Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Moçambique - Livro aborda trabalho forçado e discriminação durante o período colonial

O livro Xibalo – Quando Moçambique Era Província, do académico e mediador de paz Nelson Moda, foi apresentado na última sexta-feira, na cidade de Lichinga, com uma reflexão sobre a importância da preservação da memória histórica e do conhecimento do passado pelas novas gerações.


A obra aborda temas como trabalho forçado, exploração, discriminação e outras formas de violação da dignidade humana durante o período colonial, procurando estabelecer uma ligação entre essas experiências históricas e os desafios enfrentados pela sociedade moçambicana contemporânea.

Durante a apresentação, a governadora do Niassa, Judite Massengele, destacou o significado da escolha da palavra “Xibalo” para o título da obra, considerando-a uma expressão carregada de significado na memória colectiva dos moçambicanos e uma forma de trazer para o debate público acontecimentos que continuam a marcar a sociedade.

Nelson Moda defende que o conhecimento da história é fundamental para evitar a repetição dos erros do passado. “Se não conhecermos a nossa história e não fizermos caso da memória do nosso passado, corremos o risco de o repetir”, afirmou o autor.

Por sua vez, o secretário de Estado no Niassa, Silva Livone, apelou aos jovens para conhecerem a história de Moçambique não apenas através dos manuais escolares, mas também a partir das experiências vividas pelas famílias, comunidades e diferentes gerações. In “Moz Entretenimento” - Moçambique


segunda-feira, 27 de julho de 2026

São Tomé e Príncipe - 6 roças classificadas como património mundial pela UNESCO

São Tomé e Príncipe, que é o primeiro país do mundo, em que todo o território foi classificado pela UNESCO como património mundial da biosfera, recebeu neste fim de semana, mais uma distinção internacional pelas roças, um dos mais valiosos patrimónios do país.


As roças preenchem quase 100% do território do arquipélago africano. São cerca de duas centenas, mas para já apenas 6 candidataram-se a património mundial.

A roça Água Izé que ostenta o nome do Barão português que introduziu a cultura do cacau na ilha de São Tomé no século XIX, a roça Diogo Vaz actualmente produtora de chocolate biológico, Monte Café cujas terras se estendem do centro ao norte da ilha de São Tomé, e a roça São João localizada nas portas da cidade de Angolares no sul da Ilha de São Tomé.

Sundy na ilha do Príncipe, a roça onde experimentos liderados por Albert Einstein comprovaram a teoria da relatividade é património mundial pela UNESCO, assim como a roça Belo Monte. Nas duas roças da ilha do Príncipe o património histórico, cultural e arquitectónico alimenta o turismo ecológico.

Num país de roças, outras centenas poderiam ser classificadas como património do mundo, não fosse a acelerada degradação das infra-estruturas, e em muitos casos pelo simples abandono.

O singular valor histórico, cultural e arquitectónico das roças expressa-se na confluência de gentes de várias origens que a habitaram. Principalmente os escravos depois chamados de contratados de Angola, Moçambique e Cabo Verde nas senzalas e os patrões portugueses nas casas grandes.

No terreiro das Roças a convergência de povos forjou manifestações culturais, que passaram a ser são-tomenses, nomeadamente a Puíta e a Tafua vindos de Angola.

A arquitectura das roças moldou o património são-tomense, à semelhança dos antigos feudos medievais na Europa. As roças funcionavam como um Estado dentro do outro Estado, tinham a sua própria igreja, o hospital, a morgue, a padaria, as oficinas mecânicas, de serralharia, de carpintaria, sem esquecer do sino que anunciava para os serviçais a hora do recolher obrigatório, e também a hora para a formatura no terreiro antes de começar o trabalho.

O quintal era vedado por grandes portões que impediam o acesso de pessoas estranhas à roça. Os serviçais de uma roça não poderiam ausentar-se, para visitar alguém numa outra roça, sem o aval por escrito do seu patrão. Para entrar numa outra roça tinha de apresentar a guia de marcha emitida pelo seu patrão.

«A nossa gratidão pela inscrição das roças de São Tomé e Príncipe, do sistema colonial e de migração forçada na lista de património mundial», afirmou a Ministra da Educação e Cultura Isabel de Abreu na Assembleia anual da UNESCO que decorreu na cidade de Busan, na Coreia do Sul.

Principal polo da economia do país durante vários séculos, as roças alimentaram a economia colonial através do cultivo da cana e os engenhos de açúcar, depois a cultura do café, e no início do século XIX com a cultura do cacau.

«Quando falamos agora da candidatura de 6 roças do país para património da UNESCO, e deveremos ter boas notícias sobre isso em 2026, temos que ter visão para proteger o património, mas também sabermos tirar rendimento deste mesmo património que nós protegemos», alertou João Carlos Silva em dezembro de 2025, numa entrevista concedida ao Téla Nón no terreiro da Roça São João.

Para a UNESCO as roças de São Tomé e Príncipe «ilustram o funcionamento de um sistema agroindustrial colonial em grande escala, baseado na migração e nos trabalhos forçados, desde o final do século XIX até meados do século XX, concebido para sustentar a produção de matérias-primas após a abolição da escravatura».

A protecção do património das roças representa um dos caminhos para a transformação económica do país, através do turismo. O antigo trabalho e vivência escravocrata nas roças garante hoje o desenvolvimento sustentado do turismo.

«Os próprios turistas fazem -se de trabalhadores, porque eles querem viver experiências únicas. São eles que colhem o cacau, que tratam da matabala, da mandioca, porque querem levar depois imagens e experiências. São os nossos contratados hoje. Nós revertemos as coisas, até brincamos com eles, e eles acham piada. Eles pagam para ser nossos trabalhadores», pontuou João Carlos Silva na Roça São João.

As Roças representam o passado, o presente e o futuro de São Tomé e Príncipe. Abel Veiga – São Tomé e Príncipe in Téla Nón


segunda-feira, 6 de abril de 2026

Casamansa - A Juventude pela Independência de Casamansa (JICASA) endurece a sua posição e reafirma a sua determinação pela independência do Senegal

Reunidos de sábado, 28, a domingo, 29 de março de 2026, em Balantacounda, os membros e representantes da JICASA demonstraram uma determinação inequívoca em continuar a luta pela independência da Casamansa, num contexto marcado por tensões persistentes na sub-região.


Impulsionada pelo forte apoio de Kassa, Fouladou, Pakao e Fogny, a reunião também contou com a participação notável de delegações da Gâmbia, Guiné-Bissau, Mali e Guiné. Para os organizadores, esta participação reflete a crescente solidariedade regional com a causa da Casamansa.

Numa declaração contundente, a JICASA prestou uma homenagem entusiasmada aos combatentes da ATIKA, destacando as recentes vitórias militares contra as forças senegalesas entre fevereiro e março de 2026. O movimento considera essas ações como prova de uma resistência que permanece ativa e determinada no terreno.

Além do aspecto militar, a JICASA destaca os progressos políticos que considera significativos, enfatizando o papel central da diáspora. Esta última é elogiada pelo seu compromisso com as populações deslocadas e os refugiados da Casamansa na Gâmbia e na Guiné-Bissau, numa demonstração de solidariedade considerada "vital ".

O movimento condenou veementemente a situação dos 21 presos políticos da Casamansa detidos sem julgamento no Senegal, descrevendo-a como uma " flagrante injustiça " e exigindo a sua libertação imediata.

Outro ponto de discórdia: a governação na Casamansa. A JICASA critica as nomeações administrativas e coloniais impostas (governadores, prefeitos, administradores civis, diretores, médicos, juízes, comissários e comandantes), que compara a práticas de outra época, denunciando uma persistente marginalização das populações locais.

Nesse mesmo sentido, os jovens separatistas apontam para o silêncio dos deputados da Casamansa diante dos recentes acontecimentos trágicos, um silêncio que consideram " inaceitável ", especialmente em comparação com os debates no Parlamento da Gâmbia sobre a situação na Casamansa.

À luz destas descobertas, a JICASA apela para uma maior mobilização de todas as forças ativas — autoridades religiosas e tradicionais, sociedade civil e diáspora — para alcançar uma paz duradoura, mas também para apoiar o que considera uma luta legítima pela dignidade, justiça e autodeterminação.

Numa Casamansa marcada por mais de quatro décadas de conflito entre o exército senegalês e os combatentes do Movimento das Forças Democráticas da Casamansa (MFDC), esta nova posição confirma que a questão da Casamansa permanece sem solução e continua a cristalizar tensões e aspirações. Balanta Mané – Casamansa in “Le Journal du Pays”


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Macau - Fundação Rui Cunha discute impactos do colonialismo na Região

De que forma é que o império português moldou as percepções sobre raça, pertença e direitos em Macau? A Fundação Rui Cunha recebeu uma sessão conduzida pelo académico MC Loureiro, autor de “Colonial Citizenship” – a primeira obra jurídica dedicada a analisar as relações complexas entre o colonialismo e o acesso aos direitos de nacionalidade no antigo império português


A Fundação Rui Cunha (FRC) acolheu uma sessão subordinada ao tema “Cidadania Colonial: a Rota de Macau”. O evento tem como inspiração o livro Colonial Citizenship, da autoria do orador convidado MC Loureiro, a ser publicado em 2026 pela editora Bristol University Press.

O trabalho académico de MC Loureiro, professor adjunto de Direito na Universidade de Leicester, incide sobretudo em tópicos como o direito colonial, a cidadania e a teoria jurídica. Esta nova publicação debruça-se especificamente sobre o império português e as discussões sobre raça, cidadania e pertença que este suscitou – e continua a suscitar – nas ex-colónias.

Em comunicado, a FRC sublinha que Colonial Citizenship é a “primeira obra jurídica a abordar de forma abrangente a pertença colonial, a assimilação e o acesso aos direitos no império português da Ásia e da África”, estabelecendo uma linha cronológica que vai desde o século XV ao presente pós-colonial.

A monografia do académico incide sobre a forma “como a cidadania surgiu e se desenvolveu” no contexto do império português, bem como o impacto que ainda persiste na actualidade. Segundo defende MC Loureiro, os vestígios do passado colonial de Portugal continuam hoje a “moldar a realidade jurídica portuguesa e o acesso à nacionalidade e à cidadania”.

A apresentação na FRC vai aprofundar a posição peculiar de Macau entre as ex-colónias, com “particularidades demográficas, políticas, geográficas e jurídicas” que lhe conferem um papel estratégico “na análise das condições jurídicas imperiais portuguesas”. Fazendo uso de “uma abordagem crítica da cidadania, uma visão matizada do império português e novas descobertas de arquivo”, a sessão de MC Loureiro é um convite a uma reflexão sobre “raça, pertença e direitos”, pensados no contexto pós-colonial e actual. “Fundamentalmente, impõe-se a questão: quem é elegível, na concessão de direitos e cidadania durante e após o império?”, escreve a FRC.

Antes de entrar para a Faculdade de Direito de Leicester, MC Loureiro foi investigador na Universidade de Birmingham e na Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS) da Universidade de Londres, onde leccionou sobre impérios coloniais, direitos constitucionais e direitos de cidadania.

Numa nota auto-biográfica publicada na Universidade de Leicester, o académico define-se como um “teórico socio-jurídico” cujo principal interesse de investigação gira em torno da questão do colonialismo, especialmente através da sua expressão nos antigos impérios português e britânico. Inclui-se aqui Macau, que, “de entreposto comercial estrangeiro à última colónia portuguesa”, mantém uma relação de quase meio milénio com Portugal.

A sessão foi realizada em língua inglesa e moderada por Ângelo Patrício Rafael, professor assistente na Faculdade de Gestão e Direito da Universidade de São José (USJ). Carolina Baltazar – Macau in “Ponto Final”

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MC Loureiro - Ingressei na Faculdade de Direito de Leicester após ter trabalhado na Universidade de Birmingham e na SOAS University of London, onde lecionei e pesquisei sobre impérios coloniais, direitos constitucionais e direito da cidadania. Concluí um doutorado com bolsa integral na Universidade de Birmingham, com uma tese que propunha uma integração crítica entre a teoria alemã dos direitos subjetivos e as experiências jurídicas imperiais por meio da análise do império português. Anteriormente, obtive um mestrado em Ciências Sociais com foco em Estudos de Migração pela Universidade de Montpellier III, um mestrado em Mediação Intermediterrânea pela Universidade Autônoma de Barcelona e um título de Laurea Magistrale em Ciências Políticas e Estudos Culturais sobre a travessia do Mediterrâneo pela Universidade Ca' Foscari de Veneza. Concluí minha graduação em Direito após ter estudado direito constitucional, comparado e internacional nas Universidades de Coimbra, de Estrasburgo e nas Universidades Federal e Estadual do Rio de Janeiro. 

Anteriormente, também trabalhei com litígios constitucionais, mediação e arbitragem internacional, e formulação de políticas da UE sobre migração em instituições europeias e latino-americanas. University of Leicester


sexta-feira, 11 de julho de 2025

Moçambique - Nelson Moda lança livro “Xibalo” e afirma: “a colonização ainda não terminou”

O académico e representante da Comunidade de Santo Egídio em Sofala, Nelson Moda, lançou recentemente o livro Xibalo, quando Moçambique era uma província, onde afirma que “o Xibalo e a colonização ainda não terminaram” em Moçambique. A obra literária resgata a memória dos tempos coloniais e presta homenagem aos moçambicanos que resistiram de forma corajosa ao trabalho forçado imposto pelo regime português.


O termo Xibalo, de origem bantu, era utilizado para designar o sistema de trabalho forçado aplicado durante a administração colonial portuguesa. Milhares de moçambicanos foram obrigados, sob violência e repressão, a trabalhar em plantações agrícolas, obras públicas e minas sem qualquer remuneração. Para Moda, os traços deste passado continuam presentes no tecido social e económico do país.

“O Xibalo não foi apenas físico, mas também psicológico e institucional. Há mecanismos de exploração hoje que ainda carregam a mesma lógica”, afirmou o autor durante o lançamento do livro.

A apresentação da obra esteve a cargo de Félix Machado, presidente da Associação Comercial da Beira, uma instituição que, segundo explicou, surgiu na luta contra o trabalho forçado, especialmente nas zonas sob concessões açucareiras em Manica e Sofala. Para Machado, a escolha do título Xibalo “não foi meramente simbólica”, mas sim uma afirmação de denúncia e memória histórica.

O livro foi prefaciado pelo antigo Presidente da República, Joaquim Chissano, cuja mensagem destaca a importância de preservar a memória coletiva como base para uma cidadania consciente.

O sociólogo Pedrito Cambrão considerou a obra de Moda como um contributo valioso para clarificar o presente e o futuro dos moçambicanos, para que os erros do passado não se repitam.

O edil da Beira também marcou presença no evento e enalteceu a iniciativa, apelando às universidades moçambicanas para integrarem obras como esta nos seus currículos.

Mais do que um livro de memórias, Xibalo é um apelo à reflexão sobre o passado colonial e suas permanências no quotidiano moçambicano, 50 anos após a independência nacional. In “O País” - Moçambique


sexta-feira, 28 de março de 2025

Moçambique - Intervenção da Igreja Católica na guerra colonial retratada em livro

Severino Ngoenha e Padre José Luzia defendem que há uma necessidade de se revisitar a história da intervenção da Igreja Católica na vigência do colonialismo português em Moçambique, numa altura em que se vive a terceira vaga da colonização. Os dois falavam durante o lançamento da obra “Moçambique: da colonização à guerra colonial, a intervenção da Igreja Católica”.



Uma obra escrita por dois escritores portugueses, Manuel Vilas Boas e Amadeu de Araújo, que retratam a intervenção da Igreja Católica no período colonialismo português em Moçambique. Uma intervenção que ajudou o país a perceber a ligação que existia entre a religião e a política.

Padre José Luzia, um dos entrevistados no livro é convidado a fazer comentários no lançamento do livro, disse que havia uma ligação directa entre a política e a religião, tal como a relação entre Dom Manuel Vieira Pinto, então Bispo de Nampula, e Samora Machel, então presidente da República.

“Quero dizer, o testemunho que temos, sobretudo do Vieira Pinto e o meu, não é tanto do tempo colonial. Atenção, que o Vieira Pinto ainda ficou até 2001. Portanto, é toda a relação de Vieira Pinto com Samora Machel”, disse o Padre José Luzia.

O sacerdote revelou ainda que o conteúdo do livro deve levar os leitores a uma percepção profunda da ligação entre religião e política. “Neste momento, nós precisamos de, ao ler este livro, perceber a profundidade, por um lado, do Evangelho de Jesus, porque agora às vezes aparece aí nas redes sociais que eles vieram com o Evangelho, mas ficaram com a terra e nós ficamos com a religião. Não é verdade”, revela. 

E dá exemplo do que acontece com o próprio, quando diz que “aquilo que sou, politicamente, e sou profundamente político, não sou capaz de fazer uma homilia sem meter a mão na política. Não sou capaz. Porque, de facto, a fé e a política estão dentro de mim como alguma coisa que actua permanentemente. E eu não sou um crente a olhar celestialmente para as nuvens. Eu sou crente na conjuntura, e por isso fui o primeiro a ser expulso de Moçambique, a seguir à independência”.

Já Severino Ngoenha, que foi chamado para fazer a apresentação do livro, começou por dizer que  as apresentações dos livros não têm que dizer o que os autores querem trazer, “têm que dar razões para as pessoas irem ler livros”.

Ngoenha disse que o livro “Moçambique: da colonização à guerra colonial, a intervenção da Igreja Católica” é um convite para rever uma parte da história moçambicana, mas também para revisitar a historiografia nacional.

“Estamos a 150 anos da terceira vaga da colonização, aniversário da escravatura, estamos a 50 anos de independência, o que foi a missão cristã. Recordar-se que em 1962, Paulo VI foi o primeiro a receber Agostinho Neto, Amílcar Cabral e Marcelino dos Santos, a dizer que, de um lado, o cristianismo não tem nenhuma novidade para os povos africanos, porque afinal de contas, a primeira terra do cristianismo foi a África, desde o primeiro século do cristianismo, e em segundo lugar a dizer que é legítimo que os africanos lutem pela independência, e foi a primeira grande personalidade a levantar-se contra a colonização e o aparecimento de libertação. Então, a Igreja tem os seus pecados, tem as suas virtudes, tem uma historiografia complexa e muitas vezes é tomada com demasiada simplicidade. Então, isto é um convite para revermos uma parte da nossa história e um convite da historiografia nacional para tomar a sério este tema”, revelou o filósofo.

O lançamento do livro, que já está à venda nas livrarias, contou com a participação de académicos, religiosos e estudantes. Elísio Uamusse – Moçambique in “O País”


terça-feira, 15 de outubro de 2024

Casamansa - Uma nação desprezada pela história colonial

É essencial, hoje mais do que nunca, compreender que a questão da Casamansa não pode ser reduzida a um simples assunto regional ou económico. Casamansa é uma nação cuja história remonta muito antes da sua integração forçada no Senegal pelas autoridades coloniais francesas, uma realidade muitas vezes negligenciada pelo discurso político e mediático dominante. Este conflito, muitas vezes apresentado como uma simples rebelião interna, está na realidade enraizado em questões históricas e políticas muito mais profundas.


Sob a colonização francesa, a Casamansa não era uma " região " do Senegal, mas sim uma nação por direito próprio, com as suas fronteiras que se estendiam desde o Oceano Atlântico até ao rio Falémé, perto da actual fronteira com o Mali. Longe de ser uma simples extensão do Senegal, Casamansa possuía uma identidade política e cultural distinta, forjada por séculos de resistência e autodeterminação. Foi apenas através de uma série de decisões administrativas impostas pelos colonos franceses, sem consulta ou acordo do povo de Casamansa, que esta nação foi anexada ao Senegal, transformando um povo orgulhoso e independente numa “região” marginalizada.

A administração colonial, procurando a simplificação territorial e o controlo centralizado, traçou fronteiras arbitrárias que ignoraram as realidades sociais e históricas dos povos que governava. Ao integrar a Casamansa no Senegal, os franceses violaram os direitos políticos do povo de Casamansa, criando uma divisão que continuou a aumentar desde a independência do Senegal em 1960. Esta anexação forçada, vivida como uma traição pelas populações locais, está na raiz da questão da Casamansa. A luta pela independência da Casamansa não é, portanto, um simples grito de raiva contra as desigualdades económicas, mas uma luta pelo reconhecimento do seu direito histórico à autodeterminação.

Casamansa é mais do que uma região geográfica; é uma entidade política e cultural distinta, com tradições próprias, história própria e projecto social próprio. O que muitos não compreendem é que o povo da Casamansa não luta apenas por melhores condições económicas ou por maior autonomia local, mas pela sua dignidade como povo, um povo a quem foi negado o direito de decidir o seu próprio destino. As autoridades senegalesas, herdeiras da divisão colonial, continuam a tratar a Casamansa como uma simples região “rebelde” em vez de reconhecerem a profundidade da sua história e a legitimidade das suas reivindicações.

É, portanto, essencial esclarecer as coisas: a questão da Casamansa é, antes de mais, uma questão de justiça histórica e política. Esta nação, anexada sem consulta, aspira recuperar o seu estatuto antes da colonização, um estatuto que lhe foi arrancado pela violência do colonialismo. Para o povo da Casamansa, a reconciliação com o Senegal passa necessariamente pelo reconhecimento desta verdade histórica. O conflito que dura há décadas não pode ser resolvido através de soluções económicas ou de promessas de desenvolvimento; requer uma resposta política proporcional à gravidade desta injustiça histórica.

A marginalização de Casamansa não é um simples legado económico, mas a consequência de uma decisão colonial arbitrária, tomada sem o consentimento daqueles que ainda sofrem as suas consequências. Reconhecer isto é reconhecer que a solução para o conflito da Casamansa não se encontra apenas nas infraestruturas ou nos subsídios, mas num diálogo político sincero, que admite a falha original: a anexação forçada de um povo independente.

O Senegal deve compreender que a Casamansa não pode ser pacificada pela repressão militar ou pela simples promessa de uma melhor integração económica. Trata-se de reconhecer os direitos históricos e políticos de um povo que, durante séculos, lutou para preservar a sua autonomia e cultura face às potências estrangeiras. Se o Senegal aspira a uma paz verdadeira e duradoura, deve parar de tratar a Casamansa como uma região dissidente e começar a considerá-la como uma nação com a sua própria história e legitimidade política.

É neste reconhecimento da história colonial, e na compreensão de que a Casamansa foi anexada contra a sua vontade, que reside a chave para uma resolução duradoura do conflito. O futuro do Senegal, e mais amplamente da África Ocidental, não pode ser construído com base no esquecimento ou na negação destas verdades históricas. Casamansa, como nação, tem direito a um lugar pleno no concerto das nações, e o seu povo merece finalmente ser ouvido e compreendido pelo que é: um povo soberano, cuja voz nunca deixou de exigir justiça.

Só o reconhecimento desta história pode abrir caminho para uma paz duradoura. Abdou Diallo – Casamansa in “Journal du Pays”


quinta-feira, 2 de maio de 2024

Portugal – Artista cabo-verdiano Djam Neguin apresenta em anteestreia o seu espectáculo AMI.LCAR em Montemor-o-Novo

O artista multidisciplinar Djam Neguin faz a antestreia este fim de semana, 3 e 4 de Maio em Montemor-o-Novo, no Espaço do Tempo, do seu mais novo espectáculo AMI.LCAR.


Ami.lcar é um espectáculo inspirado na vida e obra do pensador do anticolonialismo africano, o guineense Amílcar Cabral. Num exercício de extensão do seu legado, o artista Djam Neguin explora episódios da sua existência e da sua ideologia emancipatória e ecológica, a partir do uso de dispositivos multimídia e da inteligência artificial, tensionando o real e o virtual, o humano e o pós-humano. O projeto visa a pesquisa e criação de um objeto artístico de cruzamentos disciplinares.

Ami.lcar desenvolve-se nos âmbitos das comemorações mundiais do Centenário de Amílcar Cabral, que coincide com os 50 anos do 25 de Abril, e em 2025, o ano da libertação das colónias. Assim, constitui-se como uma oportunidade de reatualizar (sobretudo às novas gerações) o legado desta figura excecional de pensamento político arrojado e de impacto histórico na ruptura definitiva com o Estado colonial português e do impulso à preparação e à organização das lutas emancipadoras que conduziram à libertação dos Povos de Angola, de Cabo Verde, da Guiné-Bissau, de Moçambique e São Tomé e Príncipe.

É o ensejo global adequado para rever o contributo de figuras, como Cabral, que pugnaram por uma sociedade assente no ideário de liberdade e da dignidade de toda a pessoa humana, em contexto de progresso solidário e justiça social, para cuja construção, concorrem, de forma decisiva, a educação e as artes, por meio de modelo decolonial e emancipatório.

Com recurso à análise documental e bibliográfica, conversas e entrevistas, serão apontados os momentos centrais da sua existência e principais ideologias e feitos, como bussolares para a composição dramatúrgica.

Consequentemente, o desafio estético (e inovador) será a reconstituição imagética de Cabral com recurso aos softwares de Inteligência Artificial, por meio da composição tridimensional virtual da sua figura. Com efeito, este servirá de base para todo um design de cenários virtuais, que através da tecnologia VR, dispositivos MetaGlasses, body e face tracking serão, posteriormente, projetados em tempo real.

Desta forma, concretiza-se uma das principais propostas desta criação: reafirmar a importância de que criativos e techies africanos se devem apropriar das novas tecnologias artísticas para contar as suas próprias narrativas, acompanhando assim o progresso e as tendências tecnológicas planetárias.


Serão eixos dramatúrgicos nucleares da performance a ser criada a incorporação das valências agrónomas e epistemologias ecológicas de Cabral (que cursou agronomia no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa, motivado pelo problema da terra e das fomes em Cabo Verde), a fim de reativar o debate sobre o desafio existencial do nosso tempo, a crise ambiental pelas ações antropogénicas.

Para tanto, é considerada a capacidade sinestética e privilegiada da arte para o alcance e confrontação dos desafios centrais das sociedades contemporâneas, que se encontram a meio de uma revolução tecnológica que se estabelece num modelo predatório, pautada por capitalismo de consumo degenerativo extrativista. Temperaturas extremas, alteração dos regimes de chuvas, derretimento de calotas polares, elevação do nível dos oceanos, prejuízos biológicos, extinção de biomas e espécies, precisam de ser pautas discutidas e promovidas pelos criadores contemporâneos, num mundo que caminha rapidamente para disputas violentas por recursos naturais e ativos biológicos estratégicos, como alimentos, água e territórios, se não forem aceleradas as medidas de mitigação.

O projeto estrutura-se na ponte com a tecnologia, usufruindo deste mecanismo de rápida partilha para fazer uma viagem pelos valores de Amílcar Cabral e pelas muitas causas partilhadas pelas nações africanas na luta anticolonialista europeia.

É prerrogativa maiúscula desta obra contrariar as operações amnésicas  que ocultam o facto de que os detonadores do 25 de Abril de 1974  foram as guerras anticoloniais desencadeadas na Guiné, Cabo-Verde, Angola e em Moçambique, contribuindo decisivamente para a liquidação do fascismo em Portugal e a derrocada do Estado Novo.

É importante relembrar que foi em réplica à nova legislação que visava suprir a falta de oficiais na frente de combate em África que, em Setembro de 1973, se constitui o Movimento dos Capitães/Movimento das Forças Armadas. A fase conspirativa foi relativamente breve, dando lugar um célere procedimento de politização do Movimento. Os sinais de que o fim do regime estava iminente, perante a sua austeridade em manter o esforço de guerra, adensaram-se a partir de inícios de 1974. Ainda nos dias de hoje, a comunicação continua resistente em veicular esta narrativa às celebrações do 25 de Abril. Mais ainda, os meios tradicionais, institucionais e escolares, não resgatam Cabral, mesmo tendo ele sido um peão decisivo e central (além de promoverem uma versão adulterada de um 25 de Abril que começa em Portugal, e que se dá de forma pacífica, traduzindo a negação de um passado colonial e o silenciamento de povos africanos).

Espectáculos como este são a defesa de que somente a leitura e perceção corretas e verdadeiras dos factos históricos poderão mitigar e, possivelmente, superar os impactos dos erros e das violências do passado, influenciando o presente e o futuro. Djam Neguin – Cabo Verde




quarta-feira, 1 de maio de 2024

Lusofonia - É necessário contrariar a perspectiva ‘romantizada’ da colonização portuguesa

“A miscigenação não é outra coisa que a expressão suprema do Colonialismo”


No âmbito dos 50 anos do 25 de Abril, a agência Lusa ouviu artistas, escritores, académicos e pensadores que refletiram sobre a relação entre Portugal e as suas ex-colónias e sobre a reconciliação com o passado colonial, confluindo para a necessidade de inverter o esquecimento e o silêncio, a necessidade de “pôr o dedo na ferida”.

“As pessoas não pensam no nosso lado da História”, afirma a escritora e ‘rapper’ Telma Tvon. A especialista em Estudos Africanos argumenta que essa realidade “passa muito pelo ‘nós não fomos assim tão maus, nós até nos misturámos’.”

“A questão da Lusofonia também é um engodo nesse sentido”, prossegue a escritora luso-angolana. “Há pessoas que acham que por falarmos a mesma língua está tudo bem, mas é uma questão que nos foi imposta, e foram-nos retiradas as nossas [línguas]. Se hoje não sei falar kimbundu e umbundu, é porque essa identidade me foi retirada, ninguém me perguntou nada, fui obrigada a falar português.”

O investigador Nuno Crespo, diretor da Escola das Artes da Universidade Católica do Porto (UCP), considera ser necessário resgatar perspectivas locais, esquecidas, ignoradas, para contrariar a perspectiva dominante “muito romantizada” da colonização portuguesa: é necessário “pensar a História, não de uma maneira persecutória, mas de uma maneira crítica, entender que o projeto colonial português foi um projeto de opressão, de submissão de populações, tanto no continente africano e na América do Sul, como no Oriente, Índia e Timor-Leste.”

Na prática, trata-se de perceber como “a História do vencedor deve ser complementada, criticamente, com a História dos vencidos”, não uma História descrita “a partir do nosso ponto de vista europeu, branco, mas a partir do ponto de vista das populações locais que sofreram com a nossa chegada – a alteração de modos de vida, culturais – e, obviamente, com a escravatura, com o tráfico de pessoas negras que fizemos entre África e o Brasil.”

Sobre uma possível reconciliação com o passado colonial, a escritora Djaimilia Pereira de Almeida tem escrito – e insiste na ideia – de que não é possível mudar o passado, mas pode-se reescrever tendo em conta as realidades esquecidas: “No plano pessoal, das nossas relações e da nossa vida artística, no meu caso, podemos trabalhar no sentido de usar a arte para reescrever a História, para reverter o sofrimento, ainda que tal requeira sofrimento, e um confronto com as feridas da memória. A literatura fabrica o tempo e a tessitura do tempo. Reescrevemos a vida.”

A escritora guineense Gisela Casimiro, por seu lado, considera que “a reconciliação não deveria acontecer nunca”, porque “as consequências e o desconforto são para sempre” e “o que precisa acontecer é a reparação histórica urgente.”

Gisela Casimiro, autora dos livros de poesia “Erosão” e “Giz”, também considera que não se pode falar apenas em “sinais” de colonialismo, expressão para “coisas aparentemente ténues e passíveis de serem facilmente ignoradas”, afirmando que o que experiencia, vê e denuncia são “casos concretos e constantes de racismo e xenofobia, consequências diretas da colonização.”

Telma Tvon alerta: “Acho que se tentou vender [que o colonialismo português foi mais brando do que o de outros países] para perpetuar o colonialismo. É o que se tenta vender ainda agora. Se continuarmos a negar as evidências em relação à violência do colonialismo, também não temos de fazer uma data de reparações, não temos de fazer nenhum pedido de desculpas, podemos continuar a dizer as barbaridades que vamos dizendo.”

A autora de “Um Preto Muito Português” recorda muitas “famílias com histórias de imensa violência”. E lembra: “A condição de indigenato e o ‘assimilato’ é uma violência constante. Isso não tem nada de bonito e de mais brando.”

O realizador luso-angolano Carlos Conceição dirigiu “Nação Valente”, que recua à Guerra Colonial, para refletir sobre a atualidade, sobre conservadorismos, preconceitos e racismo, como contou em entrevista à agência Lusa, dias antes da estreia mundial do filme em Locarno, em 2022, onde foi premiado.

“Gosto de pensar que este filme não é tanto sobre a Guerra Colonial quanto é sobre ideias velhas, esses muros que ainda não conseguimos transpor. Nós, as pessoas. Eu considero que os transponho diariamente e acho que toda a gente deve fazer esse esforço de transpor essas ideias antigas, essas ideias velhas e ultrapassar os preconceitos e as limitações que certos conservadorismos implicam.”

“Não se pode nunca deixar de falar de racismo”, disse Carlos Conceição. “O trabalho não está acabado. […]. É preciso mostrar, acusar, evidenciar, discutir, dissecar e, provavelmente, se for através da repetição, que seja.”

Telma Tvon defende que “o papel da música, da literatura, da Cultura em geral, é colocar o dedo na ferida, é falar de tudo aquilo que supostamente as pessoas não conseguem falar.”

Para a escritora e ‘rapper’, é necessário “não pôr panos quentes”, é preciso “dizer o que sentimos, e esperar retorno de quem ouve, de quem lê: ‘Podes não concordar, mas tens de respeitar os meus sentimentos’.”

“Sinto que estamos numa era muito complicada quando falamos nessas questões”, disse Telma Tvon. Mas “não vamos evoluir se continuarmos a pôr na mesa que connosco foi diferente do que foi com os outros.”

O ensaísta Eduardo Lourenço não hesitou em desmascarar as teorias multirraciais como disfarce do racismo, do colonialismo e dos seus crimes, expondo a evidência entre opressor e oprimido. “Nem sequer se deram conta de que o ideal da miscigenação (mais a mais invocado pelo colonizador) não é outra coisa que a expressão suprema do Colonialismo, traduzida sob o plano do sexo”, escreveu em “Do Colonialismo como nosso impensado”, obra recém-reeditada, que contraria os argumentos dos “brandos costumes” do colonizador português.

Para Eduardo Lourenço, Portugal não está sozinho: “Não foi o único país a deixar-se esquecer desta maneira. No tempo das Grandes Descobertas a importância cósmica desta aventura escondia aos olhos da Europa o colonialismo nascente. Mais tarde, a mesma Europa teve também demasiado interesse em esconder, em conjunto, este colonialismo.”

Opressão

Os artistas Ângela Ferreira e Francisco Vidal, à semelhança dos outros ouvidos pela agência Lusa, confluem para a necessidade de trazer à história dominante a história dos oprimidos, mostrar que o colonialismo português foi tão violento como qualquer outro, reparar os danos de séculos desde os livros de escola, “reverter o sofrimento, ainda que tal requeira sofrer.”

Ângela Ferreira, nascida em Moçambique e a residir em Portugal desde os anos 1990, considera que Portugal só conseguirá “descolonizar as mentes, a cultura e a sociedade”, quando conseguir “ultrapassar as dificuldades” que tem tido em refletir sobre o seu passado colonialista, incluindo o relato dos Descobrimentos.

“O cerne do problema é não termos trabalhado a descolonização das nossas mentes e da nossa sociedade”, declarou à agência Lusa a propósito de um tema que nos últimos anos tem tido cada vez mais atualidade, nomeadamente através de devoluções de obras de arte e artefatos de nações colonizadas por países como França, Reino Unido e Bélgica.

Na mesma linha, o artista plástico e performer Francisco Vidal, nascido em Lisboa, filho de pai angolano e mãe cabo-verdiana, disse estar convicto que as marcas do passado colonial português “continuam vivas” em ideias, emoções e ações, e defendeu que “descolonizar o pensamento contemporâneo português” continua a ser importante. “Temos de fazer isto, passados 50 anos, porque ainda há marcas vivas e ativas”, assegurou o artista plástico.

Sobre a ideia de o colonialismo português ter sido mais brando do que os demais, a escritora Djaimilia Pereira de Almeida rejeita-a por completo, afirmando que “não há colonialismo sem violência” e que se trata apenas de “um mito, no qual alguns insistem em acreditar.”

Ideia semelhante tem a escritora, ativista e artista Gisela Casimiro, nascida na Guiné-Bissau, para quem esse tema “não está aberto a discussão” e, se houvesse uma hierarquia do colonialismo, “Portugal estaria em primeiro ou nos lugares cimeiros”, facto amplamente documentado.

“Infelizmente persiste uma ideia cristalizada, demasiada desinformação e romantização do colonialismo. As pessoas recusam esse legado colonial ou encontram justificação para o que não tem”, defende a autora de “Estendais”, considerando que a “fantasia” e o “imaginário coloniais” partem da “superioridade própria e da subjugação e infantilização do outro”, que não é real, mas “algo que as pessoas aprenderam nos livros de História, que até hoje não foram atualizados com a verdade.”

As mentalidades também não, conta Telma Tvon: “Quando vou a Angola sinto que os portugueses têm uma presença com uma mentalidade muito colonizadora. Têm uma postura ‘eu vim mostrar-vos como se faz’, ‘eu mando nisto’. ‘Nós, portugueses, é que vos vamos ensinar a viver e a estar, dentro da vossa proporia terra’.”

“Também vejo isso aqui em Portugal, no dia-a-dia”, prossegue a ‘rapper’. “Eu vivo aqui, posso dizer se vejo algo mal, a primeira coisa que me dizem é que eu não sou daqui. [Mas] estou aqui porque abriram o caminho. Estão tão felizes pelos Descobrimentos – entre aspas -, essa glória, mas esquecem-se que Diogo Cão e todas essas pessoas é que abriram caminho para eu estar aqui.”

O investigador Nuno Crespo defende que, passados 50 anos sobre o 25 de Abril, “há ainda um enorme trabalho a fazer, não só na abordagem ao processo de colonização e ao de descolonização, mas também de integração das outras comunidades na nossa própria comunidade atual.”

Nuno Crespo, que falava à Lusa quando da abertura do ciclo “Não foi Cabral: revendo silêncios e omissões”, concluído esta semana, assegura: “Temos muito pouca consciência da maneira tão violenta como o projeto colonial português foi desenvolvido.” In “Mundo Lusíada” – Brasil com “Lusa”



quarta-feira, 3 de abril de 2024

África - O regresso das caravelas

Recentemente, em trânsito no Aeroporto de Lisboa, um grupo de 4 jovens angolanos, postos na saída, do lado das chegadas, gritou em uníssono "conseguimos", o que me fez pensar que era mais um grupo de jovens que deixaram a sua terra de nascença à procura de uma vida melhor, e chamei a isso o regresso das caravelas. Os jovens africanos, ontem levados forçosamente para as Américas como escravos, em barcos movidos por vento (caravelas), para trabalhar nas extensas plantações de cana-de-açúcar, café e outras culturas, hoje, fazem-no de forma voluntária, como manifestação de desespero, usando todos os meios possíveis e imaginários. São pessoas frustradas, desesperadas, que atravessam o deserto do Sahara até ao outro lado da costa do Mar Mediterrâneo, em busca de uma vida melhor, que não alcançam nas suas terras natais. Ainda hoje fico agoniado ao imaginar as condições em que eram transportados os escravos nos navios negreiros, quando lemos ou ouvimos falar, fica-se com a ideia do horror


Hoje assistimos, agravando a nossa agonia, à desgraça que se abate com muitos dos nossos concidadãos que arriscam tudo (utilizando boias, barcaças, pequenos barcos de pesca, etc.) para se entregar às vicissitudes de vária ordem, em direcção aos destinos, na Europa, não fazendo a mínima ideia do que lhes espera. O que ocorre no Mar Mediterrâneo também se repete no Golfo do México e na linha fronteiriça entre os Estados Unidos da América (EUA) e o México, a razão da ideia do muro, tanto defendida pelo Presidente Trump.

O processo expansionista dos séculos XIV e XV, realizado pelas potências imperialistas, que se traduziu inicialmente no comércio, que se alargou para o comércio de escravos, posteriormente na ocupação dos territórios, ou seja, na colonização, que é a dominação de uma nação, sobre outra por meios territoriais, culturais e económicos, fez-se de duas formas: através da ocupação consubstanciada na extracção de recursos e matérias-primas dos territórios colonizados para o império colonizador; e pelo modelo de povoamento, que consistiu no deslocamento de uma massa de colonos para o território colonizado, este foi o modelo português, embora se tenha observado com atraso, principalmente na segunda metade do século XX, pois, inicialmente, foram trazidos para a colónia de Angola pessoas com cadastro criminal.

Então, qual é a razão do desespero dos cidadãos desses territórios outrora colonizados e muito apetecidos pelas potências imperialistas, pois são terras com abundância em recursos naturais, aráveis para a prática da agricultura, territórios que foram e são, fonte de fortunas que enriquecem as economias dos países imperialistas. Hoje incapazes de prover a felicidade, aqui na óptica de Alves da Rocha, que refere que é a principal finalidade do homem na sua passagem pela terra (na sua mais recente publicação, Compreender a Angola de Amanhã ... Hoje), que tanto se apregoou com as independências políticas desses territórios. A busca pela felicidade drena pessoas do meio rural para as cidades, dos espaços nacionais para outras localidades mais longínquas. Foi sempre assim, é a natureza humana.

Esta foi a motivação que impulsionou as potências coloniais a se lançaram para os descobrimentos, em direcção às Américas, Ásia e África. Assistimos depois das I e II grandes Guerras Mundiais (1914-1918 e 1939-1945) ao fluxo de pessoas da Europa para as Américas do Sul e do Norte. Hoje, a América Latina e do Norte são habitadas predominantemente por pessoas de origem europeia, asiática e africana (esses últimos, maioritariamente levados forçosamente como escravos). Foi tudo em busca da felicidade, pois é a finalidade do ser humano enquanto viver.

Os grandes movimentos de pessoas de um continente para o outro, sempre estiveram associados aos momentos difíceis em termos sociais que se viveram, ou resultantes de acção de guerras, ou de natureza económica. Os movimentos que assistimos por parte de africanos para os continentes europeu e americano, têm necessariamente a mesma motivação, ou explicação do que se verificou no passado não muito distante. Será que o momento particularmente difícil que vivem as economias africanas e algumas asiáticas é de exclusiva responsabilidade dos líderes que sucederam às administrações coloniais, ou as antigas potências coloniais também têm uma quota-parte de culpa nesse cenário desafiador? Sou de opinião que o actual estado de dependência das economias das ex-colónias e a sua consequente degradação, são partilhadas entre ambos.                   

As potências coloniais, mais dotadas e mais ousadas na cultura de desenvolvimento, nunca verdadeiramente, desistiram do seu interesse em continuar a espoliar as suas ex-colónias, transfigurando-se em neocolonialismo, para além de que, sob a sua administração orientaram as suas acções para a drenagem das riquezas para as metrópoles, pouco fizeram para a transformação das estruturas daquelas economias, essencialmente, não instruíram os nativos, consequentemente, não se implantou a cultura do desenvolvimento (Alves da Rocha, 2024). Por seu turno, as elites políticas que sucederam à administração colonial, optaram na prática do extrativismo, na acepção da palavra de Daron Acemoglu & James Robinson, em "por que as nações fracassam", subvertendo totalmente a distribuição do rendimento, apropriando-se as elites políticas do rendimento proveniente da exportação das matérias-primas, negligenciando o investimento nas infra-estruturas, na educação, na saúde, tendo como consequência, o afluxo de gente do meio rural para as vilas e cidades, estando o movimento em linha contínua, por substituição, sendo que, os que tinham algumas possibilidades, migraram para a capital e alguns da capital, maioritariamente, imigraram para outros países. Como resultado, as grandes metrópoles africanas (Lagos, Abidjan, Luanda, Kinshasa e outras), estão abarrotadas de gente do meio rural, desprovidas de hábitos, tão pouco a capacidade de viver em cidades. Estima-se, por exemplo, que Luanda já tenha mais de 10 milhões de habitantes.                              

Sendo que a responsabilidade actual do estado de degradação das condições sócio-económicas nos países africanos é partilhada, entre as antigas potências coloniais e as elites políticas que sucederam, faz sentido que se encetem acções conjuntas visando a reversão do quadro prevalecente, que faz com que as pessoas procurem felicidade nos países dos seus subjugadores do passado. A hostilidade e xenofobia abertamente manifestada pelos partidos da estrema direita e cidadãos comuns das sociedades hospedeiras desse afluxo de imigrantes, de nada valerá, as pessoas continuarão à procura de felicidade onde ela estiver, nada os travará, tal como não foram travadas as caravelas. Por conseguinte, a solução está na criação de condições de vida nos seus países de origem, apoiando programas que capacitem uma melhor governação.                         

A África, em particular Angola, vive, mais uma vez, momentos tristes ao perderem, o que de melhor têm, os seus jovens. No passado, foram vendidos e empurrados para a escravatura, hoje desesperadamente vão atrás das migalhas, preferencialmente, nos países outrora colonizadores, tendo em conta os laços culturais e linguísticos, sujeitando-se a várias sevícias e humilhações. Tendo vivido, por alguns anos, em outros países, aprendi um adágio, que diz que a pessoa é de onde se sente melhor. Mas nunca melhor que na sua terra! Viver com os seus e no seio da sua cultura é sempre melhor. Devemos lutar, para consolidar as instituições, em vez de homens fortes. Fazer com que perante a lei sejamos todos iguais, e que todos tenham obediência, unicamente, às leis do país. Tenhamos instituições de soberania fortes independentes e que permitam os equilíbrios, para prevenir as naturais arbitrariedades dos homens. As caravelas devem, sim, regressar com os produtos e não com as pessoas de África. Samuel Candundo – Angola in “Novo Jornal”

 


segunda-feira, 1 de abril de 2024

25 de Abril: Marcas do passado colonial continuam vivas em ideias, emoções e acções

As marcas do passado colonial português “continuam vivas” em ideias, emoções e ações, considera o pintor afrodescendente Francisco Vidal, para quem “descolonizar o pensamento contemporâneo português” continua a ser importante, passadas cinco décadas da Revolução de Abril


“Temos de fazer isto, passados 50 anos, porque ainda há marcas”, conclui o artista plástico nascido em Lisboa, em 1978, já depois da Revolução dos Cravos, como faz questão de sublinhar, numa entrevista à agência Lusa, a propósito da efeméride.

Francisco Vidal – cuja pintura é dominada por cores vivas e linhas caligráficas que lhe conferem movimento – sente-se, ao mesmo tempo, cidadão português, angolano e cabo-verdiano, por ser descendente de pais africanos, que o educaram numa “cultura de paz”. “Eu já nasci num Portugal que vai do Minho até ao Algarve, não vai até Timor, mas sou descendente de um pai e de uma mãe que vêm de outros territórios que eram chamados colónias”, ressalvou o pintor que se tem interessado por descobrir a história dos movimentos anti-colonialistas, sobretudo na figura de Amílcar Cabral (1924-1973), político e intelectual guineense, envolvido na luta antifascista e contra o colonialismo português.

Amílcar Cabral, nascido na Guiné, um dos fundadores do então partido clandestino PAIGC – Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde, foi assassinado em 1973. “Nasci depois do 25 de Abril, mas estudo bastante o passado colonial porque tenho de perceber de onde venho e para onde vou”, comentou o artista que em 2014 apresentou o projeto de pintura “Utopia Luanda Machine” na 56.ª Bienal de Veneza, no Pavilhão de Angola, com curadoria de António Ole, e também na Expo Milão, com curadoria de Suzana Sousa.

O artista plástico considera que ainda hoje é importante “descolonizar” o pensamento, as emoções e as ações da sociedade portuguesa: “Ainda vivemos, todos nós, numa estrutura que vem do espaço colonial, portugueses, angolanos, cabo-verdianos, guineenses, são-tomenses, todo o nosso universo lusófono pensa em português. Este tipo de pensamento ainda existe no pensamento contemporâneo português”, sublinha. “Eu percebo a necessidade de sair dessa mentalidade e entender essa estrutura mental colonizada, e trazê-la para um presente e um futuro mais consciente”, defende, lembrando um passado que “deixou marcas” que “continuam vivas e activas”.

No Festival Iminente, Francisco Vidal apresentou uma performance com batucadeiras cabo-verdianas para recordar e homenagear o ator Bruno Candé, assassinado em 2021 em pleno dia, em Lisboa, por um ex-combatente da guerra colonial, que ficou registado como ataque de ódio racial.

Para a performance, Vidal disse ter-se apercebido que falou com as batucadeiras para explicar que era importante fazer aquela iniciativa, “embora Bruno Candé fosse guineense e não cabo-verdiano”. “Só mais tarde refleti sobre essa necessidade minha de lhes justificar”, disse, referindo-se às suas experiências de infância, e a certas crenças que continuam na mente de muitos africanos e afrodescendentes. “Ultimamente estive a ver o documentário sobre a guerra colonial do Joaquim Furtado e percebi que, nessa altura, existiu uma estratégia do exército português de ‘dividir para reinar’ nas antigas colónias. A ideia, colocada em prática, era pôr os guineenses contra os cabo-verdianos, porque foram aqueles que, no espaço colonial, da ditadura, tinham sido instrumentalizados para que esse espaço existisse em África”, apontou o artista que usa também o desenho e instalações no seu trabalho.

Quando era criança, nos anos 1980, Francisco Vidal recorda-se de ouvir várias pessoas dizerem-lhe que “ser filho de pai angolano e mãe cabo-verdiana era uma mistura terrível”. “’O teu pai e a tua mãe não se vão dar bem, não vai dar certo’, diziam-me. Isto foi e é ainda um traço da cultura colonial que temos de descolonizar” passadas várias décadas, defende o artista licenciado em Escultura pela Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, e que estudou Artes Visuais na Escola de Artes Visuais Maumaus, em Lisboa.

Vidal viveu durante algum tempo nos Estados Unidos, obtendo o mestrado na School of Visual Arts da Columbia University, em Nova Iorque. Começou a pintar profissionalmente em 2000, e a expor com regularidade a partir de 2005, em mostras individuais e coletivas, em Lisboa, Luanda, Paris, São Tomé, Joanesburgo, São Paulo, Londres, Macau, Lagos e Chile. “Essa cultura anti-guerrilha do exército português, de dividir para reinar, existiu realmente no passado. Não acredito que na nossa cultura isso aconteça ainda. Já não queremos dividir os cabo-verdianos para ter domínio sobre eles, mas ainda há resquícios dessas marcas”, avaliou, em entrevista à Lusa.

Tendo nascido em Portugal, “no pós-guerra colonial ou guerra das independências do ponto de vista africano”, e “sendo também angolano e cabo-verdiano, que é outro espaço de pensamento”, Francisco Vidal sente que é, ao mesmo tempo, “português, europeu e africano”, culturas sobre as quais tem refletido, e que derramam uma conotação histórica e política na sua obra, na qual aborda temáticas como a diáspora africana, miscigenação cultural e identitária, e as correntes transculturais. “Eu não vejo nenhuma diferença entre ser europeu ou africano. Sou completamente não binário, e vejo-me como uma pessoa. Mas há artistas brasileiros afrodescendentes que têm uma ideia completamente diferente, porque estão mais perto dos afro-americanos, do lado de lá do Atlântico. Dizem que não conhecem o seu passado, o nome de família, as suas raízes. Sentem um vazio muito grande no preenchimento da sua biografia”, disse.

Francisco Vidal também encontra no passado português ligado à ditadura um “culto do único, do primeiro, de só poder existir um, melhor do que todos, como no tempo do Salazar”: “Acredito que temos esta ‘síndrome Fernando Pessoa’ na nossa cultura”, no sentido de ter de haver uma referência acima de todas as outras, maior que todas as outras, “que inibe a cultura artística de crescer e de evoluir, como na altura do Estado Novo”. “Ao mesmo tempo, a nossa cultura é comum, é nossa, partilhada, e enriquece com os pontos de vista diferentes de todos estes lugares” nas ex-colónias, sublinha o artista cuja obra está representada em várias coleções públicas e privadas, como as da Fundação EDP, da Fundação PLMJ e a Coleção Sindika Dokolo. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”


quinta-feira, 14 de março de 2024

Cabo Verde, África? Convenhamos!...

De há uns tempos a esta parte, vem-se assistindo a uma vaga de “africanistas” que, por algum desconhecimento, distracção, ou, quiçá, interesses de natureza ideológica, têm reivindicado a pertença de Cabo Verde ao continente africano. Parece confundirem a opção geopolítica do Estado cabo-verdiano com a geologia, a geomorfologia, a geografia, a geoquímica, a geofísica e a oceanografia do arquipélago e do litoral do continente que lhe está mais próximo que caracterizam e definem as suas afinidades. Na verdade, todas as geociências que acabamos de elencar apresentam dados convincentes de que Cabo Verde não é África nem Europa.

Cabo Verde inclui-se, geograficamente, no grupo de ilhas – arquipélagos – que se estende entre os paralelos 15º e 40º Norte em frente ao continente africano que se denomina “Atlântida” ou “Macaronésia”. Desse grupo fazem parte os arquipélagos da Madeira, Selvagens, Canárias e Açores; e o mais próximo, de entre estes arquipélagos, do continente africano é o das “Canárias” que se situa a menos de escassos 100 Km da costa africana enquanto Cabo Verde entre 450 a 600 Km.

Para melhor enquadramento geográfico de Cabo Verde não nos parece despiciendo referir que a plataforma continental – “continuação” submarina ou “parte submersa” do continente – que envolve a África tem uma extensão média de apenas 25 Km e uma profundidade que, normalmente, não deve ultrapassar os 200 metros. A completar este raciocínio de individualização física do arquipélago em relação ao continente que lhe está mais próximo, será importante referir as batimétricas que circundam o arquipélago cabo-verdiano onde vamos encontrar profundidades da ordem dos 3500 metros, que constituem barreiras significativas de separação entre o arquipélago e o continente, barreiras estas que não podem ser consideradas apenas de natureza topográfica.

Dizer que Cabo Verde é, geograficamente, África, significa, rigorosamente, dizer que Açores, Madeira e Canárias são também África, uma vez que “são bem estreitas as afinidades biogeográficas” (Geógrafo e Investigador Francisco Tenreiro) entre eles.

Outra confusão que igualmente decorre dos “africanistas”, esta, parece-nos, de natureza estritamente ideológica, é a generalização, a nosso ver, abusiva, da inclusão de Cabo Verde no processo geral do colonialismo africano.

Antes de mais, não é subestimável, o ponto de partida. Primeiro, da ocupação do território; depois, do exercício efectivo do colonialismo europeu que se situa, com algum rigor histórico, a partir da Conferência de Berlim em 1885 – bem depois da instalação (1866) do Seminário-Liceu em S. Nicolau! – e não na data dos “descobrimentos dos caminhos marítimos” do século XV.

A maior parte dos estudiosos da colonização admite que ela só pode existir se houver população autóctone.

É consabido que Cabo Verde não era habitado aquando da chegada dos portugueses, et pour cause, são os seus primeiros habitantes. Era o que se designa na linguagem jurídica res nullius, o que leva alguns autores, designadamente António de Sousa em “Colonização Moderna e Descolonização” a defender que não se podia falar, com propriedade, de colonização, mas sim de povoamento, uma vez que à data dos descobrimentos, não tinham os territórios [da Macronésia] «nenhum povo autóctone nem nenhuma cultura indígena». Esta concepção, embora seja maioritariamente defendida, não é unânime dado que a questão de quem detém o poder, – político e económico – poderá ser fracturante na definição de colonização, admitem uns poucos. Não está em causa, neste momento, a abordagem deste contexto, que é deveras complexo e de configuração polémica.

O que acontece, é quase todos os estudiosos, os pensadores, deste assunto serem defensores de que toda a colonização implica, numa sequência directa: o descobrimento, a conquista, a ocupação e o povoamento.  Em Cabo Verde isto não aconteceu.

O que é pacífico, no nosso Arquipélago, é que tanto o branco europeu como o negro africano eram, à partida, “estrangeiros”, o que leva Amílcar Cabral, – o grande mentor dos africanistas cabo-verdianos – sem se ater aos problemas procedimentais e sociais envolvendo as relações dos ocupantes do território, a sentenciar em “Evolução e Perspectivas da Luta. Seminário de Quadros do PAIGC,” ao sintetizar a questão nos termos que a seguir transcrevemos:

Se pensarmos bem, se estudarmos bem o problema, vemos que os cabo-verdianos não são de Cabo Verde. Se recuarmos muito (…) até 1600, por exemplo, 1500 e tal, 1400, vemos que Cabo Verde não tinha ninguém. Podia ser, por exemplo, que os suecos, nas suas viagens marítimas, se tivessem fixado lá. Hoje, Cabo Verde seria uma terra com gente de origem sueca. Aconteceu, porém, que os portugueses chegaram lá primeiro, mas não ocuparam tudo eles mesmos. Arranjaram escravos de África, principalmente, da Guiné e puseram lá esses escravos. Hoje, são esses os cabo-verdianos, descendentes de escravos africanos e de portugueses, os quais têm todo o direito à sua terra. Porque eles é que a fizeram com o suor do seu trabalho, embora sob a dominação dos tugas

Não está em causa o processo de miscigenação, ou de aculturação, que é quase sempre doloroso, e que não é nenhuma criação dos portugueses ou de qualquer outro povo, pois a “colonização é tão velha como a existência de agrupamentos humanos organizados” sendo-lhe inerente a natureza quase sempre conflitual. Mas a verdade nua e crua, no caso de Cabo Verde, é a miscigenação, os chamados «filhos da terra» que nascem do cruzamento e da aculturação mútua dos povoadores. Como dizem os anglo-saxónicos, o que interessa é, de facto, “the bottom-line”, os resultados finais.

Tendo em conta o processo de povoamento de Cabo Verde, muito diferente do das outras colónias, o “colonialismo” em Cabo Verde não era, nem podia ser igual ao das colónias continentais. Nestas, o processo foi conflituoso, turbulento, tormentoso, porque a ocupação foi feita pela força das armas, porque existia um povo que foi submetido e que resistia, enquanto em Cabo Verde a ocupação foi pacífica pelas razões óbvias, o que não significa que não tenham existido, posteriormente, episódicos focos de conflitos, quase sempre de carácter muito localizado e circunscrito, muitas vezes de natureza socio-laboral e, outras vezes, até, estritamente social. É natural e compreensível, que em determinadas circunstâncias se tente hiperbolizar esses acontecimentos conferindo-lhes desmedida dimensão histórica. É isto, com outras envolvências, que se depreende do pensamento de Amílcar Cabral expresso na obra já citada, que a seguir transcrevemos:

«Mas temos que entender bem porque é que a situação era diferente em Cabo Verde. É porque Cabo Verde não foi uma terra conquistada como a Guiné, ou como Angola e Moçambique. Nestas colónias, os tugas tiveram que criar, imediatamente, uma situação para garantir que aqueles nativos contra os quais fizeram a guerra nunca mais se levantariam e dividiram o povo em indígenas e assimilados. Em Cabo Verde, não era preciso, as pessoas não eram de lá, não tinham vida organizada nas ilhas. Fizeram dela a sua terra, reproduziram-se, até dar a população de Cabo Verde. Os tugas adoptaram, portanto, uma outra política: todos são cidadãos».

Atente-se bem às conclusões de Amílcar Cabral e tenha-se algum cuidado na abordagem generalista do colonialismo português, – sem nunca esquecer a sua natureza abjecta e deplorável – designadamente e sobretudo, na aplicação do abominável “Acto Colonial” e da execrável lei do “Indigenato”.

Não é, por acaso que uma plêiade de distintos sociólogos e académicos que estudam a problemática da colonização nos diz que “aquele arquipélago [Cabo Verde] era, científica e tecnicamente, uma colónia sem colonização e sem colonialismo.”

Impõe-se, pois, uma outra abordagem, mais atenta, científica e demorada!... Armindo Ferreira – Cabo Verde in coral-vermelho.blogspot