Decorreu ontem em Lisboa a conferência “Casa de Goa e Casa de Macau: agentes fundamentais de um diálogo indispensável”, que analisou o papel de ligação que as entidades podem ter na diáspora goesa e macaense. Carlos Piteira, presidente da Casa de Macau, destaca a importância de criar pontes com a Casa de Goa pelo “paralelo de representatividade de luso-descendentes”
Que papel podem ter a Casa de Macau e
a Casa de Goa, em Lisboa, tendo em conta o desfilar do tempo e os
desenvolvimentos trazidos pelas novas gerações das comunidades macaense e
goesa? É certo que Macau e Goa há muito deixaram de fazer parte do antigo império
português, mas os laços socioculturais permanecem. A pensar nisso, decorreu
ontem, na Sociedade de Geografia de Lisboa, a palestra “Casa de Goa e Casa de
Macau: agentes fundamentais de um diálogo indispensável”, que procurou traçar
respostas para os desafios do futuro.
Ao HM, Carlos Piteira, presidente da Casa de Macau
em Lisboa, declarou que “seria interessante que as pontes entre a Casa de Macau
e a Casa de Goa pudessem também ser equacionadas num paralelo da sua
representatividade dos luso-descendentes e das culturas mestiçadas”, tendo em
conta que as duas entidades “são pilares fundamentais para a representatividade
dessas comunidades”.
O responsável, ele próprio macaense, destaca “as
similitudes da sua gastronomia, crioulo e festividades” entre as duas
comunidades. Seria, assim, “interessante aliar as pequenas representações dos
gigantes do mundo asiático, representadas pela simbologia do Dragão e do
Elefante, como elementos estruturantes para um diálogo entre Portugal e a Ásia,
queiram as vontades políticas e institucionais”.
Na visão de Carlos Piteira, as duas casas “reforçam a
herança legitimada do diálogo entre o Ocidente e o Oriente, e as relações
seculares de Portugal com estes países, muitas vezes ignorada e esquecida pelos
poderes oficiais e institucionais”.
Já Pedro Colaço, da direcção da Casa de Goa, destaca a
importância de preservar a memória da presença portuguesa tanto em Goa como nos
restantes territórios de Damão e Diu. “Foram 450 anos de história, no caso de
Macau foram mais umas décadas, e procuramos acompanhar a actual cultura goesa.
Uma das partes mais importantes do nosso trabalho é fazer uma ponte entre Goa e
Lisboa, e diariamente contactamos com artistas, músicos e membros da
comunidade, é esse o nosso papel”, descreveu ao HM. Pedro Colaço deu o exemplo
do concerto que vai decorrer a 8 de Março na Fundação Oriente, em Lisboa,
intitulado “Oscar Castellino – Voz de Ópera de Goa e Piano com Rodrigo Ayala”.
De resto, a Casa de Goa, actualmente sem sede própria,
procura, tal como a Casa de Macau, atrair novos sócios, sobretudo das novas
gerações, a fim de dar continuidade ao projecto, para que a Casa se mantenha
“como um polo de união dos goeses e, cada vez mais, dos amigos de Goa”.
Acompanhar a história
A Casa de Macau foi fundada em Lisboa em 1966 e tem
acompanhado diversas fases não só da história de Portugal como do
relacionamento do país com Macau e a China.
“A existência da Casa de Macau marca, sem dúvida, um
paralelo com a própria história de Portugal por mais de 70 anos. Macau foi a
‘pérola do Oriente’ para o Estado Novo e viveu as turbulências do período
revolucionário de Abril 1974, adaptando-se e consagrando-se como a ‘ponte entre
o Ocidente e Oriente'”. Por fim, depois da transição para a República Popular
da China, tem-se assistido à reorganização [de Macau] como território central
na ligação, a partir da China, com os países da língua portuguesa.”
Carlos Piteira descreveu ainda que a Casa de Macau tem acompanhado “a história dos tempos, alargando a visão da presença portuguesa neste território”. Além disso, teve uma tarefa “não menos importante”, por ter “cristalizado, protegido e perpetuado a comunidade macaense em Portugal e no mundo”.
Actualmente, a Casa de Macau tem desenvolvido diversas
actividades que levam mais sócios à Avenida Gago Coutinho, onde está situada, e
cujo edifício foi recentemente alvo de obras de restauro. Todas as
quartas-feiras há almoços de comida macaense com a Chef Tina, natural de Macau,
decorrendo também sessões de cinema e palestras.
A missão da Casa é, actualmente, “realizar actividades de
divulgação de Macau e da cultura macaense”, dando-se “apoio e dinamização de
estudos e trabalhos de teor científico sobre Macau, macaenses” e fazendo-se
também a “interligação institucional com as demais entidades ligadas a Macau,
Portugal e Casas de Macau na diáspora”.
Quem é de Goa e quem não é
Pedro Colaço explicou que a comunidade goesa em Lisboa
“tem mais facilidade em falar com a restante diáspora indiana” em Portugal,
tendo em conta que, por exemplo, “a ligação é muito antiga” com a comunidade
hindu.
“Temos pena que às vezes não se fale mais [da
comunidade], ao nível dos meios de comunicação, porque é uma parte importante
da história portuguesa”, lamenta o responsável, lembrando figuras bem
destacadas no país, como António Costa, que foi primeiro-ministro português, ou
Narana Coissoró, antigo presidente da Casa de Goa e ex-deputado do CDS-PP. “Há
figuras mais notórias, mas no geral a comunidade goesa inseriu-se muito bem e é
conhecida por ser uma comunidade bastante instruída”, lembrou ainda, lamentando
que em Portugal não se consiga fazer uma distinção entre comunidades de origem
indiana.
“Uma coisa que é preocupante é o desconhecimento que
existe em relação às comunidades. Hoje em dia há uma grande pressão devido à
imigração e depois mistura-se tudo”, destaca Pedro Colaço, lembrando que há um
sentimento forte em ser-se goês, nomeadamente na ligação ao catolicismo e a uma
cultura muito própria por oposição a comunidades do Indostão que, actualmente,
estão muito presentes em Portugal.
“A comunidade goesa é tão miscigenada que metade da minha
família, ou mais, não aparenta ser goesa, mas eu, por acaso, aparento. Há um
sentimento de ser goês, algo que nos une. As outras comunidades da diáspora
indiana são, muitas vezes, confessionais, têm uma religião associada, enquanto
a comunidade goesa é, na sua maioria, católica, mas cada um vai à sua igreja,
está muito espalhada”, apontou.
O futuro é um desafio
Pedro Colaço fala num “futuro desafiante” para a Casa de
Goa. “Estou agora no segundo mandato, a direcção mudou de presidente, e uma das
coisas que se tem tentado fazer é trazer jovens para os órgãos sociais. Agora
temos três ou quatro membros mais novos, abaixo dos 40 anos. Também temos
tentado alargar a Casa a não goeses.”
Neste ponto, há semelhanças com a Casa de Macau, que
também tem procurado alargar o leque de sócios a chineses ou portugueses que
não pertençam à comunidade. Pedro Colaço adianta que, com o passar dos anos, as
coisas mudaram.
“Há 30 anos a comunidade era muito grande, mas neste
momento, e tal como todas as instituições, temos de nos alargar. Há muitas
pessoas que gostam muito de Goa e que sabem muito do território, talvez até
mais do que eu, e são esses que têm de ser puxados”, assumiu.
Actualmente, a Casa de Goa tem 500 associados e, mesmo
sem sede, procura fazer actividades, nomeadamente em parceria com a Fundação
Oriente. É publicado um boletim mensal. Deixaram de ter sede devido às obras do
metro em Lisboa, o que tem dificultado a agenda da Casa.
“Estamos no processo de arranjar uma
nova sede, e é algo que tem constituído um constrangimento, mas procuramos
fazer o máximo de actividades possível e, mensalmente, temos sempre
actividades”, rematou Pedro Colaço. Andreia Silva – Portugal in “Hoje
Macau”
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