Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Portugal - Faculdade de Medicina da Universidade do Porto mostra que solidão leva idosos a utilizar mais recursos de saúde

Estudo da Faculdade de Medicina revela que a maior procura por cuidados médicos poderá refletir a ausência de relações sociais significativas


“Quanto maior o nível de solidão, maior é a utilização de recursos de saúde”. A conclusão resulta de um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), que identificou um maior número de consultas, mais episódios de ida às urgências e um consumo mais elevado de medicamentos entre idosos que apresentam solidão severa.

De acordo com os investigadores, a solidão surge como um determinante clínico que aumenta a procura de cuidados médicos, não por agravamento da doença, mas frequentemente como forma de substituir a ausência de relações sociais, com potenciais impactos humanos e económicos relevantes.

Neste estudo, os investigadores realizaram um inquérito a mais de 300 pessoas idosas residentes no Baixo Alentejo, uma região predominantemente rural, envelhecida e socialmente vulnerável. Os resultados mostram que mais de metade dos participantes referiram solidão leve e cerca de 15% apresentaram níveis de solidão severa.

“A solidão severa associou-se a uma média de quase sete medicamentos por dia, cerca de seis consultas anuais nos cuidados de saúde primários e duas visitas ao serviço de urgência, números substancialmente superiores aos observados nos participantes sem solidão”, revela Paulo Santos, professor da FMUP e um dos autores do estudo.

Solução não pode passar por prescrever mais comprimidos

Os investigadores alertam também que “a falta de identificação da solidão como qualquer outro fator de risco contribui para a medicalização do sofrimento social e para respostas de saúde menos ajustadas às necessidades reais das pessoas idosas”, lembrando que “a solidão é prevenível, identificável e dispõe de tratamento adequado”.

Publicado na revista European Geriatric Medicine, os resultados do estudo sublinham a necessidade de mudanças estruturais na forma como a solidão é reconhecida e tratada, incluindo um reforço do investimento em transportes, espaços públicos, programas comunitários e estratégias de envelhecimento ativo.

Para os autores, medidas como integrar o rastreio sistemático da solidão nos cuidados de saúde e implementar modelos de prescrição social, tais como atividades comunitárias, programas intergeracionais ou grupos de vizinhança, são uma resposta eficaz e alinhada com a evidência internacional.

“A solidão afeta negativamente a saúde dos idosos e acarreta uma maior pressão sobre o sistema de saúde. A solução não pode passar pela prescrição de mais comprimidos, mas sim por reforçar este sentido de comunidade”, conclui Paulo Santos.

O estudo, intitulado “A solidão como determinante da utilização dos serviços de saúde em idosos”, contou ainda com a participação de Ângela Mira e Cristina Galvão, médicas e investigadoras da Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo. Universidade do Porto - Portugal


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