Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Macau - O Português tem muito espaço para crescer enquanto língua social

Há 10 anos em Macau, Ana Luísa Leal acredita que o Português tem muito espaço para crescer enquanto língua social e que a presença das comunidades lusófonas podia ser mais forte. A par disso, há uma área com muito campo de desenvolvimento: a da tradução automática Português-Chinês e vice-versa. Em entrevista à Tribuna de Macau, a professora do Departamento de Português da Universidade de Macau defendeu que essa área tem um potencial particular na RAEM, uma vez que é de cá que saem os dados que permitem ao “Google Tradutor” fazer tradução entre os dois idiomas




-A caminho dos 20 anos depois da transferência de soberania de Macau, que papel tem o Português no território?

-O Português, apesar de ser língua oficial, ainda falha como língua social, não é utilizada socialmente. É usado o Cantonês, como o Inglês e o Mandarim. O Português é uma quarta língua e não deveria ser. Deveria ser mais cultivado, não só nos órgãos governamentais que têm sempre alguém que fala, mas também nas instituições que ensinam Português como a UM e o Instituto Politécnico de Macau (IPM) e outras. Só que o Português falta como língua social, o que não acontecia há 20 anos porque tínhamos mais falantes.

-Como é que esse investimento poderia ser feito agora?

-De uma certa forma, o investimento nunca deixou de ser feito. Agora, o Português em Macau e na China Continental é muito voltado para questões de negócio. De há 10 ou 15 anos para cá triplicou o número de instituições académicas na China que têm Português como língua e isso mostra que o Português tem e sempre teve um papel muito importante, agora mais voltado para as questões comerciais, na China, e aqui para as questões académicas.

-Há forma de o Português deixar de ser a “quarta língua” social?

-O Português mantém-se, apesar de no uso social ser a quarta língua, porque vai ser sempre. Se sairmos à rua e pedirmos um táxi, ou falamos Cantonês, um pouco de Mandarim, se o motorista falar, ou então Inglês e só depois o Português. É nesse sentido que estou a falar. Para o Português se tornar mais vivo, o Governo trabalha de uma certa forma mantendo actividades culturais mas depende mais do próprio interesse da população em cultivar o Português.

-Qual é a posição e o papel das várias comunidades lusófonas hoje em Macau?

-Como o Português é língua oficial, a posição dos ‘expatriados’ dos países lusófonos poderia ser mais forte, mais participativa, mais actuante, mas isso também depende do espaço que é dado. Não estou a dizer que não há esse espaço, estou a tentar ver como podia ser ampliado e não tenho essa resposta.

-Isso também está ligado depois à importância que a língua tem…

-Certamente. Isso está tudo associado. Se a comunidade tem mais espaço, a língua também e isso torna-a mais forte.

-Com o novo regime do ensino superior vão ser criados novos mestrados e doutoramentos ligados ao Português em várias instituições. Isso vai dar novas ferramentas aos futuros tradutores?

-Sem dúvida. Sou muito fã do ensino de pós-graduação, acredito nisso, acho que dá sempre bons resultados. Largamos sementes no mercado e divulgamos isso. Isso faz com que o Português também apareça e é uma forma de fazer com que a língua se dissipe. Por exemplo, uma coisa que favorece muito é que o Português é língua oficial. Não há como escapar disso. Todos os órgãos governamentais têm de ter Português, nas ruas há traduções. Houve uma coisa que acho que melhorou muito. Quando cheguei aqui as traduções de placas e informações do Governo nas ruas às vezes apareciam com muita coisa errada. Isso já não se vê mais. Isso está muito associado ao ensino, perspectivas de ensino.

-Trabalha sobretudo na área da tradução automática. Como é que se junta este trabalho linguístico aos equipamentos informáticos?

-A minha formação é toda linguística. Estou fora do Brasil há 15 anos, já trabalhei na América do Sul e do Norte, na Europa, em África, aqui na Ásia também. Por acaso não sou tradutora. Vim para Macau e quando cheguei, na altura, o director do departamento era Alan Baxter e ele sugeriu que fosse contactar a Faculdade de Ciência e Tecnologia para estabelecer projectos de pesquisa nessa área. Então comecei um projecto na tradução, que era associar o projecto que tinha desenvolvido em Portugal, que era um analisador e sumariador automático de texto, ao tradutor que a UM já estava a desenvolver há algum tempo. Quando cheguei em 2009 comecei a trabalhar com esse grupo de pesquisa, com quem trabalho até hoje. Depois desse primeiro projecto, que foi o AUTEMA, fomos colaborando, também com os alunos de pós-graduação do Departamento de Português. Em todos os projectos ofereci mais de 25 bolsas de estudo que são subsidiadas pela UM. O tradutor é feito com o auxílio dos trabalhos académicos de pós-graduação dos alunos e com a nossa pesquisa. Desde que comecei, sofreu algumas alterações. Era um sistema muito novo, foi passando por regras, estatísticas, até redes ‘neuro’, que é como o sistema está a funcionar agora. Então, colaboramos com a parte linguística e isso está a ser aperfeiçoado a cada ano. Quanto aos resultados, claro, se compararmos com uma ferramenta como o ‘Google’ ou ‘Bing’, que têm equipas a trabalhar só nisso, o nosso tradutor ainda é um pouco deficiente, mas se observarmos o progresso, é muito bom.

-Como é que funciona o equipamento que faz análise textual automática, atendendo a que é algo que tende a ser subjectivo?

-O que desenvolvi foi um analisador. Por exemplo, coloca-se um texto na sua totalidade, não pode ser muito longo ou muito específico, tem de ser mais ‘padrão’ e ele segmenta, cria uma estrutura de árvore a partir do texto, e diz as relações de dependência que existem entre uma estrutura e outra, por exemplo, um processo de subordinação. São várias etapas. Na última, o sistema dá uma sumarização do texto. Se inserirmos um texto de quatro ou cinco parágrafos, ele vai dar uma síntese, num parágrafo, das ideias principais do texto. A minha ideia, com o primeiro projecto que fiz aqui, era passar pelo tradutor automático da UM, tirar o texto em Chinês, gerá-lo em Português, sintetizá-lo, e depois gerá-lo novamente em Chinês. Esse seria o objectivo principal. Como tivemos de tratar primeiro da tradução automática, então, essa parte de geração de texto ficou em ‘stand-by’ até agora, porque estamos a refinar e ajustar o tradutor automático. Este é um sistema que pode ser usado em bibliotecas, quando se quer pesquisar uma informação. Assim, o sistema dá a ideia principal de um texto. No caso de uma notícia de jornal, por exemplo, quando se quer só a ideia central do texto, passa-se nesse sumariador e temos uma ideia principal.

-Deveria haver um investimento mais generalizado, mais forte nessa área, visto que as tecnologias também estão com um desenvolvimento cada vez mais rápido?

-Sem dúvida. As pessoas em Macau não têm noção de que tudo o que há de tradução Português-Chinês, neste momento, vem de Macau. Por exemplo, a forma como o ‘Google’ dá uma resposta da tradução do Português-Chinês tem a ver com a análise de coisas já traduzidas, que estão na rede. Ele procura e dá sugestões de tradução. A busca que o ‘Google’ faz para dar aquela sugestão de tradução, ele faz na ‘web’. E de onde vem a tradução Chinês-Português? De Macau. Todo o alinhamento que se tem de ‘corpus’ em Chinês que tem um equivalente em Português, é daqui de Macau, porque é onde há mais traduções Chinês-Português. Nenhum outro lugar no mundo tem a necessidade de ter Chinês e Português. Há muita tradução Chinês-Inglês e Inglês-Chinês, mas Português e Chinês é aqui. Faz sentido esse investimento do Governo e esse apoio nessa questão da tradução. Levanto a bandeira da tradução porque ela é importante.

-Que margem tem esta área para crescer?

-Total. Os estudos de tradução automática são muito desenvolvidos em todo o mundo e estão em constante mudança. O que tínhamos há 10 anos, os sistemas de tradução que passaram de palavra por palavra, depois para frase, depois um bocadinho mais, e começou a ser um sistema por regras sintácticas, estatísticas e agora por redes. Isso não é uma coisa simples mas foi feita muito rapidamente. Essa mudança de há nove anos para cá, foi muito rápida, foi um “boom”. O processo de tradução automática começou no século passado, na década de 40, na época da Guerra que as pessoas tentavam decifrar as mensagens. Só que como não dava muito bons resultados porque carecia de estudo, o processo de tradução automática foi abandonado durante uns 20 anos. Retomou na década de 60 com a força total. Isso é excelente.

-Acha que em Macau há um potencial especial para esta área da tradução automática Português-Chinês, Chinês-Português?

-Sem dúvida. Não posso falar do que aconteceu antes de 2009 que foi quando vim para cá, mas a UM tem vindo a desenvolver isso a sério. E agora há outras instituições em Macau que estão a começar a desenvolver a tradução automática.

 -O IPM anunciou há uns meses a criação de uma aplicação que faz a tradução automática com reconhecimento de voz em Português e Chinês. Este é o futuro?

-Não sei dizer porque para isso é preciso um trabalho de reconhecimento de voz. É uma coisa difícil de ser trabalhada com essa questão da fala. Não sei como é que o IPM está a trabalhar com isso, quem são os técnicos, mas, por exemplo, um ‘iPhone’ tem a ‘Siri’ e quantas vezes temos de repetir alguma coisa para a ‘Siri’ porque às vezes não reconhece a voz? É muito delicado trabalhar com voz. Não sei como é que vai ser feito, mas não é uma coisa fácil. Talvez venha a haver outro tipo de sistema que possa ser implementado. A ‘Siri’ há 10 anos não existia. Agora há outros. Já se pode usar reconhecimento de voz até para editar texto no “Word”, que poucas pessoas sabem. Ao invés de se digitar, podemos falar e o sistema reconhece a voz. Mas isso também dá problema. Todos os reconhecimentos de voz dão.

-Com a expansão destes equipamentos de tradução instantânea, que permitem que uma pessoa vá a qualquer parte do mundo, fale a própria língua e o aparelho traduza para o idioma pretendido, corre-se o risco de as pessoas virem a perder o interesse pela aprendizagem de línguas?

-Essa é uma boa pergunta. Depende. Neste momento, todos os tradutores automáticos são uma ferramenta. Nunca vão substituir uma tradução humana. Há as questões de conhecimento do mundo, de inferências, de informações subentendidas, que o computador não é capaz de perceber. Acho que as pessoas não vão perder o interesse. Não existe essa possibilidade, a não ser no caso daquelas pessoas que acreditam que um tradutor automático pode dar uma tradução 100% fiel. Isso não acontece. Nos dois últimos anos tenho feito muita análise e comparação de tradutores automáticos e sei o que estou a dizer, não existe essa possibilidade. Não há uma tradução automática 100% fiel ou correcta.

-Vão sempre ser precisos profissionais…

-Sem dúvida. Trabalhei nos Estados Unidos em 2015 e 2016, fui ‘visiting fellow’ na Universidade George Washington, em Washington D.C., e nas universidades americanas eles não querem que os alunos utilizem os tradutores automáticos. No ano passado também estive no Havai e no programa tinham uma recomendação que dizia ‘proibido o uso dos tradutores automáticos’. O tradutor automático é uma ferramenta, o professor pode fazer uso dela e os alunos também devem, mas como apoio, não como instrumento de produção. Claro que nunca vai substituir um tradutor humano. Falta a questão cultural, conhecimento do mundo, inferências, o que está subentendido. Isso o computador nunca vai alcançar, neste momento.

-Disse que estava a criar uma plataforma para a aprendizagem do Português. Que projecto é este?

-Esta foi a grande mudança dos 10 anos aqui em Macau. Não vou abandonar a tradução automática mas a UM está a apoiar muito e a apostar na questão do ensino da língua mediado por internet, pelas ferramentas tecnológicas. Então, há um ano preparei um novo projecto, para três anos inicialmente, que era desenvolver uma plataforma para a aprendizagem da língua, mas uma plataforma específica para o aprendente chinês. Claro, aprendentes com outras línguas maternas podem usar, mas vai ser destinada à aprendizagem por parte do estudante chinês. Essa plataforma é como se fosse um ‘e-learning’, mas através de um jogo. Os jovens chineses gostam muito de jogo, então, essa plataforma é interactiva para aprendizagem da língua. O nome do projecto é ‘PineApple’. É uma Plataforma Interactiva para Aprendizagem do Português Língua Estrangeira. Daí que ficou ‘PineApple’. Vai ser um jogo que contempla todos os níveis de língua, como se fossemos do A1 até ao C. Cada estágio do jogo corresponde a um nível de língua. A pessoa não consegue prosseguir no jogo se não passar naquele estágio que a classifica como um B1 ou um A1. Este jogo foi elaborado por três pessoas e já começámos a patente do sistema. Foi desenvolvido por uma aluna de mestrado, por mim e pelo professor Paulo Quaresma, da Universidade de Évora, que foi meu orientador de doutoramento. O sistema contempla a escrita, fala e a audição. O jogo está todo desenhado. Agora vamos começar a implementação, fazer um protótipo e testar para depois divulgar.

-Como funciona a plataforma? Que tipo de exercícios os estudantes vão ter de fazer?

-São exercícios de perguntas e respostas, identificação, vocabulário, audição, escrita. O projecto vai começar agora em Janeiro. Pode ser usado no computador e no telemóvel. É como se fosse um jogo.

-Já tem ideia de quando poderá começar a ser utilizada?

-Este primeiro ano é de implementação e teste. Daqui a um ano e meio ou dois. Depende do número de pessoas a trabalhar. Foi como eu disse: se fosse como a ‘Google’, no final do ano ele estava a funcionar, mas dependo muito do fluxo de estudantes e é preciso preparar os estudantes para isso, porque os nossos estudantes não são de ciências da computação. Têm de trabalhar numa área mais linguística, em colaboração com as pessoas da Faculdade de Ciências e Tecnologia. É um projecto meu, mas tenho muitos parceiros de outras instituições. Não acredito em pesquisa sozinha. Para desenvolvermos uma boa pesquisa é preciso ter um conjunto de investigadores à procura do mesmo objectivo. Nos meus projectos, o trabalho não é ‘de cima para baixo’, é horizontal, em que toda a gente interage e sabe como o projecto funciona. Todos têm de saber como tudo funciona para a engrenagem se movimentar adequadamente, senão não dá. Inês Almeida – Macau in “Jornal Tribuna de Macau”

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Lusofonia - Com a mobilidade é mais fácil fazer negócio na CPLP

A revista Capital foi tentar saber junto de Salimo Abdula, presidente da Confederação Empresarial da CPLP (CE-CPLP), qual é o maior desafio da organização que representa face ao objectivo de atingir um bom ambiente de negócios na CPLP, e aquele dirigente referiu que a maior luta, até ao momento, tem sido criar condições de livre circulação de pessoas, bens e mercadorias na CPLP e a redução da corrupção, da burocracia e das barreiras administrativas e legais que têm atrasado o desenvolvimento

A mobilidade e a circulação de pessoas e bens é um dos pontos focais para a recém presidência da CPLP. No seu entender, em que medida essa nova forma de administração da CPLP poderá melhorar o actual panorama económico entre os estados-membros em particular e a da comunidade no geral?

Para a CE-CPLP, o caminho do desenvolvimento económico da CPLP para além da superação das barreiras legais e administrativas, são sinergias. Os PALOP, por exemplo, têm recursos (água, e terra, minérios, etc.), têm mão de obra abundante e países como o Brasil e Portugal têm ‘know how’ e maior capacidade para investir. Então, há que unir o útil ao agradável. E para que seja possível aprimorar as sinergias, precisamos de rapidez, flexibilidade e dinamismo e isso será possível através da mobilidade de pessoas e bens.

Acha que a mobilidade de pessoas e bens irá dinamizar as relações entre as associações económicas e empresariais da CPLP bem como entre as empresas?

Sem dúvida. A mobilidade permite acelerar a integração de processos, maior rapidez e dinamismo nas transacções entre os estados membros, bem como incrementar o ‘know-how’ e aproveitamento de recursos humanos. Com a mobilidade será mais fácil fazer negócio entre os países membros.

A nova presidência da CPLP dará ênfase à economia azul, a resolução da problemática dos oceanos, ou seja, as políticas de desenvolvimento sustentável estarão em alta. Que ganhos poderão advir destas políticas?

O desenvolvimento sustentável é condição basilar para o crescimento e a sustentabilidade de qualquer recurso, seja do mar, da terra, ou outro. Desenvolvimento sustentável é garantir o futuro, na medida em que permite que as gerações vindouras usufruam dos recursos hoje existentes. Portanto, esta postura de ênfase na economia azul e desenvolvimento sustentável trará benefícios a nível económico e social. O papel dos Estados será garantir as infraestruturas e a fiscalização adequada, os empresários deverão investir, e naturalmente, daqui teremos mais ganhos a nível da renda, emprego e qualidade de vida das pessoas.

Qual é a avaliação que faz do ambiente de negócios que poderá surgir com a presidência cabo-verdiana?

Avaliação Positiva. Contudo, penso que não é uma questão de uma ou outra presidência, mas sim de um trabalho continuado e integrado das várias presidências da CPLP. Estou seguro que assim como Timor-Leste, e recentemente o Brasil o fez, Cabo-Verde vai dar excelente continuidade à ideia que os estados têm de tornar a CPLP cada vez mais económica. Ao pretender se focar na mobilidade e no desenvolvimento sustentável, esta presidência vai naturalmente assumir particular protagonismo se os resultados forem os que esperamos. Mas, repito, este trabalho não poderá parar por aqui, será necessário a continuidade nas próximas presidências. Só assim teremos um ambiente de negócios saudável.

O sector privado da CPLP desempenha um papel inestimável no crescimento económico e empresarial do espaço lusófono. Actualmente, quais são os maiores desafios deste sector?

O nosso maior desafio, e que tem sido a nossa luta até aqui, é criar condições de livre circulação de pessoas, bens e mercadorias na CPLP, a redução da corrupção, da burocracia e das barreiras administrativas e legais que têm atrasado o nosso desenvolvimento. Um bom ambiente de negócios na CPLP só poderá ser criado e fortalecido desta forma, uma vez que nos permitirá fazer o casamento entre oportunidades, ‘know-how’, e demais capacidades que cada um dos nossos países possui, promovendo gradualmente a integração económica da comunidade.

O Direito Fiscal é uma das questões mais importantes na economia dos estados-membros da CPLP. A dupla tributação em matéria de Impostos Sobre o Rendimento é um ponto muito delicado. A Convenção Multilateral entre os estados-membros veio para resolvê-lo. Quais são as vantagens deste Acordo?

Este acordo permitirá evitar a dupla tributação em matéria de Impostos sobre o Rendimento e, ao mesmo tempo, atenuar as oportunidades para a criação de fenómenos de dupla não-tributação e evasão fiscal.

Na última conferência das Confederações Económicas da CPLP, que se realizou em Maputo, foi abordada a pertinência de se criar um Banco da CPLP. De que modo tal será possível e em que estágio se encontra esse projecto? Quais serão as vantagens associadas a uma instituição financeira dessa natureza?

Este projecto só será possível reunindo o consenso dos países membros e quando todos assumirem a necessidade da sua existência. Um banco desta natureza deverá ter um modelo de gestão de participativo por parte dos países membros com igual proporção de votos na assembleia geral e um conselho de administração e direção executiva que paute pela equidade. Neste momento, o projecto precisa de ser consolidado junto dos estados, para poder avançar. Há muitas vantagens associadas, entre as quais podemos destacar o contributo para o estabelecimento de parcerias de negócio, investimento e financiamento numa lógica inclusiva, de equidade e reciprocidade, envolvendo agentes económicos de cada um dos Estados. Podemos ainda referir enquanto vantagens:favorecer a dinâmica de investimento em áreas críticas de desenvolvimento;conferir escala e melhor percepção de risco no acesso aos mercados financeiros; reforçar o escrutínio, independência e credibilização das propostas de financiamentoe promover a valorização e intercâmbio entre instituições dos diferentes Estados. Helga Nunes e Mateus Fotine – Moçambique in “Revista Capital” com “Olá Moçambique”

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Canadá - A língua portuguesa tem que ser ensinada numa perspectiva de língua estrangeira

Ana Paula Ribeiro esteve cerca de oito anos à frente da Coordenação de Ensino Português no Canadá. Na hora da despedida, destaca as conquistas da Coordenação num país onde o ensino da língua portuguesa chega até mais de sete mil alunos, apenas nos ensinos básico e secundário, para além do ensino superior. A criação da Associação de Professores de Português, a grande aposta na formação de professores e no incentivo à leitura, a procura crescente pelos exames de certificação, são algumas das conquistas do ensino português no Canadá que enumerou nesta entrevista. Como desafios de futuro para a Coordenação de Ensino destaca o fortalecimento do programa de português no ensino secundário nas várias províncias. E defende que, a nível de ensino universitário, o português deve ser apresentado como língua de potencial económico e de potencial futuro a nível de trabalho

Esteve quanto tempo no Canadá? O que se orgulha de ter a Coordenação de Ensino conquistado nesses anos?

Iria fazer oito anos como coordenadora na última semana de outubro. Quando cheguei ao Canadá, o ensino do português era ministrado ainda como língua materna e isso mudou. Não foi fácil, no início, mas hoje não há duvidas, para nenhum professor no Canadá, de que a língua portuguesa tem que ser ensinada numa perspetiva de língua segunda/língua estrangeira. Temos que pensar que no Canadá estamos a ir da terceira para a quarta geração de lusodescendentes e que o português já não é falado em casa. E, muitas vezes, o contato com a língua portuguesa é um contato passivo: quando visitam Portugal, quando comunicam com os avós, etc. Mas a resposta que dão já é em inglês ou francês. Tive uma aluna, com vinte e tal anos, que me contatou porque queria aprender português no Centro de Língua Português (implantado na Universidade de Toronto). Perguntei-lhe se falava alguma coisa de português e disse-me que as frases que conhecia eram: “senta-te”, “come a sopa”, “cala a boca”… eram frases que ouvia da avó. Essa alteração de ensino de língua materna para língua segunda/língua estrangeira, foi a primeira conquista.

Fico contente também por tem conseguido criar uma relação muito positiva com todos os professores no Canadá. Foi estabelecida de uma forma mais fácil em Toronto, mas gradualmente estendeu-se aos outros docentes, que foram seguindo muitas das minhas sugestões e compreendendo que eu não estava a impor nada, até porque não poderia nunca fazê-lo, porque não são professores pagos pelo Instituto Camões.

Foi feita uma grande aposta na formação de professores, também na base do ensino do português como língua segunda/língua estrangeira. Uma formação que acontece maioritariamente nos grandes centros, Toronto, Otava, Montreal, e com menos frequência nas cidades mais distantes.

Fizemos também uma grande aposta no incentivo à leitura, não só com a distribuição de mini-bibliotecas por todas as escolas e até em bibliotecas públicas, mas também com a visita de escritoras infanto-juvenis a várias escolas em Toronto, Otava e Montreal. E tenho sido surpreendida de ano para ano com atividades fantásticas feitas pelos professores e pelos alunos em torno das obras dessas escritoras. Não é só um estímulo à leitura como também possibilita uma atividade fora da rotina normal da sala de aulas.

Temos feito também uma aproximação dos professores do Instituto Camões que lecionam nas universidades, com as escolas comunitárias e públicas, de forma a que haja uma relação entre professores universitários e docentes dessas escolas. E que possam fazer atividades de incentivo à leitura, de desenvolvimento de escrita junto dos professores. Incluído no programa das universidades, há disciplinas que incentivam aqueles que querem vir a ser professores de português. No âmbito dessas disciplinas, os alunos do último ano das universidades vão às escolas fazer trabalho voluntário, desenvolvem atividades muito giras com as crianças e em colaboração com os professores.

Outra conquista da Coordenação foi a criação, este ano, da Associação de Professores de Português, com a professora Anabela Rato à frente da associação. Este foi um passo muito importante, porque é uma forma de unir os professores que estão dispersos pelo Canadá, mas também uma forma da Coordenação trabalhar juntamente com uma outra instituição para a formação de professores, para a promoção de atividades, numa perspetiva de trabalho em colaboração.

O ensino português no Canadá está ‘de saúde’?

Está ‘de saúde’, sim. Temos neste momento entre 7200 e 7300 alunos, desde o pré-escolar até ao final do ensino secundário, não contando com as universidades. O ensino da língua portuguesa é ministrado por várias escolas comunitárias e também através de diferentes direções escolares. As únicas que têm o português integrado no horário são as duas direções escolares de Toronto – a católica e a laica, ambas públicas. Na Direção Escolar laica temos menos alunos de português, porque as escolas católicas atraem mais os portugueses.

Na Direção Escolar católica, temos o português integrado em cerca de 12 escolas. Um programa que, na realidade, esteve em risco. É uma ‘guerra’ de há muitos anos, não só por falta de fundos, mas porque acham que o programa de línguas internacionais absorve os fundos necessários a outros programas. Há escolas que oferecem línguas estrangeiras e outras que não oferecem. Nestas últimas, os professores saem às 15h. Onde há língua internacional, os professores saem, todos, às 15h30 – e os professores regulares não recebem mais por isso.

Como disse, esta é uma situação entre professores, entre sindicatos. E, este ano, no final de junho, término do ano letivo, marcaram uma assembleia extraordinária dos trustees (responsáveis políticos eleitos em cada zona que têm o poder de decisão nestas assembleias públicas) – quando a maior parte dos professores de línguas internacionais, que são docentes de origem, já tinham as suas viagens de férias marcadas. Os professores das línguas internacionais e o próprio sindicato foram apanhados desprevenidos.

A reunião foi agendada para 12 de julho e tivemos até esse dia para conseguir mobilizar pessoas para irem à assembleia, porque havia inscrições para apresentações públicas. Acompanhei a assembleia toda, que terminou às 2h30 da madrugada, hora de Portugal. E fiquei muito contente porque as comunidades imigrantes uniram-se, mobilizaram-se de forma fantástica assim como o sindicato dos professores de línguas internacionais. A associação dos professores de língua portuguesa fez uma apresentação conjunta com a Coordenação de Ensino, houve imensas intervenções, muito emotivas e fortes. E os trustees decidiram que o programa de línguas internacionais não acabaria. A última palavra ainda vai ser da ministra da Educação. A nível diplomático houve vários contatos com a ministra e eu estou positiva, acredito que este programa está salvo por, pelo menos, mais um ano letivo.

E a Direção Escolar católica de Toronto interessa-nos muito porque só dentro deste programa temos 2900 alunos a estudar português com carácter obrigatório, nas suas escolas. E não são só alunos lusodescendentes.

No total, contando com o ensino integrado e o ministrado depois do horário escolar e aos sábados, temos cerca de 3800 alunos de português em Toronto. Representam mais da metade do total do país. Depois temos as escolas comunitárias. Por exemplo, na província do Quebeque, na cidade de Montreal, há a escola da Missão de Santa Cruz e a escola portuguesa do Laval. Na província de Manitoba, é na Associação Portuguesa de Winnipeg que temos a maioria dos alunos. Em Edmonton, na província de Alberta, há aulas na Escola Gil Vicente, que está a fazer um excelente trabalho. Em Vancouver, província da Colombia Britânica, temos duas escolas comunitárias, a Escola Portuguesa Nossa Senhora de Fátima e a Escola Portuguesa Santíssima Trindade.

Qual é o próximo desafio do ensino português no Canadá?

Penso que o trabalho a fazer no futuro será a nível do ensino secundário, onde temos menos alunos. Porque os alunos começam a estudar português aos quatro anos e quando chegam aos 14 anos já têm muitas outras opções. Os próprios counselors de cada escola secundária não incentivam a opção de língua internacional e as famílias acabam também por não fazer grande pressão, visto que os miúdos já andam a aprender português desde os quatro anos.

É preciso fortalecer o programa de português no ensino secundário nas várias províncias. Mas estamos a falar no segundo maior país do mundo. A Coordenação de Ensino, que é uma pessoa, está em Toronto e torna-se muito complicado. Por exemplo, a cidade de Edmonton representa uma diferença horária de menos duas horas em relação a Toronto, uma viagem ‘grande’ de quatro horas de avião e uma deslocação que fica cara para o orçamento da coordenação. O que tenho conseguido é fazer uma dessas viagens ‘grandes’ por ano – a cada ano, uma província diferente. E o reforço no ensino secundário exige um trabalho de persistência, que deveria ser feito com a comunidade e que leva muitíssimo tempo. Acredito que no futuro tal possa vir a acontecer. Mas penso que tem de haver um maior investimento no Canadá.

Como está o projeto das escolas associadas?

Este foi outra das iniciativas da Coordenação de Ensino no Canadá: ter proposto, em anos diferentes, escolas associadas. Temos neste momento três escolas associadas do Instituto Camões. A primeira foi uma grande escola de Toronto, a First Portuguese, com a qual estamos a renovar o protocolo, que já completou três anos. A segunda foi uma escola que pertence à Direção Escolar católica de Otava – a escola Luís de Camões, cujos professores são pagos por essa direção escolar. E a terceira associada foi a escola de Winnipeg.

Estes protocolos com escolas associadas são iniciativas muito importantes. As escolas beneficiam não só por estarem em primeiro lugar na atribuição de manuais escolares, mas também na formação de professores. Por outro lado, têm que dar muito mais, têm que seguir os programas do Instituto Camões, têm que apresentar uma planificação anual das suas aulas e incentivar a que os alunos participem na certificação das aprendizagens… Penso que foi uma excelente iniciativa.

A certificação das aprendizagens veio valorizar o ensino do português. Como está a decorrer no Canadá?

A certificação das aprendizagens foi muito importante e tem acontecido todos os anos. Este ano já fizemos a certificação das aprendizagens em seis cidades, que no fundo são centros de exame: Toronto, Otava, Montreal, Waterloo (que abrange Cambridge e Kitchener), Winnipeg e Edmonton. Todas as provas são preparadas em Portugal pelo Instituto Camões e enviadas para as várias coordenações de ensino, que fazem a gestão de envio para as escolas, a preparação dos professores que vão vigiar as provas e os que vão fazer a avaliação das mesmas, etc. No Canadá, são aplicadas no mesmo dia em que o são noutros centros de exame na Europa. A avaliação é feita por professores do Instituto Camões colocados nas universidades do Canadá juntamente com a Coordenação de Ensino e os resultados são enviados para a sede do Instituto, em Lisboa, que depois emite os certificados. Coa, fazemos uma cerimónia de entrega muito bonita, de forma a valorizar esta certificação e o esforço feito pelos professores, pelos alunos e pelos pais. Este ano tivemos que fazer a cerimónia em duas sessões, porque havia muitas pessoas.

O português está implantado há muitos anos a nível universitário no Canadá, de que é exemplo a Universidade de Toronto onde é dinamizado há mais de 70 anos. O que há ainda a fazer?

Durante muito tempo, e ainda hoje se pensa no ensino do português a nível superior como um ensino dirigido aos filhos dos portugueses. Como já referi, no Canadá estamos na terceira e quarta gerações de descendentes e se continuamos com essa perspetiva, a língua portuguesa vai ‘morrer’.

Temos que pensar que o português é uma língua de comunicação internacional, falada por mais de 250 milhões de pessoas no mundo, como língua materna, que tem interesse, por exemplo, para quem está a estudar Economia/Negócios.

Temos que fazer uma divulgação do português dentro dos vários departamentos das universidades e esse é um trabalho que está a começar a ser feito no Canadá. A vinda este ano, à Universidade de Lisboa, de um grupo de estudantes universitários de Toronto, de diferentes licenciaturas, para um curso de verão intensivo em língua portuguesa (durante todo o mês de julho), que lhes vai dar créditos correspondentes a uma disciplina anual, é disso prova. Mostra que estão a olhar para o português de uma forma diferente e, para mim, é um motivo de orgulho e de satisfação. Significa que estamos a ter muito mais visibilidade do que tínhamos há uns anos atrás.

O facto de termos transferido o Centro de Língua Portuguesa (do Consulado de Portugal em Toronto) para dentro da Universidade de Toronto é também importante. O seu objetivo não é concorrer com o Programa de Português (do Departamento de Espanhol e Português da Universidade), mas ser um complemento. O Centro de Língua Portuguesa dinamiza aulas, mas fora do Programa de Português. São alunos adultos, podem vir de outros cursos ou de fora da universidade. Aliás, a maioria dos alunos vem de fora da universidade e o facto é que temos muitos alunos que nos procuram e cujos apelidos não são portugueses.

Temos uma média de cem alunos por ano a estudar no Centro de Língua Portuguesa, o que é muitíssimo bom, mas achamos que podemos chegar muito mais longe por estarmos dentro da universidade. Não só vamos dar mais visibilidade ao Programa de Português, como também ao próprio Centro de Língua Portuguesa e à língua e cultura portuguesas.

Como se consegue, mantendo o ensino do português junto dos lusodescendentes, torná-lo também uma língua de interesse geral? Nota um interesse pela sua aprendizagem fora da comunidade portuguesa?

Há cada vez mais interesse, mas tem que ser feito um trabalho, como disse, a nível do ensino secundário. Depois de já ter sido dada visibilidade à língua portuguesa e ao Instituto Camões, o objetivo é agora dar mais visibilidade fora também da comunidade portuguesa e com um programa e atividades muito mais abrangentes. Penso que os primeiros passos estão dados. O português está na moda, viajar para Portugal também está na moda e tudo isso vai ajudar a abrir portas.

Ter um curso em língua portuguesa é importante também em termos de futuro profissional. Essa é a mensagem a transmitir?

É muito importante, esse é o discurso que temos feito e que teremos que fazer cada vez mais. Devemos valorizar os laços, as ligações emotivas, mas temos que valorizar o potencial económico da língua portuguesa e o potencial futuro a nível de trabalho. É uma língua de comunicação internacional cada vez mais valorizada e é essa a perspetiva que os pais têm que ter. Não é apenas por a família ser portuguesa, mas também porque, no futuro, os seus filhos vão falar uma segunda ou uma terceira língua, que poderá fazer a diferença no mercado de trabalho. In “Mundo Português” - Portugal

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Portugal – Entrevista ao Prof. Fernando Pádua

“Não é aceitável termos, atualmente, uma média de consumo de 14 gramas de sal por dia e por quilo de pão. Há que reduzir este valor, pois ele é excessivo. A OMS recomenda 5 gramas por dia”

Fernando Manuel Archer Moreira Paraíso de Pádua nasceu em Faro, em 1927. Licenciado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, é graduado em Cardiologia pela Harvard University, Boston, EUA, e doutorado em Medicina e Cardiologia pela Faculdade de Medicina de Lisboa. Actualmente professor catedrático jubilado, é ainda presidente do Instituto Nacional de Cardiologia Preventiva e da Fundação que tem o seu nome. Grande parte dos seus últimos 60 anos foi dedicada ao estudo, ao ensino, ao exercício da cardiologia e à defesa da cardiologia preventiva. Contudo, o seu caminho nem sempre foi fácil: “fui combatido por muitos colegas”, recorda com alguma mágoa. Rosto de muitas campanhas de promoção da saúde em Portugal, nomeadamente na redução do consumo de sal, como causa da hipertensão arterial e do cancro do estômago, Fernando de Pádua ficou conhecido graças às suas frequentes presenças na televisão. A redução do consumo de sal é, sem dúvida, uma das suas grandes batalhas. E o “médico do coração” sabe que é pelas camadas mais jovens que é necessário iniciar esta sensibilização: “é preciso tratar dos sub-20 para que estes possam chegar aos 120, vivos, ativos, alegres e saudáveis”, afirma. O laço que usa em vez da gravata é a sua imagem de marca, mas a razão por que o usa tem uma explicação: “fui para Boston, para a Harvard University, onde todos os médicos usavam lacinho… É daí que vem este meu gosto pelos laços”. Em entrevista à FRONTLINE, Fernando de Pádua falou da sua carreira, da dificuldade de as suas ideias inovadoras serem aceites pelos seus pares, bem como da história da medicina preventiva em Portugal. Houve ainda tempo para abordar o atual estado da Saúde em Portugal, bem como o desempenho do ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes.

Qual o segredo para chegar à sua idade com saúde e uma vida tão ativa?

São muitos os segredos. A minha vida é que permitiu isso. Acredito, realmente, que qualquer pessoa que se entregue ao sedentarismo acaba por parar, não avançar e estagnar. Quando fiz 70 anos, reformei-me, contudo, atualmente, trabalho mais do que antes. Com 90 anos tenho mais horas de trabalho do que naquela altura. Quando me reformei estava só durante a manhã no hospital e à tarde aqui no Instituto Nacional de Cardiologia Preventiva – Prof. Fernando de Pádua. Depois passei a estar o dia todo aqui e na Fundação que criei em 2002.

Como surgiu a medicina na sua vida?

No meu caso foi por sorte. Sorte como na história da escolha do secretário de Napoleão, que supostamente era uma pessoa que tinha muita sorte e por isso foi escolhido para o cargo. Perante este cenário, Napoleão respondeu que sorte repetida é competência. Eu tive sorte repetida na minha vida. A sorte veio por sorte. Estava no liceu, onde era mau aluno, quando os meus pais mudaram de casa e eu passei para o Liceu Passos Manuel. Um dia, por sorte, tive a segunda melhor classificação da turma a Português e o professor fez-me um elogio. Eu pensei: posso ser bom aluno, e comecei a estudar mais. Acabei por ser o melhor aluno do Passos Manuel, no meu ano. A minha sorte foi mudar de casa, mudar de companheiros, mudar de vida de criança e o elogio de um professor.

Porquê a Cardiologia?

A dúvida entre Engenharia e Medicina foi decidida quando um engenheiro assistente do Técnico, que me ia ajudar com o exame de admissão, foi chamado para a tropa, e eu, como já tinha feito e ficado aprovado no exame a Medicina, fui para Medicina. Mais uma vez por sorte repetida e não por competência. Em Medicina, o gosto por Cardiologia vem do professor Eduardo Coelho, um grande homem da cardiologia desse tempo. Ele gostou tanto de mim, que me convidou para assistente, ainda estava eu no 3.º ano dos estudos. E porque a Cardiologia, de certa forma, é uma das especialidades da medicina que mais lidam com a engenharia – no caso da utilização dos desfibrilha­dores ou dos cateterismos e hemodinâmica –, o meu gosto por esta especialidade foi-se construindo. No final do curso, voltei ao professor Eduardo Coelho e disse-lhe que queria trabalhar com ele.

Como surgiu a oportunidade de ir estudar para os Estados Unidos da América?

Acabei a faculdade e, algum tempo depois, recebi uma carta em casa, remetida pelo Rotary Clube de Lisboa. Informava que tinham disponível uma bolsa para o melhor aluno da Faculdade de Medicina, e que eu tinha sido indicado pelo conselho da faculdade, como tal. O prémio era de 3 mil escudos e contemplava o direito a ir almoçar com o Rotary Clube de Lisboa, durante seis meses, à Casa do Alentejo. Pude almoçar com colegas reputados na Medicina, que faziam parte do Rotary Clube de Lisboa, durante essas semanas. Nessa altura eu era um benjamim, e com todas estas interações, foi crescendo dentro de mim o desejo de ser um grande homem na Medicina.

O laço que usa, em vez da gravata, é a sua imagem de marca…

A Rotary Foundation abriu, algum tempo depois, um concurso para 50 bolsas internacionais. Concorri e fui para Boston, para a Harvard University, onde todos os médicos usavam lacinho… É daí que vem este meu gosto pelos laços.

Foi através da televisão que passou a ser conhecido e reconhecido pelos portugueses?

O primeiro contacto que tive com o público, na televisão, foi nos anos 1960, com José Manuel Tudela. Fui fazer uma ação de sensibilização, com a ajuda da Maria de Lurdes Modesto, que falava da parte dietética, e eu explicava às pessoas – como já me tinha ensinado o meu professor Paul White, na América – que a doença ou a morte antes dos 80 é culpa do Homem, não é de Deus, não é da natureza.

É identificado como o pai da medicina preventiva em Portugal. Concorda com este estatuto?

Até concordo, porque custou muito. Fui combatido por muitos colegas. Diziam: “Olha o miúdo, agora veio da América e pensa que sabe tudo. Está na televisão, quer é ter o retrato no jornal, quer é protagonismo.” Na verdade, o que para mim importava era falar com os doentes, passar a informação aos doentes de forma a que eles pudessem ficar informados e capacitados para melhorarem a sua saúde. Hoje em dia não há programa de televisão em que não fale um médico, ou revista que não tenha colunas de saúde ou alimentação saudável. Felizmente que tal aconteceu, mas tive de esperar 20 anos para que isso acontecesse. Foi só após realizar uma palestra num programa de televisão, com cerca de uma hora, com alguns dos maiores especialistas estrangeiros em diferentes áreas, que houve um verdadeiro despertar para a importância da prevenção, para a importância da hipertensão como a maior ameaça das doenças cardiovasculares, do assumir que somos o que comemos e bebemos. Só a partir de então é que as pessoas começaram a compreender todos os riscos associados à falta de exercício físico ou aos malefícios do tabaco e do sal, e ao diagnóstico da hipertensão.Todas as atitudes que hoje em dia temos, no dia a dia, de cuidado com a alimentação e bem-estar físico, naquela altura eram descredibilizadas. Os meus colegas não tinham como válidas as minhas ideias e entendimentos sobre os cuidados a ter e a implementar. Houve um momento marcante, o Dia Mundial da Saúde assinalado a 7 de abril de 1972. Nesse dia fomos para um cinema medir a tensão arterial às pessoas. Mais de 30% das pessoas a quem medimos a tensão eram hipertensos!! Pensámos que havia alguma coisa de errado. Contactámos a Organização Mundial de Saúde, e quando eles vieram cá falar na TV, no dia seguinte, nunca mais ninguém me apontou o dedo. Passei a ser o homem da medicina preventiva. Foi uma luta de egos, pois os professores catedráticos pensavam que eu nunca lhes poderia ensinar nada.

É necessário termos uma atitude responsável face ao nosso corpo e à nossa saúde?

É totalmente necessária essa atitude. O que nos acontece é que, muitas vezes, não temos esse cuidado, e como não temos uma atitude responsável, o nosso corpo ressente-se e nós ficamos doentes.

Na sua opinião somos capazes de controlar a nossa saúde?

Sem dúvida! Nós é que fazemos a nossa vida. Seguindo essa lição, aceitei realizar o curso “O meu motor”, que de forma simples apresentava a ideia de que se deixarmos o carro parado na garagem, passado algum tempo, quando lá vamos, o motor não pega. Parar é morrer. E quando não se utiliza a gasolina certa, com a percentagem de octanas certa, o motor também não trabalha bem.

Quais foram, na sua opinião, as principais inovações na área da Cardiologia nestes últimos anos?

Foi, sem dúvida, a prevenção integrada, através da ajuda e colaboração de outras áreas da saúde e da aplicação dos AEIOU’S da medicina preventiva: A (alimentação cuidada e saudável), E (exercício físico), I (inibir o tabaco), O (omitir o sal), U (uma consulta por ano), S (stress que se combate com o passeio e o ócio). Todavia, não se pode esquecer a terapêutica curativa: cada vez melhores medicamentos e os progressos espetaculares da cirurgia cardíaca e cardiovascular.

De que modo é possível sensibilizar os mais jovens? Qual o papel da escola nesta prevenção?

A atividade física é, sem dúvida, uma das áreas em que vale a pena apostar. É preciso tratar dos sub-20 para que estes possam chegar aos 120, vivos, ativos, alegres e saudáveis.

Uma das suas grandes batalhas tem sido na alimentação, nomeadamente na diminuição do consumo de sal. Que cenário temos hoje quanto ao consumo de sal?

Na minha opinião já existem melhorias neste campo, mas ainda falta percorrer muito caminho. Não é aceitável termos, atualmente, uma média de consumo de 14 gramas de sal por dia e por quilo de pão. Há que reduzir este valor, pois ele é excessivo. A OMS recomenda 5 gramas por dia.

Fale-nos sobre a Fundação Professor Fernando de Pádua. O que tem conseguido realizar nos últimos anos? O que falta fazer?

A Fundação procura dar a conhecer a melhor forma de cuidar da nossa saúde, sobretudo aos mais jovens, através de várias publicações e ações junto da população. O ensino da medicina preventiva é, sobretudo, uma passagem de comportamentos que devem começar nos mais jovens. Falta ainda fazer muito. Metade da população ativa tem pelo menos dois fatores de risco relativamente às doenças cardiovasculares. Ou consomem sal a mais, ou bebem demais, ou têm hipertensão, ou têm tendência para a diabetes, ou não fazem exercício, ou fumam. Nós transmitimos ideias de alteração de comportamentos aos doentes e aos próprios médicos. Aos primeiros, chegamos através de ações públicas; aos segundos, alertamos que não basta prescrever, é necessário que transmitam aos seus doentes a necessidade de alterarem comportamentos, inclusive com o seu exemplo.

Que balanço faz da Saúde em Portugal?

Estamos em boas mãos, porque a maioria dos médicos continua a sacrificar-se, sobretudo porque não é capaz de se negar a estar ao serviço dos seus doentes.

Que leitura faz do desempenho do nosso ministro da Saúde?

O ministro Adalberto Campos Fernandes é humilde nas suas afirmações, ajuda, estimula e apoia.

Qual é, na sua opinião, atualmente, a grande lacuna na classe médica?

A medicina deveria ser dedicada, exclusivamente, às pessoas. Temos de pensar nas pessoas, temos de falar com elas. Estamos a fazer uma medicina perfeita, informatizada, cheia de técnicas, quando às vezes o que as pessoas precisam é de uma palavra, precisam de apoio, precisam que o médico conheça a família. E, às vezes, faz-se uma medicina defensiva. Aposta-se muito nas técnicas, e com isso temos uma medicina extraordinariamente cara. O vulgar dos portugueses precisa de um médico que converse com ele.

Que legado quer deixar ao país? Como quer ser lembrado? Como o “Professor do Coração”?

Eu sou vaidoso. Eu orgulho-me do que tenho feito e alcançado. Desde que comecei a ser médico que me preocupei muito com aqueles que não querem estar doentes, aconselhando os sãos a como não serem doentes. In “Revista Frontline” - Portugal

quinta-feira, 10 de maio de 2018

“O sono é o último reduto de contestação”

Patrícia Portela estreou-se no Festival de Artes de Macau com “Parasomnia”, instalação visual e sonora, com uma dimensão performativa, que incita o espectador a desacelerar, a render-se a um estado que oscila entre a vigilância e a dormência. Um modo de questionar o lugar do sono num quotidiano rendido à imposição insone da produtividade, concebido por uma artista e escritora habituada a contornar as fronteiras da evidência



No tempo lentíssimo da metamorfose, pontuado pela “Elegia” de Stravinsky, transfigura-se o corpo dormente de mulher, na transição de Vénus para Ophelia. Atirado para a penumbra da sala, sacode o espectador a trepidação que percorre, ainda, o corpo acelerado. Trava-se o movimento e a respiração até um estado de torpor, que oscila entre a vigília e a sonolência. Esperar, desacelerar, estar. O desígnio de uma instalação visual e sonora que potencia no público a libertação de um quotidiano cronometrado. Com “Parasomnia”, Patrícia Portela converteu a Casa do Mandarim num lugar onírico, rendido ao sono, ao sonho, e à evidência de uma existência espartilhada e entregue ao desperdício. No percurso da cenógrafa, encenadora, actriz e escritora – vencedora, em 2005, do Prémio Acarte/Madalena Azeredo Perdigão, da Fundação Calouste Gulbenkian – é quase sempre o texto a desencadear a realização performativa, que se traduziria depois numa sucessão de títulos. Com o último livro, “Dias Úteis”, lançado em 2017, inaugura a autora um percurso votado quase em exclusivo à literatura. Com o novo livro, cuja escrita será finalizada até ao final do ano, Patrícia Portela recua a 1998, ano que diz ter encerrado uma promessa de futuro ainda por cumprir, enquanto escancarava a uma geração que se acercava da maturidade as possibilidades infinitas da tecnologia. Com uma vivência hoje repartida entre Lisboa e Antuérpia, foi também em Macau que a condição de estrangeira se instalou na criadora. Num tempo em que se cristalizaram as únicas memórias que sobram da infância, impôs-se a errância como caminho, perante um mundo que era, afinal, um lugar infinito.

O jornal Ponto Final entrevistou Patrícia Portela que poderá ler aqui. Texto de Sílvia Gonçalves e fotografia de Eduardo Martins - Macau

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Macau – Escritor e Investigador Hélder Macedo de novo por terras do Oriente

A poesia chegou cedo, o acto de dizer não também. Porque bateu o pé contra o sistema, saiu de Portugal para voltar uma e outra vez, para ainda não estar lá, estando. Hélder Macedo é um nome incontornável do passado-presente da literatura portuguesa. Está por estes dias em Macau

Fez parte do Grupo do Café Gelo. Como é que funcionava esta tertúlia, influenciada ainda pelo Orpheu?

A obra de Fernando Pessoa começou a ser publicada, de facto, nos anos 1940. Nos anos 50, ainda era uma coisa recente. Fernando Pessoa era mítico, havia várias obras não só do Pessoa, como do Sá Carneiro, etc., que não eram acessíveis. O Gelo foi um bocado um acidente. Éramos jovens, com 19 ou 20 anos, e mais ou menos por acidente começámos a encontrar-nos – uns conheciam-se, outros não –, basicamente para fugirmos aos cafés literários.

Porquê? Eram chatos?

Eram chatos, eram estabelecidos, eram senhores pomposos, importantes. Aconteceu que um grupo de pintores alugou um quarto num sótão perto do Rossio. Não cabiam todos. Eram quatro pintores que partilhavam aquele espaço. Uns desciam e o café mais próximo era o Gelo que, nessa altura, era frequentado por uma clientela de pequena burguesia, pacata, nada intelectual, nada literária. Ia para lá para estar sossegada, não estar naquele ambiente dos cafés literários e dos cafés para estudantes. Uns foram atraindo outros para conversarmos. Eu tinha sido colega de liceu do Gonçalo Duarte, pintor, que me disse que ali tinha uma gente interessante, que eu ia gostar. Fui. Tinha conhecido o Manuel de Castro nessa altura também, ainda no liceu. Uns levaram a outros e sentimo-nos mais ou menos unidos por uma atitude existencial e política, de certa maneira, que era essencialmente de recusa do ‘status quo’, do salazarismo e até das carreiras literárias, da Brasileira, do espírito de promoção e de autopromoção que havia. No meio disto tudo, aparece lá o Mário Cesariny de Vasconcelos que, nessa altura, era um escorraçado social. Nós conhecíamos a obra dele, tinha publicado um livro ou dois. Gostámos muito dele e ele passou a ir ao Gelo. Ele também atraiu outras pessoas. Criou-se um bocado a ideia de que o Café Gelo era uma espécie de segunda ou terceira leva do surrealismo em Portugal. É e não é.

E não é porquê?

Todos nós beneficiámos da existência do Surrealismo, como beneficiámos da existência do Orpheu, do Futurismo, dessas coisas todas. Mas, com algumas excepções, nem os pintores, nem os escritores que depois vieram a ter o seu bocado de obra se podem caracterizar, de facto, como surrealistas. Herberto Helder não é um surrealista. É um homem que bebeu, com certeza, do Orpheu, mas bebeu da tradição bárdica do século XIX, bebeu da leitura da Bíblia, como se vê pela poesia dele. O Manuel de Castro era um homem muito interessado pelas coisas esotéricas, mas não era um surrealista. Eu não sou um surrealista. Alguns foram mais directamente influenciados pelo Surrealismo, como o Ernesto Sampaio, por exemplo, um nome de referência, extremamente importante – era a pessoa que, na altura, mais sabia de Surrealismo em Portugal, um excelente escritor. E depois também outros mais associados directamente à influência do Mário Cesariny: o António José Forte, o Virgílio Martinho, embora escrevesse mais prosa. Esses assumiram-se como surrealistas. Mas o Herberto, eu, o Manuel de Castro, não. As pessoas gostam de dar rótulos. Pronto, nada contra. A outra dimensão do Gelo, que é extremamente importante, é a ligação com os pintores. Foram fundamentais. Eles foram, de facto, os fundadores do Gelo. O João Vieira, o Gonçalo Duarte, o José Escada, o Costa Pinheiro. Alguns, depois, foram para Paris; outros, como o Costa Pinheiro, para a Alemanha. Reencontraram-se mais tarde em Paris, onde fundaram o KWY. Quando se fala no Gelo, há três Gelos: um inicial, jovens tacteantes; os que saíram e que continuaram lá fora qualquer coisa associada ao espírito do Gelo; e os que ficaram – e esses tornaram-se muito mais ortodoxos surrealistas e ficaram muito mais sob a influência directa do Mário Cesariny. Um notabilíssimo poeta, mas era um senhor que não brincava em serviço. Fingia que não, mas tinha o olho posto na glória póstuma. Ele guardava tudo, todos os papéis… E aquela mania surrealista de quem é ortodoxo e quem não é, quem é bom e quem é mau, aqueles catálogos que já em França havia e que deu sempre naquelas proliferações. Mas, se há uma coisa que unificava aquela gente toda, era uma atitude de recusa, o dizer ‘não’, o não querer pactuar política e socialmente, o desrespeitar as normas estabelecidas. A grande revolução que aconteceu no nosso tempo, recentemente, é de facto a afirmação das mulheres, que é uma coisa maravilhosa. A outra é a grande liberdade sexual, o que é espantoso. Nessa altura, os homossexuais eram perseguidos pela polícia. O Cesariny era humilhado semanalmente porque tinha de ir à polícia dizer que estava a portar-se bem. Nós tínhamos uma atitude de total liberdade em relação à própria sexualidade: cada um dormia com quem quisesse, não era obrigatório nem ser, nem deixar de ser, não entrava no assunto. Isso também era parte dessa atitude de recusa das normas estabelecidas e do sistema. Escrevi um texto que está incluído num livro de ensaios em que uso o título “A Utopia da Negação”: a negação como utopia, como desejo de recusa. O mais importante é sermos capazes de recusar, de dizer não. Os ‘sins’ organizam-se sozinhos, alternativamente. Mas temos de decidir o que não queremos. Se aceitarmos, estamos pactuando no essencial, e isso é que não pode ser feito.

Essa atitude vem dessa altura e dessa vivência?

Virá dessa experiência. Por outro lado, é uma atitude que levou a esta experiência. Era uma coisa partilhada. Numa loja daquelas muito lisboetas – em que tinha, de um lado, mercearia, e do outro residência do dono – o Manuel de Castro encontrou, na residência, uma coisa impressa que dizia ‘Aqui não se vende’, significando que aquilo não era a loja. O Manuel tirou aquilo e punha diariamente na mesa do café: ‘Aqui não se vende’. A nossa atitude estava, de certa maneira, simbolizada por aquilo. Nós não estamos à venda.

Hoje em dia, este tipo de encontros, onde se discute o estado das coisas, da política, da literatura, praticamente não existe.

Existe muito menos.

É a consequência do desinteresse?

Há uma grande proliferação, há muita mais gente que escreve, que pinta, uns bem, outros mal, outros assim-assim. Há uma tentativa um bocado artificial, em Lisboa, de criar uma espécie de grupos. Por exemplo, as pessoas associadas à Abysmo, uma excelente editora, sentem que são um bocado um grupo, mas é mais difícil. Há uma coisa que, felizmente, falta: a repressão. A polícia, o perigo, o proibido, o risco, as torturas, Caxias, choques eléctricos – havia um elemento de risco que agora não há. Vários dos nossos amigos – e eu – aos 18 ou 19 anos, foram presos e torturados, eram uns adolescentes, miúdos. Ainda bem que não existe. Se se quer ser maldito, é por vontade e não por necessidade. Nós tornámo-nos um bocado malditos por sanidade, porque, no fundo, a recusa era a sanidade, a recusa era portarmo-nos mal. Um termo que é muito usado e abusado – o abjeccionismo – não é tanto no sentido que se dá actualmente, da pessoa se portar abjectamente. Não, o mundo em volta é que era abjecto. Ao recusarmos aquilo estávamos, de algum modo, a fazer uma afirmação positiva através da recusa. O que acho muito interessante é que as gerações mais novas estão agora a recuperar um bocado a mitificação do Gelo com o Pacheco, o endeusar literário também do Mário Cesariny, felizmente com algumas consequências muito positivas que foi a redescoberta do Manuel de Castro, que estava esquecido – um notabilíssimo poeta. Consegui que o João Paulo Cotrim publicasse um livrinho do José Manuel Simões, “Sobras Completas”, toda a obra completa dele que ele considerava importante e que me entregou, num envelope castanho, a última vez que estive com ele em Paris. Morreu um ano depois, não querendo voltar a Portugal. Estive uns bons dez anos até conseguir editor e o Cotrim publicou. As “Sobras Completas” é um livro muito giro, muito interessante, muito bom. E há outros que podem ser descobertos. Mas está a haver um interesse grande de várias pessoas a escrever sobre o Gelo.

Do Gelo à política. Foi secretário de Estado da Cultura no Governo de Maria de Lourdes Pintasilgo, numa altura complicada, no pós-revolução.

Tinha trabalhado politicamente contra o regime, foi essa a razão pela qual não podia estar em Portugal. Depois regressei e, em 1975, fui convidado pelo então Governo provisório e aceitei ser Director-Geral dos Espectáculos. O Governo caiu, houve um período de várias semanas sem Governo, sem coisa nenhuma, uma coisa perfeitamente caótica. Para entrar no meu gabinete, que era no Palácio Foz, tinha de pedir licença aos piquetes. Nessa altura, como não havia muito mais que pudesse fazer, decidi publicar umas notas sobre o que poderia ser eventualmente uma política cultural, o que se poderia fazer. E isso foi publicado no Diário de Notícias que, na altura, era dirigido pelo Saramago. Decidi não continuar, voltei para Londres. No Verão de 1979, eu e a minha mulher fomos de férias a Portugal, de carro, pacatamente. Chegámos a Lisboa, fui ver os meus amigos, que se reuniam no café Montecarlo – o Carlos de Oliveira, o José Cardoso Pires, o Herberto Helder – e o [Augusto] Abelaira diz-me que se falava em mim para secretário de Estado da Cultura. Ri-me muito e disse-lhe: ‘Ah, e fala-se de si para ministro da Saúde’. Quando cheguei a casa dos meus pais, à noite, um telefonema a convidar-me. Fiquei muito surpreendido. O que deve ter acontecido foi que a Maria de Lourdes deve ter lido essas notas, achou que a coisa fazia algum sentido e decidiu convidar-me. Era um Governo provisório, diziam que era 100 dias mas afinal foram cinco meses, foi pouco tempo e, como tal, aceitei. Nunca quis ter uma carreira política. Devo ter sido a única pessoa em Portugal que foi director-geral e membro do Governo e que não tem um chavo de pensão de coisa nenhuma. Portanto, nunca quis coisa nenhuma e queria, precisamente, ter a minha total independência. Depois de o Governo se ir embora, tive três convites para deputado, de vários partidos. Recusei, não quis ter uma carreira política. Mas alguma coisa foi feita e que, depois, por ódio pessoal do Sá Carneiro à Maria de Lourdes Pintasilgo, foi apagada.

O que é que foi apagado?

Para já, uma coisa sem precedentes na democracia: suspenderam em bloco todos os actos que podiam ser suspensos do Governo da Maria de Lourdes Pintasilgo. Não só na cultura – nos serviços sociais, no trabalho. Tudo suspenso, para tornar a coisa uma espécie de não-Governo, o que é ideológico porque a Maria de Lourdes, sendo católica, tinha um programa muitíssimo mais à esquerda do que o Partido Socialista. Por outro lado, era uma posição antifeminista por ser mulher, que ainda por cima vivia com outra mulher. Na área da cultura posso dizer três coisas: quem criou o Museu de Arte Moderna no Porto foi o Governo da Maria de Lourdes numa sessão pública onde eu estava. Este projecto ficou parado durante uns tempos e depois foi reaproveitado pela Maria Teresa Gouveia, que criou Serralves. A origem de Serralves foi a negociação que fiz em mandar para o Porto, instalado provisoriamente no Museu Soares dos Reis, a colecção de arte moderna do Estado. Uma outra coisa que fizemos foi a compra do prédio da Cinemateca de Lisboa. São coisas que não puderam ser destruídas porque já havia investimento de dinheiro e não se podia recuar. O que fizeram foi obliterar a origem. É impensável que na Cinemateca, que foi um prédio comprado com a minha assinatura, não haja uma referência que esta aquisição foi feita no Governo da Maria de Lourdes. Também não é aceitável que, em Serralves, na sua proto-história, não seja mencionado o mesmo facto. Outra coisa que deixei organizado, e que depois foi feito pelo João de Freitas Branco, foi uma planificação dos teatros nacionais, incluindo a compra do Teatro de São João. Mas isto foi bloqueado mesmo porque foi a tempo. Depois do 25 de Abril houve um painel em que 48 pintores, desde o Pomar ao Escada, pintavam um dos 48 quadrados que faziam o painel. Era um painel fascinante que era, no fundo, a história da pintura moderna portuguesa. Este painel estava instalado no centro de exposições de um pequeno museu em Belém. O director deste museu era o João Vieira, que me disse que as instalações eléctricas naquele local estavam muito precárias. Fiz um despacho para que o espaço fosse encerrado, para que pudéssemos fazer as reparações. O meu sucessor no cargo, como o fecho tinha sido um acto do Governo anterior, mandou abrir o local. O resultado foi que ardeu e o painel desapareceu. Isto é um exemplo anedótico, mas trágico. É pena porque algumas coisas podiam ter ficado melhor, e não ficaram. A planificação da rede nacional de teatros podia ter sido feita. De qualquer forma, o que isto significa é que existiu essa atitude de antagonismo em relação ao Governo da Maria de Lourdes Pintasilgo e do que ela representava. Isso também se manifestou uns anos depois, quando foi candidata à Presidência. Trabalhei com ela nisso e tive várias reuniões, mesmo com militares, e houve uma mudança de atitude porque não aceitavam a ideia de que uma mulher pudesse ser a pessoa que comandava as forças armadas.

O que falta hoje em dia à cultura em Portugal?

Sou um optimista. Se vivesse em Portugal, se calhar, irritava-me mais. Há sem dúvida mais gente que lê, há uma quantidade muitíssimo maior de gente que escreve. A maior parte é uma porcaria, mas a percentagem dos que têm nível não é, certamente, inferior ao que era. O que há, talvez, é uma grande confusão entre qualidade e quantidade. Tornam-se também grandes sucessos literários pessoas cuja obra não o merece. Mas isto é um fenómeno que acontece em muitos países. Sem citar nomes, se falarmos de escritores que são celebrados como grandes escritores, muitos deles não valem nada. Há outros, menos celebrados, e que são muito bons, mas os escritores excepcionais são poucos em toda a parte. O mesmo acontece na pintura, por exemplo. Há uma democratização da criatividade literária e artística, o que não significa que haja um abaixamento de nível. O que há é gente de baixo nível que produz e que dantes não havia. Se calhar, e sendo optimista, quantidade também pode gerar qualidade. Das pessoas que dantes não tinham acesso nenhum à cultura, agora há mais que o têm e que vão produzindo coisas que se calhar são boas e que, noutras circunstâncias, nunca teriam produzido. A minha atitude é muito mais positiva do que a dos meus amigos em Portugal. Há de tudo e o facto de haver gente que lê aquela péssima literatura de aeroporto, e que compra livros no supermercado, significa que pelo menos lêem. O que faz falta em Portugal é crítica literária. Paradoxalmente, no tempo do Salazar, os jornais portugueses tinham uma coluna de crítica literária. Não era só no Diário de Notícias, mas todos os jornais de Lisboa e do Porto tinham as suas páginas literárias, coisa que agora não existe.

Começou por estudar Direito.

Foi, mas não acabei o curso porque tive de sair de Portugal a meio. Depois da campanha do General Delgado, envolvi-me numa intentona, as pessoas começaram a ser presas e tive de sair.

E como é que apareceu a literatura?

Desde pequenino. A minha mãe gostava muito de poesia, lia-me poesia, fazia-me decorar “os boizinhos” do Afonso Lopes Vieira e eu comecei a escrevinhar poesia com uns 11 anos. Fazia umas rimazitas. Naquela altura fazia três coisas: escrevia poesia, andava de bicicleta e jogava futebol.

A sua escrita é biográfica, especialmente a poesia.

Os romances não são biográficos, com excepção de “Partes de África”, que tem elementos autobiográficos, mas também tem falsificações. Conto como se tivesse acontecido, mas não aconteceu. Dava-me jeito, em termos de narrativa, que tivesse acontecido, o que acabou por me dar problemas porque há algumas personagens que são fusões de possibilidades de ser. É o caso de um médico que é a fusão entre um médico abnegado que conheci e um médico corrupto que havia. Misturei os dois e os filhos do abnegado cortaram relações comigo. O inspector da PIDE que também aparece nesse livro e que acabou por salvar, na verdade, São Tomé, é também a fusão de dois que conheci. Também uso a primeira pessoa com muita frequência na minha narrativa e na minha ficção, mas continua a ser uma ficção. Ponho-me nesse hipotético Hélder Macedo a contracenar com gente que não existe. A estratégia aí é dar credibilidade à ficção, mas, por outro lado, torna fictício o narrador. Na poesia é diferente. Escrevo pouca poesia. Não sou um poeta que escreve habitualmente. Costumo escrever poesia em tempos de viragem. É uma coisa interna.

A poesia é uma coisa muito íntima?

É. E é necessário ter muita cautela para não nos envergonharmos em público.

Estamos em pleno encontro da Associação Internacional de Lusitanistas (AIL). Como é que vê este congresso, o primeiro a Oriente?

Quem primeiro sugeriu que fosse em Macau, fui eu. Fui presidente da AIL, depois foram simpáticos e elegeram-me presidente honorário, que é uma óptima posição: uma pessoa manda bocas e não tem de fazer nada (risos). Sempre achei que era fundamental sair da Europa. Como presidente e com o Carlos André como secretário-geral, planeámos depois de um congresso em Oxford fazer uma coisa no Rio de Janeiro. Foi a primeira vez que o congresso aconteceu fora da Europa. Mais tarde, fez-se nos Estados Unidos e depois achámos que era importante fazer em África, e acabou por acontecer em Cabo Verde que, simbolicamente, estava muito bem. A Universidade tinha acabado de ser criada. Depois disso, o passo óbvio era o Oriente. Aí a minha ideia era de que, entre os dois sítios óbvios – Goa e Macau – a escolha fosse Macau, devido à atitude dos chineses. Enquanto em Goa a língua portuguesa foi obliterada tendo tido raízes muito mais fundas do que, alguma vez, teve em Macau, aqui é mantida. Não será muito desenvolvida, mas é mantida. É até é política oficial que podemos ver nos nomes das ruas, nos documentos oficiais. É assumidamente, uma das línguas oficiais e isso é uma atitude inteiramente diferente da atitude indiana. Seria estúpido não escolher Macau. Até como uma afirmação política em relação à Índia. Não é que em Goa tenham obliterado as línguas europeias. Não. O português foi substituído por outra língua colonial, o inglês. Ora, se se mantém uma língua colonial, porque diabo de razão vão destruir uma presença cultural que lá esteve durante 500 anos? Estão a chular a história de Portugal com os monumentos, com as igrejas, retirando a identidade que fazia parte daquela gente e daquela cultura, muito mais do que aqui em Macau. Estas são as razões negativas. Como razões positivas, quando cá vim há quatro anos, a minha ideia era, precisamente, negociar a hipótese de Macau. Fui recebido pelo presidente do Instituto Politécnico de Macau que acolheu imediatamente a ideia, fala um português perfeito, lê Camões e deu-nos condições extraordinárias. A proposta acabou por ser feita em Cabo Verde com muito boas condições. Pode não atrair tanta gente como outros congressos, devido à distância. Tivemos a desistência de umas 40 pessoas do Brasil, 15 dias antes de o congresso começar devido à crise, mas ainda assim, estamos com cerca de 150 pessoas. Na sessão de abertura, a presença do Governo foi notável. O desenvolvimento da língua portuguesa é, obviamente, parte de uma política chinesa. Terão as suas razões, mas a nós também dá jeito. Sofia Mota e Isabel Castro – Macau in “Hoje Macau”

Pode ler outra entrevista de Hélder Macedo em Macau no ano de 2014 aqui.