O Governo de transição da Guiné-Bissau afirmou que foi sua a iniciativa de cancelar a missão da CPLP ao país por não reconhecer legitimidade à presidência de Timor-Leste na organização de países de língua portuguesa.
Timor-Leste assumiu a liderança da Comunidade depois de a
Guiné-Bissau, que tinha a presidência, ter sido suspensa na sequência do golpe
de Estado de novembro de 2025, em que os militares tomaram o poder.
As autoridades timorenses anunciaram, na segunda-feira, o
envio de uma missão de bons ofícios da Comunidade de Países de Língua
Portuguesa (CPLP), prevista para de 17 a 21 de fevereiro, que deram como
cancelada, num documento assinado pelo primeiro-ministro timorense, Xanana
Gusmão, a que a Lusa teve acesso.
O ministro dos Negócios Estrangeiros da Guiné-Bissau,
João Bernardo Vieira, contactou a Lusa para esclarecer que “não foi Timor-Leste
que cancelou” a missão, mas “foi o Governo da Guiné-Bissau”.
Segundo disse, a decisão foi comunicada às autoridades
timorenses, numa carta com a data de 13 de fevereiro, em que Bissau informa que
“não reconhece Timor-Leste como sendo presidente da CPLP ´Pro Tempore`
(por um tempo)”.
O representante da diplomacia guineense acrescenta que “a
Guiné-Bissau soube através da Comunicação Social que haveria uma Missão de bons
ofícios a vir ao país”.
“Não houve concertação nenhuma”, vincou o ministro, numa
alegação que consta da carta enviada por Bissau ao ministro dos Negócios
Estrangeiros de Timor-Leste, Benedito dos Santos Freitas, que deveria chefiar a
missão.
A carta foi enviada um dia depois de o Governo da
Guiné-Bissau ter sido informado pela embaixada de Timor-Leste em Lisboa do
pedido de autorização para a missão se deslocar ao país, segundo ainda a
diplomacia guineense.
Na resposta, o Governo da Guiné-Bissau assinala a
inexistência de “qualquer concertação prévia com as autoridades guineenses
relativamente às datas, modalidades ou condições de uma eventual missão”.
O Governo guineense regista ainda “as declarações
recorrentes e públicas do primeiro-ministro de Timor-Leste, Xanana Gusmão”, as
últimas das quais se referiu à Guiné-Bissau como “um estado falhado”.
Para as autoridades guineenses, estas declarações “têm
assumido um carácter abertamente hostil e desrespeitoso”, classificando-as “de
natureza imprópria e incompatível com o decoro institucional”.
Refere ainda que “configuram uma interferência indevida
nos assuntos internos da Guiné-Bissau e contribuem para a deterioração
injustificada do ambiente político entre os dois Estados”.
Na carta, o Governo da Guiné-Bissau dirige-se também
diretamente à CPLP, vincando que “no atual quadro das relações institucionais
não reconhece, nem reconhecerá a alegada presidência ‘Pro Tempore’ da
CPLP por Timor-Leste”.
Consequentemente, as autoridades guineenses referem que
não lhes “é possível autorizar ou receber em território nacional uma missão
mandatada em seu nome, até que haja a devida clarificação formal do
enquadramento jurídico e político aplicável”.
A carta termina afirmando que o
Governo da Guiné-Bissau mantém “a sua abertura a um diálogo franco e
respeitoso, bem como a iniciativas bilaterais ou multilaterais que se fundem
numa base clara, mutuamente acordada e plenamente respeitadora da soberania nacional”.
In “Mundo Lusíada” – Brasil com “Lusa”
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