A dimensão literária de Alda Espírito Santo, cuja poesia conjugou resistência anticolonial, memória e afecto, é um dos propósitos da colectânea de ensaios que foi lançada em Lisboa, segundo a investigadora Inocência Mata.
Intitulada
Alda Espírito Santo: Poéticas do Solo Sagrado, a obra publicada pela
Rosa de Porcelana Editora, surge no ano em que se celebra o centenário do
nascimento da escritora são-tomense, e reúne estudos académicos, procurando dar
visibilidade a uma faceta menos conhecida de uma figura que marcou também a luta
nacionalista e a vida política de São Tomé e Príncipe.
“Ela
não é tão conhecida como poetisa”, afirmou Inocência Mata, em entrevista à
Lusa, explicando que o livro nasceu da vontade de dar a conhecer a obra
literária de Alda Espírito Santo, para além do seu percurso político.
Alda
Espírito Santo foi uma das figuras do nacionalismo são-tomense e desenvolveu a
sua actividade política no interior da então colónia portuguesa, num contexto
de repressão. Para Inocência Mata, essa condição ajuda a compreender as
características da sua escrita, em que a denúncia do colonialismo nem sempre
surge de forma explícita.
“A
ideia é ver como é que a poesia de Alda Espírito Santo transmitia uma
militância muito sub-reptícia. E também em relação à condição feminina, em
relação à ilha, à cultura”, afirmou.
Todo o
seu discurso poético exalta a luta do povo são-tomense e as tradições culturais
do seu país. É a autora do hino nacional e de várias obras literárias, em que
se destacam Mataram o Rio da Minha Cidade, Mensagens do Solo Sagrado
e Cantos do Solo Sagrado, entre outras.
Todos
os anos, desde a independência de São Tomé e Príncipe, uma voz feminina recita
“Trindade”, um dos poemas com que a escritora imortalizou o Massacre de
Batepáde, em 1953.
“A
minha leitura de Alda Espírito Santo faz-se dessa ideia que é realmente uma
poesia de libertação, anticolonialista, nacionalista”, disse a investigadora,
mas também uma “poética do afecto”, construída a partir dos lugares, das
pessoas, das memórias e das experiências do quotidiano.
A
poesia de Alda Espírito Santo recorria, assim, a uma linguagem aparentemente
lírica para abordar questões sociais e políticas. No poema “Avó Mariana”, por
exemplo, a história de uma mulher levada de Angola para trabalhar como
contratada nas roças de São Tomé expõe as consequências de um sistema que
limitava a liberdade e o regresso à terra de origem.
“É um
poema muito lírico, mas de um lirismo social e de um lirismo político”,
observou Inocência Mata, sublinhando que, no caso da escritora são-tomense, a
resistência se expressava muitas vezes de forma mais subtil do que na poesia de
autores que puderam escrever fora dos territórios colonizados.
A
colectânea acompanha diferentes dimensões da escrita de Alda Espírito Santo, da
consciência anticolonial à condição feminina, passando pela memória, a
ancestralidade e as tensões do período pós-independência. Reúne ensaios de
investigadores portugueses, brasileiros e são-tomenses, de áreas como a
literatura, a história e a antropologia.
O
título dialoga com É Nosso o Solo Sagrado da Terra, primeiro livro de
poesia de Alda Espírito Santo, publicado em 1978, depois da independência de
São Tomé e Príncipe. Para Inocência Mata, essa escolha permite recuperar a
dimensão nacionalista da escritora, mas também acompanhar a evolução da sua
escrita e o desencanto que emerge em obras posteriores, como Mataram o Rio
da Minha Cidade.
Inocência
Mata defende que a poesia da autora deveria passar a integrar a leitura
obrigatória nas escolas, considerando que Alda Espírito Santo, a par com
Francisco J. Tenreiro, são os nomes “maiores do século XX” da cultura
são-tomense.
Como
organizadora desta obra, destaca ainda a dimensão afectiva da poesia como forma
de construção da pátria, através da representação dos espaços de sociabilidade,
das mulheres, das crianças e das vivências quotidianas da ilha.
“Como
por trás do afecto, dessa memória, do vivido, deste quotidiano, havia uma voz
insubmissa”, resumiu.
O
lançamento de Alda Espírito Santo: Poéticas do Solo Sagrado, organizado
por Inocência Mata, decorreu no Centro Cultural de Cabo Verde, em Lisboa. In “Jornal
Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”

Sem comentários:
Enviar um comentário