Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Macau - Jornalista Nelson Moura lança livro sobre a Covid-19 e outras “excentricidades”

A Fundação Rui Cunha recebe no dia 21 de Outubro o lançamento de “Let’s All Persevere – Covid, Gaming and Other Macau Oddities”, uma compilação de crónicas de Nelson Moura publicadas na Macau Business. Em conversa com o Ponto Final, o jornalista português explica que o livro pretende fazer uma reflexão sobre o período crítico entre 2020 e 2023 e o muito que ficou por dizer, depois de levantadas as últimas medidas contra a Covid-19


A Fundação Rui Cunha vai acolher a apresentação do livro Let’s All Persevere – Covid, Gaming and Other Macau Oddities (traduzível como “Vamos Todos Perseverar – Covid, Jogo e Outras Excentricidades de Macau) no dia 21 de Outubro, pelas 18h30, com entrada livre. A obra reúne um conjunto de crónicas publicadas pelo jornalista Nelson Moura na revista Macau Business entre Fevereiro de 2020 e Julho de 2023, período profundamente marcado pelo impacto da Covid-19 no panorama socioeconómico da região.

Mais de três anos após a Organização Mundial da Saúde (OMS) ter decretado o fim da pandemia enquanto emergência sanitária global, Nelson Moura recupera algumas das crónicas publicadas entre o registo dos primeiros casos de Covid-19 em Macau e a fase de normalização já após a abertura das fronteiras, quando a cidade passou a assumir como prioridade a recuperação económica e turística. A perspectiva do autor é “profundamente humana”, como se lê na descrição do livro, oscilando entre a análise jornalística, a sátira e o humor e desabafos pessoais.

Ao Ponto Final, o jornalista português recorda que os seus primeiros textos de opinião surgiram no início de 2020, quando desempenhava funções de editor na Macau News Agency (a plataforma digital da Macau Business). A ideia foi lançada pelo fundador e então director da revista, Paulo Azevedo, sob o argumento de que um editor deveria ter uma voz crítica e activa no seio da comunidade. “Foram tempos muito caóticos, no início da pandemia. Estava muita coisa a acontecer e todas as semanas eram anunciadas novas restrições e novas políticas de controlo da pandemia”, lembra Nelson Moura. “Achei que talvez fosse uma boa forma de deixar um registo do que se estava a passar, de uma coisa que parecia ser única, e também como uma espécie de reflexão pessoal”.

Foram, de facto, tempos sem precedentes em Macau: os casinos, o motor económico da cidade, operaram durante meses com salas praticamente vazias, enquanto o fecho das fronteiras e as restrições de viagens provocaram uma queda drástica no número de visitantes. A política “zero covid” e os confinamentos prolongados tiveram também consequências sérias na saúde mental da população, como nota o jornalista. “Ficámos quase dois anos barricados em Macau – todas as pessoas que estavam habituadas a sair da cidade regularmente viram-se de repente presas nesta ilha de 36 quilómetros quadrados, a tentar arranjar maneiras de dar alguma felicidade e algum sentido à nossa existência”.

No entanto, tal como o nome faz adivinhar, as crónicas não se centram apenas na questão da pandemia, mas nas demais “excentricidades” que marcaram esse período. “Obviamente, durante esses anos, foram acontecendo outras coisas em Macau, algumas delas muito relevantes”. É o caso da detenção do antigo director-executivo do grupo Suncity, Alvin Chau, condenado a 18 anos de prisão por exploração ilícita de jogo e sociedade secreta. Em paralelo às reflexões sobre Macau, há também notas pessoais sobre o quotidiano do autor num mundo que se tornava cada vez mais irreconhecível. “Tenho uma crónica que é sobre como passear a minha cadela me ajudava mentalmente”, exemplifica.

A ideia de seleccionar as crónicas mais relevantes e compilá-las num livro (deixando de fora aquelas que poderiam ser mais “desgastantes” para o leitor, como as que falavam sobre as novas restrições à medida que eram anunciadas) foi depois apresentada a António Monteiro, secretário-geral do Instituto Internacional de Macau (IIM), e a José Carlos Matias, o actual director da Macau Business, que concordaram participar no projecto. “Achámos engraçado ter um livro que falasse sobre o que aconteceu na pandemia. Depois de as medidas terem sido levantadas, a impressão que dá é que não se pode falar do que aconteceu. Pandemia? De que pandemia estamos a falar?”, ironiza.

O projecto abre um novo espaço de debate sobre um assunto que, afinal, nunca foi totalmente encerrado: “sempre achei que as pessoas tinham ainda muito para dizer e para reflectir sobre o que aconteceu durante aquele período”. A retrospectiva sobre a Covid-19 e os rigorosos controlos sanitários pode por vezes parecer “pesada”, como admite o autor, sendo por isso atenuada por laivos de humor. A própria capa, da autoria do ilustrador Afonso Castro, reflecte esta pluralidade de interpretações, apresentando um desenho rico em detalhes que põe, em grande plano, um grupo de jogadores num casino vestidos com fatos de protecção biológica e máscaras.

O evento na Fundação Rui Cunha será conduzido em língua inglesa pelo próprio autor, acompanhado por José Carlos Matias. A sessão vai consistir numa apresentação do livro e das experiências nele relatadas, convidando o público a reflectir sobre estes anos de enorme transformação em Macau e no mundo. “Também podemos pensar nisto como uma espécie de grupo de ajuda”, sorri Nelson Moura. Carolina Baltazar – Macau in “Ponto Final”


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