem a energia solar.

O Atlas Solarimétrico do Estado do Rio de Janeiro é um referencial para que o potencial solar do Rio de Janeiro possa ser plenamente aproveitado, sendo uma importante ferramenta para a tomada de decisão no desenvolvimento de projetos solares no estado.

O Atlas, integrante da carteira de projetos do Rio Capital da Energia da Secretaria de Desenvolvimento Econômico Energia Indústria e Serviços (SEDEIS), foi realizado em parceria com a EDF Norte Fluminense, a PUC-Rio e a EGPEnergia

Essas instituições conseguiram criar um sítio para armazenar as informações sobre o Atlas RioSolar. O usuário que acessa a página consegue fazer ações como geração de dados acerca do painel fotovoltaico, a capacidade e o prazo de resultados ao investir. Tudo por meio de um simulador.

A elaboração do Atlas RioSolar está sendo vista como um grande passo para o investimento e o melhor aproveitamento da energia Solar em nosso país. Isto porque, temos uma localização privilegiada, mas que faltava iniciativa.

Os esforços que vemos hoje é apenas um pequeno passo de muitos que ainda virão nos demais locais do Brasil.


Mais economia nas casas

Quem começa a aderir esse tipo de equipamento terá uma grande vantagem: a pessoa conseguirá calcular o valor que recebe de economia com as contas de luz.

Devido ao fato de que, em 2012, foi estabelecido no Brasil que as pessoas que começarem o uso de sistemas fotovoltaicos receberão em suas contas créditos pelo consumo sustentável e de energia limpa.

No RJ, foi feito um levantamento sobre o assunto, o resultado apontou que o Norte Fluminense é a maior potência no estado para a produção deste tipo de energia. Por conta da sua localização.

Estímulos do Governo para incentivos de energia renovável

As ações tomadas pelo Governo do Rio de Janeiro não são recentes. Desde muito tempo o Governo vem fazendo parcerias para a implantação de energias renováveis desde as indústrias até chegar as residências. Considerado um grande avanço.

Mais informações sobre a aplicação Mapa Solar  

O Mapa Solar do Rio de Janeiro permite identificar o potencial de geração de eletricidade nos telhados da capital fluminense.

O estudo, inédito no país, mapeou 1,5 milhão de telhados e mostra que o potencial de geração fotovoltaica nas áreas mapeadas é maior que o consumo residencial da capital.

No aplicativo, é possível conferir o potencial de geração fotovoltaica em telhados de edificações da cidade do Rio de Janeiro. Ele possibilita visualizar dados como a irradiação solar e a área disponível em cada edifício da cidade. In “Portal Energia” - Portugal

domingo, 3 de julho de 2016

Um passeio pelo centro do Rio de Janeiro colonial

I
Um passeio por ruas, praças, largos, caminhos, rocios e becos do centro histórico do Rio de Janeiro é o que oferece o mais recente livro do arquiteto e historiador Nireu Oliveira Cavalcanti: Rio de Janeiro: Centro Histórico Colonial 1567-2015 (Rio de Janeiro, Andrea Jackobsson Estúdio Editorial/Fundação Carlos Chagas Filho de Apoio à Pesquisa no Estado do Rio de Janeiro (Faperj), 2016), segunda edição revista e ampliada de Rio de Janeiro: Centro Histórico – 1808-1998 (Anima/Dresdner Bank Brasil, 1998), fartamente ilustrado com fotos, aquarelas de Thomas Ender, imagens da Coleção Maria Cecília e Paulo Geyer do Museu Imperial e desenhos do próprio autor.

Refundindo o livro anterior, desta vez, Cavalcanti procurou reconstituir as grandes transformações pelas quais o centro histórico do Rio de Janeiro passou ao longo de 450 anos, desde a fundação do povoado, passando pela chegada em 1808 da família real, que marcou a elevação da cidade à sede da monarquia portuguesa, até estes últimos anos marcados pela realização da Copa do Mundo de Futebol, em 2014, e da Olimpíada, em 2016.

É de se observar que Cavalcanti, pesquisador minucioso e persistente de arquivos brasileiros e portugueses, foi quem contestou a invencionice – repetida indefinidamente por historiadores alérgicos ao pó dos arquivos e limitados à leitura de livros impressos, ainda que antigos – de que com a família real teriam chegado ao Rio de Janeiro de 10 mil a 15 mil pessoas, garantindo, depois de compulsar detidamente os registros manuscritos da época, que, na verdade, o príncipe regente viera acompanhado de um seleto grupo que não chegava a 450 pessoas.

De fato, não é preciso ser muito atilado para se concluir que, se o Rio de Janeiro em 1808 reunia 7.600 edificações em sua área urbana e uma população ao redor de 60 mil habitantes, com certeza, a instalação abrupta na cidade de 15 mil pessoas haveria de ter causado um alvoroço sem precedentes que, por certo, teria sido relatado em documentos da época. E onde estão esses papeis de que não se tem notícias?

Como observa Cavalcanti na introdução, o Rio de Janeiro dessa época refletia influências arquitetônicas e urbanísticas da metrópole, mas, graças à exuberância de sua paisagem natural e ao isolamento de sua população e ao desenvolvimento de uma linguagem com traços locais, “foi surgindo uma cidade peculiar, dotada de extrema beleza a encantar a todos que nela chegavam”.

                                                           II
Cavalcanti acrescenta que muitos nomes dos logradouros cariocas tiveram origem em caminho, estrada, azinhaga, campo, paragens, sertão ou rocio antes de serem denominados por rua, beco, travessia, largo, praça ou praia, à época da passagem do espaço rural ou semi-rural para o urbano. Assim, o leitor terá a oportunidade de saber a origem de muitos logradouros conhecidos – e de outros nem tanto –, cujos nomes chegaram até os nossos dias, e de muitos que ganharam novas denominações ao longo dos tempos.

De início, a primeira denominação de muitos logradouros partia da descrição do local em que se situavam. Assim, uma via perpendicular à orla marítima chamou-se Desvio do Mar. Havia ainda o Caminho dos Arcos (aqueduto da Carioca), da Forca ou da Polé, do Boqueirão e as Ladeiras do Seminário ou do Poço do Porteiro ou ainda o Beco do Cotovelo. Depois, quando o logradouro ganhava uma edificação mais representativa, passava-se a chamá-lo por essa referência urbana, como a Rua da Cadeia, do Aljube, da Ópera, do Guindaste, do Cemitério, do Rosário, da Alfândega, da Candelária, da Boa Morte, do Açougue, do Quartel ou Detrás do Hospício.

As praias também recebiam, às vezes, denominação de acordo com a atividade que nelas seria desenvolvida. Um exemplo é a Praia dos Mineiros, hoje parte da Rua Visconde de Itaboraí, onde havia um cais, entre o Cais do Braz de Pina e o Arsenal da Marinha, no qual ancoravam, principalmente, embarcações originárias dos portos do interior da Baía da Guanabara. Lembra Cavalcanti, à pág. 61, que, como algumas dessas embarcações saíam do Porto da Estrela carregadas de produtos e passageiros oriundos de Minas Gerais, esse trecho ficou conhecido como Cais dos Mineiros e também como Praia da Farinha.

Se se pode acrescentar algum dado, é de se lembrar que foi na Praia dos Mineiros que o alferes Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), o Tiradentes, à época em que ficou ausente de seu regimento em Minas Gerais quase um ano e meio, tentou encetar algumas iniciativas empresariais no Rio de Janeiro. Uma delas foi procurar arrendar oito braças de terrenos na Praia dos Mineiros e seis braças na Praia de Dom Manoel para construir um guindaste de madeira que serviria para o "embarque de animais quadrúpedes e manufaturas" (Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), Lisboa, seção Rio de Janeiro, Avulsos, caixa 142, doc. 8, 18/8/1788).
           
No verbete referente à Praia de Dom Manoel (pág. 44), hoje Rua Dom Manoel, lê-se que, no começo do século XVII, formou-se um corredor de prédios que foi denominado Porto dos Padres da Companhia (dos jesuítas), posteriormente mudado para Praia Dom Manoel (Lobo), em homenagem ao governador da capitania do Rio de Janeiro que morreu prisioneiro dos argentinos na defesa da Colônia do Sacramento em 7/1/1683.

                                               III
Se muitos desses logradouros históricos já não são assim tão visíveis na paisagem carioca, outros há que são conhecidos por todo o Brasil, como a Rua da Alfândega, onde no prédio de número 70 situou-se por décadas até 2014 a sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). De início, esse logradouro chamou-se Caminho do Capueruçu e, mais tarde, Rua Diogo de Brito Lacerda, em homenagem a um de seus ilustres moradores, mas depois passou a se denominar Rua da Quitanda dos Mariscos. Com a construção do prédio da Alfândega, na atual Rua Primeiro de Março, cujo portão ficava em frente ao antigo Caminho do Capueruçu, ganhou o nome de Travessa da Alfândega.

Como observa Cavalcanti no verbete referente à Rua da Alfândega (pag. 23), era no número 50 da travessa que vivia dona Inácia Gertrudes de Almeida, amiga de Tiradentes, a quem o alferes recorreu em busca de auxílio para encontrar refúgio, afinal oferecido por um amigo seu, na Rua dos Latoeiros (atual Rua Gonçalves Dias), onde morava num sobradinho o paulista Domingos Fernandes da Cruz. Foi nessa casa que a tropa do vice-rei o prendeu.

Outro logradouro amplamente conhecido por todo o País é o Largo da Carioca, cuja denominação mantém-se até os dias de hoje.  No início, diz o autor (pág.33), esse logradouro era quase todo ocupado por uma lagoa que motivou Antônio Felipe Fernandes, em 1610, a arrendá-la à Câmara de Vereadores para servir-lhe de tanque de lavagem dos couros de seu curtume. Ali perto os franciscanos construíram seu convento dedicado a Santo Antônio, que acabou por dar nome ao sopé do morro em que estava situado. Foi a construção de um chafariz para aproveitar a água do Rio Carioca, em 1723, que motivou a mudança do nome do sítio para Largo da Carioca.

Além de logradouros que até hoje podem ser localizados na paisagem carioca, há outros que se perderam com as obras de modernização e revitalização do espaço urbano já no século XX, especialmente com a derrubada do Morro do Castelo, onde praticamente começou a cidade, e do Morro de Santo Antônio, e a construção da Avenida Rio Branco, que inaugurada em 1906 foi em menos de um século praticamente destruída, pouco restando de sua arquitetura original. Sem contar a abertura da Avenida Presidente Vargas, inaugurada em 1942, que fez desaparecer da paisagem quase mil prédios, entre eles várias igrejas setecentistas. Um vandalismo que só se pode atribuir à incúria e à falta de cultura que caracteriza até hoje boa parte dos homens públicos brasileiros.

                                               IV       
Nireu Cavalcanti (1944), arquiteto formado em 1969 pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, é doutor em História Social, com ênfase em História Urbana, pelo Programa de Pós-Graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desde 1997. Tem especialização em Planejamento Urbano e Regional e em Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Santa Úrsula (1979-1982). É professor de pós-graduação da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), da qual foi seu diretor de 2003 a 2007.

É autor, com Hélio Brasil, de Tesouro: o Palácio da Fazenda, da Era Vargas aos 450 anos do Rio de Janeiro (Pébola-Casa Editorial, 2015); e de O Rio de Janeiro setecentista: a vida e a construção da cidade da invasão francesa até a chegada da Corte (Zahar, 2003), seu trabalho de doutorado, com o qual obteve o primeiro lugar da 42ª Premiação Anual do Instituto de Arquitetos do Brasil-RJ em 2004; Histórias e conflitos no Rio de Janeiro colonial: da Carta de Caminha ao contrabando de camisinha – 1500-1807 (Civilização Brasileira, 2013); Arquitetos e Engenheiros: sonho de entidade desde 1978 (Crea-RJ, 2007); Crônicas históricas do Rio colonial (Civilização Brasileira/Faperj, 2004); Santa Cruz – uma paixão (Relume-Dumará, 2004); e Construindo a violência urbana (Madana, 1986). Participou com capítulos em vários livros. Adelto Gonçalves - Brasil

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Rio de Janeiro: Centro Histórico Colonial 1567-2015, de Nireu Oliveira Cavalcanti. Rio de Janeiro: Andrea Jackobsson Estúdio Editorial, 148 págs., 2016. Site: www.jakobssonestudio.com.br^


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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Brasil - Porto de Santos celebra 124 anos, mas com 5 séculos de história

Em 1892, atracava o primeiro navio no primeiro trecho de cais do complexo

Os 124 anos do Porto de Santos, celebrados oficialmente na passada terça-feira (2), não escondem os 514 anos de história do cais santista. Ao se desenvolver em ciclos, o complexo portuário quebrou barreiras e ganhou a estruturação que tem atualmente devido à missão inicial: escoar a produção nacional para outros lugares do mundo, além de servir de porta de entrada para insumos e até imigrantes. O trajeto o consolidou como o principal da América Latina.

Foram pelo menos seis ciclos de desenvolvimento até que o estuário, que abrange Santos, Guarujá e Cubatão, encontrasse a verdadeira vocação e passasses a brigar terminais marítimos constituídos e com propósitos delineados. A história mostra que, a partir das necessidades o Porto foi se adequando. A primeira delas surgiu logo em 1502, quando passou a abrigar e abastecer navios portugueses, no início do processo de colonização.


Nas décadas seguintes, o estuário passa a receber as embarcações que levavam as mercadorias extraídas ou produzidas na então colônia, inicialmente o açúcar dos engenhos. Mas a produção regional não deu certo em razão do solo infértil para cana. E quando entram em cena as Minas Gerais, entre o final do século 17 e final do século 18, que ajudaram a dar continuidade aos objetivos de crescimento do Porto que, ainda em trapiche, exportava o ouro nacional.

A situação de bem-estar só foi encerrada quando o Rio de Janeiro abriu uma rota exclusiva para poder escoar o metal precioso à Europa, o que obrigou a Santos a ter que se reinventar com o que já sabia fazer.

Foi a vez do segundo ciclo da cana – ou do açúcar – mas então produzido no Interior de São Paulo. Nessa época, as mercadorias chegavam à região por meio de trilhas na Serra do Mar e, depois, pela Calçada de Lorena. A via logo foi substituída pela antiga estrada Caminho do Mar, construída justamente para agilizar e dar maior segurança ao escoamento da produção agrícola que, no século 19, daria destaque ao café`, até hoje com participação relevante nos embarques.

Com a inauguração da Estrada de Ferro São Paulo Railway, em 1867, os grãos do planalto passaram a chegar a Santos em até 4 horas – ante as 10 horas necessárias para percorrer a antiga calçada.

Tal avanço fez com que o Governo Federal, à época, abrisse uma concorrência para, enfim, construir um cais na região. A disputa foi vencida em 1888 pelos empresários Cândido Gaffré e Eduardo Guinle, que fundaram a Companhia Docas de Santos (CDS) e ergueram o primeiro trecho do costado no Paquetá.

O navio Nasmyth foi o primeiro a atracar na nova estrutura, marcando o nascimento do estruturado Porto de Santos, em 2 de fevereiro de 1892, há exatos 124 anos.

Nas décadas seguintes, o cais santista começou a ganhar as feições de complexo portuário, tal qual é conhecido atualmente. E logo foi diretamente impactado pelo início da tardia industrialização do Brasil: era a hora de se modernizar anda mais, além de movimentar não somente a produção agrícola nacional.

Com as chegadas das rodovias Anchieta e Imigrantes, ligando o Planalto ao Litoral, o Porto cresceu ainda mais.

Em 1980, com o fim do contrato de concessão dos Guinle, o complexo santista volta para a gestão direta do Governo Federal, que repassa sua administração para uma empresa sob seu controle acionário, a Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp).

Na década seguinte, o Porto dá seu próximo salto com a aprovação da Lei de Modernização dos Portos (nº 8.630, de 1993), que repassa a operação à iniciativa privada e impulsiona o processo de concessão de terminais. Isso leva o complexo a uma nova fase de crescimento em suas movimentações de carga – até chegar, em 2015, aos 119,9 milhões de toneladas embarcadas e descarregadas.

Os princípios da Lei de Modernização são reafirmados, mais de uma década depois, com a criação da Secretaria de Portos, em 2007, que visaria dar maiores garantias ao setor diante do Governo Federal. A pasta passa a atuar próxima ao Porto, que recebe investimentos de destaque, como sua dragagem de aprofundamento e a construção das avenidas perimetrais.

Em 2013, o País ganha uma nova lei dos portos, a de nº 12.815. O mais recente marco regulatório do setor, ela chegou com a missão de agilizar processos, dar maior autonomia para a iniciativa privada, modificar as regras dos contratos de concessão e reestruturar a participação do trabalhador portuário sindicalizado no cais.

É neste cenário em que tem início uma nova fase de licitações de terminais do complexo santista. Em dezembro passado, o Governo fez o leilão de três instalações. Neste semestre, mais dois serão oferecidos. São as mais recentes medidas a impactar a história do Porto de Santos, reforçando seu papel como a principal porta do comércio exterior brasileiro. In “A Tribuna” - Brasil

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Brasil – 60º Congresso Mundial de Estatística


Entre 26 e 31 de julho de 2015, no Rio de Janeiro, acontecerá o 60º Congresso Mundial de Estatística do International Statistical Institute (ISI). Reunindo os especialistas mais respeitados dessa área científica, o evento irá discutir como os diversos aspectos da nossa realidade econômica, social e ambiental serão medidos ao longo do século XXI.

Com 130 anos de existência, o ISI é a mais antiga e mais importante associação de estatísticos do mundo. Em 2015, pela primeira vez, um brasileiro ocupará a sua presidência. O IBGE é o anfitrião do evento que, depois de 60 anos, volta a se realizar em nosso país.

1600 inscritos, 1300 artigos, 250 seções convidadas ou especiais. Por trás desses números, o estado da arte em estudos estatísticos produzidos por 130 países.

Modelagem, amostras, séries temporais, big data e computação estão entre os vários temas a serem discutidos. Aplicações estatísticas no mercado financeiro, nos esportes e em estudos sobre desemprego, demografia e desigualdade de gênero continuam em foco, bem como as interdisciplinaridades com a astronomia, a biologia, a física e a medicina. No entanto, há cada vez mais estudos estatísticos voltados para o meio ambiente e a “economia verde”.

O congresso do ISI discutirá também abordagens quantitativas inéditas, para temas como a corrupção, direitos humanos e turismo. Além disso, o ISI tradicionalmente avalia os diversos aspectos da cooperação internacional entre os órgãos oficiais de estatística. As seções do ISI acontecerão no Riocentro, zona oeste do Rio de Janeiro.

130 anos de estatísticas e cidadania

Fundado em 1885, o International Statistical Institute é a mais antiga e mais importante associação de estatísticos do mundo. Sua missão é promover a compreensão, o desenvolvimento e as boas práticas nas diversas áreas da estatística. Tem cerca de quatro mil membros originários de 130 países, dos quais mais de dois mil são eleitos em função de suas contribuições científicas.

Vários de seus integrantes participaram da elaboração dos Princípios Fundamentais das Estatísticas Oficiais, adotados por diversos institutos nacionais de estatísticas (inclusive o IBGE) e recentemente endossados pela Assembleia Geral da ONU. Os congressos bienais do ISI vêm se realizando desde 1887 (Roma), com duas breves interrupções durante as duas guerras mundiais. O Brasil estava entre os 11 países representados no primeiro congresso do ISI.

Pela primeira vez o ISI será presidido por um brasileiro

Em 2015, o professor Pedro Luís do Nascimento Silva, pesquisador-titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas (ENCE/IBGE), foi eleito presidente do ISI. É a primeira vez que um brasileiro recebe essa responsabilidade, o que traduz o reconhecimento internacional da estatística produzida em nosso país e, também, do IBGE, anfitrião dessa edição do congresso mundial.

Doutor em Estatística pela University of Southampton (1996), o professor Pedro é considerado o mais importante especialista do Brasil na área das pesquisas amostrais. No IBGE, há mais de 30 anos desempenha importante papel no desenvolvimento de métodos estatísticos. No exterior, foi professor da Universidade de Southampton e consultor do Office for National Statistics, no Reino Unido. Também presidiu a International Association of Survey Statisticians e o Instituto Interamericano de Estatística. Em 2014, foi eleito fellow da American Statistical Association, titulação concedida anualmente e limitada a menos de 1% dos membros dessa associação.

Há 60 anos, os grandes nomes da Estatística visitavam Petrópolis

Essa não é a primeira vez que o congresso do ISI acontece no Brasil. Em 1955, o país foi sede do 29º Congresso Mundial de Estatística, que reuniu os ‘grandes’ desse campo científico, cujos nomes estão, hoje, associados a métodos, equações ou teoremas fundamentais. Há exatos 60 anos, a cidade de Petrópolis recebeu mais de cem cientistas, oriundos de 40 países, entre os quais estavam o inglês Ronald Fisher (fundador da estatística moderna, que também deu enorme contribuição à genética), o indiano Calyampudi Radhakrishna Rao (teórico da inferência estatística, ainda ativo), os estadunidenses Walter Willcox (estatística não-paramétrica e o teste que leva seu nome) e Gertrude Cox (planejamento de experimentos estatísticos), o francês Émile Borel (introdutor do teorema do macaco infinito e do lema de Borel–Cantelli) e o italiano Corrado Gini (criador do famoso índice que mede a desigualdade de renda).

O então ministro das Relações Exteriores, Raul Fernandes, abriu o evento. A delegação brasileira foi chefiada por Teixeira de Freitas (idealizador do IBGE, que organizou a estatística brasileira através da integração das três esferas de governo) e também contou com o italiano Giorgio Mortara (pai da demografia brasileira, que coordenou os dois primeiros censos populacionais do IBGE). Durante o congresso, o Hotel Quitandinha (um dos mais luxuosos do país, na época) abrigou uma exposição aberta ao público, com diversos painéis sobre a realidade social e econômica do Brasil, além de uma coleção de publicações produzidas pelos institutos oficiais de estatística de diversos países. In “Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística” - Brasil