A Fundação Rui Cunha recebe no dia 21 de Outubro o lançamento de “Let’s All Persevere – Covid, Gaming and Other Macau Oddities”, uma compilação de crónicas de Nelson Moura publicadas na Macau Business. Em conversa com o Ponto Final, o jornalista português explica que o livro pretende fazer uma reflexão sobre o período crítico entre 2020 e 2023 e o muito que ficou por dizer, depois de levantadas as últimas medidas contra a Covid-19
A
Fundação Rui Cunha vai acolher a apresentação do livro Let’s All Persevere –
Covid, Gaming and Other Macau Oddities (traduzível como “Vamos Todos
Perseverar – Covid, Jogo e Outras Excentricidades de Macau) no dia 21 de
Outubro, pelas 18h30, com entrada livre. A obra reúne um conjunto de crónicas
publicadas pelo jornalista Nelson Moura na revista Macau Business entre
Fevereiro de 2020 e Julho de 2023, período profundamente marcado pelo impacto
da Covid-19 no panorama socioeconómico da região.
Mais
de três anos após a Organização Mundial da Saúde (OMS) ter decretado o fim da
pandemia enquanto emergência sanitária global, Nelson Moura recupera algumas
das crónicas publicadas entre o registo dos primeiros casos de Covid-19 em
Macau e a fase de normalização já após a abertura das fronteiras, quando a
cidade passou a assumir como prioridade a recuperação económica e turística. A
perspectiva do autor é “profundamente humana”, como se lê na descrição do
livro, oscilando entre a análise jornalística, a sátira e o humor e desabafos
pessoais.
Ao Ponto
Final, o jornalista português recorda que os seus primeiros textos de opinião
surgiram no início de 2020, quando desempenhava funções de editor na Macau News
Agency (a plataforma digital da Macau Business). A ideia foi lançada pelo
fundador e então director da revista, Paulo Azevedo, sob o argumento de que um
editor deveria ter uma voz crítica e activa no seio da comunidade. “Foram
tempos muito caóticos, no início da pandemia. Estava muita coisa a acontecer e
todas as semanas eram anunciadas novas restrições e novas políticas de controlo
da pandemia”, lembra Nelson Moura. “Achei que talvez fosse uma boa forma de
deixar um registo do que se estava a passar, de uma coisa que parecia ser
única, e também como uma espécie de reflexão pessoal”.
Foram,
de facto, tempos sem precedentes em Macau: os casinos, o motor económico da
cidade, operaram durante meses com salas praticamente vazias, enquanto o fecho
das fronteiras e as restrições de viagens provocaram uma queda drástica no
número de visitantes. A política “zero covid” e os confinamentos prolongados
tiveram também consequências sérias na saúde mental da população, como nota o
jornalista. “Ficámos quase dois anos barricados em Macau – todas as pessoas que
estavam habituadas a sair da cidade regularmente viram-se de repente presas
nesta ilha de 36 quilómetros quadrados, a tentar arranjar maneiras de dar
alguma felicidade e algum sentido à nossa existência”.
No
entanto, tal como o nome faz adivinhar, as crónicas não se centram apenas na
questão da pandemia, mas nas demais “excentricidades” que marcaram esse
período. “Obviamente, durante esses anos, foram acontecendo outras coisas em
Macau, algumas delas muito relevantes”. É o caso da detenção do antigo
director-executivo do grupo Suncity, Alvin Chau, condenado a 18 anos de prisão
por exploração ilícita de jogo e sociedade secreta. Em paralelo às reflexões
sobre Macau, há também notas pessoais sobre o quotidiano do autor num mundo que
se tornava cada vez mais irreconhecível. “Tenho uma crónica que é sobre como
passear a minha cadela me ajudava mentalmente”, exemplifica.
A
ideia de seleccionar as crónicas mais relevantes e compilá-las num livro
(deixando de fora aquelas que poderiam ser mais “desgastantes” para o leitor,
como as que falavam sobre as novas restrições à medida que eram anunciadas) foi
depois apresentada a António Monteiro, secretário-geral do Instituto
Internacional de Macau (IIM), e a José Carlos Matias, o actual director da
Macau Business, que concordaram participar no projecto. “Achámos engraçado ter
um livro que falasse sobre o que aconteceu na pandemia. Depois de as medidas
terem sido levantadas, a impressão que dá é que não se pode falar do que
aconteceu. Pandemia? De que pandemia estamos a falar?”, ironiza.
O
projecto abre um novo espaço de debate sobre um assunto que, afinal, nunca foi
totalmente encerrado: “sempre achei que as pessoas tinham ainda muito para
dizer e para reflectir sobre o que aconteceu durante aquele período”. A
retrospectiva sobre a Covid-19 e os rigorosos controlos sanitários pode por
vezes parecer “pesada”, como admite o autor, sendo por isso atenuada por laivos
de humor. A própria capa, da autoria do ilustrador Afonso Castro, reflecte esta
pluralidade de interpretações, apresentando um desenho rico em detalhes que
põe, em grande plano, um grupo de jogadores num casino vestidos com fatos de
protecção biológica e máscaras.
O
evento na Fundação Rui Cunha será conduzido em língua inglesa pelo próprio
autor, acompanhado por José Carlos Matias. A sessão vai consistir numa
apresentação do livro e das experiências nele relatadas, convidando o público a
reflectir sobre estes anos de enorme transformação em Macau e no mundo. “Também
podemos pensar nisto como uma espécie de grupo de ajuda”, sorri Nelson Moura. Carolina
Baltazar – Macau in “Ponto Final”

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