Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Suíça - “Hanami” de Denise Fernandes vence prémio revelação do Festival de Cinema de Locarno

A realizadora Denise Fernandes conquistou, com “Hanami”, projecto filmado na Ilha do Fogo, em Cabo Verde, o prémio revelação na 77ª edição do Festival de Cinema de Locarno, na Suíça, foi agora revelado.


Denise Fernandes, que já tinha apresentado em Locarno a curta-metragem “Nha Mila” (2020), é uma realizadora portuguesa de origem cabo-verdiana, formada na Suíça. O seu nome consta por duas vezes na lista de premiados, primeiro com o Prémio de Melhor Realizador Revelação – Cidade e Região de Locarno e, depois, nas Menções Especiais.

Esta longa-metragem fala das etapas e dores do crescimento de uma menina, desde que está na barriga da mãe até à adolescência.

Na secção “Cineastas do Presente”, “Hanami” centra-se na história de uma família de “uma ilha vulcânica remota”, de onde toda a gente quer partir, mas onde uma criança, “a pequena Nana, aprende a ficar”.

O grande vencedor foi Akiplėša (Toxic) que deu à cineasta lituana Saulė Bliuvaitė o Leopardo de Ouro. O filme acompanha duas meninas de 13 anos, Marija e Kristina, que criam um vínculo único numa escola de modelos local, onde a promessa de uma vida melhor leva as meninas a violar os seus corpos de maneiras cada vez mais extremas.

Mond, de Kurdwin Ayub (Áustria), ganhou o Prémio Especial do Júri, enquanto o Prémio de Melhor Direcção foi para Laurynas Bareiša por Seses (Afogando-se a Seco).

Os dois prémios de Melhor Performance foram dados respectivamente a Gelminė Glemžaitė, Agnė Kaktaitė, Giedrius Kiela e Paulius Markevičius por Seses e a Kim Minhee, estrela de Suyoocheon de Hong Sangsoo (Coreia do Sul). O Pardo d’Oro no “Concorso Cineasti del Presente” foi concedido a Holy Electricity de Tato Kotetishvili.

Em comunicado, a organização destaca que esta 77ª edição teve “um programa rico e variado de filmes”, e que “a selecção oficial do Locarno77 serviu como uma defesa robusta de todos os tipos possíveis de cinema, abrangendo do popular ao cinema de arte, do experimental ao clássico, do de autor ao colectivo”.

“Uma edição verdadeiramente única que marcou mais uma vez o que torna Locarno um festival tão querido tanto pelo público mundial quanto pela indústria cinematográfica. Criatividade e esperança por um amanhã melhor foram os elementos que percorreram todas as seções. O cinema é uma força motriz e Locarno é um carro-chefe para isso”, refere o director artístico do Festival de Cinema de Locarno, Giona A. Nazzaro, citado no comunicado.

Este ano, na competição internacional de Locarno esteve também “Fogo do Vento”, primeira longa-metragem de Marta Mateus, que sucede à curta-metragem “Farpões Baldios” (2017). “Fogo do Vento”, co-produzido por Marta Mateus e Pedro Costa, em co-produção com França e Suíça, conta com alguns dos protagonistas do filme anterior, aprofundando histórias de uma comunidade alentejana, “num filme político que convoca a memória das gerações anteriores”, indo “da resistência à ditadura salazarista ao tempo presente”, segundo a sua apresentação.

O realizador português Carlos Pereira, que trabalha na Alemanha, foi seleccionado para a competição internacional da secção “Leopardo de amanhã”, com a curta-metragem “Icebergs”, de produção alemã.

Fora de competição, num festival que teve início no dia 07 e terminou no fim-de-semana, Edgar Pêra estreou “Cartas Telepáticas”, um filme com imagens geradas por Inteligência Artificial e que põe em diálogo os universos literários dos escritores H.P. Lovecraft e Fernando Pessoa.

Também extraconcurso, Locarno acolheu o filme “O vento assobiando nas gruas”, que a realizadora suíça Jeanne Waltz fez a partir de um romance de Lídia Jorge. In “Jornal Tribuna de Macau – Macau com “Lusa”


sábado, 17 de agosto de 2024

Suíça - Filme lituano ganha o Leopardo de Ouro no Festival de Locarno

O Leopardo de Ouro prêmio máximo do Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça, concedido à realizadora lituana Saulé Bliuvaitéi por seu filme Akiplésa (Tóxico), assim definido pelo júri: "uma visão impressionante do corpo feminino adolescente como um campo de batalha".


O filme lituano premiado com o Leopardo de Ouro mostra o retrato de uma juventude abandonada.

O Prêmio Especial do Júri foi para o filme austríaco Mond (Lua), dirigido pela realizadora austro-iraquiana Kurdwin Ayub, Austria. Uma estranha história de três jovens filhas de uma riquíssima família em Aman, capital da Jordânia, que desejam fugir do que consideram seu cativeiro.

O Prêmio de Melhor Direção foi para a realizadora lituana Laurynas Bareiša por seu filme Seses (Afogamento no seco), no qual as famílias de duas irmãs escapam de uma tragédia, o quase afogamento da filha menor, seguido de um acidente mortal de automóvel.

Prêmio de Melhor Interpretação para os atores do filme lituânio-letoniano Seses, Gelminė Glemžaitė, Agnė Kaktaitė, Giedrius Kiela, Paulius Markevičius. E ainda Prêmio de Melhor Interpretação para a atriz sul-coreana Kim Minhee no filme Suyoocheon (Pela corrente) do realizador sul-coreano Hong Sangsoo.

Menções especiais para os filmes:

Qing Chun (Juventude - Duros Tempos) do realizador chinês Wang Bing, coprodução France/Luxembourg/Netherlands.

E o filme Salve Maria, da realizadora espanhola Mar Coll. (já comentado sob o título Maternidade é thriler e cria suspense em Locarno).

Um destaque especial para a realizadora cabo-verdiana Denise Fernandes, Prêmio de Melhor Diretora Emergente por seu filme Hanami, uma coprodução suíço-portuguesa-cabo-verdiana. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins, convidado pelo Festival de Locarno


Suíça – Festival de Locarno, que filme ganhará o Leopardo de Ouro?

Hoje, aqui no Festival de Cinema de Locarno, saberemos qual dos dezessete filmes apresentados na Competição Internacional ganhará o Leopardo de Ouro. Seria temerário fazer uma previsão, pois diversos filmes, embora diferentes no tema e na estrutura, podem aspirar esse prêmio.


São raras as vezes em que um filme consegue unanimidade da crítica. Foi o caso, há cinco anos, da produção portuguesa, Vitalina Varela, dirigida pelo realizador Pedro Costa. Houve unanimidade mesmo entre os jurados, contou a presidente do júri da época, a francesa Catherine Breillat.

Este ano, para evitar o vexame de errar, o melhor é citar alguns filmes prováveis escolhidos pelo júri, mas sem descartar os não mencionados. Neste caso, vou me basear na minha sensibilidade provavelmente diversa da dos cinco jurados de formação e nacionalidade diferentes.

A presidente do júri é a cineasta austríaca Jessica Hausner, acompanhada da produtora belga Diana Elnaum, da cineasta indiana Payal Kapadia, do ator italiano Luca Marinelli e do ator, produtor e cineasta norte americano Tim Blake Nelson. Maioria feminina, como se vê.

Já comentei Salve Maria, filme espanhol, da realizadora Mar Coli, um thriller sobre a depressão pós-parto, mostrando a rejeição do bebê por uma jovem mãe. O tema é de atualidade.

Saindo de comportamento e psicologia, há o filme Qing chun sobre trabalho operário, coprodução da França com Holanda e Luxemburgo dirigida pelo chinês Wang Bing, já premiado em 2017 com o Leopardo de Ouro. Mostra a situação de trabalhadores e  trabalhadoras em ateliers de costura, na cidade chinesa de Zhili, sem proteção trabalhista e em situação semelhante à de escravos.

Dois filmes dedicados às relações familiares podem ser citados: O Pardal na Chaminé, filme suíço dedicado a uma família com relações deterioradas, e Seses, filme lituano com uma família que se poderia definir como normal, afetada com o quase afogamento da filha menor num lago, seguido de um acidente de automóvel com o pai e marido.

Já comentámos Transamazônia com sua jovem curandeira e os choques dos indígenas com os madeireiros destruidores da floresta.

Há o filme português Fogo do Vento, de Marta Mateus, elogiado por alguns como filme onírico, irreal, fantástico, numa alegoria crítica ao capitalismo, onde os trabalhadores na vindima são atacados por um touro, referência imagino ao touro de Wall Street representando o mercado financeiro.

Linha Verde é um filme sobre as lembranças de uma jovem libanesa da cidade de Beirute durante a guerra nos anos 80. E o filme turco Yeni Safak Solarken com um jovem desorientado e desesperado, circulando por Istambul e mostrando, sem ser esse o objetivo do filme, as belezas da cidade e suas mesquitas com uma música de fundo melhor que o enredo.

E o filme Lua, onde uma professora de artes marciais tem três jovens alunas na Jordânia, filhas de família riquíssima, mas vivendo seu luxo numa espécie de prisão. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins, convidado pelo Festival de Locarno


quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Suíça – Festival de Locarno, desmatamento e cura divina na Amazônia

Transamazônia tem tudo de um filme brasileiro, mas é uma coprodução de diversos países com direção de Pia Marais, nascida na África do Sul e vivendo na Alemanha. A história levou alguns anos para ser escrita, mas, como conta Pia Marais, a inspiração veio ao ler um livro no qual se contava a história de uma senhora sobrevivente da queda de um avião na floresta amazônica, onde se aproximou dos indígenas e com eles encontrou o prazer e a vontade de viver.


Para completar o cenário e criar condições para a filmagem, Pia Marais precisou viver um tempo no Estado do Pará, numa pequena cidade fronteiriça com uma reserva indígena. Para fazer o filme, contou com atores profissionais, atores brasileiros e indígenas locais. As filmagens eram muito difíceis porque a reserva é praticamente cortada pelo meio por uma estrada, utilizada pelos madeireiros para o transporte dos troncos das árvores por eles derrubadas, além do calor reinante com o qual ela e os atores tiveram de aprender a conviver.

Com relação ao desmatamento, Pia Marais observou haver, além dos madeireiros, uma prática cotidiana da população, cujos habitantes entram diariamente na floresta com bicicletas e motos a fim de buscar madeira para suas necessidades familiares.

Naquela região, Pia Marais constatou a existência de uns 30 grupos religiosos, a maioria missões norte-americanas também interessadas na conversão dos indígenas. Esses grupos não são registrados e funcionam de uma forma que se poderia considerar ilegal. Como é originária da África do Sul, Pia Marais se lembrou das missões religiosas no seu país agindo da mesma maneira. Embora os religiosos pareçam defender as florestas, existe uma contradição: a conversão dos indígenas para o cristianismo, deixando seu xamanismo natural, faz com que se civilizem e deixem o meio natural onde vivem, deixando de ser seus protetores.

A figura central do filme é Rebeca, uma jovem loura, que escapara de um acidente de avião na floresta, salva por um indígena é considerada filha do pastor americano da missão evangélica local. Considerada como milagre divino, Rebeca tem o dom de curar os doentes e isso, utilizado pelo pastor como cura divina, traz dinheiro e garante o crescimento da igreja criada pela missão.

O filme documenta a derrubada de árvores enormes e centenárias, mostrando como se processa o desflorestamento da Amazônia, com choques frequentes entre os madeireiros com os indígenas protetores das florestas onde vivem. As barragens criadas pelos indígenas na estrada e os atos de sabotagem incendiando tratores e motosserras são reprimidos à bala pelos madeireiros invasores e destruidores das florestas, num combate desigual. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins, convidado pelo Festival de Locarno


domingo, 11 de agosto de 2024

Suíça - Maternidade é thriller e cria suspense em Locarno

A cineasta catalã Mar Coll, considerada a mãe do cinema novo catalão, baseada num livro da escritora basca Katixa Aguirre, As Mães Não, provoca tensão, angústia e mesmo revolta no público, em especial os pais e mães, com o filme Salve Maria, mostrando o considerado pecado maior - o da mãe que rejeita seu recém-nascido a ponto de desejar que ele morra.


Tanto o livro como o filme se baseiam no infanticídio cometido por uma mãe francesa afogando seus filhos gêmos de dez meses. Mas Mar Coll foi além, transformou seu filme num thriller capaz de fazer os espectadores prenderem a respiração e se remexerem nos seus lugares.

Na narrativa da personagem Maria, jovem mãe com um começo de sucesso como escritora e com uma depressão pós parto, na qual detesta amamentar e ignora o filho, fica sempre presente o risco de chegar ao extremo de matá-lo. Maria parece obcecada com o relato da matricida francesa, noticiado com destaque pela imprensa, a ponto de procurar encontrá-la pessoalmente a fim de saber quais sentimentos a tinham impulsionado ao crime.

Teria Maria também o mesmo impulso ou agia em busca da redação de um livro, prioritário às suas obrigações de mãe?

O filme deve ser entendido como uma provocação ao tema da maternidade instintiva, considerada tabu, pelo qual todas as mulheres são feitas para serem mães, dentro das novas interpretações do ser mulher pelo feminismo pelo qual a maternidade é cultural, em ruptura com a sacralização da maternidade por todas religiões. O livro de Katixa Aguirre trata dessa questão na visão de Doris Lessing e Sylvia Plath.

A cineasta Mar Coll conta ter se interessado pelo livro de Katixa Aguirre logo depois de ser mãe. E deixa claro que para ela ser mãe foi uma boa experiência, mas entende que pode ser um problema para algumas mulheres. Neste caso, a rejeição do bebê por depressão ou outro problema da mãe precisa ser entendido, diz ela, e não ser tratado de maneira injuriosa, violenta e sujeito a punição.

"Posso dizer que este filme é um manifesto, mas não gosto de pensar que seja um filme de tema, mesmo que esteja em causa um assunto controverso e tabu. É certo que existe ternura, amor, cuidado, etc, na maternidade, mas existem também muitos sentimentos obscuros, dos quais se fala pouco. É nesses sentimentos que o meu filme coloca o foco".

E como o filme mostra o pai e marido de Maria nessa situação? Ocupado com seu trabalho, acostumado com a imagem tradicional da mãe, ele não vê e não percebe a situação e sua agravação, apenas se preocupa com o fato de Maria não falar com o bebê. Deixa também de tirar férias parentais para ajudar Maria, abreviando o desfecho da crise. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins, convidado pelo Festival de Cinema de Locarno


quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Internacional - Esquerda dividida diante do massacre

A nova união popular ecológica e social das esquerdas francesas não chegou a uma unanimidade diante do ataque do Hamas a Israel. Uma declaração ambígua de Jean-Luc Mélenchon, do partido La França Insoumise, e um comunicado dos seus deputados na Assembléia Nacional, falando da "ofensiva armada das forças palestinas conduzida pelo Hamas" praticamente rachou a união das esquerdas francesas.

Mélenchon não condenou claramente o ataque do Hamas à população civil israelense, como fizeram os outros partidos de esquerda, chegando a justificá-lo com a frase "toda violência desenfreada contra Israel e à Gaza só prova uma coisa: a violência só produz e reproduz ela mesma" embora apelasse à solução "dos dois Estados".

Diante da violência das imagens da tomada de reféns e da execução de civis, principalmente no local do encontro musical rave, onde foram mortos cerca de 260 jovens indefesos, tanto o partido comunista como o socialista tinham condenado "os atos terroristas" como "inaceitáveis e injustificáveis". O partido comunista tinha defendido, há alguns meses, uma resolução qualificando Israel como um "regime de apartheid".

No Brasil, o dirigente do Partido da Causa Operária, Rui Costa Pimenta, não adotou nenhuma posição ambígua com relação ao ataque do Hamas, mas se considerou solidário com o Hamas que "está organizando a resistência do povo palestino".

Por sua vez, o blog “Náufrago da Utopia”, representativo de uma esquerda independente, publicou um comentário no qual acentua "Não podemos concordar com os métodos do Hamas, de ataque indiscriminado a civis, e nem com sua ideologia de fundamentalismo religioso - inspirado no Irão -, mas não é possível fechar os olhos aos crimes sistemáticos cometidos pelo governo de Israel contra os palestinos." E critica a política sionista e terrorista de Israel com relação aos palestinos de Gaza.

Nada confortável a posição da Suíça, que até hoje não considera oficialmente o Hamas como uma organização terrorista. Por diversas vezes, o Conselho Federal tem explicado não haver base jurídica para isso enquanto a ONU não tomar essa decisão. Foi assim que agiu com relação aos movimentos Al-Qaida e Estado Islâmico, proibidos na Suíça. O mesmo acontecerá com o Hamas, se o Conselho de Segurança das Nações Unidas declarar o Hamas organização terrorista.

O presidente da Federação suíça das comunidades israelitas denunciou na imprensa que "o Hamas está livre de movimento na Suíça, onde pode coletar dons e gerir suas finanças", mesmo se tratando de um movimento antidemocrático, contrário à dignidade humana e antissemita, que prega a morte dos judeus, evocando o mito de uma conspiração mundial judaica e negando a existência do Estado de Israel.

As pressões dentro do parlamento suíço são também no sentido de serem cortadas as subvenções enviadas aos palestinos de Gaza, para evitar que sejam desviadas pelo Hamas. 

Embora alguns considerem ter sido reforçada a posição do dirigente israelense Benjamin Netanyahu com o clima de união nacional contra o Hamas, provocado pelo ataque e massacres cometidos, essa situação tende a ser transitória e de curta duração. Apesar do êxito da iniciativa de Netanyahu de reforçar seus poderes e diminuir a competência da Corte Suprema (ação semelhante à que está sendo tentada pela extrema-direita no Senado brasileiro para jugular o STF), contando com o apoio da extrema direita e dos ultra-ortodoxos israelenses, seu governo não pode explicar a facilidade com que o Hamas invadiu o território israelense, usando mesmo de parapentes, e como recebeu, provavelmente do Irão, a teocracia islâmica aliada, e armazenou tantas armas, munições e obuses sem levantar suspeitas. O valor simbólico dessa invasão, massacres e bombardeios de Israel pelo Hamas, é enorme e corresponde a um atestado de incompetência de Netanyahu que, mesmo a direita israelense nunca poderá perdoar. A juventude laica e a esquerda israelenses que, desde janeiro enchiam as ruas de Israel contra o plano de plenos poderes de Netanyahu, reforçada agora por muitos israelenses históricos, cobrarão a queda do candidato a ditador.

Ainda hoje, quatro dias depois do ataque do Hamas, a televisão européia mostra novas cenas de horror, captadas por câmeras de videovigilância no kibbutz de Be´eri, perto de Sderot, a alguns quilômetros da fronteira com Gaza, onde viviam 1200 habitantes. Centenas de homens, mulheres e crianças foram ali mortos e mesmo decapitados e massacrados. Outros foram levados como reféns.

Depois de consultar muito material sobre o 7 de outubro, me lembro de um filme recente visto há dois meses no Festival de Cinema de Locarno. E me lembro do que agora poderia considerar como ingenuidade ou ilusão, tanto do diretor e produtores do filme O Soldado Desaparecido, como de mim mesmo ao participar da entrevista concedida à imprensa pelo diretor Dani Rosenberg. É verdade, apesar da faixa de Gaza não ser uma solução para os palestinos que ali vivem, existia a esperança de que logo haveria a possibilidade de uma colaboração pacífica entre israelenses e palestinos. Talvez decorrente de um anunciado próximo acordo de Israel com a Arábia Saudita.

Faltou-me, e ao realizador franco-israelense Dani Rosenberg também, ter lido um documento bem recente da Organização Internacional do Trabalho sob o título A Situação dos Trabalhadores dos Territórios Árabes Ocupados, no qual se revelam tensões existentes e a precariedade laboral nessas áreas. Em tais situações, ser otimista diante de crises não solucionadas, equivale à irresponsabilidade de fechar os olhos ou, pior ainda, torcer para que dê certo! Convido o leitor a ler O soldado israelense desaparecido, publicado no OI, em 23 de agosto.

O filme é irreal! Eu me penitencio pelo meu comentário e puxo as orelhas do realizador Dani Rosenberg.

Vejam só: "Shlomi, um soldado israelense, deserta, abandona sua tropa em Gaza e corre para ir se encontrar com sua namorada em Jerusalém, para outro tipo de embate... na cama. A conclusão é lógica: se todos os soldados fizessem o mesmo, não haveria mais guerra." Isso só no reino do faz-de-conta!

Mas o realizador do filme, que tem metade de minha idade, não deixou por menos: "Dani Rosenberg, o realizador do filme, deplora a obrigatoriedade dos jovens israelenses, na verdade ainda adolescentes, serem obrigados a um amadurecimento prematuro, que significa o fim de uma juventude natural. Numa entrevista publicada pelo jornal do Festival, Rosenberg saúda a criação de um movimento em Israel colocando em questão a obrigatoriedade incontestável de servir o exército".

O que teria dado tanto otimismo a Rosenberg, se antes se preocupava com o risco de Israel ser bombardeado pelo Irão?

Por que esse temor? Porque o Irão, teocracia islâmica, e o Catar, onde houve a Copa do Mundo, são os dois grandes amigos do Hamas e inimigos de Israel. O Irão, para quem se esqueceu, é o país onde está presa a militante Narges Mohammadi, prêmio Nobel da Paz, e onde foi assassinada pela polícia de costumes a jovem Mahsa Amini, de 23 anos. A jovem foi presa por não ter coberto seus cabelos com o véu e morreu três dias depois por traumatismo craniano. O islamismo restringe a liberdade e os direitos femininos e as obriga a usarem roupas cobrindo todo seu corpo. O Hamas foi criado em 1987 por palestinos islâmicos com o objetivo de criar um estado palestino islâmico e destruir Israel.  O Fatah, criado por Yasser Arafat, é laico, defende a criação de dois Estados e tem maioria na Cisjordânia. Rui Martins – Suíça 

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.


sábado, 5 de agosto de 2023

Suíça - Locarno, o festival do cinema emergente

Começou, na cidade suíça de Locarno, no cantão do Ticino de língua italiana, o 76º Festival Internacional de Cinema, considerado como o quarto mais importante dos festivais, logo depois de Cannes, Veneza e Berlim. A prova: o ex-diretor artístico de Locarno, Carlo Chatrian, foi convidado pela direção da Berlinale e, há cinco anos, deixou Locarno para trabalhar como diretor artístico do Festival de Berlim.


Desde a sua criação, para se desmarcar dos seus grandes concorrentes, o Festival de Locarno fez a opção de prestigiar o cinema dos países emergentes, e isso se tornou a sua força, pois foi assim que revelou novos realizadores; diante da concorrência do cinema comercial, vem sempre dando destaque ao cinema independente, tanto nos países desenvolvidos como em desenvolvimento.

Locarno, nestes tempos de crise existencial do cinema envolvido também em lutas de direitos trabalhistas de realizadores e roteiristas com as grandes empresas produtoras e distribuidoras de filmes, tem um avanço. Foi o primeiro festival a aceitar filmes não destinados à exibição em salas de cinema, distribuídos pela Netflix e Amazon, adaptando-se rapidamente aos novos meios de comunicação e de exibição de filmes.

A possibilidade de ver filmes nos celulares e computadores criou um outro tipo de público: as salas de cinema exibem os filmes ditos comerciais lançados com apoio publicitário, confinando os cinéfilos às salas menores dedicadas ao cinema de autor.

Já existem projetos para se tornarem as grandes salas de cinema em espaços dedicados também a outras atividades. Entretanto, a fábrica de sonhos (como também se chamava o cinema) não vai deixar de existir: irá assumir formas diferentes e mais ousadas. Paralelamente aos estúdios e distribuições comerciais, haverá sempre o cinema independente com sucesso junto aos jovens ou censurado nos países com regimes de intolerância política ou religiosa.

Conheci o Festival de Locarno, nos anos 80, quando fazia parte da Rádio Suíça Internacional, uma época em que as projeções na enorme Piazza Grande tinham ares de festas populares e o espaço com milhares de cadeiras (hoje são 8 mil lugares) era precariamente cercado com cordões de isolamento. A praça é aberta, nem se imagina ter uma cobertura, e tem havido sempre uma espécie de acordo entre a direção do Festival e as condições meteorológicas. É muito raro chover na Piazza Grande. Esperamos que as alterações climáticas não mudem essa tradição.

O telão do Festival de Locarno tem 400 metros quadrados e transformou-se na grande força e na grande atração do Festival. Antes, os filmes do Festival eram projetados no jardim do Grande Hotel diante de algumas dezenas de cadeiras. Foi o antigo diretor do Festival, Raimondo Rezzonico, quem pediu a um arquiteto local, Livio Vacchini, uma ideia para atrair mais público para o Festival. E a ideia foi a de transformar a Piazza Grande num grande cinema ao ar livre. Isso em 1971. Com uma enorme tela improvisada, bem menor que a atual, e 2000 cadeiras.

O primeiro filme nesse enorme cinema ao ar livre foi “Take the money and run”, de Woody Allen - e muita gente ficou em pé. Para o segundo filme foi preciso buscar cadeiras nas escolas. E nessa primeira vez era também preciso apagar as luzes da praça. Mas não havia outro jeito: ao se desligar as luzes da Piazza Grande também foram desligadas as luzes das casas adjacentes. Ninguém protestou e logo se procurou solucionar esse problema. É dessa época uma frase do arquiteto Mario Botta – “o maior cinema do mundo para fumantes”. Mas hoje já não se pode fumar nesse cinema ao ar livre.

Ficou faltando uma importante informação adicional – O Festival de Locarno não é só a Piazza Grande. Locarno tem muitas salas de cinema. A Piazza Grande é destinada aos filmes de grande público. Os filmes em competição, os curtas, e outros tantos, são exibidos dentro de cinemas normais, não ao ar livre; no total, são mais de duzentos filmes.

O Festival Internacional de Cinema de Locarno começou quarta-feira, e já estamos em Locarno para falar dos bons filmes que veremos. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Escreveu “Dinheiro sujo da corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A rebelião romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça. Colabora com o Observatório da Imprensa e edita o Direto da Redação do jornal Correio do Brasil. Texto disponibilizado livremente.


sábado, 15 de agosto de 2020

Suíça - Filme ‘Selvajaria’ de Miguel Gomes premiado no Festival de Locarno



O novo filme do realizador português Miguel Gomes, intitulado ‘Selvajaria’, recebeu o prémio especial do júri no programa ‘The Films After Tomorrow’ do Festival de Cinema de Locarno, na Suíça, anunciou a organização.

‘Selvageria’, uma coprodução entre Portugal, França, Brasil, China e Grécia, é uma adaptação livre da obra literária brasileira ‘Os Sertões’, de Euclides da Cunha, “dando conta da obscura guerra que teve lugar na Bahia no ano de 1897”, refere a produtora O Som e a Fúria.

O júri, que atribuiu esta distinção no valor de 50 mil francos suíços (46511 euros), foi composto por Nadav Lapid, Lemohang Jeremiah Mosese e Kelly Reichardt.

O programa ‘The Films After Tomorrow’ (“Os Filmes Depois de Amanhã”) pretendeu apoiar “realizadores que foram forçados a parar de trabalhar por causa da pandemia”, com um júri a atribuir prémios aos melhores projetos.

Além de ‘Selvajaria’, também o novo filme do argentino Lisandro Alonso, que conta com coprodução portuguesa, recebeu um prémio de 3000 francos suíços (2790 euros). In “Mundo Português” - Portugal