Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Macau - Director da Escola Portuguesa de Macau defende que expansão faria “todo o sentido”

O novo director da Escola Portuguesa de Macau (EPM) declarou que, para já, não existem planos para a expansão da instituição, embora fizesse “todo o sentido”, já que “está na capacidade máxima”, com um total de 828 alunos.


“A escola está na sua capacidade máxima. Eu diria que, quer obras de requalificação, quer alguma expansão – que tem sempre de ser muito bem pensada – naturalmente que teriam todo o sentido, porque viriam melhorar as condições globais, eventualmente criar um pouco mais de capacidade para acolhermos mais alunos”, disse, em entrevista à Lusa, João Miguel Gonçalves, recém-chegado ao cargo.

Questionado sobre se há novidades neste sentido, o director respondeu negativamente. Quer a expansão quer a requalificação estão em “cima da mesa já há muitos anos”, lembra, notando ainda “ser prematuro” falar sobre o tema, já que “são decisões que passarão necessariamente, quer pela Fundação Escola Portuguesa de Macau, quer pelos órgãos de governo” de Portugal e Macau.

Há vários anos que se fala numa possível expansão da EPM, com falta de espaço crónica, tendo-se inclusivamente aventado a hipótese de deixar o edifício actual e criar de raiz uma nova estrutura na ilha da Taipa.

No presente ano lectivo, estão inscritos 828 alunos – mais 18 do que no ano anterior – de cerca de dezena e meia de nacionalidades, sendo a maioria portugueses e chineses. Apesar do aumento de inscritos não representar uma variação significativa, “é um sinal positivo”, destaca João Miguel Gonçalves, lembrando a “forte redução de alunos” no território.

“A EPM está numa situação ímpar desse ponto de vista, porque tem especificidades que fazem com que a procura não seja a procura normal do mercado na área da educação. E aqui, pelo menos, nota-se que se mantém uma dinâmica de procura importante”, reforça.

No que diz respeito aos professores – 83 a cargo de 38 turmas -, este ano o estabelecimento conta com novos cinco profissionais contratados em Portugal, de acordo com o director, que recusa a falta de educadores, contrariando, desta forma, a existência de instabilidade no corpo docente de anos passados.

Em Junho, o ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, reconheceu dificuldades na contratação de docentes para instituições de ensino portuguesas em Macau devido a alterações nas autorizações de residência e, segundo disse, a melhores condições em Portugal.

Macau não aceita desde Agosto de 2023 novos pedidos de residência de portugueses para o “exercício de funções técnicas especializadas”, permitindo apenas justificações de reunião familiar ou anterior ligação ao território.

João Miguel Gonçalves olha com naturalidade para as circunstâncias actuais: “Isso talvez seja uma questão para quem já cá vivia. Para quem chega hoje, chega com as condições que existem hoje”.

Sobre o arranque do novo ano lectivo, o director garante que decorreu “com toda a tranquilidade” e após obras de melhorias do espaço. A escola, defende, deverá continuar a afirmar-se como “uma plataforma de encontro entre as culturas portuguesa e chinesa”, focada na promoção da multiculturalidade.

A língua e a cultura portuguesas continuam a ser a marca identitária e o núcleo do projecto educativo da EPM, embora João Miguel Gonçalves defenda, simultaneamente, continuar a investir no mandarim.

Sobre o que se segue, diz que “o primeiro grande desafio é que esta é uma escola única”, que cumpre finalidades “que estão muito além” das escolas em Portugal ou de outras escolas portuguesas no estrangeiro: “ser um baluarte da língua e cultura portuguesas na Ásia, na RAEM, República Popular da China, com uma configuração no seu modelo gestionário, que é também única”.

A EPM leva a cabo a realização de uma cerimónia semanal do hastear da bandeira da China. A EPM “vem desenvolvendo há pelo menos dois anos”, às segundas-feiras, esta cerimónia, diz o director, notando, porém, ser uma actividade de carácter voluntário.

“Tudo o que seja regulamentos e leis são para cumprir (…), tudo o que tenha a ver com a cerimónia está de tal forma balizado que penso que não nos cabe entrar nesse debate”, acrescenta, quando questionado sobre o tema.

Ensino além da sala de aula com apoio da IA

João Miguel Gonçalves defende o reforço da utilização da Inteligência Artificial (IA) na educação, inspirando-se em modelos observados em escolas chinesas e admitindo uma possível colaboração com uma instituição de Hangzhou. À frente da EPM desde Setembro, integrou recentemente uma delegação do sector educativo numa visita ao Interior da China. Uma das paragens foi a escola pública Qian Xuesen, em Hangzhou.

“A abordagem que estão a fazer vem ao encontro de algumas ideias que eu já preconizava em Portugal, que é um pouco a utilização da IA, das novas tecnologias, não só dentro do próprio espaço da sala de aula, mas que toda a escola, que é isso que acontece um pouco lá, se possa transformar em local de aprendizagem”, disse.

“Ou seja, as crianças, os jovens, quando saem para os corredores – nos corredores também há permanentemente nas paredes coisas a acontecer com que eles podem interagir e em que há aprendizagem”, especifica.

João Miguel Gonçalves diz que falou com a DSEDJ para criar uma “relação especial-protocolar” com a escola em Hangzhou.

A ideia, diz, passa por “desboroar um bocado o conceito” de que apenas na sala de aula se concretiza a aprendizagem e transformar “todos os espaços e todos os momentos em momentos de aprendizagem”.

O director da EPM sublinha que “é inevitável” o caminho em direcção à IA, o que “não quer dizer ecrâs e salas cheias de computadores”.

“Hoje não é isso, é uma espécie de uma domótica global que recolhe dados das mais diversas áreas e que, ao monitorizar a própria gestão e administração, o funcionamento pedagógico, as instalações, começa a gerar informação que, para os educadores, é altamente valiosa para tomar decisões”, explica.

O responsável nota que a utilização de IA e da gamificação – uso de elementos, mecânicas e dinâmicas de jogos em contextos que não são jogos – pode aumentar o tempo efectivo de aprendizagem, gerar mais informação sobre o desempenho dos alunos e facilitar um acompanhamento mais individualizado.

Num modelo clássico, exemplifica, a aprendizagem numa aula de português depende do número de minutos que se passa a exercitar. Em cada aula de 45 minutos, cada aluno, efectivamente lerá ou terá escrito 20 ou 25 minutos, sugere o director.

Mas, se for utilizada tecnologia – não necessariamente um computador, “pode ser um tipo de aprendizagem com outro tipo de experiência” -, aumentar-se-á o número de minutos efectivos em que o aluno está a aprender.

“Enquanto numa aula – a não ser que estejamos lá com o cronómetro – nós nunca conseguimos ter certeza absoluta de qual foi o tempo aproveitado, se tivermos instrumentos em que o aluno esteja a trabalhar, vamos ter mais dados sobre essa aprendizagem, que tempo é que é efectivamente aproveitado, em que conhecimento ou proficiência leitora se transformou”, diz.

Se um professor estiver sozinho numa sala a ensinar português, também não terá capacidade de “criar individualização”, ao contrário destes novos “processos de apoio ao professor”: “vai ser um pouco como se tivéssemos 21 professores a trabalhar individualizadamente, personalizadamente, com cada aluno”.

Formação de lideranças “é importante”

O director da EPM defendeu uma “componente forte” na formação de lideranças desde os primeiros graus de ensino, notando que esta é uma área que interessa à instituição desenvolver.

“Pensamos na formação de lideranças já quando as pessoas são profissionais. Não, a formação de lideranças está hoje em diversos programas que já se implementam desde o primeiro, segundo, terceiro ciclos, o ensino secundário, em conjunto com universidades, escolas de negócios, de economia, e isso é importante”, diz João Miguel Gonçalves.

O director nota que já existem projectos na EPM que se vão “fazendo de forma mais informal”, mas é necessário apresentá-los agora com uma estrutura e uma identidade “mais clara”. “Temos de ambicionar também criar novas dinâmicas”, explica. Para já, refere, existem apenas ideias.

“No âmbito destas áreas de melhoria [da escola], da visão que vou construindo cooperativamente (…), temos que ter uma componente forte de formação de lideranças”, considera. Pode vislumbrar-se parcerias com instituições de Macau, Portugal ou do interior da China.

No âmbito das comemorações dos 30 anos da EPM, que se celebram em 2028, o responsável indica que a direcção da EPM quer perceber onde andam os antigos alunos, o que fazem hoje e que impacto teve a EPM. O levantamento sobre o percurso dos alunos poderá ser apresentado em forma de um livro com entrevistas, antecipa, notando, porém, que o programa das comemorações ainda está a ser delineado. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”


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