Os poemas de Carlos Machado não deixam ninguém indiferente às mazelas do racismo histórico
Como todos os dossiês que a revista Cult tem publicado, o do pensador negro norte-americano William Edward Burghardt Du Bois (1868-1963), que ocupa mais da metade da edição de fevereiro de 2025, é um rico e substancial painel da vida e obra do autor contemplado. No texto de abertura, “Redescobrir W. E. B. Du Bois”, Matheus Gato relaciona “temas candentes no debate contemporâneo na esfera pública e nas universidades” presentes na obra do sociólogo e historiador, com “suas formulações mais originais e pioneiras”. Alguns desses temas: branquitude, capitalismo racial, cultura, identidade, imperialismo, colonialismo, racismo, democracia, pós-abolição, pan-africanismo e literatura negra.
Recorro a outra menção duplamente terceirizada. No ensaio “Sobre alguns modos de ler poesia: memórias e reflexões”, Alfredo Bosi (1936-2021) cita a visão de Victor Erlich (1914-2007) da concepção de poesia de T. S. Eliot (1888-1965): “A poesia [escreve Eliot] pode ajudar a romper o modo convencional de perceber e de julgar [...] e faz ver às pessoas o mundo com olhos novos ou descobrir novos aspectos deste” (Leitura de poesia, São Paulo, Ática, 1996, p. 31). O próprio Bosi diz isso de outra maneira no capítulo “Os estudos literários na era dos extremos” de Literatura e resistência (São Paulo, Companhia das Letras, 2002, p. 255): “Nem tudo o que é dito novamente é simplesmente dito ‘de novo’; novamente pode ser também advérbio de modo; dizer novamente: dizer de maneira nova”.
Carlos Machado, que vive há cinco anos em Salvador depois de ter trabalhado por quatro décadas como jornalista em São Paulo, sabe muito bem disso tudo, o que se pode constatar na leitura de Cicatrizes. O volume reúne poemas, alguns publicados em outros livros do autor, em antologias, sites, jornais e revistas, sobre a chaga do racismo histórico (e seus cruéis desdobramentos) e ainda em pleno vigor no Brasil.
A exemplo de outras obras de vários gêneros lançadas nos últimos anos no país, safra tão profícua (por vezes de qualidade duvidosa), Cicatrizes não teve a atenção (por que será?) que merece da mídia cultural nem da crítica literária. Ainda que não seja recém-lançado, é e será sempre novo um livro magistral como esse de Carlos Machado. É a sua mais vigorosa, visceral e coesa coletânea de poemas. Como o vinho, obra literária autêntica torna-se melhor com o tempo. Convite e aviso ao leitor, o texto transcrito na contracapa, “Boletim de ocorrência”, vai ao cerne da questão e revela o tom do livro:
Quero fazer um B.O.
registrar queixa dessa violência
que arrasa por dentro.
Cadê os hematomas?
Cadê a cicatriz?
– pergunta o delegado.
E conclui, citando
o código penal: nenhuma
providência se aplica.
Desesperado, peço um
Exame de alma de delito.
Alguém já leu algo similar, tão forte assim, em obras recentes e mesmo em clássicos do gênero? E olhe que se trata apenas de um dos “poemas baseados em fatos reais” e no nosso “monstruoso pecado original, a escravidão”, como bem diz nas orelhas do volume o professor e escritor Marcílio Godoi. Há vários outros poemas que imprimem “com tanta elegância e ritmo um grito de guerra necessário e inquietante”. No consistente prefácio “À flor da pele, ao fundo do verso”, Júlio Machado, poeta e professor de Literaturas Africanas na Universidade Federal Fluminense, lembra que dona Neném, avó paterna de Carlos, orgulhava-se “do neto capaz de ler, já aos quatro anos, os nomes das ruas e das lojas nas placas” de Muritiba, no Recôncavo Baiano. Júlio não é parente do autor de Cicatrizes.
Cinco partes distintas mas interligadas compõem a coletânea: Vozes, Figuras, Beco da Esperança Batuque e Liberata. Vozes, observa o prefaciador, traz ressonâncias ou “cicatrizes” da infância do poeta; em Figuras, “abre-se espaço para o coro das afinidades eletivas, dos companheiros e companheiras de trincheira”; no Beco da Esperança estão poemas, à maneira de Manuel Bandeira (1886-1968), inspirados em notícias do dia a dia; Batuque registra a musicalidade, “onipresente na África e em suas diásporas”; Liberata “evoca a definição mesma de orixá: ancestral que por seus atributos foi alçado a uma condição semidivina”.
Embora o tempo de Vozes seja da infância, nada há de pueril ou singelo nessa primeira parte do livro. Já no primeiro poema, “Um verbo”, o poeta conjuga “o verbo fustigar/ e seu trigo de ódio”. Em “Vozes”, ele ouve “cantos de pássaros,/ ecos de infância. // Ou então vozeios mais longínquos/ Ruídos, gritos de sequestrados./ Vozes d’África”. Em “Idioma”, é ainda mais contundente: o menino aprendeu “a conjugar / essa língua/ que tem sílabas de ferro/ e ritmo de logro.// Bebi sua sintaxe; dentro do leite materno.// Por isso às vezes as palavras/ me queimam/ como ferro em brasa.” Ele recorda em “Cicatrizes” que não há somente a da pele, “mas há outra cicatriz/mais funda e insalubre// Essa permanece viva/ lá dentro/ onde o chumbo não penetra/ onde o aço não vai”. O poeta sabe de cor (“Viés”) uma profunda dor interior, “aquele olhar de viés/ aquela palavra oblíqua”, que ferem mais que fuzis ou punhais. Doloroso também é o poema “Silêncios”: “Tenho silêncios maduros/ empedrados na garganta” de séculos. Sente em “Dores e moendas” o sofrimento de estados irmãos: “Minas dói./ Pernambuco mói. / A Bahia rói/ osso amargo de sua alegria”. E revela seu último desejo em “Cemitério dos Pretos Novos”: “Enterrem minha alma/ no Cemitério dos Pretos Novos./ Quero estar com/ eles, os africanos sobreviventes/ da travessia”.
“Boletim de ocorrência”, o poema da contracapa de Cicatrizes, está no bloco Beco da Esperança, ao lado de outros textos tão contundentes quando ele. Cito alguns exemplos. “Dízima: 3,33”; eis sua estrofe final: “A cada três horas/ dez pretos e pardos/ são dizimados/ na cordial/ terra brasileira.” E a de “Beco da esperança, n. 3”: “Uma bala de fuzil/ no peito –/ e adeus à vida breve e baça de Abraão:/ negro,/ 15 anos,/ catador de latas,/ morador no Beco da Esperança” [Ave, Bandeira, parece gritar o autor de Cicatrizes.]. Poemas como “Luto” (“luxo” que “a viúva/ de pedreiro negro/ abatido pela polícia” não tem); “Gaza” (Uns versos: “Gaza fica muito longe./ Mas Gaza é também aqui:// Vigário Geral, Cabula,/ Jardim Ângela, Acari.// Em Gaza opera-se no atacado./ Aqui, aos poucos, no varejo.// A cada hora, menos três,/ e o resultado é o mesmo”.); “Conselhos” (o inocente preso, sem saída, sem direito à Justiça); e “Iguais” (“cristã” que faz “caridade”, proprietária de loja, chama a polícia porque “gente maltrapilha” perambula por ali, nada compra e espanta “os verdadeiros clientes”.)
O texto “Tataravó”, o primeiro do bloco Batuque, tem como epígrafe este verso doloroso do poeta negro baiano José Carlos Capinan (1941): “Quem me pariu foi o ventre de um navio”, parafraseado no corpo do poema. As duas estrofes finais relembram aquela dor, contêm perguntas e sugerem uma resposta: “Ela está lá. Para qualquer lado que te voltes,/ ela te mira nos olhos e pergunta:// E então, tataraneto?/ O que fizeste por nós?”. A resposta latente, viva, é a obra do poeta. Machado fez e faz muito, com destemor e esmero, força ética e poética. No poema “Marujada”, o poeta bebeu o oceano inteiro na travessia, “Por isso canto/cantigas de marinheiro”. Em “Três baianas” (de barro), Machado dialoga com o poema “Balada das três mulheres do sabonete Araxá”, de Estrela da manhã (1936), de Manuel Bandeira. A obra-prima dessa quarta parte do livro tem o título dela, “Batuque”, texto cantante que incorpora, em itálico, o refrão “Sou eu/ Sou eu/ Sou eu, maculelê, sou eu”, um canto de domínio público, “o mais conhecido do maculelê, dança marcial afro-baiana, praticada em especial em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo”, esclarece o poeta, que conhece esse refrão desde criança. Um pouco do poema de Carlos Machado: “Os dengos da noite/ e os monstrengos do dia/ – sou eu// João de Deus – sou eu/ Luís Gonzaga das Virgens – sou eu/ Ana Romana – sou eu// Luísa Mahin – sou eu/ Manuel Calafate – sou eu/ Elesbão do Carmo Dandará – sou eu”.
Poema primoroso também, talvez a pérola mais valiosa do volume, dá título à porção final do livro, “Liberata – Canto para uma deusa de ébano”. Um texto para ser lido a meia voz, devagar, com a alma. Liberata, o poeta esclarece nas Notas no fim de Cicatrizes, é “o nome da mulher escravizada que busca a alforria na Justiça, estudada pela historiadora Keila Grinberg no livro Liberata: a lei da ambiguidade”. Evocada nas oito partes do poema, Liberata evola de um estudo acadêmico para simbolizar o grito de liberdade do livro de Machado. Esses são os versos mais líricos, ainda que doídos, de todo o livro. Um hino à liberdade, ainda que tarde. Um pouquinho dele: “Um dia,/ na margem do rio,/ plantei uma flor.// Dela não sei o nome. / chamei-a/ Liberata.// Chamei-a Liberata,/ nome de flor/ e mulher, nome de nuvem./ Sussurro/ de vento livre/ Nome de sonho.// [...] No lusco-fusco,/ Liberata,/ chamo teu nome de flor.// No hálito quente/ da noite,/ acaricio nos lábios/ teu nome,/ convoco a legião/ de pirilampos/ para desenhá-lo/no breu.// [...] Sempre haverá/ quem/ te chame, Liberata.// Liberata. Liberata. Liberdade”. Trabalho de poeta maior, Cicatrizes permanecerá como um clássico da poesia de temática negra na Literatura Brasileira. Há 23 anos, Carlos Machado edita e distribui gratuitamente por e-mail o boletim quinzenal poesia.net: www.algumapoesia.com.br Agora em março de 2025, ele publica novo livro de poemas, Cais da Memória, pela Editora Patuá. Hugo Almeida – Brasil
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Cicatrizes, de Carlos Machado. São Paulo: Balaio Editorial, 2023. R$ 39,00. https://www.balaioeditorial.com.br/ Livro disponível na Amazon.
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Hugo Almeida (1952), jornalista e escritor mineiro radicado em São Paulo, doutor em Literatura Brasileira pela USP, é autor de vários livros, entre eles o romance Vale das ameixas e o ensaio livre A voz dos sinos, sobre o sagrado, a mulher e o amor na obra de Osman Lins, ambos publicados em 2024 pela Sinete. Site do autor: https://hugoalmeidaescritor.com.br
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