Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Macau - Novos desafios na educação devido ao coronavírus

O ensino através de ferramentas virtuais devido à propagação do novo coronavírus traz um desafio principal aos alunos: a gestão do seu tempo para garantir que cumprem todas as tarefas que lhes são pedidas, acredita a directora da Faculdade de Educação da USJ, apontando ainda que este processo exige uma “literacia tecnológica” que às vezes pode falhar pelo facto de em Macau ainda se seguirem “modelos tradicionais”. Ainda assim, ao Jornal Tribuna de Macau, professores fazem um balanço positivo do sistema que levou a novas aprendizagens. Por sua vez, uma encarregada de educação admitiu que, no início, o processo foi “stressante”



O novo coronavírus levou a mudanças ao nível da educação e da forma como crianças e jovens estão a estudar, agora a partir de casa. O novo modo de funcionamento do ensino trouxe desafios para todos, mas talvez sobretudo pais e professores.

“Quando se passa de um modelo presencial para um modelo de aprendizagem à distância demora-se algum tempo até tanto professores como alunos se adaptarem mas até agora temos tido uma experiência muito positiva”, garante a directora da Faculdade de Educação da Universidade de São José (USJ) em declarações ao Jornal Tribuna de Macau.

“Os alunos estão a responder e os professores, claro, estão a trabalhar intensivamente. Há muitos ajustamentos, muitas adaptações que têm de ser feitas. Temos também que nos familiarizar com este novo sistema”, destacou Ana Correia.

Num ensino nestes moldes, “as actividades têm de ser feitas consoante as instruções que o professor dá, que têm de ser extremamente claras, detalhadas, para compensar a inexistência de um diálogo na sala de aula”.

A USJ está a adoptar um esquema que mistura aula em tempo real com materiais colocados “online” com indicações para os alunos. “Não significa que a comunicação em tempo real tenha desaparecido, de modo nenhum”.

Ainda assim, é exigida aos alunos uma maior auto-regulação. “O aluno tem de gerir o seu tempo de uma forma que tem de partir dele, ao passo que no ensino presencial a gestão é-lhe imposta devido a um limite temporal. A aula é das 15:00 às 18:00 e o que lhe é pedido é que esteja presente na aula. Agora não têm de ir a lado nenhum, mas continuam a ter de gerir o seu tempo porque os prazos existem e são extremamente rígidos, como eram as presenças na aula”, sublinha Ana Correia.

Por outro lado, o facto de não haver um prazo de duas ou três horas para uma aprendizagem específica faz com que os estudantes tenham de se adaptar. “Como é muito tempo, um dia inteiro, se o aluno não tem essa capacidade de auto-regulação, vai deixando para o fim e esse problema existe, mais provavelmente nos não universitários que nos universitários, mas mesmo os nossos alunos, sobretudo do bacharelato, vão ter de passar por um período de adaptação”.

“Os prazos têm de ser muito curtos, precisamente para ajudar o aluno a processar esta transição e a adquirir mais auto-regulação, portanto, não podemos dar um prazo de uma ou duas semanas porque vai levar a que o aluno provavelmente não trabalhe antes do fim do prazo”, destacou a académica.

Questionada sobre o que deverá ser feito para tornar esta mudança mais fácil, Ana Correia opta por destacar o que não é aconselhável. “Não se deve replicar o ensino presencial e fazer quase a mesma coisa que se faria nesse modelo. O ensino à distância tem um formato completamente diferente, não pode ser uma réplica do ensino presencial porque temos de motivar os alunos e isso implica criatividade, encontrar formas de fazer com que eles possam interagir. Por exemplo, pedir a uma classe que leia um texto é insuficiente. Poderia resultar se na aula houvesse discussão e interpretação, mas no ensino à distância isso não existe, por isso, esse formato não resulta”.

Isso leva a que os docentes tenham de ter “literacia tecnológica”. “Têm de saber ir ‘online’ procurar formas que sejam motivadoras para os alunos e não apenas repetir formatos que usavam antigamente, portanto, criatividade e literacia das tecnologias educacionais é fundamental”.

“Provavelmente estamos todos um bocadinho a falhar neste domínio porque, em Macau e em todo o lado, ainda continuamos a seguir modelos tradicionais e não são todos os professores que adquirem o hábito de integrar as tecnologias dentro do currículo. Infelizmente, agora fomos obrigados, de um dia para o outro, e, de facto, todos temos de dar um salto muito grande e é isso que estamos a fazer”.

Novidades bem recebidas

Estas questões colocam-se também aos professores de outros níveis de ensino e há quem receba o desafio de braços abertos. “Tipicamente seguimos o modelo tradicional no sentido em que temos o professor na escola. Isto acaba por ser uma novidade, ou seja, não fazer apenas a utilização dos recursos online, porque isso não é nada de novo, mas algo integral, a 100%. Dadas as circunstâncias é uma realidade necessária para não haver uma suspensão permanente do ensino”, começou por destacar Miguel Melo em declarações a este jornal.

Ainda assim, o novo paradigma envolve desafios. “Traz [desafios], sem dúvida, mas vejo isso como sendo algo positivo porque, numa perspectiva mais futurista, até mesmo no desenvolvimento de uma profissão como a nossa, no ensino, as coisas mais para a frente parecem apontar cada vez mais para uma dependência deste tipo de infra-estruturas para realizarmos a nossa profissão. Nesse sentido, acho interessante porque obriga o professor a sair um bocadinho da sua zona de conforto e a pensar fora da caixa numa forma de criar e adaptar materiais que sejam eficazes para o ensino e, nesse sentido, é uma nova experiência que permitirá a aquisição de outras capacidades”.

De qualquer modo, o docente considera “interessante e desafiante” a criação de material, que considera o “maior desafio”, uma vez que tem de ser adaptado a um ensino que funciona nestes moldes.

“No fundo, os alunos acabam por ter uma experiência positiva porque cada vez têm mais contacto com as ferramentas ‘online’ e com a internet e dá-lhes algo que fazer, sobretudo nestas circunstâncias em que as pessoas acabam por ter de estar fechadas em casa. E acho que o mais importante é o facto de não permitir a suspensão efectiva do processo educativo”, sublinhou Miguel Melo.

O docente do ensino primário diz não notar diferenças nas dificuldades sentidas pelas crianças em relação a quando têm aulas presenciais. “Não seria por aí que contrastaria e referiria que existem mais dificuldades em relação à aprendizagem. Os pais têm prestado um bom desempenho a nível do suporte que dão aos alunos, porque consigo perceber que existe um contacto constante entre pais e professores que resulta do ‘feedback’ que recebem do trabalho que os alunos fazem em casa”.

Por sua vez, o subdirector da Escola para Filhos e Irmãos dos Operários sublinhou que o caminho até ao ensino à distância passou por várias fases. “No início, muitas escolas delinearam planos de ensino concretos, pretendendo até dar aulas consoante o calendário, mas temos ouvido comentários sobre o facto de as tarefas serem pesadas. Percebemos que o ensino virtual não terá um efeito equivalente ao ensino presencial e que os alunos iriam enfrentar muitas dificuldades se fizéssemos isso”, sublinhou Lam Lon Wai.

Mais concretamente, em relação aos estudantes do ensino secundário, são dadas duas matérias para aprenderem por si mesmos. “Primeiro, damos trabalhos de casa aos alunos que depois de os concluírem tiram fotografias e enviam aos professores por e-mail. Em segundo lugar, os professores dão aulas através de um vídeo em que explicam o conteúdo através de um ‘powerpoint’. Os alunos podem descarregar o vídeo mas não podem fazer logo perguntas ao professor, por isso, encontrámos uma solução como uma ‘aula interactiva’ em que os alunos podem fazer as perguntas e receber as respostas ‘online’. Não é fácil, mas pedimos aos professores para dar pelo menos uma aula destas por semana ou a cada duas semanas”.

Lam Lon Wai defende que o contacto entre professores e alunos tem sido fácil com recurso a uma aplicação móvel denominada “turma virtual”. Ao inscrever-se na aplicação, cada pessoa tem de escolher uma função: professor, aluno ou orientador da turma.

A taxa de recolha de trabalhos de casa tem sido elevada, frisou o subdirector, frisando que 70% dos estudantes conseguiram apresentar os trabalhos a tempo. “O nosso modelo de escola virtual não sofreu grandes mudanças mas reduzimos muito a quantidade de trabalho. Por exemplo, no ensino secundário os estudantes costumam ter cinco aulas de chinês por semana mas agora mudámos para duas. Disciplinas como Física e Química reduzimos para apenas uma aula semanal”.

No que se refere ao ensino primário, há encarregados de educação a queixar-se de dificuldades e pressão por terem de acompanhar de perto a aprendizagem dos filhos. “Tendo em conta que os alunos do primeiro ciclo têm menos capacidade de auto-aprendizagem, exigimos apenas aos estudantes do primeiro ao terceiro ano que leiam, cantem e façam ginástica diariamente, sendo que disciplinas como chinês e matemática não estão incluídas nas tarefas diárias”.

Para os estudantes entre o quarto e o sexto ano de escolaridade foram acrescentadas tarefas de compreensão textual, em chinês e inglês, sendo que os textos são ou literários ou relacionados com a ciência popular. “Claro que no ensino primário e secundário acrescentámos uma vertente de conhecimento sobre o coronavírus, pusemos online um vídeo de conhecimentos gerais sobre a epidemia para os alunos, além de ter sido preparada uma lista de perguntas para eles responderem”.

Os professores, assegura, não se queixam de aumento da pressão. O modelo de aulas virtuais garante-lhes “tarefas relativamente mais leves, assim os docentes conseguem, além de se ocuparem do ensino, cuidar da família”.

Primeiros dias “confusos”

Para os pais o ajustamento também não está a ser fácil. “Os primeiros dias foram confusos. Ambos os meus filhos têm uma conversa de grupo no ‘WhatsApp’ da turma que estava a ‘explodir´ com todo o tipo de mensagens e que era difícil de seguir porque tive de ler em português e o meu português não é muito bom”, contou Christina Kimont ao Jornal Tribuna de Macau.

“Foi stressante mas a escola parece ter um currículo para actividades em casa. Forneceram-nos um ‘website’ no qual podemos entrar, cada um deles [dos seus filhos] tem a sua informação de ‘log in’ e as suas tarefas. Isto começou na terça ou quarta-feira da semana passada e tiveram tarefas na quinta e na sexta-feira. Foi um início duro, um processo de aprendizagem, mas a minha filha que está no primeiro ano, adorou. O meu filho não sei se adorou mas não se queixa”, sublinhou.

“Felizmente”, salienta, a família tem vários computadores em casa pelo que “podem trabalhar individualmente”, o que será “muito mais fácil à medida que forem atribuídas novas tarefas que têm de fazer”. “Estando em casa, no geral, a longo prazo, não é fácil termos a nossa rotina”.

As questões práticas, são acessíveis. “Abre-se um separador [do site] e mostra todas as tarefas que têm de cumprir e, ou ficam com um ‘visto’, ou desaparecem por completo à medida que são terminadas, por isso, é fácil para eles. O desafio é não os deixar jogar demasiados videojogos ou ver demasiada televisão porque consigo ver diferença no comportamento deles se fizerem isso durante demasiado tempo. Essa parte é um desafio”.

A cada dois dias, o marido de Christina Kimont leva as crianças a zonas onde não estejam muitas outras pessoas “só para fazerem algum exercício”.

“Para mim, o grande desafio é que ainda tenho trabalho que normalmente faria enquanto eles estão nas aulas, como ir à biblioteca. Agora não posso ir e tenho sempre as crianças em casa, é muito mais difícil trabalhar”, admitiu até porque “eles não podem só sentar-se e fazer o trabalho sozinhos”. “Há muita coisa que conseguem, mas precisam de alguém que esteja lá perto e diga para não se distraírem”. Inês Almeida – Macau com Rima Cui in “Jornal Tribuna de Macau”

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