A falta de saneamento básico e de transportes agravam a precariedade dos luandeses, que se mostram cépticos quanto à proposta de divisão administrativa de Luanda, defendendo em alternativa as autarquias, melhor distribuição da riqueza e mais atenção aos pobres.
Desde
o município de Cacuaco, passando pela Ilha de Luanda, Cazenga e até Viana, os
luandenses divergem sobre a proposta da divisão da capital angolana em duas
províncias – Luanda e Icolo e Bengo – uma iniciativa do Movimento Popular de
Libertação de Angola (MPLA, poder) que conta com partidários e detractores.
Já
as dificuldades do saneamento básico, o acesso aos transportes, abastecimento
de energia, educação e a pobreza são pontos de consenso.
“Não
tem lógica fazer essa divisão (de Luanda)”, disse à Lusa Anabela Fernandes,
estudante de 21 anos, residente em Cacuaco, município mais ao norte de Luanda,
defendendo a aposta na melhoria da mobilidade e dos serviços de educação e
saúde.
Ana
Marisa Chicanda que, ao lado da amiga Anabela, aguardava há mais de 30 minutos
pelo táxi (transporte colectivo de passageiros também conhecido como
candongueiro) debaixo de uma ponte pedonal em Cacuaco, aplaudiu, por sua vez, a
divisão de Luanda. Para a estudante, a iniciativa do MPLA (no poder desde 1975)
deve contribuir para reduzir a falta de táxis: “Está boa a sua divisão, porque
será mais fácil as pessoas pegarem o táxi para o seu destino”, justificou,
enquanto a amiga discordava.
A
divisão de Luanda não é prioritária, considerou o logístico Cláudio Leite,
apontando para a necessidade da dispersão da densidade populacional pelo
actuais municípios, seguida da melhor distribuição da riqueza e estímulos à
habitação a nível local. “Se dispersarmos a população nesse território que hoje
é Luanda, acho que seria a solução e não, necessariamente, criarmos uma outra
província como solução, porque se nós olharmos, a economia de Luanda
movimenta-se num outro sítio”, disse.
Cláudio,
que trabalha num supermercado em Cacuaco, considerou que as autarquias são
prioridades para o país, porque as abordagens “têm sido muito politizadas”,
defendendo a melhoria dos transportes e do saneamento.
Sentado
num dos bancos do Mural dos Artistas, na Ilha de Luanda, Adriano Baptista, 36
anos, disse que a proposta de divisão de Luanda é uma “mais-valia” para os
luandenses, porque daí devem emergir melhores decisões para a resolução das
actuais condições precárias da cidade. “Creio que esta divisão será uma
mais-valia para os munícipes e para os luandenses, sobretudo, para a melhoria
do saneamento básico e das condições precárias que estamos a viver”, referiu.
Mais
atenção aos pobres foi o que defendeu Mateus Luís, 76 anos, residente na Ilha
de Luanda, tendo criticado a pobreza extrema que afecta milhares de angolanos
passados quase 50 anos da independência. “Se na verdade já temos esse todo
tempo de independência, por que razão ainda se verificam pessoas a mendigar”,
questionou o reformado, que disse ser favorável à divisão de Luanda se esta
melhorar a vida dos cidadãos.
Na
7ª Avenida do Cazenga, uma das principais estradas do município transformada em
enorme vala de águas residuais, está Filipe Fragoso, 57 anos, que reprovou a
iniciativa da divisão da capital, defendendo autarquias para a eleição dos
governos municipais. “Temos ainda outros males, não há transportes públicos e
para pegar um táxi é luta diária”, lamentou.
Viana
é hoje considerado o município mais populoso de Luanda e a sua sede regista
diariamente muita afluência devido à concentração dos principais serviços,
desde bancos, escolas, centros de formação junto da administração municipal.
Os
vianenses Moisés Bento, estudante, e Joaquim Silva, empreendedor, reconhecem a
falta de transportes para responder à procura da população, mas apresentam, ao
mesmo tempo, opiniões contrárias sobre a divisão da capital
“Acho
muito boa (a divisão de Luanda), porque, uma vez que, a província tem muita
aglomeração de pessoas e quando estiverem divididos aí será mais benéfico”,
afirmou Moisés, contrariado por Joaquim, que defende a criação de autarquias.
Com
18 províncias, prosseguiu o jovem empreendedor, “já estamos com dificuldades
para sobreviver e para suprir algumas necessidades, agora imagine aumentarem
mais três, por mim não é benéfico”, referiu.
A
iniciativa do MPLA, introduzida agora no parlamento e reprovada pela oposição,
deve dar origem às províncias de Luanda e Icolo e Bengo, totalizando ambas 23
municípios e 24 comunas, e visa “aproximar os serviços dos cidadãos”. Domingos
da Silva – Agência Lusa in “Jornal Tribuna de Macau”
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