Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Suíça - Uma basílica medieval preserva o órgão mais antigo do mundo

O órgão da catedral Notre-Dame de Valère, em Sion, remonta ao século XV, tornando-o o órgão mais antigo do mundo ainda em funcionamento. Poupado pelo fogo e pela guerra, ele ainda atrai amantes de música de todo o mundo


Erguendo-se majestosamente no topo de uma colina, a Basílica de Notre-Dame de Valère, antiga residência de cónegos, domina a cidade de Sion, capital do cantão do Valais, no sudoeste da Suíça. Aqui, a história desenrola-se numa geografia mística e sagrada.

Construída no século XII, Notre-Dame guarda um tesouro: o órgão mais antigo do mundo ainda em funcionamento. Este instrumento, que remonta à década de 1430, deve a sua sobrevivência ao que poderia ser chamado de um milagre.

Restaurado e embelezado ao longo dos anos, assim como a basílica que o abriga, ele é objeto de curiosidade internacional. “Se eu disser que sou do Valais, as pessoas dirão: ‘Ah, Valère’”, diz Edmond Voeffray, organista da Notre-Dame e coautor do guia publicado pela Sociedade Suíça de História da Arte em agosto passado, intitulado “Les orgues du Valais: itinéraire d’un patrimoine vivant” (Os órgãos do Valais: um itinerário do património vivo).

Fabricante desconhecido

O cantão do Valais tem 250 órgãos. O guia destaca 20 deles, testemunhas de 600 anos de história. Entre os 20 destacados está, naturalmente, o órgão de Valère, que chama a atenção dos leitores e visitantes.

“É o destino deste órgão que o torna uma exceção na Suíça e mesmo além das nossas fronteiras. Ele tem uma tradição da Borgonha, mas não sabemos quem o fabricou. Temos poucos registos sobre o assunto”, explica Voeffray.

“O que sabemos é que ele foi salvo do fogo, junto com a basílica, por um fator meteorológico: a direção do vento que poupou a colina de Valère, mas destruiu Sion, durante um incêndio no final do século XVIII.”

O órgão foi poupado pelas chamas, mas também pelas guerras e disputas internas que devastaram a Europa. “Especialmente a Revolução Francesa, que levou à destruição de muitas igrejas e dos seus órgãos. A Suíça também sofreu, mas o acesso à colina de Valère era muito difícil na época, o que de certa forma protegeu a basílica e as suas obras de arte”, conta.

O valor patrimonial do órgão não se limita à sua idade. É também iconográfico. Com seus dois painéis, um à esquerda e outro à direita dos tubos, o órgão reflete uma parte da fé cristã. À esquerda, o casamento místico de Santa Catarina, padroeira de Valère. À direita, Maria Madalena encontrando o Cristo ressuscitado. O autor dessas pinturas foi Peter Maggenberg (c. 1380-1463), de Friburgo.

Os Carlens e os Walpens

Os países germânicos têm uma grande tradição em órgãos. “Dito isto, a Reforma Protestante no nosso país causou muitos danos aos órgãos, chegando ao ponto de descrevê-los como ‘gaitas do diabo’. Pior ainda, Calvino e Ulrich Zwingli mandaram destruir órgãos em Genebra e Zurique, respectivamente”, diz Voeffray com pesar.

O Valais, um cantão muito católico, viu a construção de órgãos florescer, particularmente no início do século XVIII. Duas famílias do Valais, primas entre si, destacaram-se neste campo: os Carlens e os Walpens. Eles “aceitaram quase todas as encomendas e estabeleceram uma verdadeira tradição valaisana, que foi exportada até à Saboia e à vizinha Itália”, segundo o guia. A dinastia Carlen continuou a operar do outro lado do Atlântico, em Chicago, onde um de seus descendentes se estabeleceu. Ela chegou ao fim em 1960.

Nesse mesmo ano, Hans-Jakob Füglister, de Zurique, fundou a fábrica de órgãos Fuglister em Arbaz, acima de Sion. Até hoje, ela goza de reputação internacional pela restauração de instrumentos antigos e pela fabricação de novos órgãos.

Notas sacras e seculares

Inúmeros fiéis e visitantes de todas as nacionalidades acorrem à Notre-Dame, atraídos em particular pelo órgão. Em 1969, foi criado o Festival Internacional de Órgão de Valère. Todos os anos, ele recebe inúmeros fãs.

“Durante o festival, recebemos pedidos de organistas de todo o mundo que querem se apresentar aqui”, diz Voeffray.

Que tipo de música é tocada no órgão, secular ou sacra? “A fronteira entre as duas continua indefinida”, responde ele, citando a “Marcha Nupcial” de Mendelssohn, frequentemente tocada em casamentos religiosos. “As pessoas pensam que é música religiosa, mas Mendelssohn a compôs para uma apresentação da peça Sonho de uma Noite de Verão, de Shakespeare”, explica.

Quase todos os grandes compositores europeus, especialmente os dos séculos XVII e XVIII, eram organistas. Mas nem todos escreveram partituras exclusivamente religiosas. “Na Suíça, os compositores de órgão são contemporâneos. É difícil encontrá-los se voltarmos no tempo. Quando quero tocar música do Valais para órgão, tenho de procurá-la no repertório do século XX”, diz Voeffray. Céline Stegmüller – Suíça in “Swissinfo”

 

Os seis órgãos da Basílica do Palácio Nacional de Mafra

A Basílica do Palácio Nacional possui um conjunto instrumental de seis órgãos históricos que, pela sua singularidade, é único em todo o mundo. A sua disposição arquitetónica, aliada ao facto de terem sido projetados em conjunto e a possibilidade de serem tocados individualmente ou em simultâneo, configuram uma realidade patrimonial de exceção.


Os seis instrumentos foram construídos para substituir outros existentes, da época de D. João V. O trabalho foi executado pelos dois mais importantes organeiros do seu tempo- Joaquim António Peres Fontanes e António Xavier Machado e Cerveira, entre 1792 e 1807- época áurea da construção de órgãos em Portugal. É nesta reforma que os instrumentos são preparados para tocar em conjunto.

Na época foram produzidas várias composições musicais para estes órgãos. No entanto, as Invasões Napoleónicas e o consequente exílio da Corte portuguesa no Brasil conduziram a um declínio no uso dos instrumentos.

Até 1998 os Órgãos foram sujeitos apenas a intervenções superficiais. Desde esse ano até 2010 procedeu-se ao restauro global do conjunto, confiado ao organeiro português Dinarte Machado.

Desde então, os seis órgãos da Basílica do Palácio Nacional de Mafra tornaram-se largamente conhecidos em todo o mundo. O som destes seis órgãos, com os seus cerca de 12.000 tubos, propicia uma experiência que só é possível neste monumento. “Palácio de Mafra - Portugal




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