No centro de acomodação de Chiaquelane, província de Gaza, o maior campo de deslocados das cheias em Moçambique, com 30.000 pessoas, militares portugueses já fazem a diferença, assistindo 120 deslocados no primeiro dia.
Cátia Venâncio, 26 anos, vive naquele centro há quase
três semanas, com 12 pessoas da mesma família, desde que as cheias, as maiores
em décadas em Moçambique, invadiram as casas no seu bairro, em Chókwè, a 250
quilómetros de Maputo.
Na terça-feira teve a sua primeira consulta, com os
militares portugueses destacados no mesmo dia para aquele centro, tomado por
centenas de tendas. Ali, da Força de Reacção Imediata (FRI) enviada por
Portugal, na operação “Kanimanbo” (obrigado, em língua nacional changana), que
chegou a Moçambique na sexta-feira, estão um médico, duas enfermeiras, dois
socorristas, dois militares de apoio de serviços e um médico veterinário.
Atenderam no primeiro dia 120 pessoas, como Cátia: “Estou
a sentir [dor de] cabeça, mais tosse, mais asma”.
Saiu do atendimento feito pelo contingente português, com
medicamentos e recomendações, ao fim de alguns minutos de consulta. “Gostei”,
diz, envergonhada, assumindo que regressa “satisfeita” à tenda transformada em
casa, com as panelas do lado de fora. Ainda assim, confessa não ver a hora de
voltar ao bairro, que as cheias destruíram, a cerca de 40 quilómetros daquele
centro de acomodação de deslocados.
“Ficou tudo mal. Tem água, matope [lama]. Está cheiro de
matope”, explica, admitindo o susto que viveu em 15 de Janeiro, com a água a
tomar conta da cidade de Chókwè e do seu bairro. “Sim, porque temos medo de
água”, confessa.
Naquele centro, que conta com quase um terço de todos os
deslocados pelas cheias em Moçambique, o administrador do distrito de Chókwè,
Narciso Nhamuhuco, coordena as operações e admite o alívio de mais uma equipa
no apoio no terreno, agora com técnicos de saúde, de Portugal.
“Para nós é mais um alívio e uma gratificação que nós
queremos fazer ao Governo português”, diz à Lusa, sublinhando o apoio que no
terreno é dado por várias organizações, nacionais e internacionais, para
minimizar as dificuldades destes deslocados, famílias inteiras e milhares de
crianças.
“É neste momento mais fundamental que esta equipa chega,
que para nós também é uma satisfação (…) também vai nos ajudar em advocacia do
conhecimento, nos pontos de retorno da população que acções devem ser
desenvolvidas com antecedência antes que a população se faça, neste caso, aos
bairros”, diz Narciso Nhamuhuco.
Entretanto, na fila para o tratamento médico no posto
rapidamente montado, assegurado pela equipa militar portuguesa destacada em
Moçambique, Rodrigues Cundane, 25 anos, espera pela vez. “Sim, tenho um
problema de saúde (…) Agora posso dizer tosse. Mas não sei porque estou assim”,
explica à Lusa.
Vive numa das tendas daquele centro, mas está separado da
restante família que fugiu de Conhane, a poucos quilómetros, pela estrada
Nacional 101. “Estou numa tenda onde não estou com a minha família. São
famílias juntadas e doenças são muitas”, desabafa, para logo a seguir afirmar
que mesmo na condição de deslocado, está a ajudar os outros.
“Estou servindo pessoas, ornamentando casas de banho para
necessidades menores e maiores. Eu construí três, com os meus comparsas que
vivem comigo na tenda (…) Não temos assistência e nós estamos a lutar por nós.
É tudo o que podemos fazer por enquanto”, diz.
A chamada para ser visto pela equipa portuguesa
aproxima-se e Rodrigues agradece esse apoio: “É muito importante”.
Sabe que deixou tudo em casa, que acredita ter perdido
para as cheias, mas relativiza. “Nem são tão importantes, são materiais. Estou
a falar de vidas. Por exemplo, na minha zona umas avós [mulheres da família
mais velhas], duas avós morreram, a terceira morreu mesmo aqui, estando aqui na
zona dos refugiados. São as coisas que nós choramos”, conta.
Com alguns deslocados a tentarem regressar a casa, face à
descida das águas em certas zonas, Rodrigues também anseia pelo momento de
partir, como os outros que já arriscaram: “Porque estão a sofrer aqui, apesar
de lá em casa não ter assistência médica, água (…) as pessoas regressaram,
dizem que vão ver como vão sobreviver, porque aqui está muito pior”.
O tenente-coronel Carlos Alonso, médico veterinário,
coordena a equipa militar portuguesa no centro de acomodação de Chiaquelane. Na
missão que Portugal enviou para apoiar as autoridades moçambicanas nas cheias
que desde Janeiro já afectaram mais de 720 mil pessoas, está responsável pelo
controlo de segurança alimentar e apoio na qualidade das águas, saneamentos e
desinfecções.
“Para as pessoas que estão aqui, do que nós temos visto,
é que estamos a fazer alguma diferença, porque trazemos efectivamente material
connosco, conseguimos dispensar. O que temos visto em alguns dos pontos, as
equipas locais conseguem fazer o diagnóstico, mas não têm os fármacos
necessários para poder fazer o tratamento. Estamos a conseguir ajudar alguma
coisa a estas populações que estão deslocadas das suas casas e que estão sem
acesso a outros cuidados mais diferenciados”, conta o oficial.
Acrescenta que no terreno, entre as necessidades “mais
permanentes” identificadas em conjunto com as autoridades moçambicanas, está o
apoio sanitário à população. “Eles têm dois postos de atendimento médico. Um
dos postos [neste campo] não estava guarnecido, por isso deslocou-se uma equipa
com um médico, uma enfermeira e uma socorrista para outro posto médico (…)
Neste posto ficou uma enfermeira e um socorrista, e um militar de apoio, que
estão a dar apoio sanitário directo, estão a atender as pessoas, adultos e
crianças e a ver o que é que podemos fazer com os meios que temos”, detalha.
Na área do trauma, a missão portuguesa consegue fazer
tratamento, além disso está munida de fármacos, que dispensa em função das
necessidades após cada consulta e registo, inclusive, até, alguns injectáveis
intramusculares.
“O que temos visto de forma transversal, há uma falta de
formas medicamentosas para crianças, ou seja, crianças abaixo dos 5 anos que
não tomam comprimidos, há uma falta de medicamentos em xarope. Alguns
medicamentos, tudo o que é pomadas, colírios, tudo o que é de aplicação
directa, sem ser comprimidos, não se está a conseguir, de forma geral, fazer
chegar às populações”, detalha, assumindo o esforço de coordenar com as
autoridades moçambicanas o reforço no acesso a medicamentos para este apoio.
Apesar das habituais dificuldades
neste tipo de cenário, não esconde satisfação com a operação no terreno.
“Queremos sempre fazer mais, mas dentro das possibilidades, creio que estamos a
conseguir fazer alguma coisa e ajudar estas populações a terem o mínimo de
condições”, afirma o tenente-coronel Carlos Alonso. Paulo Julião – Agência
Lusa in “Jornal Tribuna de Macau”
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