Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Portugal - Novo livro traz dimensão poética e voz “insubmissa” de Alda Espírito Santo

A dimensão literária de Alda Espírito Santo, cuja poesia conjugou resistência anticolonial, memória e afecto, é um dos propósitos da colectânea de ensaios que foi lançada em Lisboa, segundo a investigadora Inocência Mata.


Intitulada Alda Espírito Santo: Poéticas do Solo Sagrado, a obra publicada pela Rosa de Porcelana Editora, surge no ano em que se celebra o centenário do nascimento da escritora são-tomense, e reúne estudos académicos, procurando dar visibilidade a uma faceta menos conhecida de uma figura que marcou também a luta nacionalista e a vida política de São Tomé e Príncipe.

“Ela não é tão conhecida como poetisa”, afirmou Inocência Mata, em entrevista à Lusa, explicando que o livro nasceu da vontade de dar a conhecer a obra literária de Alda Espírito Santo, para além do seu percurso político.

Alda Espírito Santo foi uma das figuras do nacionalismo são-tomense e desenvolveu a sua actividade política no interior da então colónia portuguesa, num contexto de repressão. Para Inocência Mata, essa condição ajuda a compreender as características da sua escrita, em que a denúncia do colonialismo nem sempre surge de forma explícita.

“A ideia é ver como é que a poesia de Alda Espírito Santo transmitia uma militância muito sub-reptícia. E também em relação à condição feminina, em relação à ilha, à cultura”, afirmou.

Todo o seu discurso poético exalta a luta do povo são-tomense e as tradições culturais do seu país. É a autora do hino nacional e de várias obras literárias, em que se destacam Mataram o Rio da Minha Cidade, Mensagens do Solo Sagrado e Cantos do Solo Sagrado, entre outras.

Todos os anos, desde a independência de São Tomé e Príncipe, uma voz feminina recita “Trindade”, um dos poemas com que a escritora imortalizou o Massacre de Batepáde, em 1953.

“A minha leitura de Alda Espírito Santo faz-se dessa ideia que é realmente uma poesia de libertação, anticolonialista, nacionalista”, disse a investigadora, mas também uma “poética do afecto”, construída a partir dos lugares, das pessoas, das memórias e das experiências do quotidiano.

A poesia de Alda Espírito Santo recorria, assim, a uma linguagem aparentemente lírica para abordar questões sociais e políticas. No poema “Avó Mariana”, por exemplo, a história de uma mulher levada de Angola para trabalhar como contratada nas roças de São Tomé expõe as consequências de um sistema que limitava a liberdade e o regresso à terra de origem.

“É um poema muito lírico, mas de um lirismo social e de um lirismo político”, observou Inocência Mata, sublinhando que, no caso da escritora são-tomense, a resistência se expressava muitas vezes de forma mais subtil do que na poesia de autores que puderam escrever fora dos territórios colonizados.

A colectânea acompanha diferentes dimensões da escrita de Alda Espírito Santo, da consciência anticolonial à condição feminina, passando pela memória, a ancestralidade e as tensões do período pós-independência. Reúne ensaios de investigadores portugueses, brasileiros e são-tomenses, de áreas como a literatura, a história e a antropologia.

O título dialoga com É Nosso o Solo Sagrado da Terra, primeiro livro de poesia de Alda Espírito Santo, publicado em 1978, depois da independência de São Tomé e Príncipe. Para Inocência Mata, essa escolha permite recuperar a dimensão nacionalista da escritora, mas também acompanhar a evolução da sua escrita e o desencanto que emerge em obras posteriores, como Mataram o Rio da Minha Cidade.

Inocência Mata defende que a poesia da autora deveria passar a integrar a leitura obrigatória nas escolas, considerando que Alda Espírito Santo, a par com Francisco J. Tenreiro, são os nomes “maiores do século XX” da cultura são-tomense.

Como organizadora desta obra, destaca ainda a dimensão afectiva da poesia como forma de construção da pátria, através da representação dos espaços de sociabilidade, das mulheres, das crianças e das vivências quotidianas da ilha.

“Como por trás do afecto, dessa memória, do vivido, deste quotidiano, havia uma voz insubmissa”, resumiu.

O lançamento de Alda Espírito Santo: Poéticas do Solo Sagrado, organizado por Inocência Mata, decorreu no Centro Cultural de Cabo Verde, em Lisboa. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”


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