A solidariedade e o apoio aos mais necessitados ocupam um lugar de destaque nas memórias de Nely Nyaka, reunidas no livro Mahanyela: A Vida na Periferia da Grande Cidade de Ka Mpfumo, Lourenço Marques, Maputo, que será apresentado no dia 16 de outubro, pelas 18 horas, no auditório da UCCLA.
Relatada
na primeira pessoa, a obra cruza o percurso pessoal da autora com as
transformações históricas e sociais do país onde nasceu, incluindo o processo
revolucionário. Entre experiências, desafios e vivências, sobressai a atenção
dedicada aos outros e à ajuda a quem mais precisa, conferindo ao seu testemunho
uma forte dimensão humana e solidária.
A
sessão será moderada por Fernando Jorge Cardoso, especialista em assuntos
africanos, e contará com a presença de Gita Honwana Welch, coautora e
apresentadora da obra, e de José Manuel Lopes de Castro, editor da Blue Book.
O
lançamento do livro será transmitido, em direto, através da página do Facebook
da UCCLA em:
https://www.facebook.com/UniaodasCidadesCapitaisLinguaPortuguesa/
Sinopse:
O
livro Mahanyela: A Vida na Periferia da Grande Cidade de Ka Mpfumo, Lourenço
Marques, Maputo, da autoria da minha Mãe, Nely Nyaka, abrange um período de
cerca de 100 anos. Nasceu a 2 de
novembro de 1920, em Ka Tembe, e veio a falecer a 5 de abril de 2024, aos 103
anos.
Mahanyela
é uma palavra na língua Ronga (uma das mais de 40 línguas nacionais em
Moçambique) que se traduz literalmente por ´Forma de Viver´/Forma de Ser/Forma
de Estar.
O
livro foi inicialmente publicado em outubro de 2018, uma semana antes de autora
completar 98 anos, com o título Mahanyela: a Vida na Periferia da Grande
Cidade, sob chancela da editora Moçambicana Marimbique.
Através
da sua história pessoal, a autora põe o leitor em contacto com a vida nos
bairros suburbanos da grande cidade de Ka Mpfumo, mais tarde Lourenço Marques e
hoje Maputo.
Ela
fá-lo assinalando os principais marcos geográficos e sociológicos da ‘sua’ zona
da cidade. Mahanyela presenteia o leitor com uma cartografia urbana em que as
referências importantes sãos os caminhos, as casas de famílias e os moradores, as cantinas, as escolas, os locais de culto,
os mercados, as relações entre os diferentes grupos de moradores, no contexto
de mudanças profundas, convulsões sociais e transformações sociopolíticas e
culturais que, ao longo de várias décadas foram influenciando as formas de
viver dos habitantes de Ka Mpfumo / Lourenço Marques / Maputo, nos subúrbios da
grande cidade e não só.
Os
meus pais, acreditavam fervorosamente na importância de mandar os filhos à
escola, custasse o que custasse, mas isso não diminuía a necessidade que
sentiam de nos equipar, com outras formas de conhecimento, especialmente
aquelas que nos dessem a consciência de quem somos e donde viemos.
Inspirada
pela publicação, em 1985, do livro de Memórias do seu marido, Raúl Bernardo
Honwana, Nely Nyaka achou importante deixar também por escrito a sua história
de vida, como parte do um legado comum.
Neste
livro ela refere também alguns dos temas que foram tratados no livro Memórias
do meu pai, consequência inevitável dos 54 anos que tiveram de vida em comum e
que a ambos marcaram profundamente. Mas no livro Mahanyela esses temas têm um
tratamento diferente por ser também diferente a perspetiva do narrador. No
relato da minha mãe (ao invés da dimensão política claramente presente em
Memórias), ela ressalta a perspetiva local, o lado doméstico, da comunidade, a
abordagem feminina, a candura da observação.
Dos 54
anos do seu casamento com o meu pai (falecido em outubro de 1994), 27 foram
vividos na Moamba, uma vila localizada a 75 quilómetros da capital, onde o meu
pai era o intérprete da administração. Segundo a autora, a Moamba moldou-nos de
uma forma muito especial, a nós e aos nossos filhos.
Foi
efetivamente na Moamba aonde ela começou a sua vida de mulher adulta, casada e
mãe de família. Nesse percurso, ela invoca e reconhece a importância do apoio e
solidariedade dos locais, nomeadamente amigos, compadres, régulos,
comerciantes, pessoal para as crianças da saúde e caminhos de ferro. Mas é
também nesse período que ela aprofunda laços de parentesco e amizade com
famílias que viviam nas proximidades da Moamba, no Sábie, em Ressano Garcia,
Pessene, Dingue, Tenga, entre outros.
A vila
de Ressano Garcia próximo da fronteira de Komatipoort entre Moçambique e a
África do Sul, tinha para nós um charme especial que incluía as compras anuais
de Natal. Depois do ritual das compras em Komatipoort, havia os almoços e
jantares em casa dos nossos familiares, os Mognes, e frequentemente a
convivência com amigos de família como os Garridos, os Pintos, os Isaías, entre
tantos outros. No fim da visita a Ressano Garcia havia sempre um refresco, na
esplanada do glamoroso Hotel Costa Pereira.
A
autora esteve no centro de grandes realizações e sucessos, que partilha
connosco na sua narrativa - o seu ativismo social, capacidade de organização,
carácter de grande frontalidade e coragem e extrema facilidade de criar empatia
e se relacionar com outros seres humanos, incluindo, de origens, raças e
culturas diferentes da sua. Mas ela esteve também no centro de grandes
tragédias pessoais que partilha igualmente connosco, em Mahanyela - a cegueira
do seu filho Raúl, aos seis anos, resultado de uma febre meningite, a prisão
pela PIDE do seu marido, Raul Honwana em 1962, do seu filho Luís a 23 de
dezembro de 1964, a morte trágica do seu filho Fernando, no desastre aéreo que
igualmente vitimou o primeiro Presidente de Moçambique, Samora Machel, e tantos
outros episódios.
Nesta
obra, a autora não se limitou a contar como eram as coisas no antigamente. Ela
expressa preocupação com questões candentes da nossa sociedade, como a relação
dos diferentes grupos linguísticos no mosaico nacional e os resquícios de
tribalismo que ainda existem. Discute também temas da vida política do país,
não hesitando em exprimir discordância ou desagrado em relação a certos
posicionamentos oficiais no processo de governação de Moçambique.
Este
livro contém histórias que ultrapassam, na sua dimensão, a memória de uma só
família ou de uma só pessoa.
Coube-me
a mim o privilégio de recolher da minha mãe esta narrativa, que é inteiramente
sua, para a transformar num livro, que é agora publicado em Portugal.
Que
privilégio!
Gita
Honwana Welch
Biografia:
Nely Nyaka nasceu no dia 2 de
novembro de 1920, na Catembe, Moçambique. O seu ativismo social começou cedo,
primeiro no seio da Igreja Metodista Wesleyana e, mais tarde, no Instituto
Negrófilo (que depois assumiu a designação de Centro Associativo dos Negros da
Colónia de Moçambique). Esteve na criação e foi uma das mais notáveis
dinamizadoras da Associação Pfuna, dedicada a mitigar a pobreza e a miséria de
crianças órfãs.
Em 1939, casou-se com Raul
Bernardo Honwana e foram viver para a Moamba, tiveram oito filhos.
Raul, que militou no Grémio
Africano nos tempos de Karel Pott, publicou, em 1984, um livro de memórias, que
vem constituindo referência em muitos trabalhos académicos.
Inspirada pelos trabalhos do
seu marido, que faleceu em 1994, Nely decidiu também deixar, por escrito, o seu
legado às novas gerações. Estas memórias percorrem uma longa e enriquecida vida
de uma extraordinária personagem deste século moçambicano, mulher dotada de uma
memória prodigiosa, exemplo de probidade e repositórios de valores.
Profunda conhecedora de
Lourenço Marques (Maputo) e, mais particularmente, dos seus bairros
periféricos, onde cresceu, Nely Nyaka fala-nos, em Mahanyela - A vida na
periferia da grande cidade, dos marcos geográficos e sociológicos da sua
cidade, das famílias que a habitavam, das práticas e dos costumes da comunidade
e dos artifícios a que se recorria para mitigar a pobreza, e para vencer as
enormes barreiras criadas pelo poder colonial a todos os que não fossem
brancos.
Estendendo-se até aos nossos
dias, o relato da Vovó Nely, como era carinhosamente chamada, acompanha com
muito humor e surpreendente lucidez - que desmente os seus quase 100 anos de
idade - as profundas transformações que ocorreram na história recente do país.
Pelo seu ineditismo, este livro é um acervo imprescindível para o conhecimento
e estudo futuros, transformando-se assim num referencial importante da
moçambicanidade.
Faleceu a 5 de abril de 2024,
aos 103 anos.

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