Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Corpo em guerra












Vamos aprender português, cantando

 

Corpo em guerra

 

A manhã desperta e eu vou a correr para o espelho

vejo o meu reflexo, não me reconheço, e a voz que eu odeio

maquilho-me, penteio-me, um grito sem jeito

e o receio

de olharem pra mim, olha aquela ali, de onde é que ela veio?

 

Um corpo em guerra, já não se tolera a si mesmo

conto as calorias, como quem decora segredos

suspiro pra dentro, afasto o cesto, engulo a seco, até sabe a azedo, é um

desespero

 

É um desespero

 

Como se faz

pra se viver a vida um pouco em paz

se sou capaz

de ignorar aquela voz que não se cala

 

E se eu desaparecesse

no sopro deste vento

a culpa e o tormento

não voltam eu espero

aqui

 

Será que ainda sei ser feliz

 

Se já nem vou jantar fora

no menu só leio “engorda”

e chega aquela hora

em que a balança chora

por mim

 

Porque é que não gostas de ti?

Porque é que não gosto de mim?

 

E pouco a pouco começo a ceder ao desejo

restrinjo, tropeço, depois recomeço é só o que vejo

e a dor que assalta, devagar me mata,

não vejo mais nada, não vejo mais nada,

não vejo mais nada, não vejo mais nada

 

Como se faz

pra se viver a vida um pouco em paz

se sou capaz

de ignorar a aquela voz que não se cala

 

E se eu desaparecesse

no sopro deste vento

a culpa e o tormento

não voltam

eu espero

aqui

 

Será ainda sei ser feliz?

 

Se já nem vou jantar fora

no menu só leio engorda

e chega aquela hora

em que a balança chora

por mim

 

Porque é que não gostas de ti?

Porque é que não gosto de mim?

 

A vida não pode ser isto.

Não pode ser só acordar a odiar o corpo.

Só contar o que se come, ou medir o que se sente.

Não pode ser passar os dias a pedir desculpa por existir. A tentar encaixar.

A viver com vergonha de viver

a vida tem que ser mais

tem que ser o abraço de um amigo,

a gargalhada no meio do caos,

a música que nos faz esquecer que estávamos tristes.

A vida tem que ser aquele instante em que olhas ao espelho

e, mesmo com tudo, pensas:

hoje não me vou castigar!

tem que ser aprender a ficar.

Ficar no corpo

ficar nos dias maus

ficar em ti.

Porque desistir pode parecer fácil,

mas viver…

viver de verdade,

com compaixão

com amor próprio a crescer devagarinho

é a única forma de ganharmos esta guerra.

Tu mereces mais do que só sobreviver.

A vida é mais do que isto.

E tu também

 

Carolina de Deus - Portugal 

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