Depois do comício pelas Reformas de
Base no 13 de março de 1964, a queda do presidente Jango Goulart era questão de
dias. Esta não é uma simples lembrança do golpe militar ocorrido há 62 anos,
vale como uma advertência, pois tem gente querendo repetir a dose, com uma
diferença: a situação política no Brasil de hoje nada tem a ver com o clima
político da época de Goulart. Essa nova tentativa de golpe quer aproveitar o
momento favorável da presidência de Donald Trump nos EUA.
Ninguém esqueceu dos esforços de Eduardo Bolsonaro,
quando ainda deputado federal, junto ao governo Trump, por uma intervenção dos
EUA no Supremo Tribunal Federal, conseguindo incluir o ministro Alexandre de
Moraes em todos os rigores da lei Magnitsky, e a revogação do visto
de entrada nos e EUA para outros 14 outros nomes do Judiciário, Ministério
Público e Advocacia Pública.
A tentativa golpista acabou sendo prejudicial ao próprio
Eduardo, mas isso não desestimulou seu irmão Flávio, agora candidato à
presidência, de continuar no mesmo caminho. A atração exercida sobre os filhos
de Bolsonaro pelo golpismo levou o próprio jornal Estadão a elaborar a
teoria de ser genética essa tendência. Na verdade, seria mais que uma simples
tendência natural, e sim uma estratégia empregada diante de resistência e
obstáculos contrariando seus desejos e objetivos.
É importante assinalar essa posição do Estadão,
uma espécie de mea culpa por ter se aliado aos militares golpistas em 1964.
Lembro-me bem do telegrama recebido do velho Mesquita, quando secretariava, ao
lado de Mário Martins, a última grande reunião pública de crítica e protesto
contra a ditadura, o Encontro com a Liberdade, em
janeiro de 1967, no Teatro Paramount abarrotado, em São Paulo.
No telegrama, o velho Mesquita se solidarizava com o
Encontro contra a Lei de Imprensa. Enquanto eu lia o telegrama, esperava uma
reação positiva daquele grande público formado, na grande maioria, de jovens.
Mas veio, para minha surpresa, uma enorme vaia contra o Estadão e contra
os Mesquitas.
No dia seguinte, o jornal deu algumas linhas ao Encontro
sem mencionar as vaias. Sempre me ficou a impressão de se ter perdido ali uma
grande oportunidade de união contra a ditadura, mas os ânimos estavam excitados
e a moçada universitária de esquerda não perdoava o apoio do Estadão ao
Golpe, três anos atrás.
Tantos anos depois, o candidato Flávio à presidência, da
dinastia Bolsonaro, não aceitou a derrota golpista do pai e foi aos EUA, com já
fizera seu irmão pedir apoio da extrema-direita, direta, evangélicos
norte-americanos para uma nova tentativa golpista, desta vez com o apoio do
presidente Trump. Indiretamente, Flávio sugere que Trump poderia repetir a
extração do presidente Lula do Palácio do Planalto em Brasília, como fizera com
Maduro em Caracas.
O argumento é o mesmo já empregado por Trump e por
Bolsonaro: se Flávio Bolsonaro ganhar em
outubro, as eleições terão sido livres e corretas, mas se Flávio perder, terá
havido fraude nas eleições e os EUA deverão intervir! E como reagem os
patriotas vestidos com a bandeira ou com as cores da nossa bandeira?
Isso é grave, não se trata de uma hipótese de intervenção
no Brasil, mas de um pedido quase direto de intervenção de um candidato à
presidência, considerado pelas primeiras sondagens em situação de empate com
Lula. Ou seja, se perder poderá provocar um novo 8 de janeiro para justificar
uma intervenção militar norte-americana. Se ganhar, irá governar como um
vassalo de Trump, um lacaio, um vendido, um entreguista de nossas riquezas e um
traidor.
O próprio Estadão não deixa por menos no seu
editorial com o título “Tal pai, tal filho”. O jornal se
reporta ao discurso de Flávio
Bolsonaro na Conferência de Ação Política Conservadora
(CPAC), um ponto de encontro da extrema-direita em Dallas, onde não pronunciam
só discursos, mas se tramam golpes.
E continua o Estadão: Flávio defendeu o
monitoramento das eleições brasileiras pelos EUA e sugeriu pressões
diplomáticas externas para "garantir um pleito livre e justo",
alegando que se perder terá havido fraude e manipulação nas eleições. Isso
deveria ser suficiente para um processo de tentativa pré-golpista! Rui
Martins – Suíça
__________
Rui Martins é
jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador
do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas,
que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos
emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da
corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto
Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do
Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de
Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de
Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso
de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.
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