Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Estados Unidos da América - Diretor do Museu do 11 de Setembro é português e luta “para que o mundo não esqueça”

O luso-americano Renato Baptista é diretor de operações do Museu do 11 de Setembro e, 25 anos após os ataques terroristas que mataram quase três mil pessoas, continua a trabalhar para que “o mundo não esqueça” esse dia


Em entrevista à Lusa, Baptista reconheceu que trabalhar diariamente na zona do World Trade Center, em Nova Iorque, e contactar todos os dias com o que restou dos atentados, não implica que ainda hoje tenha pensamentos constantes sobre aquele 11 de setembro de 2001, embora admita que nem sempre foi assim.

No entanto, há um episódio, que se repete todos os anos, que não esquece e que envolve um jovem que perdeu o pai nos ataques.

“Todos os anos há um rapaz, que não sei bem a idade dele agora, mas lembro-me dele pôr sempre uma nota [carta] ao pé do nome do pai dele. E, nessa nota, descreve sempre ao pai onde é que ele está na vida: a fazer a graduação do liceu, a ir para a universidade, etc”, recordou.

“Eu nunca conheci esse rapaz. Espero um dia ainda o ver, até pode ser este ano. Gostaria de o conhecer. Mas é o que mais me marca, mais me corta o coração, é ver aquela nota desse rapaz”, contou o luso-americano.

Renato Baptista nasceu na cidade de Mount Vernon, no estado de Nova Iorque e é filho de emigrantes do distrito de Leiria.

A sua formação é na área de contabilidade, mas, cansado de “trabalhar longas horas” nesse setor, decidiu aproveitar a oportunidade que lhe foi apresentada por um outro português, o arquiteto Luís Mendes, que à data ocupava uma posição de chefia na Autoridade Portuária de Nova Iorque e Nova Jérsia, para trabalhar no Museu e Memorial do 11 de Setembro.

Começou como assistente de operações, mas rapidamente chegou ao cargo de diretor de operações, manutenção e instalações daquele que é o principal espaço de memória e homenagem às vítimas dos ataques perpetrados por terroristas da Al-Qaida.

O Memorial está localizado no exato lugar onde antes ficavam as Torres Norte e Sul, atingidas pelos aviões comerciais sequestrados por terroristas da Al-Qaida, e apresenta duas piscinas gémeas com cascatas, cercadas por parapeitos de bronze com os nomes das vítimas inscritos.

O Museu fica no subsolo e conta a história dos ataques através de objetos, fotografias, vídeos, testemunhos e elementos recuperados dos destroços.

O complexo também aborda o ataque de 26 de fevereiro de 1993 ao World Trade Center, quando uma pequena célula terrorista fez explodir um camião armadilhado na garagem subterrânea da Torre Norte.

O Museu e Memorial são lugares de lembrança e contemplação no meio da agitação da região sul de Manhattan.

O trabalho de Renato Baptista aborda contabilidade, auditoria e orçamentos, mas, de todas as funções que desempenha, considera de maior importância a manutenção do interior e exterior do Museu.

“Esse é que é o meu grande prazer: de mostrar que se mantém limpo e com respeito”, disse à Lusa.

Baptista defendeu que esta “é uma memória que nunca se vai esquecer, uma memória que não se deve esquecer”, fazendo questão de recordar também as vítimas posteriores aos ataques, como os “trabalhadores de resgate que hoje estão a morrer devido ao que aqui aconteceu, devido aos ares que diziam que estavam limpos, mas que não estavam”.

“O 11 de setembro não terminou no 11 de setembro, continua. (…) O nosso objetivo aqui no museu é manter essa memória sempre viva: sem que os americanos e o mundo se possam esquecer”, sublinhou.

Numa entrevista antes de se assinalarem 25 anos da data trágica, Renato indicou que o Museu se está a preparar para uma cerimónia na sexta-feira com os familiares das vítimas, que contará ainda com a presença de todos os ex-presidentes norte-americanos vivos e do atual vice-presidente, JD Vance.

A cidade prepara-se para esta data “com uma segurança muito mais elevada” do que em anos anteriores, não só pela presença das figuras políticas de relevo, mas também devido “à guerra com o Irão”, que acrescentou um novo grau de “insegurança no mundo”, explicou o diretor luso-americano.

No dia 11 de setembro de 2001, quatro aviões comerciais foram sequestrados por terroristas da Al-Qaida, sendo que dois aparelhos colidiram de forma intencional contra as Torres Gémeas do World Trade Center, Nova Iorque, que ruíram duas horas após o impacto.

O terceiro avião de passageiros colidiu com o edifício do Pentágono, a sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, condado de Arlington, Virgínia, nos arredores de Washington.

O quarto avião caiu num campo no estado da Pensilvânia, depois de alguns passageiros e tripulantes terem tentado retomar o controlo do aparelho.

Não houve sobreviventes entre os passageiros dos aviões, sendo que, no total, os ataques fizeram mais de três mil mortos. In “Bom dia Europa” – Luxemburgo com “Lusa”


quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Suíça - Procura impulsionar mais negócios com a China, frente a incertezas nas antigas relações comerciais

A perspectiva de atualizar o atual acordo de livre comércio (ALC) entre a Suíça e a China surge num momento crítico para as empresas suíças, que enfrentam instabilidades comerciais com os Estados Unidos e com a União Europeia


Washington anunciou tarifas de até 12,5% para alguns produtos suíços, valor superior ao aplicado a muitos outros países europeus. Em paralelo, Bruxelas aumentou as tarifas sobre o aço do país alpino. Ao mesmo tempo, o acesso da Suíça ao mercado de eletricidade da UE está dependendo de uma revisão nas regras das relações bilaterais.

Neste contexto, as empresas suíças procuram diversificar os seus negócios, de olho em outros mercados regionais. Ganha força, então, a ideia de ampliar o já existente Acordo de Livre Comércio (ALC) com a China.

“A economia suíça precisa de relações comerciais abrangentes com todos os principais mercados de exportação. A diversificação reduz as dependências unilaterais”, afirmou a economiesuisse, entidade guarda-chuva que representa as empresas suíças.

As negociações comerciais bem-sucedidas com a China têm sido aclamadas como um grande sucesso pela mídia local, contrastando com o suposto fracasso da diplomacia suíça nos EUA, dos últimos 12 meses.

As mais recentes tarifas dos EUA foram “interpretadas em Berna como um aviso para não se aproximar ainda mais de Pequim”, afirmou o jornal Tages Anzeiger. “No entanto, o Conselho Federal está a sinalizar que não permitirá que ninguém dite com quem o país deve fazer negócios.”

O atual Acordo de Livre Comércio (ALC) entre a Suíça e a China está em vigor desde 2014. A previsão otimista do tratado original era de que garantiria às empresas suíças economizar 290 milhões de francos suíços (359 milhões de dólares) por ano em impostos. Em 2017, a economia real registada foi de apenas 100 milhões de francos.

Enxurrada de burocracia

Ambos os países estão agora dispostos a estabelecer isenções de impostos a uma variedade maior de produtos, principalmente relógios e produtos farmacêuticos. Se aprovado, o novo acordo tornaria 99,8% das exportações suíças isentas de tarifas dentro de dez anos após a sua entrada em vigor, contra os atuais 53,6%. Isso poderia gerar uma economia anual de cerca de 244 milhões de francos suíços, afirma o Ministério da Economia da Suíça.

Os termos finais do acordo comercial serão influenciados por diversos fatores, entre os quais se destacam as chamadas “barreiras técnicas”: uma avalanche de licenças e regulamentações que podem sufocar o comércio.

As barreiras mais comuns são “procedimentos complexos de registo e certificação de produtos, diferenças nas normas e nos requisitos de testes, procedimentos alfandegários e de licenciamento, além de variações na forma como as regulamentações são implementadas localmente”, disse Guillaume Joyet, diretor executivo da Câmara de Comércio Suíço-Chinesa (Swisscham) em Pequim.

As associações setoriais afirmam que precisam de mais detalhes sobre a proposta de atualização do TLC antes de poderem avaliar o progresso nessa área.

A indústria relojoeira suíça seria uma das maiores beneficiadas com a melhoria dos termos do TLC. Todos os relógios suíços ficariam isentos de impostos, mudando completamente o cenário atual, em que apenas 1% dos produtos não é taxado. As tarifas chinesas custam às empresas relojoeiras cerca de 100 milhões de francos suíços por ano, de acordo com os termos atuais do TLC, afirmou a Federação da Indústria Relojoeira Suíça.

Mas outros fatores também precisam ser considerados. Entre o início de 2024 e o final de 2025, as exportações de relógios suíços para a China caíram um terço. “A economia chinesa está a ser afetada por dificuldades no setor imobiliário, que representa uma parcela significativa do PIB”, disse o economista-chefe da federação relojoeira, Philippe Pegorar.

No primeiro semestre deste ano, as vendas de relógios na China caíram 7,1%, um efeito causado “em grande parte pela deterioração do ambiente financeiro e, mais recentemente, pelo aperto fiscal que afetou consumidores de alta renda”, acrescentou Pegorar.

Restrições e obstáculos no caminho

As condições económicas voláteis, tanto no cenário global quanto na China, ajudam a explicar uma queda geral no volume total de comércio entre Suíça e China. Em 2022, as transações somaram 36,3 mil milhões de francos suíços e, no ano passado, caíram para 33,5 mil milhões.

Além da desaceleração do consumo na própria China, a política económica agressiva de Washington procura frear o crescimento da articulação comercial chinesa. Os EUA frequentemente impõem restrições à exportação de tecnologia de ponta para o país — e esperam que o resto do mundo cumpra as mesmas regras.

“Tendo como pano de fundo o conflito comercial em curso entre os EUA e a China, as empresas precisam manter-se bem informadas sobre o ambiente regulatório em todos os mercados relevantes e cumprir os requisitos aplicáveis de controlo de exportação e conformidade”, afirmou um porta-voz da Switzerland Global Enterprise, uma agência governamental que facilita o comércio com outros países.

A proposta de atualização do acordo de livre comércio com a China também corre o risco de ser enfraquecida ou bloqueada pelo parlamento ou pelos eleitores suíços, caso o acordo comercial seja submetido a um referendo popular. Os partidos políticos de esquerda não veem motivo para que as disputas comerciais com os EUA e a UE levem a Suíça cegamente aos braços da China.

Ameaça de referendo

O Partido Verde ameaça levar o assunto para votação popular. “A China monitoriza e persegue as minorias tibetana e uigur na Suíça.

E o trabalho forçado é um problema grave no país”, afirmou a presidente do partido, Lisa Mazzone.

Os social-democratas também exigiram provas de que a China cumprirá as suas promessas de salvaguardar os direitos dos trabalhadores e do meio ambiente.

O andamento arrastado de uma proposta de Acordo de Livre Comércio (ALC) entre os países da EFTA (Suíça, Islândia, Liechtenstein e Noruega) e os países do Mercosul — Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai — nos relembra de que economia e política estão profundamente entrelaçadas.

Após oito anos de negociações, esse acordo continua paralisado depois que a Câmara dos Deputados rejeitou o TLC em junho. Mesmo que o acordo venha a ser aprovado pelo parlamento, ele também poderá ser contestado por meio de um referendo. In “Swissinfo” - Suíça


quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Angola - Participa na inauguração de monumento da família Tucker nos EUA

Angola participou, este sábado, em Fort Monroe, nos Estados Unidos da América, na cerimónia de inauguração de um monumento dedicado a Antoni, Isabela e ao filho William, ancestrais da família Tucker e figuras ligadas à história dos primeiros africanos documentados que chegaram à Virgínia, no início do século XVII


Angola esteve representada pelo ministro da Cultura, Filipe Zau, e pelo embaixador de Angola nos Estados Unidos da América, Agostinho Van-Dúnem, acompanhados por membros da comunidade angolana residente naquele país.

O acto, realizado no âmbito das celebrações do African Landing 2026, constituiu um momento de elevado significado histórico e simbólico, ao perpetuar a memória dos africanos levados para a Virgínia em circunstâncias marcadas pela violência, privação da liberdade e sofrimento, mas cuja trajectória representa também resiliência, dignidade, sobrevivência e esperança.

Este monumento em Fort Monroe reveste-se de particular importância pela ligação do local à chegada, em 1619, dos primeiros africanos documentados à então colónia inglesa da Virgínia, entre os quais se encontravam pessoas oriundas da região que corresponde à actual Angola.

A homenagem a Antoni, Isabela e William confere nomes e dimensão humana a uma história com mais de quatro séculos. Através dos seus descendentes, particularmente da família Tucker, essa memória permanece viva e constitui um importante património histórico partilhado entre Angola e os Estados Unidos da América.

Para Angola, a história evidencia igualmente que os laços entre os dois países são anteriores ao estabelecimento das relações diplomáticas formais. Antes da diplomacia, já existia uma ligação humana e histórica construída pelas vidas e pelo legado dos africanos que chegaram àquelas terras e dos seus descendentes.

A participação de Angola nas celebrações do African Landing insere-se no esforço de preservação e valorização da memória comum, bem como no aprofundamento do conhecimento sobre as raízes históricas que unem os povos angolano e americano.

A inauguração do monumento representa, assim, não apenas um acto de memória sobre um dos períodos mais dolorosos da história, mas também uma afirmação da capacidade humana de resistir, preservar a dignidade e transmitir, através das gerações, um legado que o tempo não conseguiu apagar.

Mais de quatro séculos depois, Fort Monroe mantém-se como lugar de memória e reencontro com uma história que aproxima Angola e os Estados Unidos da América. In “Jornal de Angola” - Angola


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Estados Unidos da América - Angola participa nas celebrações do African Landing

O ministro da Cultura, Filipe Silvino de Pina Zau, encabeça uma delegação angolana que participa nas comemorações do African Landing, que decorre de 28 e 29 de Agosto, no estado da Virgínia, Estados Unidos da América.


Segundo uma nota de imprensa a que tivemos acesso, no programa do evento, que terá lugar na cidade de Hampton, consta a inauguração, no Memorial do Desembarque Africano 1619, das esculturas de Isabella, Anthony e William Tucker.

O programa reserva ainda, para a delegação angolana, uma participação numa noite de jazz promovida pela William Tucker 1624 Society, assim como a apreciação de uma exposição organizada pela Embaixada da República de Angola nos Estados Unidos da América.

Segundo a nota, a exposição será dedicada às relações bilaterais entre Angola e os Estados Unidos, com enfoque para os principais resultados da cooperação diplomática, política, económica e cultural entre os dois países.

A comitiva angolana é composta pelo embaixador de Angola nos Estados Unidos da América, Agostinho Vand-Dúnem, membros do Gabinete do Ministério da Cultura e diplomatas nacionais. In “O País” - Angola


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Guiné Equatorial - Garante tratamento digno aos cubanos que chegam ao país por meio de um acordo migratório com os EUA

O vice-presidente da Guiné Equatorial indicou que as autoridades irão realizar os procedimentos necessários para regularizar a situação dos cidadãos que chegaram ao país


O vice-presidente da Guiné Equatorial transmitiu uma mensagem de tranquilidade à comunidade cubana e às famílias de cidadãos cubanos que chegaram recentemente ao país vindos dos EUA devido à nova política migratória, assegurando-lhes que serão tratados com respeito e dignidade enquanto a sua situação é definida de acordo com a legislação nacional.

A chegada de cidadãos cubanos à Guiné Equatorial faz parte do acordo migratório estabelecido com os Estados Unidos da América para o acolhimento de nacionais de países terceiros.

Numa mensagem divulgada publicamente, o vice-presidente explicou que essas pessoas estão atualmente em território da Guiné Equatorial e em boas condições, ao mesmo tempo que enfatizou a importância de manter a calma entre os seus familiares e amigos.

O vice-presidente recordou os laços históricos de amizade e cooperação que unem a Guiné Equatorial e Cuba, salientando que as relações entre os dois povos permanecem fortes e de grande importância.

As autoridades nacionais serão responsáveis ​​por realizar os procedimentos necessários para regularizar a situação dos cidadãos que chegam ao país. Concluído esse processo, eles poderão decidir se desejam retornar a Cuba, viajar para outro destino ou permanecer na Guiné Equatorial, incluindo a opção de solicitar proteção de acordo com a legislação vigente.

O responsável também enfatizou que a Guiné Equatorial mantém relações de cooperação tanto com Cuba quanto com os Estados Unidos e continuará a cumprir seus compromissos internacionais de forma responsável.

O vice-presidente afirmou que a prioridade do governo é garantir que essas pessoas recebam cuidados adequados e possam tomar decisões sobre seu futuro com todas as garantias necessárias. Juan Nka – Guiné Equatorial in “Real Equatorial Guinea”


sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Benim - Angélique Kidjo faz história na Calçada da Fama de Hollywood

A cantora beninense Angélique Kidjo tornou-se, na terça-feira, a primeira africana negra a receber uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, em reconhecimento à sua longa e destacada carreira internacional


A cantora beninense Angélique Kidjo tornou-se, na terça-feira, a primeira africana negra a receber uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood, em reconhecimento à sua longa e destacada carreira internacional.

A cerimónia, realizada na Califórnia, reuniu artistas e personalidades da indústria musical. Aos 66 anos, a vencedora de cinco Grammys soma mais de quatro décadas de carreira e 18 álbuns, tendo sido apontada pela Time, BBC e The Guardian como uma das personalidades mais influentes e inspiradoras do mundo.

Durante a homenagem, Kidjo agradeceu à família e à sua equipa e destacou o contributo do continente africano para a música mundial. “Sem nós, africanos, não haveria música neste planeta”, afirmou, segundo a Africanews.

Além do percurso artístico, a cantora é reconhecida pelo trabalho humanitário desenvolvido através da Fundação Batonga, dedicada ao empoderamento de meninas e jovens mulheres africanas.

A nova estrela na Calçada da Fama simboliza não apenas o sucesso de Angélique Kidjo na música, mas também o impacto da sua obra na valorização da cultura africana e na promoção de causas sociais. In “Jornal de Angola” - Angola


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Estados Unidos da América - Juiz português nomeado para o Supremo Tribunal de Rhode Island

O governador de Rhode Island, Dan McKee, nomeou, a 12 de agosto, o juiz Luís Matos para integrar o Supremo Tribunal do estado norte-americano. Nascido na Batalha, no distrito de Leiria, o português mudou-se para Providence com a família quando tinha apenas cinco anos, em 1969

De acordo com a LusoPress, de origens humildes, o pai, Arménio Matos, chegou aos Estados Unidos (EUA) com apenas a escolaridade básica e foi operário fabril. Já a mãe, Maria Fernanda Matos, trabalhou no serviço de limpeza no hospital de Rhode Island.

Na escola primária de Fox Point, Luís Matos aprendeu inglês através de um programa bilingue. Depois de concluir os estudos na LaSalle Academy, em Providence, tornou-se o primeiro membro da família a frequentar a universidade. Licenciou-se pela Brown University e concluiu o curso de Direito na University of Connecticut.

“Sinto-me profundamente honrado e humilde perante a oportunidade de continuar a servir o povo e o estado de Rhode Island”, afirmou o juiz português. “Estou grato ao governador McKee pela confiança que depositou em mim e aguardo com expectativa o trabalho que temos pela frente”, acrescentou.

“O juiz Matos é um caso de sucesso de Rhode Island, que serviu o seu país e o seu estado de residência com distinção, e sinto-me honrado por nomeá-lo para o Supremo Tribunal de Rhode Island”, afirmou o governador McKee.

De acordo com a informação do sítio do estado de Rhode Island, Luís Matos iniciou a carreira no Departamento de Justiça, em Washington, D.C., onde trabalhou como advogado em processos em primeira instância e em recurso, representando os interesses dos Estados Unidos perante o Tribunal Federal de Reclamações.

Mais tarde, passou para o Ministério Público no Distrito de Delaware, onde exerceu funções como procurador-adjunto, concentrando-se em processos criminais e civis relacionados com fraude no setor da saúde. Acabaria por assumir o cargo de Coordenador Nacional de Combate à Fraude na Saúde, tendo recebido o prestigiado Prémio do Diretor pelo seu desempenho.

Regresso a Rhode Island

Em 2001, regressou a Rhode Island para trabalhar como procurador-adjunto. Nessa função, representou o estado e o país em processos relacionados com fraude no setor da saúde, criminalidade económica e corrupção no setor público.

Durante este período, desempenhou várias funções de chefia, entre as quais as de diretor da Divisão Civil, diretor da Divisão Criminal, primeiro procurador-adjunto dos Estados Unidos e procurador interino dos Estados Unidos.

Foi também distinguido com o prémio de Advogado do Ano do Rhode Island Lawyers Weekly e com o Prémio de Integridade do Gabinete do Inspetor-Geral do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos.

Desde 2012, Luís Matos exerce como juiz associado do Tribunal Superior de Rhode Island, onde tratou de processos civis e criminais e passou por todas as áreas de competência do tribunal.

O presidente do Supremo Tribunal, Paul Suttell, nomeou-o ainda para o Comité para a Justiça Racial e Étnica nos Tribunais de Rhode Island (CREF). No âmbito deste trabalho, o juiz envolveu-se num programa destinado a isentar, reduzir ou perdoar custas judiciais a arguidos sem capacidade financeira para as suportar. Até ao momento, analisou pedidos de mais de 650 pessoas e determinou a anulação de mais de 1,2 milhões de dólares em custas judiciais.

Nomeação aguarda confirmação

A nomeação para integrar o Supremo Tribunal do estado norte-americano terá agora de passar pela Câmara dos Representantes e pelo Senado de Rhode Island, que terão de dar o seu parecer e aprovação antes de Luís Matos poder assumir funções no Supremo Tribunal do Estado. In “Bom dia Europa” - Luxemburgo


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Brasil - Existe o risco de invasão norte-americana?

E se os Estados Unidos desembarcarem em Brasília, prenderem Lula, Alckmin e parte de seu governo em vias de ser reeleito, assim como Moraes e alguns ministros do STF, recolocando no seu lugar o ex-presidente golpista Jair Bolsonaro ou seu filho Flávio?

Essa hipótese existe e tem dado manchetes em jornais franceses e europeus. Seria um retorno ao passado ainda recente com a prisão de Maduro na Venezuela, diversos golpes na América Latina e a morte de Salvador Allende no Chile. Seria uma versão trumpista da doutrina Monroe - o Brasil para os norte-americanos!

Haveria resistência? Numa entrevista à CNN, o ministro da Defesa se mostrou bastante pessimista: "teríamos de abrir os portões!" Por uma razão muito simples: infelizmente o Brasil não tem como resistir a uma invasão nem em termos de armamentos nem de contingente militar.

Além disso, já existem alguns traidores da pátria, bem instalados nos EUA, onde têm tramado contra o governo brasileiro pelas redes sociais, utilizando o tarifaço contra a economia do governo brasileiro.

Sem se esquecer da atração do evangelismo norte-americano sobre os seguidores da versão brasileira de exportação, cuja doutrina da teologia do domínio vê em Trump um líder internacional capaz de apressar a volta de Cristo. Trump um verdadeiro enviado de Deus para os evangélicos norte americanos.

Pode ser exagero, se escrever sobre o risco de intervenção norte-americana no Brasil, porém a dificuldade de Flávio Bolsonaro entrar na posse do eleitorado do pai, agravada com as denúncias de relações com Daniel Vorcaro, do banco Master, têm reforçado dentro da esquerda a esperança de uma vitória de Lula no primeiro turno.

Impossível para Trump aceitar uma vitória de Lula, depois de não ter conseguido derrotar a teocracia iraniana? E isso às vésperas de eleições para deputados e senadores, nas quais perderá a maioria nas duas Casas?

Provocar um golpe no Brasil, com ou sem intervenção militar, lhe daria vitória em novembro? Ou lhe daria condições políticas internas para enfrentar a derrota dos republicanos, com a qual perderá a maioria legislativa no governo e deixará de ser o presidente manda-chuva, quase ditador, norte americano?

Ainda em março, o jornal francês Le Monde noticiava o acordo de fabricação de armamentos do Brasil com a África do Sul. E, naquele momento, o risco não eram as eleições, mas as organizações criminosas brasileiras, consideradas como grupos terroristas, nova categorização que dá aos EUA justificativa para violar a soberania brasileira e fazer ataques pontuais contra o Brasil.

Na verdade, essa era a primeira brecha necessária para justificar uma intervenção no Brasil.

No Uol, a jornalista Daniela Lima levanta outro tipo de intervenção, possível pelas redes sociais antes das eleições durante a disputa eleitoral. Quanto a isso não existem dúvidas, a campanha anti-Lula está em plena função com a utilização inclusive de fakes, repetindo o já ocorrido durante a campanha de Jair Bolsonaro contra Lula.

A dúvida é se haverá intervenção no caso das sondagens ou os votos nas urnas favorecerem Lula. Imprevisível como é Trump, nada é impossível, tudo poderá acontecer. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins, é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

China – Inteligência artificial agita concorrência de preços entre gigantes americanos

A inteligência artificial (IA) chinesa, eficaz e rentável, está a forçar os gigantes americanos a reduzir os seus preços, o que ameaça a sua lucratividade e gera animação entre os utilizadores, que aproveitam esta concorrência, como um bar em Pequim, que passou a oferecer acesso gratuito ao DeepSeek.


Para um uso intensivo da IA, as assinaturas com tarifa fixa já não são suficientes. A cobrança por uso, baseada em “tokens” — unidade que mede a quantidade de texto que a máquina processa e gera —, está a tornar-se cada vez mais comum. Para defender as suas cotas de mercado, os gigantes de Silicon Valley estão as ser obrigados a reduzir o preço do token: a OpenAI, criadora do ChatGPT, reduziu em 80% as tarifas de seu modelo “Luna”, e a Anthropic, desenvolvedora do Claude, apresentou um modelo semelhante ao seu sistema mais potente, mas pela metade do preço.

O DeepSeek, cujo modelo V4 Flash lidera o ranking de uso da plataforma técnica OpenRouter, anunciou na semana passada que prevê um “aumento significativo” dos preços para programadores.

Os utilizadores em Pequim têm outra opção: IA gratuita para os clientes no AGI Bar (Artificial General Intelligence), ponto de encontro para desenvolvedores, fundadores e investidores, decorado com referências à inteligência artificial e um cardápio repleto de piadas baseadas no jargão tecnológico. “É bastante comum que bares ofereçam wi-fi gratuito, então eu ofereço tokens gratuitos”, explicou à AFP o proprietário do bar, Song De.

O estabelecimento localizado em Zhongguancun, um bairro apelidado de “Vale do Silício chinês”, roda o V4 Flash em duas imponentes estações de trabalho da Nvidia, sem precisar pagar ao DeepSeek. Song De, desenvolvedor independente, é um dos utilizadores que deixou de lado os modelos mais caros, como o Fable 5 da Anthropic, para optar por alternativas mais leves.

“Muita coisa pode ser feita com modelos mais antigos, de menor complexidade ou com modelos de linguagem reduzidos”, afirmou o analista de tecnologia Jack Gold, fundador da J.Gold Associates. Novos modelos chineses de IA, do Kimi K3 da Moonshot AI à popular série Qwen da Alibaba, estão a chamar a atenção como concorrentes da liderança da Anthropic e da OpenAI.

As duas empresas americanas preparam-se para abrir capital, o que significa que “precisam começar a obter lucros”, explicou Gold à AFP. “Não ouso dizer que seja uma guerra de preços porque ainda não chegamos a esse ponto. Mas, sem dúvida, é uma competição de preços para tentar conquistar mais utilizadores”, acrescentou.

As empresas americanas também estão a alimentar uma competição feroz que pode transformar a IA numa ferramenta padronizada e intercambiável: a xAI, empresa de Elon Musk, reduziu o preço de alguns modelos do Grok, enquanto a Meta, empresa matriz do Facebook, acaba de lançar uma opção de baixo custo, o Muse Spark 1.2. Para Max Liu, co-fundador do sistema chinês de gestão de agentes LobeHub, “a forma mais barata de IA será encontrada no futuro na China (…) Isto sem dúvida pressionará os Estados Unidos a seguir a mesma direcção. Quanto mais barata for a IA, melhor”. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Agências internacionais”


quinta-feira, 30 de julho de 2026

Brasil - Golpe, invasão e roubo de nossas terras raras

Infelizmente não tenho bola de cristal e não posso prever o futuro, mas, com base em certas evidências, podemos imaginar certos riscos próximos à democracia e à soberania brasileiras. A existência desses riscos decorre da tolerância mantida com relação a certos políticos dispostos a traírem o país em favor dos Estados Unidos e aceitarem desempenhar funções de lacaios, em troca de terem apoio para instaurar uma ditadura familiar, uma dinastia, e assim desfrutarem do poder.

Ainda recentemente, o candidato Flávio Bolsonaro confirmou sua vocação golpista ao afirmar que libertará imediatamente seu pai, preso por tentativa de golpe, e reagirá contra o STF se seus ministros quiserem impedir essa libertação em nome de inconstitucionalidade.

Faz alguns dias, afirmou com seu sorriso cínico, que seu pai subirá com ele a rampa do Planalto na posse como presidente.

Diante dessa declaração, o jornalista e crítico político Reinaldo Azevedo disse, no canal Metrópoles, querer ter mais detalhes. Como seu pai poderá subir a rampa sem ter sido libertado e como Flávio poderá libertar seu pai antes de ser empossado? Ora, só depois de eleito Flávio poderia decretar o indulto e, mesmo assim, teria de esperar a reação do STF! Ou Flávio estaria programando um golpe logo depois das eleições, ou mais precisamente, logo depois de sua derrota nas eleições?

E outra: num encontro para o qual foram convidados embaixadores e representantes de diversos países, Flávio Bolsonaro veio com a velha história de urnas não seguras, defendida pelo pai e que lhe custou a inelegibilidade: a de que a Smartmatic, empresa venezuelana fabricante das urnas eletrônicas, não garante invulnerabilidade. Por que teria repetido o mesmo argumento já desmentido? Sua expectativa é a de que o Tribunal Superior Eleitoral, agora dirigido pelo ministro Nunes Marques, indicado por Jair Bolsonaro, aceite a história das urnas não seguras e crie um caos logo após a apuração, na hipótese mais provável de ser derrotado?

São três narrativas golpistas ou mesmo três projetos golpistas fadados ao fracasso, piores e menos consistentes que o plano golpista paterno. Mas aqui poderia entrar um apoio inexistente na derrota de Jair Bolsonaro: em lugar de apelar às Forças Armadas como costuma ocorrer nos países sul-americanos, Flávio e seu irmão Eduardo, mais o foragido neto de ditador, Paulo Figueiredo estariam negociando uma intervenção norte-americana no Brasil, a pretexto a priori de ter havido eleições fraudulentas, tema preferido do presidente Donald Trump. Um golpe rápido capaz de impedir reações e evitar uma guerra civil, perto do modelo aplicado na Venezuela. Para isso contariam com o apoio dos Estados governados por bolsonaristas e suas estruturas policiais e militares. O apoio de São Paulo e Estados sulistas seria decisivo, junto com o apoio religioso evangélico.

Si non è vero è bene trovato, como diria o filósofo Giordano Bruno, queimado pela Inquisição em 1600.

Descrevemos o quadro e os riscos, mas ficaria a pergunta: por que os EUA endossariam a intervenção e apoiariam o golpe?

Razões existem e seria bom ficarmos alertas. A imprensa francesa deu eco aos temores brasileiros do uso da força militar e a Agência France Presse e o jornal Le Figaro não deixaram por menos: "O Brasil se inquieta quanto ao risco dos EUA recorrerem à força militar no seu território, depois que Washington classificou como organizações terroristas dois grupos criminosos brasileiros". Na verdade, essa classificação é pretexto para justificar qualquer intervenção norte-americana no Brasil, mesmo porque, diz o jornal, "a oposição de direita saudou a decisão de Washington".

E por que tanto interesse pelo Brasil?

Antes já havia muitos países de olho nas riquezas da Amazônia. Agora, isso continua, mas reforçado com a cupidez pelas chamadas terras raras. E o jornal suíço Le Temps sintetiza bem essa ganância no título de primeira página - "O Brasil no centro de uma guerra fria econômica entre a China e os Estados Unidos por suas terras raras".

O texto trata do controle da sociedade mineira e de minerais Terra Brasil Minerals pelos EUA e Emirados Árabes com a participação da Inglaterra, Canadá, Austrália e União Europeia para a exploração de terras raras no Brasil, com o objetivo de concorrer com a China, detentora das maiores jazidas dessas terras.

O Brasil possui grandes jazidas mas é um simples exportador dessa matéria-prima, como ocorre com o ferro e a soja. O Brasil sabe extrair mas não tem o controle do processo que permite transformar a rocha em tecnologia e a tecnologia em soberania, comenta o jornal. E dá um exemplo, o lítio bruto exportado por 800 dólares a tonelada é importado, já transformado em hidróxido de lítio, por 8000 dólares.

O Brasil quer ter sua soberania nesse setor, mas a ganância norte-americana por essas terras pode criar mudanças políticas e fazer o Brasil continuar como simples exportador. Isso é o que tramam os chamados patriotas, na verdade traidores da pátria políticos e entreguistas de nossas riquezas. É o limiar de uma luta pela soberania e controle das terras raras como foi a luta da Petrobras pelo petróleo e que os patriotas também querem privatizar. Rui Martins – Suíça

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Rui Martins, é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

A globalização no Brasil do século XVIII

Obra reúne textos do historiador inglês Kenneth Maxwell que mostram a influência da independência dos EUA na Conspiração de Minas em 1789

                                                                       

                                                             I

Exatamente no ano que marca o 250º aniversário da assinatura da Declaração de Independência dos Estados Unidos, a 4 de julho de 1776, o professor e historiador britânico Kenneth Maxwell acaba de lançar Globalização do Século XVIIIa Conspiração de Minas e o Atlântico Revolucionário (Dunstable, Grã-Bretanha, Robbin Laird, editor, 2026), obra que  mostra como aquele acontecimento desencadeou uma série de movimentações políticas no mundo, em especial no Império português que se abalou com a aspiração de súditos que, em 1788 e 1789, sonharam com a separação de Minas Gerais e outras capitanias da América Portuguesa. Como se sabe, a chamada revolução americana começou em 1765 e durou até 1783, mas o marco principal foi a Declaração de Independência que selou a separação das treze colônias do domínio britânico.

Em sua mais recente obra, que sai por uma editora inglesa com edições impressas em Português, Inglês e Francês,  Maxwell demonstra que a fundação dos Estados Unidos não se limitou à Filadélfia, mas que a experiência republicana acabou por influenciar no mundo  espíritos que já não se conformavam com o predomínio dos ideais monárquicos. E isso se deu inspirado numa coletânea de documentos constitucionais norte-americanos no idioma francês, que à época predominava como língua universal, originalmente reunidos pelo diplomata, escritor, jornalista, cientista e empresário Benjamin Franklin (1706-1790) como ferramenta de propaganda.

Trata-se do livro Recueil des Loix Constitutives des Etats-Unis, volume de 1778 organizado por Franklin com traduções das constituições americanas —, elaborado em Paris para convencer os ministros do rei francês Luís XVI (1754-1793), deposto em 1792, de que os Estados Unidos dispunham de uma ordem constitucional coerente e exportável. Foi essa coletânea que acabou trazida para o Brasil por dois ex-estudantes brasileiros na Universidade de Coimbra, uma por José Álvares Maciel (1760-1804) e outra por José Pereira Ribeiro (1765-1798), que, ao que se supõe, teria sido levada para fora de Minas Gerais à época das prisões dos conspiradores, em junho de 1789, para Pernambuco, onde pode ter influenciado a revolta federalista de 1817.

Seriam edições piratas com as indicações de “Filadélfia” e “Suíça”, que correram entre as mãos de estudantes brasileiros formados em Coimbra, Montpellier, Bordeaux e Birmingham. Dessa coleção, que trazia a Declaração de Independência, constava também a Constituição da Pensilvânia, de 1776, que surgia como modelo para a república que os conspiradores mineiros planejavam instituir. Dessa coleção, resta hoje um exemplar preservado no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, a antiga Vila Rica, aquele que foi comprado por Álvares Maciel em Birmingham por dois xelins.

É de se ressaltar que, para a época, aquela seria uma constituição de inspiração muito radical, pois previa até a liberdade para os escravos, o que logo haveria de suscitar entre os escravocratas a ideia segundo a qual essa medida iria causar muitos prejuízos, já que eles haviam construído suas fortunas às custas dos escravizados. É de se notar que se trata de argumento que, hoje em dia, ainda é exercitado pelas classes dominantes diante da possibilidade de o Congresso Nacional aprovar a escala 5x2, que prevê cinco dias de trabalho e dois de folga (geralmente nos fins de semana) para os trabalhadores.

Seja como for, como diz Maxwell, os conspiradores viam na Declaração de Independência e nos demais documentos recolhidos na Recueil um modelo de revolta colonial bem sucedida, bem como uma estrutura moderna para a formação das instituições que um governo republicano poderia criar depois do êxito da rebelião.

 

                                                   II

Com base em décadas de pesquisas em arquivos no Brasil, em Portugal, na França, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, Maxwell reconstrói uma densa rede atlântica de mediadores — incluindo Franklin e Thomas Jefferson (1743-1826) em Paris, estudantes brasileiros como José Joaquim Maia e Barbalho (1757-1788) e José Álvares Maciel e conspiradores como os poetas Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810) e Cláudio Manuel da Costa (1729-1789) e o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746-1792), que teriam interpretado a coletânea de maneira um tanto equivocada, adaptando-a à situação local de endividamento, escravidão e crise imperial.

Na verdade, segundo o brazilianist, os insurgentes haviam avaliado muito mal as prioridades dos Estados Unidos, ao esperar que houvesse um apoio prático da nova nação norte-americana às suas aspirações. Afinal, Jefferson havia concluído que os interesses dos Estados Unidos eram mais bem servidos por um acordo com Portugal do que pelo incentivo a uma aventura arriscada na América do Sul. “A demanda de Portugal por arroz e cereais era um mercado para a produção norte-americana, especialmente para as exportações da Virgínia”, observa o historiador.

Num dos textos reunidos em sua obra, “As propostas constitucionais”, o historiador explica que a conspiração havia sido desmantelada antes mesmo da denúncia do arrematante de contratos Joaquim Silvério dos Reis (1756-1819). E lembra que, para aproveitar a explosão da insatisfação dos colonos, a revolta estava marcada para o dia da imposição da “derrama”, uma operação fiscal que previa a cobrança forçada de impostos atrasados imposta pela Coroa, na tentativa de garantir que 20% do ouro extraído, o chamado quinto, atingissem uma cota mínima anual de 100 arrobas, o que deixava a elite local à beira do pânico.

Como ressalta Maxwell, o governador Luís Antônio Furtado de Castro (1754-1830), visconde de Barbacena, porém, temeroso diante das possíveis consequências da medida, não seguiu as instruções de Martinho de Melo e Castro (1716-1795), ministro da Marinha e Ultramar de Portugal, desistindo de impor a “derrama”. Isso levou Silvério, um dia depois do adiamento da “derrama”, a procurar Barbacena para denunciar a conspiração. Em troca, queria aquilo que o levara a apoiar inicialmente os conspiradores: receber em troca o perdão de suas dívidas com o Erário.

Obviamente, por trás dos conspiradores, estavam mesmo os interesses pecuniários de Silvério e de João Rodrigues de Macedo (1739-1807), outro grande arrematante de contratos, em se livrar das dívidas com a Coroa. Explica-se: numa espécie de privatização, os dois arrematantes faziam o trabalho de recolher os tributos, mas sempre se “esqueciam” de repassar o dinheiro para a Coroa, tornando-se grossos devedores (termo da época). Aliás, para o vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa (1742-1809), Silvério teria sido o “motor” da conspiração, aquele que imaginara a separação da capitania de Minas Gerais porque queria se livrar de suas grandes dívidas.

 

                                                           III

Maxwell destaca ainda uma profunda contradição que havia entre os conspiradores, que, em suas conversações e nas primeiras anotações sobre como funcionaria a futura república, invocavam os direitos humanos universais, embora fossem frequentemente os beneficiários da escravidão. E lembra: “Alguns argumentavam que os escravos deveriam ser libertados para se tornarem defensores da Nova República. Outros apontavam o problema econômico: se os escravos fossem libertados, os proprietários ficariam sem ninguém para trabalhar nas minas”, observa, lembrando que a solução imaginada seria a de libertar apenas “negros e mulatos nascidos no país”. Obviamente, “uma medida incompleta que revelou o profundo abismo entre seus ideais e seus interesses”, acrescenta o historiador.

Enfim, a nova obra de Maxwell merece uma leitura essencial e especial de quem se interessa em conhecer a verdadeira história do Brasil, que, adaptada aos dias de hoje, pode mostrar também que os brasileiros não devem mesmo esperar dos atuais governantes dos Estados Unidos nenhuma ação de boa vontade, mas apenas medidas que visam a explorar a matéria-prima e as riquezas da terra sul-americana, para cujo objetivo não prescindem nem mesmo de medidas arbitrárias como invadir os demais países e até aprisionar os seus principais dirigentes.

   

                                                           IV

Kenneth Maxwell (1941) foi diretor e fundador do Programa de Estudos Brasileiros do Centro David Rockefeller de Estudos Latino-Americanos (DRCLAS), da Universidade de Harvard (2006-2008), e professor do Departamento de História de Harvard (2004-2008). De 1989 a 2004, foi diretor do Programa para a América Latina no Conselho de Relações Exteriores e, em 1995, tornou-se o primeiro titular da cátedra Nelson e David Rockefeller em Estudos Interamericanos. Atuou como vice-presidente e diretor de Estudos do Conselho em 1996. Lecionou anteriormente nas universidades de Yale, Princeton, Columbia e Kansas.

Fundou e foi diretor do Centro Camões para o Mundo de Língua Portuguesa em Columbia e foi diretor de Programa da Tinker Foundation, Inc. De 1993 a 2004, foi revisor de livros do Hemisfério Ocidental para Relações Exteriores. É colaborador regular da New York Review of Books, foi colunista semanal entre 2007 e 2015 do jornal Folha de S. Paulo e é colunista mensal de O Globo desde 2015.

Foi ainda Herodotus fellow no Instituto de Estudos Avançados de Princeton e Guggenheim fellow e membro do Conselho de Administração da The Tinker Foundation, Inc. e do Conselho Consultivo da Fundação Luso-Americana. Também é membro dos Conselhos Consultivos da Brazil Foundation e da Human Rights Watch Americas. Fez  bacharelado e mestrado no St. John's College, na Universidade de Cambridge, e mestrado e doutorado na Universidade de Princeton. É colaborador regular do site Second Line of Defense (www.SLDinfo.com).

Publicou também A Devassa da Devassaa Inconfidência Mineira: Brasil-Portugal 1750-1808 (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1978), Marquês de Pombal – Paradoxo do Iluminismo (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1996), A Construção da Democracia em Portugal (Oeiras, Portugal, Editorial Presença, 1999), Naked Tropics: essays on empire and other rogues (Hove, Eats Sussex, Inglaterra, Psychology Press, 2003), Chocolate, piratas e outros malandros (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1999),  Mais malandros – ensaios tropicais e outros (Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 2005); Kenneth Maxwell on Global Trendsan historian of the 18th century looks at the contemporary world (Londres, Robbin Laird, editor, 2023), Brazil in a Changing World Order (Londres, Robbin Laird, editor, 2024); Perspectives on Portuguese History (Londres, Robbin Laird, editor, 2025); e The Tale of Three Cities (Londres, Robbin Laird, editor, 2025),  entre outros. Adelto Gonçalves - Brasil

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Globalização do Século XVIII – A Conspiração de Minas e o Atlântico Revolucionário (18th Century Globalization – The American Revolutionary Ideal Comes to Brazil  / 18e siècle Mondialisation – Le Point de transit intellectuel français), de Kenneth Maxwell. Dunstable, Grã-Bretanha, Robbin Laird, editor, edições impressas em Português, Inglês e Francês, 201, 199 e 176 páginas, R$ 113,38 (Amazon), 2026.

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Adelto Gonçalves  (1951), jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002); Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003; São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, LetraSelvagem, 2015), e O Reino, a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. Escreveu prefácio para o livro Kenneth Maxwell on Global Trends (Robbin Laird, editor, 2023), publicado na Inglaterra e nos Estados Unidos. E-mail: marilizadelto@uol.com.br


sexta-feira, 24 de julho de 2026

Guiné Equatorial – O pavilhão do país na 61.ª Bienal de Arte de Veneza recebeu a visita do embaixador dos Estados Unidos na Itália

O embaixador dos EUA foi recebido por Chiara Modicà Dona Dallè Rose, Presidente da Fundação Dona Dallè Rose, e pelo Comissário-Geral da Secção da Guiné Equatorial, Jerónimo Nsue Asumu Nchama


O pavilhão da Guiné Equatorial na 61.ª Bienal de Arte de Veneza recebeu a visita do embaixador dos Estados Unidos na Itália, Tilman Fertitta.

Durante a visita, o diplomata conheceu em primeira mão a proposta artística e cultural apresentada pela Guiné Equatorial e destacou o valor da cultura como instrumento de projeção internacional.

Na sua deslocação, Fertitta ficou a conhecer os principais eixos conceptuais da exposição, uma proposta que destaca a diversidade cultural, o património histórico, a riqueza artística e a identidade nacional da Guiné Equatorial.

O encontro também serviu para trocar ideias sobre o papel da cultura como veículo para fortalecer o entendimento, o diálogo intercultural e a cooperação entre os povos.

Como parte de seu roteiro, Tilman Fertitta também visitou a coleção histórica do Palazzo Dona Dallè Rose, que abriga o pavilhão da Guiné Equatorial. O edifício guarda um património que abrange mais de três séculos de história familiar e é um dos locais culturais mais representativos de Veneza.

No final da visita, o embaixador expressou o seu apreço pela qualidade da proposta apresentada pela Guiné Equatorial e valorizou positivamente a presença do país num dos eventos artísticos mais importantes do mundo. Fernando Mbuy – Guiné Equatorial in “Real Equatorial Guinea”