Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Portugal - Cientistas encontram no mar alternativa a biocidas tóxicos

Péptidos produzidos por cianobactérias marinhas podem apresentar um desempenho superior ao dos biocidas comerciais amplamente utilizados na indústria naval


Um consórcio de investigadores liderado pelo CIIMAR – Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental, em colaboração com a Universidade de Lisboa e a Universidade do Porto, desenvolveu uma nova abordagem anti-incrustante (antifouling) baseada em péptidos naturais produzidos por cianobactérias marinhas. A prova de conceito descrita no estudo Engineered coatings containing cyclic peptides from cyanobacteria delay the development of a stable macrofouling community Engineered coatings containing cyclic peptides from cyanobacteria delay the development of a stable macrofouling community, demonstra que estes péptidos são capazes de substituir biocidas tóxicos que dominam o mercado de tintas anti-incrustantes usadas na indústria marítima.

Joana Almeida, investigadora do grupo de Interfaces Oceânicas Bioinspiradas do CIIMAR e líder deste estudo, explica que “a principal inovação deste trabalho está no uso de péptidos naturais produzidos por cianobactérias, que interferem seletivamente nos processos iniciais de colonização biológica, sem prejuízo para organismos não-alvo nem para a biodiversidade marinha”.

O resultado é um produto capaz de “controlar eficazmente a bioincrustação marinha sem recorrer à libertação contínua de biocidas tóxicos, abrindo caminho a uma nova geração de revestimentos anti-incrustantes ambientalmente responsáveis.”

Os desafios da bioincrustação marinha

A bioincrustação marinha, conhecida como biofouling, é um fenómeno natural que ocorre quando superfícies submersas, como cascos de navios, infraestruturas portuárias ou equipamentos de aquacultura, são colonizadas por bactérias, algas e invertebrados.

Este processo representa um dos maiores desafios operacionais e económicos para as indústrias marinhas, nomeadamente a indústria naval, aumentando os custos de manutenção dos navios, o consumo de combustível e de emissões.

Na atualidade, a resposta dominante a este problema é o uso de tintas que libertam continuamente biocidas tóxicos (cobre e outros compostos metálicos) impedindo a incrustação. Apesar da sua eficácia, estas soluções têm um elevado custo ambiental provocando poluição marinha, perda de biodiversidade e degradação dos ecossistemas. A sua ação é tão intensa que alguns biocidas, como o tributilestanho (TBT), já foram banidos pela União Europeia que tem exigido, através do Regulamento dos Produtos Biocidas (UE 528/2012), o desenvolvimento de alternativas ambientalmente seguras.

Joana Almeida explica que “a transição para soluções anti-incrustantes não tóxicas é inevitável face ao enquadramento regulatório europeu.” O estudo agora publicado na conceituada revista científica Trends in Biotechnology, do grupo Cell, apresenta uma solução inovadora de base natural que resolve todos os desafios acima: “essa transição é não só possível, como tecnologicamente viável”, acrescenta a investigadora do CIIMAR.

Uma alternativa eficaz e não tóxica

Durante as experiências realizadas os revestimentos funcionalizados com péptidos bioativos produzidos por uma estirpe de cianobactéria integrada na coleção LEGE-CC do CIIMAR, mostraram ser particularmente eficazes a interferir na formação de biofilmes e a inibir a fixação das larvas de mexilhão em laboratório e, portanto, atrasando as fases iniciais de colonização biológica em condições reais de ambiente marinho, um aspeto crucial no controlo da bioincrustação.

Ao interferirem nos processos de adesão e organização sequencial das comunidades incrustantes iniciais, nomeadamente através da modulação de sinais químicos naturais que orientam a adesão de bactérias e outros microorganismos, estes compostos reduzem o alojamento subsequente de macroalgas e invertebrados, sem recorrer a qualquer toxicidade química. Trata-se de uma estratégia baseada na modulação ecológica da bioincrustação inspirada em mecanismos de comunicação química existentes no oceano.

Segundo Joana Almeida, este “controlo das fases iniciais da bioincrustação é determinante para evitar o desenvolvimento das espécies mais problemáticas. Os nossos resultados mostram que é possível alcançar esse controlo usando a nosso favor os mecanismos naturais de colonização sequencial sem libertar compostos nocivos para o ambiente”.

Igualmente importante de referir é o facto de o estudo em questão demonstrar que estes péptidos produzidos por cianobactérias marinhas apresentam um desempenho comparável, e em alguns aspetos superior, ao de um biocida comercial amplamente utilizado na indústria (Econea®).

“Ao reduzir a libertação de poluentes no oceano, esta tecnologia tem o potencial de gerar benefícios ambientais claros, mas também ganhos económicos diretos para setores como o transporte marítimo, a aquacultura e as infraestruturas costeiras.” reforça a investigadora do CIIMAR.

Os impactos positivos estendem-se a setores como a pesca, a aquacultura e o turismo, contribuindo para oceanos mais saudáveis e para uma economia azul mais sustentável.

Do laboratório à indústria

No que toca ao potencial deste estudo, Joana Almeida explica que o trabalho realizado” vai além da investigação fundamental. Demonstrámos a incorporação funcional dos compostos em revestimentos e validámos protótipos em condições marinhas reais, aproximando a tecnologia de uma aplicação industrial.”

Este avanço representa, assim, uma progressão clara do nível de maturidade tecnológica, aproximando uma solução natural de uma aplicação industrial futura.

A tecnologia encontra-se já numa fase pré-industrial promissora. Os próximos passos passam por demonstrar a eficácia a longo prazo em diferentes ambientes marinhos, bem como otimizar os processos de produção e incorporação dos compostos a uma escala industrial competitiva.

Os resultados deste estudo abrem também novas perspetivas para a investigação e desenvolvimento de tecnologias anti-incrustantes inspiradas na natureza, com benefícios claros para o ambiente, a indústria e a sociedade, alinhadas com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, as exigências europeias e posicionando-se como um passo decisivo rumo a oceanos mais limpos, resilientes e produtivos. Universidade do Porto - Portugal


quinta-feira, 21 de março de 2019

Portugal - Alfaces-do-mar removem metais pesados de águas contaminadas

Na vulgar alface-do-mar pode estar a solução para limpar águas contaminadas pela indústria e pelo consumo doméstico. Uma equipa de investigadores da Universidade de Aveiro (UA) descobriu que esta alga tem uma grande capacidade para remover elementos potencialmente tóxicos da água, a maior parte deles perigosos para a saúde humana e para o meio ambiente



“A remoção alcançada com a alga que temos testado para remover da água, entre outros elementos, arsénio, mercúrio, cádmio e chumbo, é muito elevada”, congratula-se Bruno Henriques, o investigador do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) e do Departamento de Química (DQ) da Academia de Aveiro, que garante que, comparativamente a outros materiais, naturais ou sintéticos, usados hoje correntemente para o mesmo efeito, a taxa de sucesso da alface-do-mar “é superior”.

Por isso, o investigador considera que “estas algas são uma alternativa eficiente, pois removem percentagens elevadas de contaminantes num período curto de tempo, a metodologia é económica e mais ecológica do que os métodos ‘clássicos’ para a remoção destes elementos, que são menos eficazes e, muitas vezes, mais caros, o que se traduz em baixo custo-benefício”.

O estudo da UA indica que cada grama de alga consegue remover em simultâneo 120 microgramas de mercúrio, 160?microgramas de cádmio, 980 microgramas de chumbo, 480 microgramas de crómio, 660?microgramas de níquel, 550 microgramas de arsénio, 370 microgramas de cobre e 2000 microgramas de manganês.

Estes elementos químicos, explica o investigador, apesar de se denominarem de ‘clássicos’ continuam a ser atualmente “muito usados por várias indústrias e a sua presença no ambiente causa impactos negativos, tais como toxicidade, observada mesmo para concentrações muito baixas”. Outros problemas associados a estes elementos “estão relacionados com o seu carater persistente no ambiente e facilidade em se bioacumularem nos tecidos dos organismos”.

Algas cultivadas em locais contaminados

O segredo da grande capacidade de ‘limpeza’ pela alga explica-se através da sorção, processo através do qual a alface-do-mar consegue incorporar nos seus tecidos os contaminantes. O rápido crescimento destas algas, congratula-se Bruno Henriques, “contribui para que se consigam remover os contaminantes em cada vez maior quantidade, pois o crescimento da alga aumenta o número de locais de superfície aos quais estes elementos tóxicos se podem ligar”.

Assim, explica o investigador, “as algas poderão ser utilizadas para diminuir a contaminação de locais muito afetados por descargas destes elementos, através da introdução da alga no local a descontaminar se as condições forem adequadas ao seu crescimento ou cultivando algas num outro local e transportando estas para os locais a serem descontaminados”.

Além da remoção dos elementos tóxicos, os investigadores da UA asseguram que as alfaces-do-mar permitem reduzir também o teor de fosfatos e nitratos em águas e ao usarem dióxido de carbono como fonte de carbono, permitem reduzir a pegada de carbono.

O trabalho foi desenvolvido por uma equipa multidisciplinar da UA constituída por Bruno Henriques, Ana Teixeira, Paula Figueira, Joana Almeida e Eduarda Pereira (investigadores do DQ, do CESAM, do CICECO - Instituto de Materiais de Aveiro e do Laboratório Central de Análises), e com a cooperação da Universidade do Porto e do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. Universidade de Aveiro - Portugal