Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Myanmar - Conflito fez mais de 100 mil mortos desde golpe de Estado há cinco anos

Mais de 100 mil pessoas foram mortas desde o início da guerra civil em Myanmar, na sequência de um golpe de Estado militar em 2021, informou uma organização especializada no acompanhamento de conflitos armados


Há cinco anos, o exército pôs fim a uma década de experiência democrática neste país do Sudeste Asiático, derrubando o Governo eleito de Aung San Suu Kyi e detendo a vencedora do Prémio Nobel da Paz.

As manifestações contra o golpe foram então reprimidas pelas forças de segurança, mas os ativistas pró-democracia abandonaram as cidades para combater a junta militar ao lado de movimentos armados de minorias étnicas há muito hostis ao poder central.

De acordo com os dados mais recentes da ONG norte-americana Acled (Armed Conflict Location and Event Data), que regista os incidentes relatados pelos meios de comunicação social, os confrontos causaram um total de 100.114 mortos em todos os lados envolvidos no conflito.

Não existe um balanço oficial e as estimativas variam consideravelmente, mas os analistas consideram este o conflito mais mortífero atualmente em curso na Ásia.

O líder dos militares golpistas, general Min Aung Hlaing, assumiu recentemente a Presidência do país na sequência de um processo eleitoral que foi qualificado no estrangeiro como uma manobra para prolongar o regime militar sob uma aparência de poder civil.

Segundo a ONU, mais de 3,7 milhões de pessoas estão deslocadas no interior do país e mais de uma em cada cinco pessoas encontra-se em situação de insegurança alimentar.

A maior cidade birmanesa, Rangum, vive uma relativa normalidade, mas a violência pode manifestar-se sob a forma de assassinatos esporádicos. Outras regiões são bombardeadas diariamente por ataques aéreos levados a cabo por aviões militares fornecidos pela Rússia e pela China.

A ACLED identificou mais de 1200 grupos armados distintos nesta guerra civil, classificando-a como “o conflito mais fragmentado do mundo”. “O conflito espalhou-se por todo o país”, comentou Sun Mon Thant, analista da ACLED. “Estamos a assistir a mais massacres. O exército tem como alvo escolas, clínicas, prisões…”, continuou.

A dinâmica geográfica do conflito oscilou ao longo dos últimos cinco anos. Uma ofensiva conjunta de vários grupos rebeldes permitiu-lhes alcançar avanços espetaculares no final de 2023, aproximando-se de Mandalay, a segunda maior cidade do país. Mas a situação voltou a inclinar-se a favor do exército no ano passado, segundo os analistas, depois de a China ter dado o apoio à liderança militar em Rangum e promovido a assinatura de tréguas com dois dos mais poderosos grupos armados étnicos.

O Estado-Maior birmanês instituiu, em fevereiro de 2024, o serviço militar obrigatório para reforçar as suas fileiras, recrutando à força cerca de 50 mil civis.

A guerra afectou indirectamente os países vizinhos, para onde fugiram muitos refugiados, acolhidos em campos na Tailândia e no Bangladesh.

Segundo observadores, grupos armados de todos os quadrantes financiam os esforços de guerra graças aos lucros do tráfico de drogas, como a heroína e a metanfetamina.

As zonas fronteiriças, com controlo reduzido, tornaram-se, além disso, um foco de centros de burlas online, que operam frequentemente a partir de complexos fortificados guardados por milícias. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


 

domingo, 19 de janeiro de 2025

África - A colossal barragem que pode ‘destruir’ uma nação milenar e secar o maior rio do mundo

Não há um país no mundo que dependa tanto de um rio como o Egipto do Nilo: e num mundo cheio de conflitos, o grande medo do Cairo não é um exército estrangeiro ou terroristas, mas sim a água, em particular uma possível escassez. Essa preocupação é real há pouco mais de uma década, isto porque, no coração do Nilo Azul, nas terras altas da Etiópia, está a Grande Barragem do Renascimento Etíope (GERD), uma obra monumental que encarna as aspirações de desenvolvimento de um país e, ao mesmo tempo, o epicentro das tensões geopolíticas entre duas potências regionais que agora estão ‘condenadas’ a entender-se.



Este titã de betão, com uma capacidade de armazenamento de 74 mil milhões de metros cúbicos e uma potência hidroelétrica de 6450 megawatts, promete transformar a economia etíope, mas ao mesmo tempo ameaça perturbar o delicado equilíbrio abastecimento de água do Nilo, o rio que tem sido a força vital do Egipto durante milénios.

O arranque dos trabalhos neste colossal projeto deu-se em 2013, sendo que a tensão entre Egipto e Etiópia já era palpável: afinal, tratam-se de duas das maiores e mais populosas economias de África – o Cairo solicitou veementemente a interrupção das obras, uma vez que boa parte dos seus 112 milhões de habitantes necessitam do rio Nilo – e do seu caudal atual – para viver. A Etiópia defendeu que precisa da barragem para gerar a energia de que os seus 126 milhões de habitantes necessitam.

No final de 2023, a Etiópia anunciou com grande orgulho que o enchimento da barragem tinha sido concluído, ultrapassando obstáculos e enfrentando duras ameaças do Egipto e do Sudão, que temem que a barragem afete os níveis das águas do Nilo. Exigiram que Adis Abeba, a capital da Etiópia, deixasse de as encher até que se chegasse a acordo sobre os mecanismos para o fazer. Não só o enchimento foi concluído, como em 2024 a construção foi concluída e foram acionadas duas turbinas, com capacidade para gerar 400 megawatts cada. Estas turbinas juntaram-se a outras duas já em funcionamento, que geraram 375 megawatts cada, perfazendo um total de 1550 megawatts.

A GERD é a maior barragem de África e já está entre as maiores do mundo. O seu muro de 145 metros de altura e 1,8 quilómetros de comprimento, frisou a publicação espanhola ‘El Economista’, é um colosso concebido para gerar electricidade suficiente para abastecer toda a Etiópia e exportar energia para os países vizinhos. Para Adis Abeba é um símbolo de orgulho nacional e de autossuficiência, para o Cairo um risco existencial.

“Para os egípcios, a construção da barragem é uma questão que ameaça a sua existência: um dos exemplos mais claros de um país que é prisioneiro da geografia. O Nilo é a força vital do país e do seu povo”, indicou o escritor e especialista em geografia e geopolítica, Tim Marshall. Ou seja, se a Etiópia decidir fechar a torneira por necessidade ou por ameaça, isso poderá significar o fim do seu vizinho. “Não é que a Etiópia pretenda fechá-la completamente, mas terá capacidade para o fazer”, sustentou o especialista, algo mais do que suficiente para manter os egípcios acordados durante a noite.

“O Egipto é um país em grande parte desértico, pelo que 95% dos seus 112 milhões de habitantes vivem nas margens do delta do rio. O Cairo teme que a mera retenção de 10% da água, por apenas alguns anos, deixe desempregados cinco milhões de agricultores, reduzir a produção agrícola para metade e desestabilizar ainda mais o país”, afirmou Marshall.

Conflito faraónico

A tensão entre a Etiópia e o Egipto sobre o controlo do Nilo não é nova. Desde os tempos faraónicos que as águas deste rio têm sido alvo de disputas e alianças. No entanto, a Grande Barragem levou esta questão a um nível febril. As negociações, mediadas por organizações internacionais e países vizinhos, têm progredido lentamente, com acordos temporários que não respondem às preocupações fundamentais de cada nação.

A Etiópia insiste que tem o direito de utilizar os recursos hídricos para o seu desenvolvimento, referindo que mais de 60% da sua população não tem acesso à eletricidade. O Egipto, por seu lado, exige garantias de que o enchimento e o funcionamento da barragem não comprometerão as suas necessidades de água, especialmente durante os períodos de seca.

Neste complexo panorama, o Sudão desempenha um papel crucial como país intermediário entre a Etiópia e o Egipto. Embora o Sudão possa beneficiar desta grande barragem através de um melhor controlo das cheias e de eletricidade mais barata, também teme os efeitos adversos da gestão unilateral da água por parte da Etiópia.

A diplomacia tentou atenuar estas tensões, mas com resultados limitados. As Nações Unidas, a União Africana e países como os Estados Unidos mediaram as negociações, mas os acordos alcançados até agora foram frágeis e temporários. O Egipto alertou que “todas as opções estão em cima da mesa” se não for garantido um caudal de água adequado, o que inclui implicitamente a possibilidade de conflito armado. In “Executive Digest” - Portugal


quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

O cessar-fogo entre Israel e o Hamas

Diante da divulgação do acordo de cessar-fogo entre Israel e a organização islâmica Hamas, governante da Faixa de Gaza, o teletexto da televisão suíça RTS publicou: "o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica do Irão saudou uma vitória para os palestinos e uma derrota ainda maior para Israel". Mas as demonstrações de alegria e júbilo demonstradas pela população de Gaza ao anúncio do cessar-fogo, talvez mostrem terem sido vítimas de um projeto insensato do Hamas, no qual não se previu a violência da resposta israelense.

Não cabe aqui uma discussão filosófica ou política sobre os conceitos de vitória ou derrota, mas apenas uma constatação prática - depois de 470 dias de guerra, a Faixa de Gaza foi destruída, morreram 46 mil pessoas segundos os cálculos do próprio movimento Hamas, mais de 135 mil, segundo cálculos da ONU levando em conta as mortes ligadas à situação de guerra na região, e, de acordo com rumores sobre exigências do novo secretário de Estado norte americano Marco Rubio, está a de se privilegiar a Autoridade Palestina da OLP, no controle da região de Gaza, e não mais o Hamas, após o cessar-fogo ou, um pouco mais além, após o fim dessa guerra.

Ainda no fim do ano, o secretário-geral da ONU deplorava a situação existente na região de Gaza, transformada num cemitério para as crianças e clamava pela necessidade urgente de um cessar-fogo humanitário.

Há uma semana, o comissário-geral da ONU, Philippe Lazzarini, responsável pela administração da UNRWA, agência onusiana encarregada da proteção dos refugiados palestinos, publicou um alerta, no The Guardian, reproduzido por outros jornais, alertando quanto às consequências do fechamento da sede da entidade, considerada fora da lei e acusada de cumplicidade com o Hamas. Isso significa, sendo ele, o abandono do apoio à população palestina em Gaza e fechamento das escolas.

Um relatório hoje divulgado afirma serem necessários 15 anos para se reconstruir Gaza a um custo de 50 bilhões de dólares.

O acordo de cessar-fogo prevê uma trégua de sete semanas e a libertação pelo Hamas de 33 reféns, seguindo-se uma libertação gradativa dos 61 outros, retidos nos subterrâneos ou com famílias palestinas. Em contrapartida, Israel libertará cerca de mil palestinos presos.

A sequência desse acordo parece extremamente frágil, assim como as últimas tratativas antes do domingo, quando estão previstas as primeiras libertações de reféns israelenses.

Uma boa interpretação sociológica e política deste momento atual é dada pelo livro Le Bouleversement du Monde - l´Après 7 Octobre, do professor Gilles Kepel, ex-Sciences Po, de Paris. De origem tcheca, tendo aprendido o árabe, viveu anos no Oriente Médio e publicou 18 livros, dedicados inicialmente ao islamismo e às paixões religiosas responsáveis pelo ataque do 11 de setembro, em Nova York, e pelo massacre dos jornalistas do jornal satírico Charlie Hebdo.

Kepel foi dos primeiros a denunciar a islamização da esquerda e, no seu último livro, trata da emergência do Sul Global. 

Para ele, o pogrom ou razzia cometido pelo Hamas levou à hecatombe dos palestinos em Gaza e, nestes meses de guerra, revirou a ordem mundial consequente da Segunda Guerra Mundial. Kepel discute como a extrema-esquerda do "woke" e do Sul Global se confundem numa polarização identitária com o populismo de extrema-direita, enquanto o termo "genocídio", usado para designar o crime do qual foram vítimas os judeus, passou a ser usado contra Israel.

Talvez essa a única "vitória" do Hamas na guerra que desencadeou, sem imaginar que provocaria o sacrifício do seu próprio povo palestino: a de ter relançado nos nossos dias o ódio religioso antissemita dos séculos passados contra os judeus. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro Sujo da Corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A Rebelião Romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.


sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Europa - Apoio à Ucrânia "até vencer" cai drasticamente na Europa Ocidental, revela inquérito

Pesquisa YouGov descobre que o fim negociado da guerra com a Rússia é a opção preferida em quatro dos sete países analisados



A disposição de apoiar a Ucrânia "até que ela vença" caiu drasticamente na Europa Ocidental num momento crítico para o país, sugere uma pesquisa, enquanto o retorno iminente de Donald Trump à Casa Branca levanta questões sobre o futuro da assistência militar dos EUA a Kiev.

Inquéritos de dezembro feitas pela YouGov na França, Alemanha, Itália, Espanha, Suécia, Dinamarca e Reino Unido revelaram que o desejo público de apoiar a Ucrânia até à vitória — mesmo que isso significasse prolongar a guerra — havia caído em todos os sete países nos últimos 12 meses.

O apoio a uma resolução alternativa para o conflito – um fim negociado para os combates, mesmo que isso deixasse a Rússia no controlo de partes da Ucrânia – aumentou em todos os países, segundo a pesquisa, e foi a opção preferida em quatro deles.

Houve alguma insatisfação com a ideia de um acordo imposto que envolveria a Ucrânia cedendo território à Rússia, mas também uma crença generalizada de que o novo presidente dos EUA abandonaria a Ucrânia após a sua posse em 20 de janeiro.

Donald Trump enalteceu, sem fornecer detalhes, de que pode acabar com a guerra “em 24 horas”, e o seu enviado à Ucrânia, Keith Kellogg, deve viajar para as capitais europeias no início de janeiro. Analistas expressaram dúvidas de que o presidente russo, Vladimir Putin, entrará em negociações em termos que sejam de alguma forma aceitáveis para Kiev.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, comemorou a vitória de Trump em meio à exasperação com a política e estratégia incrementada de “gestão de escalada” do governo Biden.

Os dados vêm quase três anos após a invasão em larga escala de Putin e num momento crítico para a Ucrânia. Este ano, a Rússia tem avançado no seu ritmo mais rápido desde a primavera de 2022, quando as suas colunas fizeram uma tentativa malsucedida de tomar Kiev.

Tropas russas invadiram várias cidades na região oriental de Donbass, com as forças armadas da Ucrânia lutando para defender assentamentos urbanos diante da falta de tropas na linha de frente e da contínua superioridade militar da Rússia.

Kiev admite que as táticas do Kremlin têm sido eficazes, incluindo a implantação de aviação para atingir posições defensivas com bombas planadoras, depois usando barragens de artilharia e pequenos grupos de infantaria. A Rússia também tem sido adepta a identificar brigadas ucranianas mais fracas.

A pesquisa mostrou que a disposição de apoiar a Ucrânia até que ela derrotasse a Rússia permaneceu alta na Suécia (50%) e na Dinamarca (40%), com o Reino Unido em 36%, mas esses níveis caíram até 14 pontos em relação aos números de janeiro de 57%, 51% e 50%.

No mesmo período, as percentagens dos que disseram preferir uma paz negociada aumentaram de 45% na Itália para 55% na Espanha, 46% (38%) na França e 45% (38%) na Alemanha, acompanhadas por quedas correspondentes na disposição de apoiar a Ucrânia até que ela vencesse.

Não estava claro se a mudança refletia o interesse em declínio ou o aumento da fadiga. Na França, Alemanha e Suécia, as proporções que queriam que a Ucrânia vencesse — e se importavam que ela vencesse — permaneceram estáveis desde o início de 2023, embora tenham caído noutros lugares.

A menos de um mês do regresso de Trump, a maioria ou quase maioria em todos os países, exceto um, achava provável que o presidente eleito dos EUA cortasse o apoio à Ucrânia: 62% dos alemães, 60% dos espanhóis, 56% dos britânicos, 52% dos franceses e 48% dos italianos.

Eles estavam menos certos se Trump retiraria os EUA da aliança defensiva da OTAN, com dinamarqueses, alemães, italianos, espanhóis e suecos mais propensos a pensar que isso não iria acontecer, mas britânicos e franceses estavam divididos igualmente.

As pessoas também estavam divididas sobre como se sentiriam em relação a um acordo de paz que deixaria a Rússia no controlo de pelo menos algumas das partes da Ucrânia que ela tomou ilegalmente desde a invasão de fevereiro de 2022, como Trump pode estar planeando.

A maioria na Suécia (57%), Dinamarca (53%) e Reino Unido (51%), e uma minoria considerável (43%) na Espanha, disseram que se sentiriam muito ou razoavelmente negativas sobre tal acordo, em comparação com apenas 37% na França e 31% na Alemanha e Itália.

Não está claro como qualquer acordo sobre a Ucrânia poderia ser feito. Putin reafirmou na semana passada os seus objetivos maximalistas, incluindo o controlo russo da Crimeia e quatro regiões ucranianas “anexadas”, além da desmilitarização da Ucrânia e um veto à sua filiação à OTAN.

Zelenskyy não está disposto a entregar território ocupado à Rússia. O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, criticou a conversa ocidental sobre um processo de paz como prematura, dizendo que a Ucrânia deveria obter o que precisa para impedir que Putin vença.

A pesquisa mostrou que a maioria dos europeus ocidentais sentia que os aliados da Ucrânia não estavam fazendo o suficiente, tanto em termos de sanções económicas contra Moscovo quanto de assistência militar e de outros tipos a Kiev, para impedir que a Rússia vencesse a guerra.

Cerca de 66% dos dinamarqueses, 63% dos suecos e espanhóis, 59% dos britânicos, 53% dos alemães e italianos e 52% dos franceses disseram que a assistência geral à Ucrânia não foi suficiente ou não foi nem de longe suficiente. No entanto, poucos achavam que seu país deveria aumentar o apoio.

Minorias que variam de 29% na Suécia a 21% no Reino Unido e Alemanha, 14% na França e apenas 11% na Itália acham que o seu governo deveria aumentar a ajuda à Ucrânia, com proporções maiores em todos os países dizendo que ela deveria ser mantida ou reduzida.

Em termos de medidas específicas, como aumento de sanções, envio de mais armas, envio de mais tropas para apoiar os membros da OTAN no leste europeu ou coordenação de ataques aéreos contra alvos russos na Ucrânia, o apoio ficou estável ou menor do que antes.

Questionados sobre o que achavam que aconteceria dentro de um ano, poucos europeus ocidentais achavam que a Rússia ou a Ucrânia teriam vencido, com a maioria acreditando que os dois países ainda estariam em conflito ou que a paz teria sido negociada.

Um acordo foi visto como mais provável pelos que estavam na Dinamarca (47%), Alemanha (40%), Reino Unido e França (38%) e Itália (36%), com a continuação dos combates vista como o cenário marginalmente mais provável pelos que estavam na Espanha (36%) e Suécia (35%). Jon Henley e Luke Harding – Reino Unido in The Guardian


terça-feira, 15 de outubro de 2024

Casamansa - Uma nação desprezada pela história colonial

É essencial, hoje mais do que nunca, compreender que a questão da Casamansa não pode ser reduzida a um simples assunto regional ou económico. Casamansa é uma nação cuja história remonta muito antes da sua integração forçada no Senegal pelas autoridades coloniais francesas, uma realidade muitas vezes negligenciada pelo discurso político e mediático dominante. Este conflito, muitas vezes apresentado como uma simples rebelião interna, está na realidade enraizado em questões históricas e políticas muito mais profundas.


Sob a colonização francesa, a Casamansa não era uma " região " do Senegal, mas sim uma nação por direito próprio, com as suas fronteiras que se estendiam desde o Oceano Atlântico até ao rio Falémé, perto da actual fronteira com o Mali. Longe de ser uma simples extensão do Senegal, Casamansa possuía uma identidade política e cultural distinta, forjada por séculos de resistência e autodeterminação. Foi apenas através de uma série de decisões administrativas impostas pelos colonos franceses, sem consulta ou acordo do povo de Casamansa, que esta nação foi anexada ao Senegal, transformando um povo orgulhoso e independente numa “região” marginalizada.

A administração colonial, procurando a simplificação territorial e o controlo centralizado, traçou fronteiras arbitrárias que ignoraram as realidades sociais e históricas dos povos que governava. Ao integrar a Casamansa no Senegal, os franceses violaram os direitos políticos do povo de Casamansa, criando uma divisão que continuou a aumentar desde a independência do Senegal em 1960. Esta anexação forçada, vivida como uma traição pelas populações locais, está na raiz da questão da Casamansa. A luta pela independência da Casamansa não é, portanto, um simples grito de raiva contra as desigualdades económicas, mas uma luta pelo reconhecimento do seu direito histórico à autodeterminação.

Casamansa é mais do que uma região geográfica; é uma entidade política e cultural distinta, com tradições próprias, história própria e projecto social próprio. O que muitos não compreendem é que o povo da Casamansa não luta apenas por melhores condições económicas ou por maior autonomia local, mas pela sua dignidade como povo, um povo a quem foi negado o direito de decidir o seu próprio destino. As autoridades senegalesas, herdeiras da divisão colonial, continuam a tratar a Casamansa como uma simples região “rebelde” em vez de reconhecerem a profundidade da sua história e a legitimidade das suas reivindicações.

É, portanto, essencial esclarecer as coisas: a questão da Casamansa é, antes de mais, uma questão de justiça histórica e política. Esta nação, anexada sem consulta, aspira recuperar o seu estatuto antes da colonização, um estatuto que lhe foi arrancado pela violência do colonialismo. Para o povo da Casamansa, a reconciliação com o Senegal passa necessariamente pelo reconhecimento desta verdade histórica. O conflito que dura há décadas não pode ser resolvido através de soluções económicas ou de promessas de desenvolvimento; requer uma resposta política proporcional à gravidade desta injustiça histórica.

A marginalização de Casamansa não é um simples legado económico, mas a consequência de uma decisão colonial arbitrária, tomada sem o consentimento daqueles que ainda sofrem as suas consequências. Reconhecer isto é reconhecer que a solução para o conflito da Casamansa não se encontra apenas nas infraestruturas ou nos subsídios, mas num diálogo político sincero, que admite a falha original: a anexação forçada de um povo independente.

O Senegal deve compreender que a Casamansa não pode ser pacificada pela repressão militar ou pela simples promessa de uma melhor integração económica. Trata-se de reconhecer os direitos históricos e políticos de um povo que, durante séculos, lutou para preservar a sua autonomia e cultura face às potências estrangeiras. Se o Senegal aspira a uma paz verdadeira e duradoura, deve parar de tratar a Casamansa como uma região dissidente e começar a considerá-la como uma nação com a sua própria história e legitimidade política.

É neste reconhecimento da história colonial, e na compreensão de que a Casamansa foi anexada contra a sua vontade, que reside a chave para uma resolução duradoura do conflito. O futuro do Senegal, e mais amplamente da África Ocidental, não pode ser construído com base no esquecimento ou na negação destas verdades históricas. Casamansa, como nação, tem direito a um lugar pleno no concerto das nações, e o seu povo merece finalmente ser ouvido e compreendido pelo que é: um povo soberano, cuja voz nunca deixou de exigir justiça.

Só o reconhecimento desta história pode abrir caminho para uma paz duradoura. Abdou Diallo – Casamansa in “Journal du Pays”


quarta-feira, 9 de outubro de 2024

Lembrando o 7 de Outubro

Geralmente a gente comemora os aniversários e as coisas boas. É mais raro e ao mesmo tempo é triste lembrar desgraças e infelicidades.

Mas hoje é o caso - 7 de outubro, data do ataque terrorista do Hamas a diversos kibutz, a jovens alegres que ainda dormiam depois de uma festa rave, todos desarmados, eram civis, ataque qualificado como um pogrom a cidadãos israelenses. Agravado com o sequestro de mais de duzentas pessoas transformadas em reféns, algumas delas já mortas.

As consequências foram enormes com a resposta israelense, o envolvimento do Irão, os ataques ao movimento Hezbollah no Líbano e o risco atual de um conflito maior no Oriente Médio.

O movimento terrorista Hamas, cujo objetivo é a destruição de Israel e não a criação de um Estado Palestino, como queria a OLP de Yasser Arafat, é acusado de ter utilizado a população de Gaza como escudo e nega, mesmo diante das evidências de vídeos postados nas redes sociais, as atrocidades cometidas há um ano contra jovens, mulheres e crianças, mesmo bebês. E essa negativa é endossada por grande parte das redes sociais de esquerda brasileiras.

De todo esse caos desencadeado pelo Hamas e pela reação bíblica de Israel de não deixar pedra sobre pedra em Gaza, ressurgiu com força na Europa e na América Latina o antissemitismo, enquanto o wokismo e o Sul Global mostrou a adesão de grande parte da esquerda e de universitários americanos e europeus a uma islamização nas teorias sociológicas anti-imperialistas e pós-colonialistas.

Isso é evidente nas redes sociais brasileiras de esquerda. Essa islamização equivale a um retrocesso social e político, pois uma boa parte dos países considerados anti-imperialistas é composta de ditaduras e teocracias, onde, como simples exemplo, as mulheres são cidadãs de segunda classe e os homossexuais e trans são perseguidos e mesmo mortos.

O jornal Le Monde publica um importante editorial, no qual defende a criação do estado palestino junto com o de Israel, e não a criação de um com a destruição do outro, como a solução para a atual crise.

E cito a respeito um texto de Marcelosik, publicado em baixo de um texto negacionista do Canal GGN, de Ana Gabriel Sales, no qual ele diz - "a luta a favor do estado palestino e contra o governo fascista de Netanyhou não pode se confundir com a normalização de uma milícia fundamentalista de extrema-direita a partir do pensamento binário de setores de nossa esquerda." Texto com o qual concordo plenamente. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 


quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Internacional - Esquerda dividida diante do massacre

A nova união popular ecológica e social das esquerdas francesas não chegou a uma unanimidade diante do ataque do Hamas a Israel. Uma declaração ambígua de Jean-Luc Mélenchon, do partido La França Insoumise, e um comunicado dos seus deputados na Assembléia Nacional, falando da "ofensiva armada das forças palestinas conduzida pelo Hamas" praticamente rachou a união das esquerdas francesas.

Mélenchon não condenou claramente o ataque do Hamas à população civil israelense, como fizeram os outros partidos de esquerda, chegando a justificá-lo com a frase "toda violência desenfreada contra Israel e à Gaza só prova uma coisa: a violência só produz e reproduz ela mesma" embora apelasse à solução "dos dois Estados".

Diante da violência das imagens da tomada de reféns e da execução de civis, principalmente no local do encontro musical rave, onde foram mortos cerca de 260 jovens indefesos, tanto o partido comunista como o socialista tinham condenado "os atos terroristas" como "inaceitáveis e injustificáveis". O partido comunista tinha defendido, há alguns meses, uma resolução qualificando Israel como um "regime de apartheid".

No Brasil, o dirigente do Partido da Causa Operária, Rui Costa Pimenta, não adotou nenhuma posição ambígua com relação ao ataque do Hamas, mas se considerou solidário com o Hamas que "está organizando a resistência do povo palestino".

Por sua vez, o blog “Náufrago da Utopia”, representativo de uma esquerda independente, publicou um comentário no qual acentua "Não podemos concordar com os métodos do Hamas, de ataque indiscriminado a civis, e nem com sua ideologia de fundamentalismo religioso - inspirado no Irão -, mas não é possível fechar os olhos aos crimes sistemáticos cometidos pelo governo de Israel contra os palestinos." E critica a política sionista e terrorista de Israel com relação aos palestinos de Gaza.

Nada confortável a posição da Suíça, que até hoje não considera oficialmente o Hamas como uma organização terrorista. Por diversas vezes, o Conselho Federal tem explicado não haver base jurídica para isso enquanto a ONU não tomar essa decisão. Foi assim que agiu com relação aos movimentos Al-Qaida e Estado Islâmico, proibidos na Suíça. O mesmo acontecerá com o Hamas, se o Conselho de Segurança das Nações Unidas declarar o Hamas organização terrorista.

O presidente da Federação suíça das comunidades israelitas denunciou na imprensa que "o Hamas está livre de movimento na Suíça, onde pode coletar dons e gerir suas finanças", mesmo se tratando de um movimento antidemocrático, contrário à dignidade humana e antissemita, que prega a morte dos judeus, evocando o mito de uma conspiração mundial judaica e negando a existência do Estado de Israel.

As pressões dentro do parlamento suíço são também no sentido de serem cortadas as subvenções enviadas aos palestinos de Gaza, para evitar que sejam desviadas pelo Hamas. 

Embora alguns considerem ter sido reforçada a posição do dirigente israelense Benjamin Netanyahu com o clima de união nacional contra o Hamas, provocado pelo ataque e massacres cometidos, essa situação tende a ser transitória e de curta duração. Apesar do êxito da iniciativa de Netanyahu de reforçar seus poderes e diminuir a competência da Corte Suprema (ação semelhante à que está sendo tentada pela extrema-direita no Senado brasileiro para jugular o STF), contando com o apoio da extrema direita e dos ultra-ortodoxos israelenses, seu governo não pode explicar a facilidade com que o Hamas invadiu o território israelense, usando mesmo de parapentes, e como recebeu, provavelmente do Irão, a teocracia islâmica aliada, e armazenou tantas armas, munições e obuses sem levantar suspeitas. O valor simbólico dessa invasão, massacres e bombardeios de Israel pelo Hamas, é enorme e corresponde a um atestado de incompetência de Netanyahu que, mesmo a direita israelense nunca poderá perdoar. A juventude laica e a esquerda israelenses que, desde janeiro enchiam as ruas de Israel contra o plano de plenos poderes de Netanyahu, reforçada agora por muitos israelenses históricos, cobrarão a queda do candidato a ditador.

Ainda hoje, quatro dias depois do ataque do Hamas, a televisão européia mostra novas cenas de horror, captadas por câmeras de videovigilância no kibbutz de Be´eri, perto de Sderot, a alguns quilômetros da fronteira com Gaza, onde viviam 1200 habitantes. Centenas de homens, mulheres e crianças foram ali mortos e mesmo decapitados e massacrados. Outros foram levados como reféns.

Depois de consultar muito material sobre o 7 de outubro, me lembro de um filme recente visto há dois meses no Festival de Cinema de Locarno. E me lembro do que agora poderia considerar como ingenuidade ou ilusão, tanto do diretor e produtores do filme O Soldado Desaparecido, como de mim mesmo ao participar da entrevista concedida à imprensa pelo diretor Dani Rosenberg. É verdade, apesar da faixa de Gaza não ser uma solução para os palestinos que ali vivem, existia a esperança de que logo haveria a possibilidade de uma colaboração pacífica entre israelenses e palestinos. Talvez decorrente de um anunciado próximo acordo de Israel com a Arábia Saudita.

Faltou-me, e ao realizador franco-israelense Dani Rosenberg também, ter lido um documento bem recente da Organização Internacional do Trabalho sob o título A Situação dos Trabalhadores dos Territórios Árabes Ocupados, no qual se revelam tensões existentes e a precariedade laboral nessas áreas. Em tais situações, ser otimista diante de crises não solucionadas, equivale à irresponsabilidade de fechar os olhos ou, pior ainda, torcer para que dê certo! Convido o leitor a ler O soldado israelense desaparecido, publicado no OI, em 23 de agosto.

O filme é irreal! Eu me penitencio pelo meu comentário e puxo as orelhas do realizador Dani Rosenberg.

Vejam só: "Shlomi, um soldado israelense, deserta, abandona sua tropa em Gaza e corre para ir se encontrar com sua namorada em Jerusalém, para outro tipo de embate... na cama. A conclusão é lógica: se todos os soldados fizessem o mesmo, não haveria mais guerra." Isso só no reino do faz-de-conta!

Mas o realizador do filme, que tem metade de minha idade, não deixou por menos: "Dani Rosenberg, o realizador do filme, deplora a obrigatoriedade dos jovens israelenses, na verdade ainda adolescentes, serem obrigados a um amadurecimento prematuro, que significa o fim de uma juventude natural. Numa entrevista publicada pelo jornal do Festival, Rosenberg saúda a criação de um movimento em Israel colocando em questão a obrigatoriedade incontestável de servir o exército".

O que teria dado tanto otimismo a Rosenberg, se antes se preocupava com o risco de Israel ser bombardeado pelo Irão?

Por que esse temor? Porque o Irão, teocracia islâmica, e o Catar, onde houve a Copa do Mundo, são os dois grandes amigos do Hamas e inimigos de Israel. O Irão, para quem se esqueceu, é o país onde está presa a militante Narges Mohammadi, prêmio Nobel da Paz, e onde foi assassinada pela polícia de costumes a jovem Mahsa Amini, de 23 anos. A jovem foi presa por não ter coberto seus cabelos com o véu e morreu três dias depois por traumatismo craniano. O islamismo restringe a liberdade e os direitos femininos e as obriga a usarem roupas cobrindo todo seu corpo. O Hamas foi criado em 1987 por palestinos islâmicos com o objetivo de criar um estado palestino islâmico e destruir Israel.  O Fatah, criado por Yasser Arafat, é laico, defende a criação de dois Estados e tem maioria na Cisjordânia. Rui Martins – Suíça 

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.


quinta-feira, 14 de abril de 2022

Moçambique - Graça Machel critica resistência em reconhecer causas internas do conflito

A ativista social moçambicana Graça Machel considera que há “resistência em reconhecer as causas internas” da guerra na província de Cabo Delgado, norte de Moçambique, propondo um estudo sobre a dimensão endógena do conflito

“É preciso lutarmos para estudarmos e conhecer melhor as causas internas. Eu sei que há muita resistência em reconhecer que há causas internas que facilitam a penetração dos terroristas nas comunidades, há resistência em reconhecer isso, mas é um facto”, enfatizou Graça Machel.

Machel falava, segunda-feira (11), durante um evento da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC), uma organização não-governamental (ONG) da qual é presidente.

A ativista manifestou uma preocupação particular com a situação das crianças recrutadas pelos grupos armados que protagonizam ataques em Cabo Delgado, alertando que esta camada social está a ser intoxicada com ideologias extremistas.

Graça Machel defendeu um tratamento específico para as crianças que tenham sido “instrumentalizadas pelos terroristas”.

“Nós todos sabemos que as crianças, muitas delas, estão a ser doutrinadas, estão a ser radicalizadas, as suas mentes estão a ser trabalhadas para crescerem com ódio pelas instituições do Estado”, frisou Graça Machel.

Chamou a atenção para o perigo de o drama humanitário naquela província ser traduzido apenas em números despidos da sua faceta humana.

Vários estudos e relatórios internos e internacionais têm apontado a pobreza, desemprego, marginalização social e económica como parte das causas que tornam os jovens vulneráveis ao recrutamento por grupos armados em Cabo Delgado.

O Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, já afastou várias vezes a ligação entre “o terrorismo” e a pobreza, observando que há vários focos de miséria em diversos pontos do país, mas não se verificam episódios de insurgência armada.

Apesar dessa narrativa, o facto é que o Governo criou a Agência de Desenvolvimento do Norte (ADIN) para a operacionalização de projetos de desenvolvimento social e económica nas três províncias da região norte de Moçambique, incluindo Cabo Delgado.

A província de Cabo Delgado é rica em gás natural, mas aterrorizada desde 2017 por rebeldes armados, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo extremista Estado Islâmico.

Há 784 mil deslocados internos devido ao conflito, de acordo com a Organização Internacional das Migrações (OIM), e cerca de 4000 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED.

Desde julho de 2021, uma ofensiva das tropas governamentais com o apoio do Ruanda a que se juntou depois a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) permitiu recuperar zonas onde havia presença de rebeldes, mas a fuga destes tem provocado novos ataques noutros distritos usados como passagem ou refúgio temporário. In “Milénio Stadium” – Canadá com “África 21”


quinta-feira, 29 de julho de 2021

Moçambique - Unicef teme que falte auxílio essencial se não houver mais apoios

Fatores como a terceira onda da Covid-19, conflito no extremo norte e doenças que podem ter graves consequências aumentam necessidades, entre as atividades mais ameaçadas estão a entrega de água potável, serviços de saúde, nutrição e ensino


O Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, destaca que não será capaz de fornecer apoio previsto no apelo humanitário de 2021 em Moçambique devido à atual lacuna de financiamento.

De acordo com a agência, faltam fundos para cerca de 69% das necessidades de financiamento para programas de emergência em andamento. Sem o valor necessário ficará prejudicado o acesso à água potável, aos serviços de saúde e à nutrição, além de oportunidades de aprendizagem, proteção infantil e apoio a sobreviventes da violência de género.

Crianças  

Uma revisão feita em junho destaca que as necessidades aumentaram para US$ 96,5 milhões. Com o montante seriam fornecidos serviços essenciais para manter as crianças e os seus cuidadores vivos.

Para ilustrar os desafios, a agência destaca que o país teve uma alta nos casos de Covid-19 em junho, com o início da terceira onda. Apenas 1% da população-alvo foi completamente vacinada, quando era necessário chegar a 54% dos habitantes.

A Unicef também atua na frente de prevenção divulgando mensagens a 12 milhões de pessoas por mês. As atividades de informação também pretendem incentivar a vacinação.

Com o recente ataque de grupos não estatais à vila de Palma, no final de março, mais de 70 mil pessoas deixaram o distrito de Cabo Delgado. Confrontos com forças do governo na província já causaram pelo menos 732 mil deslocados.



Sarampo

Há ainda questões de saúde que podem ter efeitos graves. Cerca de 511 mil crianças menores de cinco anos enfrentam a desnutrição aguda. A agência informou ter ajudado a imunizar mais de 294 mil menores de 15 anos contra o sarampo e a rubéola.

A Unicef também apoia operações de transferências monetárias feitas pelo governo para beneficiar mais de 20 mil famílias em situação de fragilidade.

Este cenário acontece quando 689 mil crianças precisam de assistência humanitária, pouco menos da metade do número de moçambicanos que carecem de ajuda.

Até ao momento, a agência recebeu US$ 16,3 milhões para a resposta humanitária de governos como Canadá, Japão, Noruega, Suécia, Itália e Reino Unido. Entre os doadores estão a iniciativa a Educação Não Pode Esperar e o Fundo Central de Resposta a Emergências da ONU. ONU News – Nações Unidas


quarta-feira, 14 de abril de 2021

Moçambique – Antigo Bispo de Pemba entrevistado por jornal italiano

Luiz Fernando Lisboa viveu em Moçambique durante vinte anos, dos quais 8 como bispo na região de Cabo Delgado, diocese de Pemba. Brasileiro, 65 anos e destemido. Foi preciso o Papa Francisco para convencê-lo a deixar Moçambique em fevereiro deste ano. As ameaças de morte estavam se tornando pesadas demais. Desde 2017, ano do primeiro grande ataque ao Norte dos extremistas moçambicanos, Lisboa nunca deixou de falar. Ele deu voz ao povo da sua diocese, mais pobre do que os já pobres moçambicanos, denunciando o início de uma guerra que, se não tivesse sido ouvida por Maputo, teria posto de joelhos toda uma região do país. Eles o chamam "a voz do povo", e estava certo. O atentado contra a cidade de Palma em 24 de março, com dezenas de mortos, valas comuns, cabeças decapitadas e milhares de desaparecidos e deslocados, é uma prova disso.

A entrevista é de Raffaella Scuderi, publicada por La Repubblica, 11-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

D. Luiz, quem o estava ameaçando? Os extremistas?

Não. O governo. Recebi primeiro ameaças de expulsão, depois de apreensão de documentos e no final de morte.

Como tem certeza de que foi o governo?

Maputo negou a guerra desde o início. Quando o conflito e o perigo se tornaram evidentes, ele proibiu que se falasse sobre o assunto. Impediu que os jornalistas fizessem seu trabalho. Um repórter está desaparecido desde abril do ano passado. Ele trabalhava para uma rádio comunitária e falava sobre a guerra. Em sua última mensagem, disse que havia sido cercado pela polícia. A Igreja era a única que falava sobre a situação. E isso não agradava ao governo. Acima de tudo, não tolerava que saíssem notícias sobre o estado. Orgulho nacional, negócios. Quando há um ano a Conferência Episcopal condenou o que estava acontecendo em um documento, as autoridades reagiram mal, começando a jogar lama sobre mim.

Por que Maputo está minimizando a presença do extremismo?

Eles não querem que se fale mal do país. Apelamos ao governo para que pedisse ajuda à comunidade internacional. Sozinho ele não pode fazer frente a isso. E nós estamos vendo isso. O nosso apelo chegou ao Parlamento Europeu e duas comissões pediram-me para expor a situação.

O que o Papa disse a você?

Depois da sua visita a Moçambique, o Papa Francisco sempre acompanhou a situação de Cabo Delgado. Em agosto do ano passado ele me ligou para dizer que estava muito perto de nós, que estava orando por nós e que queria nos dar sua bênção. Graças à sua intervenção, a guerra se internacionalizou. Depois de suas palavras, muitas pessoas começaram a se interessar pela guerra. Em dezembro doou 100 mil euros para a construção de hospitais e para os deslocados.

Conversou com ele de novo depois das ameaças de morte?

No dia 18 de dezembro encontrei-o no Vaticano. Ele queria saber como estava a situação. Ele evidentemente tinha mais informações do que eu. Ele sabia que eu estava correndo riscos e me ofereceu uma transferência para o Brasil.


O que está acontecendo em Cabo Delgado?

Recursos, multinacionais e guerras. Três coisas que você sempre encontra juntos. A situação está piorando rapidamente. Estou em contato com muitas pessoas da diocese de Pemba e Palma (local do ataque de 24 de março, ndr). Muitas pessoas ainda estão escondidas nos matos. Outros conseguiram chegar a outra cidade, Nangade. Há muitos idosos, crianças e pessoas que não sabem como sobreviver. Disseram-me que os helicópteros contratados lançaram bombas atingindo terroristas, mas também civis.

Você viveu muitos anos em Moçambique. De onde se origina essa violência extremista?

Moçambique é um dos 10 países mais pobres do mundo. E a região Norte é a mais pobre. No ano passado presenciei uma inversão da política pública, não mais preocupada com a população: saúde, educação. Gente pobre, sem trabalho, doentes e analfabeta. Os jovens não têm futuro porque não podem estudar: não há escola secundária. Uma província pobre e abandonada, embora rica. A situação ideal para a guerra: pobreza, muitos recursos e questões étnicas. Todos os elementos importantes para um conflito.

O que você fez?

Vários anos atrás, alertamos o governo local e central que havia grupos que desrespeitavam os líderes muçulmanos. O governo não prestou a devida atenção. E esses indivíduos cresceram e se tornaram cada vez mais fortes. Até a revolta de 2017.

Se eles são ou não patrocinados pelo ISIS permanece um mistério. Analistas afirmam que a reivindicação do califado é falsa. Qual é sua opinião?

Os extremistas usam o nome do estado islâmico. Mas esta não é uma guerra religiosa. Se fosse, eles teriam nos atacado. Mas eles atacam a todos e destroem tanto igrejas como mesquitas. Eles matam líderes cristãos e muçulmanos. Esta é uma guerra econômica pela apropriação dos recursos naturais: gás líquido, ouro, rubis, pedras semipreciosas. No momento, existem mais de 700 mil pessoas deslocadas e mais de 2 mil mortos.

Como vive a população? Há quem diga que não opuseram resistência ao ataque.

Há uma total falta de respeito pelos direitos humanos. Tanto dos terroristas quanto do governo. A população tem medo de ambos. Extremistas roubaram uniformes do exército, armas e alimentos. Eles se apresentam como militares. Para o povo, é uma situação terrível. Eles veem o exército e para eles são terroristas. As forças militares de alguma forma abusam das pessoas. Mas também os soldados são vítimas, porque estão numa guerra em que não querem estar.

Eles descobriram recentemente um campo de gás líquido. Bilhões de dólares foram investidos em Cabo Delgado. Estão ali os franceses, os estadunidenses e os italianos. O que isso acarreta?

A relação das multinacionais com a região não é boa. A maneira como essas grandes empresas atuam não é boa. Existem leis que orientam sobre como realizar os passos: consultas com a população, participação na discussão. Mas eles não fazem. E a população tem que deixar suas terras. Isso cria descontentamento.

Você nunca teve medo?

Não. Nunca deixei de falar. A Igreja é a voz dos que não têm voz. Como eu poderia ficar calado?

Você sente falta de Moçambique?

Eu teria ficado. Sinto muita falta. Todos os dias peço informações e falo com amigos e missionários. E mesmo daqui procuro sempre entender como ajudar aquele país. Pedi a todos os missionários e as missionárias da região que deixassem Palma imediatamente.

O que você carrega no coração desses 20 anos?

O mais bonito foi ver aquela gente tão pobre acolher outros pobres em suas casas. Eles acolhiam duas ou três famílias, não tendo quase nada, nem espaço, nem comida. Isso eu nunca vou esquecer. São um exemplo de compartilhamento humano. In “Instituto Humanitas Unisinos” – Brasil com “La Repubblica”



 

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Moçambique – Programa Mundial de Alimentação preocupado com a situação da população na província de Cabo Delgado

PMA pede US$ 4,7 milhões para socorrer vítimas de conflito em Moçambique


O Programa Mundial de Alimentação, PMA, informou que está preocupado com a situação dos moradores em Cabo Delgado, no norte de Moçambique. A agência da ONU atua na área, que sofre uma crise humanitária após a intensificação da violência nos últimos anos.

Cabo Delgado, conhecido por suas belezas turísticas foi arrasado com a passagem do ciclone Kenneth, no ano passado. Nos últimos meses, ataques de militantes extremistas islâmicos provocaram uma intensificação das respostas por forças de segurança do país. De acordo com o PMA, sem financiamento adicional, a agência terá que reduzir a distribuição de alimentos já em dezembro.

Mulheres e crianças

Em comunicado, a representante do PMA em Moçambique, Antonella D’Aprile, afirmou que a crescente insegurança e a infraestrutura deficiente tornam difícil fazer chegar ajuda aos moradores. Com a Covid-19, a distribuição de alimentos tornou-se ainda mais complexa.

Desde 2017, Cabo Delgado tem sofrido com ataque de grupos armados não-estatais, que resultaram em perda de vidas e danificaram severamente a infraestrutura da província.

Milhares de pessoas fugiram para a Tanzânia, e analistas já manifestaram preocupação com uma regionalização do conflito.

Desnutrição

O PMA lembra que com a violência e a insegurança, as comunidades perderam o acesso a alimentos e fontes de rendimento. A situação pode ficar ainda mais grave para as mulheres e crianças.

A província de Cabo Delgado tem a segunda maior taxa de desnutrição crónica do país. Ali, mais da metade das crianças menores de cinco anos sofrem de desnutrição crónica. 

Milhares de deslocados internos procuram refugio nas províncias e países vizinhos. O PMA em colaboração com governo tem como plano atingir 310 mil pessoas por mês nas províncias de Cabo Delgado, Nampula e Niassa com alimentos, apoio nutricional e vouchers. Ouri Pota – Moçambique ONU News


sábado, 15 de agosto de 2020

Moçambique – ONU “profundamente preocupada” com violência em Cabo Delgado



As Nações Unidas estão “profundamente preocupadas” com a violência armada e a escalada do conflito na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique.

Falando a jornalistas esta sexta-feira, o porta-voz do secretário-geral destacou a situação no distrito de Mocímboa da Praia. Segundo as agências de notícias, partes desta vila foram palco de ataques, causando mortos, após confrontos com soldados moçambicanos.

Violência

O porta-voz disse que a ONU também está preocupada com “questões de direitos humanos e a situação humanitária que a violência está a criar.”

Segundo Stephane Dujarric, “violência, assassinatos, desaparecimentos forçados, sequestros e outras violações contra civis devem acabar.” Afirmou ainda que “os responsáveis devem ser levados à justiça.”

Para as Nações Unidas, “é vital alcançar as pessoas afectadas pela violência com assistência e protecção que salvam vidas.”

A organização está a apelar a todos os envolvidos para garantir que as agências humanitárias tenham acesso seguro, desimpedido e imediato para apoiar os civis afectados.

Segundo as agências de notícias, nos últimos meses, os confrontos entre militares moçambicanos e grupos armados têm sido frequentes. ONU News – Nações Unidas

sábado, 2 de março de 2019

Casamansa – O processo de paz do conflito



Dentro de uma das áreas que se tem consolidado no CEI-IUL, a dos conflitos, decorreu a primeira edição da conferência internacional "A problemática do processo de paz do conflito de Casamansa", organizada pela investigadora do CEI-IUL, Antonieta Rosa Gomes.

Esta conferência reuniu vários especialistas da área que ao longo de dois dias promoveram o debate em torno de temáticas como as dimensões étnicas, religiosas, culturais e transfronteiriças do conflito, o papel das mulheres e organizações da sociedade civil na construção da paz, e as problemáticas ambientais.

No âmbito desta conferência, a organizadora Antonieta Rosa Gomes e um dos oradores convidado, Vincent Foucher, foram ouvidos pelo Diário de Notícias para comentar este conflito (links disponíveis na secção "CEI-IUL nos Média"). Centro Estudos Internacionais ISCTE Instituto Universitário de Lisboa - Portugal