Docente da Universidade de São Paulo e ex-professora na Universidade de Macau, a linguista Maria Célia Lima-Hernandes queria estudar o português de Macau e acabou por escrever um livro sobre as áreas “híbridas” do território, com foco na língua e na comunidade macaense. “Macau – Lótus do Oriente” é apresentado hoje na Casa de Macau em Lisboa
Como surge Macau no seu
trabalho académico?
Fui
professora de língua portuguesa na Universidade de São Paulo. Todas as vezes
que tinha de falar sobre o português em Macau, não tinha material suficiente.
Então esperei que as minhas filhas crescessem para me candidatar a uma bolsa
para poder fazer pesquisa em Macau. O único livro que havia na universidade
[Universidade de São Paulo] sobre Macau era de Graciete Batalha [Bom Dia,
S’tora!] e falava da língua crioula [patuá], e não português. Quando dava aulas
dizia que em Macau havia um crioulo, mas não sabia falar nada sobre o português
e a sua situação. Só quando fui para Macau é que descobri o que era, de facto.
Depois, comecei a frequentar o outro lado, e comecei a interessar-me pela
história do entrosamento entre portugueses e chineses. Comecei a dividir o meu
trabalho com o Arquivo Histórico de Macau, no Tap Seac, e a analisar certidões,
assentos de nascimento, casamento e morte, de óbito, e também testamentos.
Comecei a descobrir a história das meninas que foram abandonadas, ou que
ficaram órfãs mesmo, na primeira década do século XX.
Porque escolheu esse período
para investigar?
Há
muitos estudos até ao final do século XIX, há muitos estudos a partir de 1920.
E a documentação da primeira década desapareceu, com tufões e incêndios, e o
que ficou são registos de nascimento, morte ou casamento. Comecei a investigar
a partir daí.
Este livro funciona como uma
espécie de radiografia de Macau, da sua geografia humana. Como foi encontrar um
fio condutor nesta diversidade que é Macau?
Voltando
a esta primeira década do século XX, Macau era um território onde se podia
caminhar, e as pessoas comentavam nestes documentos históricos que a China era
do outro lado. Perguntei, anos mais tarde, a macaenses o que planeavam para o
futuro, agora que [a administração de] Macau tinha passado para a China.
Perguntava como tinha sido percebida a entrada da China no território. As
respostas deram-me outras questões, e uma delas era que a China estava a
aproximar-se pela água, e ninguém percebia. Houve aterros. As pessoas não
tinham esta noção. Isto aconteceu em 2015, no segundo momento da minha estadia
em Macau. Mesmo na universidade, os meus alunos ajudaram-me a perceber essa
percepção do espaço. Eu perguntava: “Quando estão aqui [no campus da UM em Hengqin]
estão em Macau ou na China?”. Os professores, e também os portugueses, que
viviam no campus; e os alunos de Macau diziam que estávamos em Macau. Mas os
alunos da China diziam que ali era a China, porque tinham a mesma rede de
telemóvel. Aí comecei a trabalhar na questão das fronteiras, e com os
documentos recuei no tempo, descobrindo a Ilha Verde que já não era ilha, mas
que as pessoas ainda chamavam assim. Tudo isso foi mudando, mas as percepções
das pessoas não. Fiz entrevistas a pessoas que se dizem macaenses 100 por
cento, ou seja, 50 por cento chinês, 50 por cento português. Esse é um dos
grupos que trabalho neste livro. Há outros grupos de macaenses, mas esse é o
mais interessante, porque é a raiz de Macau. São muito chineses e muito
portugueses, defendem essas duas nacionalidades como uma só, nessa hibridez.
Foi aí que surgiu a ideia da flor de lótus [para o título do livro], porque ela
é híbrida. Tanto está no meio do lodo, como sobe à superfície, mostrando toda a
beleza que tem. Os macaenses que se dizem 100 por cento são isso.
Deu aulas em Macau em 2015,
mas esteve no território antes para fazer pesquisa.
Só
cheguei a Macau em 2010. Fiz as entrevistas, não havia smartphones, então foi
tudo feito corpo a corpo. Depois voltei ainda para pesquisar documentos no
Arquivo Histórico, e regressei então em 2015. Macau já estava totalmente
diferente. Fiquei a viver no campus da UM, e tive uma experiência completamente
diferente.
Mas voltando à questão do
macaense. No livro refere que não é só uma questão de etnia, mas de “construção
social”. Em que sentido?
Os
macaenses 100 por cento sempre tiveram o chinês dentro da família. Alguns
receberam o documento oficial dentro da família, a certidão de baptismo, apenas
depois da morte da parte da família portuguesa. Mantém-se ali, como filhos da
herança portuguesa, mas não têm o documento, e conseguem-no não porque lutassem
por ele, mas porque deveriam ser escondidos, porque ninguém queria ter uma mãe
chinesa, compreende?
Falamos aqui da primeira
década do século XX?
Sim,
mas essa situação repete-se com as pessoas que entrevistei, muitos anos depois.
Nessa primeira década era a situação das meninas órfãs, e analisei o caso das
meninas que estavam na congregação das Canossianas, italianas. Elas recolhiam
essas crianças, dando-lhe instrução e ensinando português.
Eram meninas sem família?
Algumas
tinham família e eram entregues porque os pais queriam que fossem inseridas na
sociedade. Outras eram entregues por serem bastardas, filhas de soldados
portugueses que não as reconheciam. A vida era muito difícil para muitas
famílias [da comunidade chinesa], por causa de guerras, tufões, doenças. Elas
percebem que, com a presença portuguesa [em Macau] era necessário incluir essas
meninas, para que tivessem uma história digna na sociedade. Ia passando de boca
em boca, nesta comunidade, o que era ensinado e o que era necessário para se
ser uma mulher macaense. Mas elas não tinham nome. Tinham o nome chinês, e
depois eram sujeitas a um baptismo colectivo, e aí recebiam nomes portugueses.
Inicialmente, são dados os nomes das freiras. Depois, na segunda geração de
crianças, já são nomes de macaenses. Falamos então de meninas macaenses
oriundas de famílias chinesas pobres e que moravam em zonas periféricas. São
crianças inseridas na sociedade e que depois ganham um segundo nome, com o
marido macaense ou português metropolitano. Então, logo aí, havia a construção
social do macaense. Mas isso vai acontecer depois na sociedade, mesmo com
chineses.
Disse que entrevistou apenas
um grupo de macaenses. Porquê?
Interessaram-me
os que foram para a Escola Comercial. Eram mais de classe média, e existia uma
pobreza muito grande. Eles foram para essa escola para aprender um ofício e
começar a trabalhar.
O seu livro faz também uma
espécie de estudo das línguas existentes em Macau, da relação entre o patuá, o
português e o chinês. É uma espécie de levantamento da evolução destes idiomas
no território.
Na
verdade, quando comecei a pesquisa, percebi que o tema não era aquele por onde
tinha começado. O tema ganhou vida e outras proporções. Percebi que o tema que
sempre me tinha interessado era a hibridez, e ao longo do livro percebemos que
em Macau quase tudo é híbrido, e é muita coisa. Mas, obviamente, não analisei
tudo.
Então, o que é homogéneo em
Macau?
Acho
que a identidade do português da metrópole é homogénea. Mesmo que os
portugueses tenham casado depois com chinesas, e que ficaram em Macau até hoje,
e que nem querem voltar para Portugal, têm uma identidade portuguesa muito
forte. Os chineses, por outro lado, também são muito homogéneos.
De todos esses cenários de
hibridez em Macau, qual é, para si, o mais fascinante?
O que
mais me fascinou foi a forma como as duas identidades convivem. São duas coisas
numa só. Quando estive em Macau agora, fui ao Cemitério [de São Miguel
Arcanjo], identifiquei ali algumas meninas [da pesquisa dos primeiros anos do
século XX]. Então o que mais me encanta é essa hibridez que não é vista, nem
percebida. É a hibridez identitária, da comida misturada, da terra com a água.
A língua passou a ser o que menos importava. A língua mostra, vincula, mas
esconde muita coisa.
Macau está num rápido processo
de integração regional. Em que lugar fica esta hibridez? Que território vamos
ter?
É uma
boa pergunta. Quando vejo os prédios a serem erguidos na Grande Baía, pergunto:
“Quem vai morar ali?”. Espera-se que sejam para os reformados, então vamos
tirar um grupo de pessoas de um espaço, levá-lo para outro grupo, e é uma
hibridez diferente, porque vai entrando cada vez mais na China. Parece-me que
quando voltar lá daqui a cinco anos, talvez a hibridez seja de chineses. Sempre
houve, mas é mais escondida do que aquilo que podemos pensar. Nos levantamentos
que fiz para o livro, havia uma grande mistura de chineses, mas toda ela
coordenada pela China. Quem entrava, quem vinha fazer o quê em Macau. Conheci
uma senhora que veio ao colo da mãe para Macau. Hoje está completamente
integrada na sociedade. Então ela é chinesa de Macau? Não, macaense. Então no
futuro vai ser difícil separar tudo isso, porque os macaenses 100 por cento que
conheci estão a morrer e os filhos já usam inglês como língua corrente. Acho
que, no futuro, vai ser chinês e inglês.
No livro diz que temos de
olhar para Macau “como um caleidoscópio”, porque existirem muitos
condicionalismos na definição desses perfis de língua. Em que sentido?
Senti
que, cada vez que chegava a Macau, era como se tivesse um caleidoscópio na mão,
agitasse e tivesse sempre uma nova imagem a aparecer, com mudanças muito
rápidas. O discurso também mudou, e da penúltima vez que voltei, havia um
debate imenso na imprensa sobre a questão do chinês e a questão da preservação
do cantonês. Para um linguista não há dialectos, porque todas as formas de
manifestação linguística são línguas, pela questão de sociolinguística, pelo
direito de falar. E o cantonês é uma língua muito forte. Os professores já
ensinam mandarim na sala de aula, mas o vigor do cantonês mantém-se, e acho que
é uma tradição muito forte, é mesmo cultural. É a língua da família, e isso não
se perde.
Foi para Macau estudar o
português no território. Encontrou as respostas que queria?
Identifiquei
coisas sobre as quais não vou poder avançar mais, porque tudo está a mudar
rapidamente.
O que acha que vai mudar mais
depressa?
A
geografia, a mobilidade do povo. Quando sai um funcionário público macaense ou
português, entra um chinês para o lugar. Haverá mais chineses que chegam para
estudar e ficam. Mais chineses do exterior que ficam. Esta é uma obra
emocional, que fala de pessoas que conheci. Andreia Silva – Portugal in “Hoje
Macau”


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