Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Dos Ventos da Lona










Dos Ventos da Lona

 

A chuva

vai tornar a cair

sobre a minha aldeia

as bandeiras do milho

voltarão a flutuar ao vento.

 

Teremos verde nos olhos

os lábios molhados de leite

e o mugido dos animais.

 

Nesse dia

vou sair para a praça

da igreja

e cantar

um hino aos deuses.

 

Reunidos em família

a aldeia será

iluminada

pelos sorrisos dos seus filhos

de regresso dos tempos

das tendas de lona.

 

Por agora,

deixa os sinos do teu corpo

tocarem todos,

deixa a vaga de vento

te levar para as portas do céu.

 

Poisa levemente os pés

na lã dos caminhos e vai

segura pela minha mão

que voltarás ao amanhecer

com as águas das montanhas

entre o coaxar das rãs

saindo do teu peito.

 

Os dias serão maduros de azul,

cânticos de amor e pão.

 

Haverá mel nos lábios

e em todas as esquinas

estarei à espera de ti!

 

Nelson Bonavena – Angola

In Os Limites da Luz, (2003, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda)

na coleção Escritores dos Países de Língua Portuguesa.

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Poeta, contista, ensaísta e crítico literário revelado à literatura angolana no suplemento cultural Vida & Cultura do Jornal de Angola, nos primórdios dos anos 1980, Nelson Pestana “Bonavena” com o pseudónimo de Eduardo Bonavena, nasceu a 26 de Fevereiro de 1955, no bairro suburbano do Cazenga, em Luanda. É licenciado em Direito pela Universidade Agostinho Neto e doutorado em Ciências Políticas pela Universidade de Montpellier (França).

A trabalhar em Portugal, colabora num projecto do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e Emprego (ISCTE), com o propósito de publicar um livro sobre os cinco Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). Colabora, ainda, com o Centro de Estudos da Teoria do Estado em França.

Tem artigos científicos e textos críticos publicados em diversos países (Angola, Moçambique, Portugal, Brasil, Senegal, França, Itália e EUA).

Além da participação poética e ensaística na imprensa, Nelson Pestana “Bonavena” escreveu Ulcerado de Míngua Luz (1987), a coletânea marcou a estreia literária do autor e inclui poemas de forte tom crítico e experimental, reflexo de uma voz emergente na poesia angolana dos anos 1980; Os Limites da Luz (2003), segunda coletânea de poesia publicada pela Imprensa Nacional – Casa da Moeda na coleção Escritores dos Países de Língua Portuguesa. Esta obra mostra uma voz poética mais lírica e introspectiva que a obra de estreia; Literatura Angolana do Séc. XIX: Pedro Félix Machado (2012) e Cordeiro da Matta: O Poeta do Rio Kwanza (2012).

Poemas de Bonavena também aparecem em antologias poéticas angolanas/lusófonas, como parte da coletânea Apoesia Angolana, onde constam títulos como “Escolhas íntimas”. Apresenta-se em compilações literárias, como a Breve Antologia do conto Angolano: Balada dos homens que sonham (edição Clube do Autor, 2012), ainda que mais frequentemente em contexto de poesia ou prosa curta dentro de antologias coletivas. Baía da Lusofonia

 

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