A organização não-governamental timorense La’o Hamutuk pediu ontem ao Ministério Público para realizar uma investigação independente à queixa-crime apresentada contra os militares do Myanmar e pediu às autoridades políticas para respeitarem a separação de poderes
“O processo de investigação deve ser autónomo e
profissional, de acordo com os procedimentos legais aplicáveis e os padrões de
prova”, pode ler-se numa carta aberta, divulgada à imprensa.
A La’o Hamutuk
salienta que a “avaliação preliminar é um passo normal para determinar se
existe base jurídica suficiente para avançar para as etapas subsequentes, sendo
essencial para proteger, de forma imparcial, os direitos das vítimas e dos
suspeitos”.
A ONG timorense pediu também às autoridades políticas
para evitarem influenciar os processos judiciais. “As declarações públicas
devem ser feitas com prudência para não criar perceções negativas sobre o caso.
O respeito pela separação de poderes entre os ramos executivo e judicial
reforça a confiança pública e protege a credibilidade do Estado de direito”,
afirma a La’o Hamutuk.
O primeiro-ministro timorense, Xanana Gusmão, afirmou a
semana passada esperar que as autoridades judiciais, como o tribunal ou o
Ministério Público de Timor-Leste, arquivem o caso relacionado com crimes
ocorridos no Myanmar. “Se tomarem uma decisão, nós respeitamos. Também dizemos
que a justiça é assunto da própria justiça. Mas sentimos que não temos
competência para julgar acontecimentos que ocorreram noutro país. Por isso,
esperamos que o tribunal ou o Ministério Público arquivem o caso”, afirmou Xanana
Gusmão.
Em 3 de fevereiro, a CHRO – que representa a minoria de
Chin, que vive no noroeste de Myanmar, junto à fronteira com a Índia e o
Bangladesh – anunciou que o Ministério Público de Timor-Leste tinha iniciado um
processo legal contra a junta militar. “Saudamos esta iniciativa e aguardamos
com expectativa a colaboração com as autoridades timorenses, bem como com os
grupos da sociedade civil em Timor-Leste, para a promoção da justiça para o
povo Chin e para todos os povos de Myanmar”, afirmou o diretor da CHRO, Salai
Za Uk.
A organização tinha apresentado, duas semanas antes, no
Ministério Público de Timor-Leste uma queixa-crime contra um grupo de militares
daquele país por crimes de guerra e contra a humanidade.
Segundo os advogados timorenses, que representam a CHRO,
os crimes contra a humanidade estão previstos no artigo 124º do Código Penal e
os crimes de guerra estão tipificados também no Código Penal no artigo 125º
(crime de guerra contra as pessoas), crimes por utilização de métodos de guerra
proibidos (artigo 126º) e crimes de guerra contra a propriedade.
Esta foi a primeira vez que um membro da Associação das
Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, na sigla em inglês) inicia uma ação deste
tipo contra um Estado-membro da própria organização.
Tanto Timor-Leste como o Myanmar são membros da ASEAN,
organização que suspendeu a antiga Birmânia, na sequência do golpe de fevereiro
de 2021, quando os militares derrubaram o Governo liderado por Aung San Suu
Kyi, prémio Nobel da Paz, e mergulharam o país numa guerra civil.
Dados divulgados por uma organização de direitos humanos
do Estado Chin indicam que a junta militar realizou mais de 1000 ataques aéreos
naquela região, que causaram a morte de 478 civis, incluindo 91 mulheres e 79
crianças, e destruíram várias unidades de saúde, escolas e edifícios
religiosos. In “Ponto Final” - Macau
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