Os leitores de português no estrangeiro anunciaram a criação do SiLPE – Sindicato dos Leitores de Português no Estrangeiro, numa reação ao processo de revisão do Regime Jurídico do Ensino Português no Estrangeiro (RJEPE), que consideram não responder às especificidades da profissão nem garantir uma adequada valorização destes docentes
Num
comunicado divulgado na passada terça-feira, 6 de outubro, os promotores do
novo sindicato afirmam que as informações que têm sido divulgadas pelo Governo
sobre o novo RJEPE não correspondem à realidade vivida pelos leitores e
lamentam não terem tido representação efetiva à mesa das negociações.
Entre
as principais críticas está o aumento das responsabilidades atribuídas aos
leitores, que, segundo o comunicado, acumulam atualmente funções de docência
universitária com a gestão de atividades culturais de embaixadas, Centros de
Cultura Portuguesa, Centros de Língua Portuguesa, redes de professores,
cátedras de investigação e centros de exames de certificação, entre outras
tarefas.
Os
leitores afirmam que o novo regime não limita esta acumulação de funções, nem
prevê uma redução da carga letiva, o pagamento de horas extraordinárias ou
compensações financeiras pela acumulação de responsabilidades.
Outra
questão considerada particularmente grave pelo recém-criado sindicato é a
eliminação do subsídio de residência. Segundo os leitores, muitos trabalham
fora da União Europeia, em países onde enfrentam condições de vida e trabalho
particularmente exigentes, incluindo dificuldades no acesso a cuidados de
saúde, educação para os dependentes, isolamento geográfico e riscos para a
segurança pessoal.
O
SiLPE contesta igualmente os números apresentados pelo Governo relativamente à
atualização das remunerações. Os Leitores sustentam que o vencimento base não é
atualizado desde 1999 e que os subsídios de residência não acompanham há
décadas a evolução do custo de vida.
O novo
RJEPE prevê, segundo o comunicado, aumentos remuneratórios que o Governo
apresenta como podendo atingir, em média, cerca de 20% entre 2027 e 2029. Os
leitores contrapõem que, devido à alteração da fórmula de tributação, a maioria
poderá acabar por receber menos em termos líquidos.
De
acordo com os dados apresentados pelo sindicato, 49 dos atuais 56 leitores
poderão sofrer uma redução do rendimento líquido, que em alguns casos poderá
chegar aos 31%, com perdas superiores a mil euros mensais. Os restantes sete
Leitores teriam aumentos líquidos que, segundo o comunicado, variariam entre
0,8% e 13,6%.
O
SiLPE critica ainda a ausência de valorização da experiência profissional e do
percurso académico dos Leitores. Os docentes consideram particularmente
problemática a manutenção da obrigação de voltar a realizar provas de admissão
sempre que pretendam mudar de posto, defendendo que a experiência acumulada
deveria ser reconhecida no processo de recrutamento e progressão.
Os
promotores do sindicato alertam também para a falta de atratividade da rede de
leitorados. Segundo os números apresentados no comunicado, 17 dos 58 leitorados
existentes, cerca de 29%, não estão atualmente preenchidos por leitores em
comissão de serviço.
Na sua
perspetiva, as condições remuneratórias e profissionais contribuem para esta
falta de atratividade, situação que poderá agravar-se com o novo regime, que,
alegam, prevê condições menos favoráveis para os novos Leitores e limita a
renovação das comissões de serviço dos novos profissionais da Rede EPE a um
máximo de nove anos.
É
neste contexto que surge o SiLPE – Sindicato dos Leitores de Português no
Estrangeiro. Os seus promotores explicam que, apesar de muitos leitores estarem
já sindicalizados noutras estruturas, entenderam ser necessário criar uma
organização sindical própria, capaz de representar especificamente as
características e reivindicações desta profissão.
O novo
sindicato afirma ter como objetivo “visibilizar as especificidades da profissão
de leitor e as condições nas quais desempenham as suas funções, próprias e
acumuladas”, bem como defender “a justa valorização da profissão”.
A
criação do SiLPE acontece num momento de particular importância para a rede de
ensino português no estrangeiro, perante a revisão do regime jurídico que
enquadra a atividade dos leitores e as restantes estruturas da Rede EPE.
No
comunicado de apresentação, os leitores deixam claro que pretendem continuar a
contestar aquilo que consideram ser uma desvalorização da profissão e defender
uma revisão das condições remuneratórias, profissionais e de exercício de
funções.
O
sindicato apresenta-se, assim, como uma nova voz organizada dos leitores de
português no estrangeiro, numa altura em que as alterações ao RJEPE estão a
suscitar forte preocupação entre estes docentes. In “Bom
dia Europa”

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