Manuel Portugal tornou-se, aos 23 anos, num dos mais recentes empreendedores de Nova Iorque, tendo trocado a matemática pela pastelaria e aberto a “Nata”, uma loja dedicada ao famoso pastel português, mas “com menos açúcar e mais limão”
Foi numa manhã gelada, junto à
Universidade de Nova Iorque (NYU), que a Lusa encontrou o jovem lisboeta, atrás
do balcão, a servir natas e cafés Delta a quem lá entrava.
A loja é recente, tem cerca de um mês, mas o processo foi
longo e complexo.
Envolveu meses de testes em Portugal, para onde Manuel
levou os ingredientes americanos e os testou até à exaustão, de forma a chegar
ao ponto que desejava: um produto que mantivesse a identidade portuguesa, sem
tentativas de “americanização”, mas com um toque que se adaptasse aos gostos da
comunidade asiática – o seu público-alvo assumido.
O produto final refletiu essa filosofia e saiu menos
açucarado e com mais limão.
“Quis criar algo para Nova Iorque. Algo moderno, novo,
como eu sou, mas que me lembrasse de Lisboa”, explicou, em entrevista à agência
Lusa.
“Ao mesmo tempo, queria fazê-lo aqui, em frente à NYU,
por causa da comunidade asiática. Na NYU temos uma significativa comunidade
asiática, mas também eu estudei aqui. Por isso, fiz questão de que esta fosse a
localização”, acrescentou.
Foi há cinco anos que Manuel se mudou para Nova Iorque,
para estudar matemática. Inicialmente, achava que o seu caminho passaria por
Finanças, mas rapidamente percebeu que essa não era a sua paixão.
Nos laboratórios de ‘startups’ da NYU, criou uma
aplicação para restauração.
Uma experiência levou à outra e, no verão de 2024, ainda
antes de acabar o curso, decidiu “surfar na onda de Portugal estar na moda” e
deu o pontapé de partida para a criação da “Nata”.
“Ao contrário do que as pessoas possam pensar, cá este
produto ainda não é assim tão conhecido. Tenho muitos clientes que entram e
perguntam ‘o que é uma nata?’”, refletiu.
“Fiz meses de pesquisa de mercado e o que percebi foi que
os chineses e a restante comunidade asiática conhecem muito o meu produto por
causa de Macau”, afirmou.
Atualmente, mais de 50% dos clientes da “Nata” são
asiáticos, avançou Manuel Portugal.
“Por um lado, os chineses na cidade de Nova Iorque têm
rendimentos disponíveis muito elevados. No geral, são pessoas que gostam de
experimentar coisas novas e que têm dinheiro para isso”, argumentou.
Depois de definir o seu mercado, o empreendedor focou-se
na receita, o que o obrigou a um corrupio de viagens entre Portugal e EUA, uma
vez que ainda estava a terminar o curso universitário.
“Peguei em todos os ingredientes de cá e mandei para
Portugal, desde farinha, açúcar, manteiga. Mandei mais de 10 farinhas para
Portugal e não estava a funcionar. A farinha americana é muito mais forte do
que a portuguesa, porque o nível de amido de cá é muito mais alto”, comparou.
Em dezembro de 2024, já depois da receita concluída com a
ajuda de pasteleiros portugueses, conseguiu o apoio de investidores portugueses
e americanos e partiu à procura de um espaço junto à NYU, numa busca que se
mostrou difícil.
Trata-se de uma zona bastante competitiva, onde os
senhorios não estão dispostos a correr riscos, dando preferência a marcas já
consolidadas.
Mas Manuel conseguiu o espaço, junto ao campus
universitário, além de ter arrendado ainda outro no bairro de Lower East Side,
em Manhattan, onde a massa é confecionada.
O produto é totalmente de fabrico próprio, da massa ao
creme.
Atualmente, a loja conta com cinco funcionários, além de
Manuel, e serve cerca de 350 natas diariamente.
A meta, a curto prazo, é chegar às 500 natas diárias, e,
daqui a um ano, às 1000, projetou à Lusa.
Além disso, colocou como objetivo chegar às cinco lojas
até janeiro de 2028.
Apesar de assumir não estar ainda no nível de sucesso que
idealizava, o jovem português confessou que o ‘feedback’ tem sido bom e
que já tem bastantes clientes regulares.
Uma das diferenças que notou em relação a Portugal foi a
hora a que o produto mais é consumido.
Enquanto em Portugal a combinação de nata com café é mais
matinal, em Nova Iorque a procura intensifica-se no final de almoço, como “uma
sobremesa”, ou no final das aulas.
Além do café da marca portuguesa Delta, na “Nata”
servem-se bebidas menos comuns.
“Não são bebidas que se encontram em qualquer ‘coffee
shop’. Temos bebidas especiais, criadas para combinar com a nata”,
sublinhou Manuel Portugal, apontando para bebidas com sabor a canela, por
exemplo.
Em relação à identidade visual da
marca, preto e amarelo foram as cores eleitas e na parede principal da loja é
possível ver um grande mural, com as cidades de Lisboa e Nova Iorque conectadas
pela nata. In “Bom dia Europa” – Luxemburgo com “Lusa”
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