Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
Mostrar mensagens com a etiqueta Violência. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Violência. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 6 de março de 2026

Angola - Reverendo Artur Pina brinda leitores com nova obra científica na União dos Escritores Angolanos

O reverendo padre Artur Pina apresentou, recentemente, na União dos Escritores Angolanos (UEA), em Luanda, a sua mais recente obra científica intitulada “Libertação e Superação da Violência na Lógica da Filosofia de Eric Weil”


Com a chancela da Mayamba Editora, o livro, o quinto volume do autor, conta com 222 páginas, distribuídas por três capítulos. O primeiro capítulo aborda a fenomenologia da violência, destacando a negação da moral concreta, a revolta do indivíduo contra o absoluto, entre outros aspectos.

O segundo ressalta a filosofia como assunção da vida racional e recusa da violência, com ênfase no diálogo e na discussão, além de sublinhar a universalidade axiológica do indivíduo como forma de rejeição da violência.

Já o terceiro e último capítulo centra-se na educação humanista como via para a superação do instinto de violência no homem, destacando o papel do Estado ético e da filosofia social na educação pública.

A obra resulta da tese de doutoramento do autor, nascida de uma reflexão sobre a sistemática de Eric Weil, particularmente a partir da sua obra Logique de la philosophie, integrada no conjunto dos seus três grandes tratados: Logique de la philosophie, Philosophie politique e Philosophie morale.

Convidado a comentar a obra, o académico Isaac Pax, responsável pela apresentação da obra, defendeu que a educação deve ultrapassar a mera instrução técnica e assumir-se como um processo profundo de humanização, essencial para sociedades que procuram caminhos de paz após longos períodos de conflito.

Na sua intervenção, Isaac Pax fez ainda uma reflexão crítica sobre a violência colonial, afirmando que persiste na burocracia moderna, exemplificada pela histórica proibição do registo de nomes tradicionais. Essa desconexão com a “Kanda” (linhagem/ancestralidade) foi descrita como uma forma de violência simbólica que retira do indivíduo o seu “lugar de poiso”.

De acordo com o académico, a dificuldade de uma libertação plena desde 1975 está ligada à incapacidade de reconhecer e superar essas estruturas de violência cultural e simbólica que continuam a moldar o agir social. Augusto Nunes – Angola in “O País”


sábado, 3 de janeiro de 2026

Moçambique - Mais ataques no norte do país agravam acesso humanitário

Estatísticas indicam que recentemente 107 mil pessoas foram deslocadas na província de Nampula; cerca de 92 civis foram mortos e outras 87 pessoas foram raptadas e mais tarde libertas após alegados pagamentos de resgate


As províncias moçambicanas de Cabo Delgado, Niassa e Nampula são alvo de ataques por grupos armados não estatais causando o aumento do medo e de violência contínua ligada a operações militares.

Entre 11 e 26 de novembro uma série de incursões provocou um deslocamento de 107 mil pessoas no distrito de Memba. A maioria procurou refúgio nos distritos Mecúfi, na província de Cabo Delgado, e em Eráti e Nacala, na província de Nampula.

Morte e rapto de civis

Ataques repetidos e a ameaça de violência agravam as necessidades por auxílio humanitário. Pelo menos 92 civis foram mortos, dos quais 56 nos distritos de Memba e Eráti, na província de Nampula.

De acordo com dados do Escritório da ONU de Assistência Humanitária, Ocha, em novembro foram reportados 101 incidentes de segurança no norte de Moçambique.

Os casos incluem 77 registos de violência e ameaças contra civis que resultaram em mortes, raptos e novas ondas de deslocamento.

Cerca de 87 pessoas foram raptadas, incluindo 19 crianças e 18 mulheres, muitas delas libertadas após alegados pagamentos de resgate.

Os raptos tornaram-se uma tática deliberada usada pelos grupos para financiar operações, criando um clima de medo e insegurança que mina a resiliência comunitária.

Insegurança e restrições de acesso

O Ocha revela que o aumento súbito de ataques exerce enorme pressão sobre comunidades e parceiros, tendo em conta que os atuais canais de abastecimento não chegam para responder à escala das necessidades.

Há relatos de que os serviços sobrecarregados e os recursos limitados pioram a coesão social entre deslocados internos e populações anfitriãs, pois a assistência não chega a todos de forma equitativa.

A agência cita que as restrições de acesso dificultaram de forma significativa a entrega de assistência humanitários a pelo menos 22 mil deslocados internos no distrito de Memba.

Operações militares e a presença desses grupos levaram a restrições temporárias de movimento nas grandes rodovias. Limitações nas estradas R705 e R706, que ligam Eráti e Nacala a Memba, deixam em situação de fragilidade àqueles que não conseguiram deslocar-se por falta de recursos.

A comunidade humanitária aponta um ambiente operacional ainda volátil, com riscos de segurança elevados, e os entraves burocráticos como fatores que comprometem a entrega de ajuda e a segurança das equipas.

Desinformação e violência

No distrito de Chiúre, na província de Cabo Delgado, uma distribuição de alimentos por uma agência da ONU tornou-se violenta quando a polícia interveio para evitar saques, resultando em duas mortes e dois feridos.

Várias ações a nível governamental e exigências de apoio logístico levaram à suspensão de operações em Mecúfi.

A desinformação sobre a cólera desencadeou violência contra profissionais de saúde em Nampula. Membros da comunidade em Memba agrediram uma enfermeira e ameaçaram um líder local acusado de espalhar a doença.

Comunicação de riscos

Os ataques colocam em risco os esforços de saúde pública e destacam a necessidade urgente de reforçar a comunicação de riscos, o envolvimento comunitário e a proteção dos profissionais de saúde.

Os atos de violência no norte de Moçambique começaram na província de Cabo Delgado em 2017 e já deslocaram mais de 1,3 milhão de pessoas. Ouri Pota – Moçambique ONU News


quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Moçambique - Número de deslocados dispara após novos ataques no norte do país

A Acnur precisa de US$ 38,2 milhões para atender às necessidades dos deslocados internos em 2026, cerca 100 mil pessoas foram deslocadas nas últimas semanas devido à propagação da violência na região


A Agência da ONU para Refugiados, Acnur, está preocupada com a intensificação dos ataques a aldeias do norte de Moçambique e a rápida deterioração do conflito para distritos anteriormente seguros.

Quase 100 mil pessoas foram forçadas a fugir nas últimas duas semanas, segundo uma atualizaçao publicada nesta segunda-feira.

Grupos armados

Pessoas que conseguiram chegar em segurança contaram que fugiram com medo, enquanto grupos armados invadiam as suas aldeias, muitas vezes à noite. Eles incendiaram casas, atacando civis e forçando famílias a fugir sem nada.

À medida que as necessidades aumentam, os esforços coletivos, dos agentes humanitários e governamentais, continuam insuficientes para atender à escala de proteção e assistência necessária no terreno.

Muitos descreveram um cenário caótico de fuga, com pais perdendo os seus filhos de vista e parentes idosos ficando para trás em meio ao pânico.

Para uma boa parte deles, esta é a segunda ou terceira vez que são deslocados somente este ano, com os ataques a alcançar novas áreas.

Insegurança

Muitos deixam as suas áreas de origem sem qualquer documento civil e nem acesso a serviços essenciais, caminhando durante dias em extremo medo. A falta de rotas seguras e de apoio básico deixa as famílias, especialmente mulheres e meninas, em maior risco de exploração e abuso.

Elas são as maiores vítimas da falta de iluminação e privacidade nesses abrigos comunitários, que já enfrentaram jornadas perigosas na procura de segurança.

Os ataques expõem o grupo a novos riscos de violência sexual e de género, enquanto idosos e pessoas com deficiência enfrentam dificuldades em locais que não são acessíveis ou equipados para atender as suas necessidades.

Apoio humanitário

Isadora Zoni é oficial de comunicação do Acnur em Moçambique. Ela cita alguns dos momentos tristes.

“São mães que fugiram à noite com os filhos no colo. Eu mesma conheci uma senhora chamada Filomena e teve um bebé e ela fugiu algumas horas depois desse bebé ter nascido ainda com dores de parto. Então, essa realidade e realmente muito complexa e muito triste. Pessoas com deficiência algumas delas são deixadas para trás, crianças desacompanhadas. A realidade que nós percebemos, inclusive nesses centros de acolhimento, é de uma maioria de crianças."

Para a oficial de comunicação do Acnur em Moçambique, o apoio é urgente.

Apoio urgente

“Para 2026, o Acnur vai precisar de US$ 38,2 milhões. Essa é a estimativa com base nas necessidades de proteção que são observadas no terreno. E essas necessidades elas aumentam agora num momento bastante sensível uma vez que em 2025 nós recebemos apenas 50% daquele que foi o orçamento para responder às necessidades no norte de Moçambique. Então é bastante preocupante o cenário.”

Em parceria com as autoridades locais foram criados postos de atendimento para oferecer aconselhamento e apoio em saúde mental, distribuir kits de dignidade e dispositivos de mobilidade para pessoas com deficiência e auxiliar as famílias na substituição de documentos civis perdidos.

Os atos de violência, que começaram na província de Cabo Delgado em 2017, já deslocaram mais de 1,3 milhão de pessoas.

Em 2025, os ataques espalharam-se para além da área habitual atingindo a província de Nampula e ameaçando comunidades que antes acolhiam famílias deslocadas. Ouri Pota – Moçambique ONU News


quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Moçambique - Cerca de 22 mil pessoas fogem de nova escalada da violência numa semana

A Acnur afirma que desde o início do conflito, em 2017, mais de 1,3 milhão de moçambicanos tornaram-se deslocados internos. O plano humanitário de 2025 precisa de US$ 352 milhões, mas recebeu menos de 20% do valor


O representante da Agência das Nações Unidas para Refugiados, Acnur, em Moçambique, Xavier Créach manifestou profunda preocupação com o rápido aumento de deslocados no norte de Moçambique.

Em apenas uma semana, cerca de 22 mil pessoas foram forçadas a abandonar as suas casas por causa de uma nova escalada da violência.

Exaustão e perda de esperança

Depois de anos de incerteza, muitas famílias estão a chegar ao limite, algumas permanecem apesar do perigo, enquanto outras fogem novamente, sem esperança de regresso.

Isadora Zoni, Oficial de Comunicação do Acnur em Moçambique, narra o drama que se vive em alguns distritos de Cabo Delgado.

“Nas últimas semanas, estive no terreno com as equipas em distritos como Chiúre, Mueda....em Chiúre eu conheci uma mulher deslocada pela terceira vez. Ela contou que quando regressou à sua aldeia no ano passado, acreditava que a paz estava a voltar, agora depois de perder tudo outra vez, ela disse que já não sabe se há para onde voltar. Esta sessão de exaustão e perda de esperança é hoje uma realidade em todo o norte.”

Aumento da violência no norte de Moçambique

Ao longo de 2025, a violência aumentou. Dados do Acnur indicam que até ao final de agosto, ocorreram mais de 500 incidentes de segurança afetando civis, incluindo saques a aldeias, raptos, assassinatos, pilhagens e destruição de casas e infraestruturas.

Em comparação, em 2022 considerado um dos períodos mais intensos do conflito, foram relatados 435 incidentes.

A agência afirma que a nova onda de deslocamento é uma das maiores registadas, nos últimos oito anos.

“Hoje, os 17 distritos da província de Cabo Delgado, o epicentro da crise, já foram afetados. E só nas últimas semanas quase 22 mil pessoas foram forcadas a fugir das suas casas, somando-se as mais de 100 mil pessoas deslocadas apenas em 2025, mas o número de deslocados não conta a história completa. O que estamos a ver é uma mudança de paradigma. Os civis deixam de ser danos colaterais e passaram a ser alvo direto da violência em ataques, raptos e assassinatos inclusive em vilas e cidades que antes eram consideradas seguras.”

De famílias acolhedoras a deslocados

Desde o início do conflito, em 2017, mais de 1,3 milhão de pessoas foram deslocadas, apanhadas entre a insegurança, a perda e a repetição de deslocamentos.

Muitos dos recentemente deslocados eram anteriormente famílias acolhedoras, que abriram as portas das suas casas a outros, e que agora se encontram também sem abrigo e em necessidade.

As preocupações com a segurança aumentam, os civis continuam a ser alvo de ataques, com relatos de assassinatos, raptos e violência sexual.

As crianças estão entre as mais afetadas, com casos de recrutamento forçado e ataques deliberados por grupos armados não estatais.

Agências da ONU e plano de resposta conjunto

“Em Chiúre no âmbito do plano de resposta conjunto, 5 mil famílias já receberam apoio em proteção e saúde mental. As nossas equipas estão no terreno em Mecúfi juntamente com OIM, PMA e Unicef para responder ao novo fluxo de deslocados. Nos próximos dias esperamos apoiar cerca de 1000 famílias com assistência emergencial e serviços de proteção. Prestamos ainda apoio a pessoas com deficiência, distribuímos dispositivos de mobilidade e kits de dignidade para mulheres e raparigas. O nosso foco é garantir que ninguém fique para trás.”

A crise no norte de Moçambique transformou-se numa das situações humanitárias mais complexas da região. Para além da violência, as famílias enfrentam os efeitos combinados de ciclones repetidos, inundações e secas prolongadas.

Os meios de subsistência foram destruídos, os preços dos alimentos estão a subir, e os serviços básicos são escassos. O impacto cumulativo do conflito e dos choques climáticos criou um ciclo de vulnerabilidade cada vez mais difícil de quebrar.

Restrições financeiras e Prioridades da Acnur

Proteger as pessoas, estabelecer a documentação civil, assegurar abrigo de emergência e reforçar a coesão social são algumas das prioridades da agência segundo explica a especialista do Acnur, Isadora Zoni.

“O plano humanitário de 2025 precisa de US$ 352 milhões e apenas US$ 66 milhões foram recebidos. O número de parceiros humanitários também caiu de 78 para 56 organizações, incluindo 26 internacionais, 21 nacionais, 6 entidades governamentais e 3 agências da ONU. Isto significa menos capacidade no terreno, com menos parceiros e menos fundos estamos a “esticar” cada recurso ao limite, mas investir em proteção hoje é evitar novas deslocações amanhã.”

Apesar das restrições financeiras globais, o Acnur e os seus parceiros continuam a apoiar as populações deslocadas e as comunidades de acolhimento em todo o norte de Moçambique.

Balcões de atendimento foram estabelecidos para identificar pessoas com necessidades específicas, oferecer apoio psicossocial e ajudar famílias a recuperar documentos civis perdidos, em coordenação com as autoridades locais.

O Acnur apela à comunidade internacional para renovar o seu apoio a Moçambique. A proteção dos civis, a restauração do acesso a serviços essenciais e o investimento em soluções duradouras são urgentemente necessários para evitar mais sofrimento. Ouri Pota – Moçambique ONU News


sábado, 24 de maio de 2025

Moçambique - Violência em Cabo Delgado faz mais 25 mil deslocados internos

Ataques de grupos armados levam moradores a abandonar as suas casas. Para algumas famílias a fuga ocorre pela terceira vez, além do conflito no norte do país da nação africana também sofre com desastres naturais incluindo ciclone. A Acnur alerta para escassez de recursos para ajuda humanitária



A Agência das Nações Unidas para Refugiados, Acnur, alertou para a situação da violência no norte de Moçambique, que somente nas últimas semanas, transformou mais de 25 mil pessoas em deslocados internos.

Trabalhadores humanitários afirmam que a capacidade de atender a quem precisa está sendo levada ao limite, uma situação já agravada pelo corte de verbas de auxílio.

Pedras preciosas e gás natural

Uma combinação de desastres naturais consecutivos com vários ciclones, secas e conflito armado já causou quase 1,3 milhão de moçambicanos a terem de fugir das suas casas.

A província de Cabo Delgado, que abriga grandes reservas de gás e outros recursos naturais como pedras preciosas e minerais, não é apenas alvo de interesse de empresas multinacionais, mas também o palco de um conflito armado.

Grupos não estatais têm atacado civis assim como militantes de movimentos islâmicos e terroristas que expulsam moradores da área.

Milhares perderam as suas casas, muitos pela segunda ou terceira vez, para encontrar segurança em comunidades próximas.

A província de Niassa, por exemplo, onde o deslocamento havia sido limitado, acolhe agora mais 2 mil pessoas que foram forçadas a fugir desde meados de março.

Três ciclones em três meses

Organizações humanitárias afirmam que estão sob pressão por causa da redução no orçamento de assistência. A nação de língua portuguesa está a recuperar também de meses de protestos e agitação pós-eleitoral.

Ainda em março, o ciclone Jude atingiu a província de Nampula, marcando o terceiro grande ciclone em apenas três meses. Um quadro que agravou as já terríveis necessidades humanitárias. Durante os protestos após as eleições, muitos moçambicanos fugiram para o Malauí para escapar da violência.

A maioria retornou para a casa voluntariamente, mas o país ainda tem 5,2 milhões de pessoas a necessitar de assistência humanitária.

Refugiados da RD Congo

A Acnur está preocupada com as necessidades de proteção, incluindo apoio a sobreviventes de violência de género, serviços de saúde mental e acesso a documentação civil, que excedem os recursos disponíveis.

Até ao momento, a agência só recebeu 32% dos US$ 42,7 milhões necessários.  Moçambique também abriga 25 mil refugiados e requerentes de asilo, principalmente da República Democrática do Congo, RD Congo.

Para a agência da ONU, a crise tripla está a alimentar uma outra crise económica. Os preços dos alimentos, que já estavam altos, dispararam nos últimos meses, frequentemente entre 10% e 20%, enquanto os rendimentos da população de Moçambique continuam a diminuir. ONU News – Nações Unidas


terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Moçambique - Milhares de pessoas fogem para o Malawi

Segundo fontes governamentais, cerca de 13.000 pessoas atravessaram a fronteira para o Malawi desde o dia em que o Conselho Constitucional anunciou os resultados finais das eleições de 9 de Outubro que dão vitória ao partido Frelimo e ao seu candidato presidencial Daniel Chapo. O anúncio desencadeou uma semana de protestos particularmente violenta, marcada por incidentes de vandalismo, barricadas e pilhagens.

Segundo as autoridades, a maior parte das pessoas cruzaram o sul do Malawi, muitas delas atravessando rios para escapar à agitação.

Dominic Mwandira, comissário para o distrito fronteiriço de Nsanje, no sul do Malawi, disse que cerca de 2500 famílias tinham chegado até à data, alertando para o facto de o número poder vir a aumentar.

“Cerca de 11.000 pessoas atravessaram o rio Shire para entrar no Malawi, enquanto outras 2000 atravessaram o rio Ruo”, especificou.

Vários ministérios do Governo foram postos em alerta e os requerentes de asilo estão a ser alojados em vários locais temporários, acrescentou.

Sob condição de anonimato, um funcionário da agência das Nações Unidas para os refugiados (ACNUR) já fala em situação de emergência. “Dada a complexidade da situação, ainda não verificámos o número exacto de chegadas. Os esforços de registo começaram no domingo e teremos uma ideia mais clara quando este processo estiver concluído”, disse.

“Poderemos então avaliar a forma de os encaminhar para um alojamento mais permanente”, acrescentou a fonte da ACNUR.

Entretanto, o pequeno Reino de Essuatíni, a sul de Moçambique, registou um afluxo de mais de 350 moçambicanos esta semana, disse o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Pholile Shakantu. O número total de chegadas de moçambicanos desde o início dos protestos contra os resultados eleitorais aumenta assim para 500, acrescentou.

“Os nossos braços estão abertos enquanto país… Queremos tranquilizar e reafirmar o nosso compromisso como país para ajudar os nossos vizinhos de Moçambique”, disse o ministro.

Destruídas dezenas de viaturas da saúde e artigos médicos

“Nós temos até agora mais de 77 viaturas entre vandalizadas e destruídas e destas pelo menos 55 estavam na central de abastecimento e inclui viaturas novas que ainda deviam ser distribuídas pelo país”, disse o ministro da Saúde, Armindo Tiago, em declarações à comunicação social.

O responsável, que falava durante uma visita a unidades hospitalares da cidade de Maputo, revelou que um dos armazéns do centro de abastecimento de medicamentos incendiado em Maputo por manifestantes após a proclamação dos resultados pelo Conselho Constitucional continha medicamentos avaliados em 5 milhões de dólares.

“Roupa hospitalar estava lá, compramos roupa hospitalar para 70 mil funcionários do Serviço Nacional de Saúde, que inclui sapatos medicinais, batas, calças, luvas, tudo estava lá e só isso está avaliado em 10 milhões de dólares, incluindo o chamado material necessário para fazer gessos em bruto”, disse Armindo Tiago, referindo-se a outros materiais hospitalares perdidos na sequência do incêndio.

O governante disse que Moçambique precisará de pelo menos dois anos para recuperar dos impactos dos actos de vandalismo e destruições no sector da saúde, destacando que levará pelo menos um ano para conseguir requisitar e receber os materiais médicos incendiados no centro de abastecimento de medicamentos.

“Mas o maior problema é que aquele é um armazém – nós também temos produtos que hão de chegar -, como ele está destruído, neste momento teremos de encontrar alternativas para colocar os equipamentos, produtos médicos que chegam ao país”, apontou Armindo Tiago. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Deutsche Welle” e “Lusa”


sábado, 2 de novembro de 2024

Moçambique - Relatório aponta o país como um dos 22 focos de fome no mundo

Estima-se que 773 mil moçambicanos devem enfrentar níveis agudos de insegurança alimentar de outubro de 2024 a março de 2025, as razões incluem a violência na província de Cabo Delgado e maior probabilidade de tempestades tropicais, ciclones e inundações com a chegada do fenómeno La Niña


A insegurança alimentar aguda deverá aumentar tanto em magnitude como em gravidade em 22 países e territórios, de acordo com um novo relatório das Nações Unidas, divulgado nesta quinta-feira.
O levantamento destaca os Territórios Palestinos, Sudão, Sudão do Sul, Haiti e Mali como os locais sob o nível de alerta mais elevado. O conflito é a principal causa da fome em todas estas áreas.
Impacto da violência em Moçambique
A publicação, desenvolvida pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, FAO, e pelo Programa Mundial de Alimentos, PMA, coloca Moçambique, juntamente com Chade, Líbano, Mianmar, Nigéria, Síria e Iémen, na lista de países de alta preocupação.
O relatório afirma que em Moçambique a situação de insegurança alimentar aguda deve piorar devido ao conflito na província de Cabo Delgado e eventos climáticos extremos induzidos pelo fenómeno La Niña, que estão a agravar perdas agrícolas.
Estima-se que 773 mil pessoas devem enfrentar níveis agudos de insegurança alimentar, de outubro de 2024 a março de 2025.
Aumento de tempestades ciclones e inundações
A situação de paz e segurança em Cabo Delgado deteriorou-se no primeiro semestre de 2024, após a retirada da Missão da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral em Moçambique.
A escalada, caracterizada por aumento e disseminação geográfica da violência, deixou mais de 160 mil deslocados de janeiro a julho de 2024, o que representa um aumento de 140% em comparação com o mesmo período do ano passado.
Além disso, o evento La Niña aumenta a probabilidade de tempestades tropicais, ciclones e inundações mais frequentes de novembro a abril, o que deve impactar negativamente os meios de subsistência em todo o país.
Preocupação com seca em Angola
O levantamento da FAO e do PMA indica que apesar da falta de dados recentes, a situação de segurança alimentar em Angola é preocupante e requer monitoramento.
As províncias do sul e do leste foram afetadas por uma seca induzida pelo fenómeno El Niño. Os baixos estoques de alimentos e a falta de oportunidades de trabalho na agricultura diminuíram significativamente o poder de compra das famílias.
A inflação no país tem aumentado de forma constante, atingindo 31,1% em julho.
Soluções precoces, específicas e diplomáticas
O diretor geral da FAO, Qu Dongyu, disse que a situação nos cinco principais focos de fome é catastrófica.  Segundo ele, “as pessoas enfrentam uma situação de extrema falta de alimentos e fome sem precedentes, impulsionada pela escalada de conflitos, crises climáticas e choques económicos”.
Para a diretora executiva do PMA, Cindy McCain, “chegou a hora dos líderes mundiais intensificarem e trabalharem para alcançar as milhões de pessoas em risco de fome”. De acordo com ela, isso significa fornecer soluções diplomáticas para os conflitos e usar a influência para permitir que os profissionais humanitários trabalhem com segurança.
O relatório sublinha que é essencial tomar medidas precoces e específicas para evitar uma maior deterioração da crise e evitar mortes em massa relacionadas à fome.
A FAO e o PMA apelam aos líderes mundiais para que priorizem a resolução de conflitos, o apoio económico e as medidas de adaptação climática para proteger as populações mais vulneráveis à beira da fome. ONU News – Nações Unidas



sexta-feira, 1 de novembro de 2024

Moçambique – Cidade de Maputo já se prepara para “sete dias difíceis”

Num movimento de uma manhã atípica, Edgar Chaúque tenta comprar o máximo de alimentos que pode para enfrentar os “sete dias difíceis” que se esperam em Moçambique com a previsão de novas manifestações contra os resultados eleitorais.


“Com o último anúncio do Venâncio Mondlane, decidimos ir comprar o que falta para que não nos arrependamos nos próximos dias”, explica à Lusa o moçambicano de 46 anos, momentos após comprar alguns produtos num dos principais supermercados de Kachamanculo, nos subúrbios de capital moçambicana.
Num frenesim atípico para uma manhã de quarta-feira em Maputo, como Edgar, dezenas de pessoas têm estado a comprar produtos, com engarrafamento em algumas avenidas, face a uma eventual paralisação, com receio de um cenário semelhante ao dos primeiros três dias de manifestações convocadas por Mondlane em protesto contra a alegada fraude nas eleições de 9 de Outubro.
“Está todo o mundo a correr porque não sabemos o que vai acontecer (…) sete dias é difícil. A parte difícil de tudo isto são as crianças que não poderão ir à escola. Eles estão nas últimas semanas e têm as últimas avaliações, mas todos nós, no fundo, queremos liberdade democrática, sem violência”, declara Cármen João, a escassos metros do seu carro já cheio de produtos alimentares.
Os últimos dias de manifestações convocadas por Mondlane, na semana passada, culminaram com violentos confrontos entre a polícia moçambicana e apoiantes do político em vários pontos do país, com destaque para Maputo, que, à margem das confrontações que ocorreram sobretudo na periferia, esteve quase uma cidade-fantasma, com o comércio paralisado.
Na terça-feira, numa das suas concorridas ‘lives’ vistas por milhares na rede social Facebook, Mondlane apelou para uma greve geral de uma semana a partir de quinta-feira, manifestações nas sedes distritais da Comissão Nacional de Eleições (CNE) e marchas para Maputo em 7 de Novembro, contestando os resultados apresentados pela CNE, que deram a vitória a Daniel Chapo, apoiado pela Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), no poder, com 70,67% dos votos.
No princípio, Mondlane convocou uma “paralisação geral”, mas, após o assassínio de Elvino Dias, seu advogado, e Paulo Guambe, mandatário do partido Podemos, que o apoia, chamou os seus apoiantes para as ruas, dando-se, assim, início a confrontos entre manifestantes e a polícia em vários pontos do país, com mortos, feridos e detidos, além de lojas fechadas.
Embora na rua as opiniões sobre a contestação aos resultados continuem divididas, para alguns o que está em causa actualmente em Moçambique ultrapassa “ideologias políticas”: trata-se de uma “luta do povo moçambicano”.
“Eu estou pronto para sete dias difíceis, querendo como não, temos de segurar. A Frelimo tem de sair”, diz à Lusa Nelson Rafael Paunde, um jovem lavador de carros na avenida Carlos Morgado, simpatizante assumido de Mondlane.
Não muito longe de Kachamanculo, no mercado de Xipamanene, no bairro do Alto Maé, Carlos Baptista, outro lavador de carros na rua, diz não estar tão pronto como Nelson, embora admita que votou no “VM7 da política moçambicana”, uma alcunha política que lhe foi atribuída pelos seus simpatizantes numa comparação ao português Cristiano Ronaldo (CR7) no futebol.
“Eu votei em Venâncio, mas agora estou a ver que ele está a estragar as coisas (…) Sete dias? Vamos morrer à fome. Não estou pronto. Eu vivo da rua e ficar sete dias paralisado vai obrigar-me a roubar”, diz à Lusa Carlos Baptista.
Enquanto na rua as opiniões permanecem divididas, a tensão está estampada no rosto da maioria em cada esquina de Maputo, com a indefinição sobre o que vai acontecer nos próximos dias como a única coisa que é consensual: “Independentemente de partidos políticos, isto é uma batalha de todo povo moçambicano”, conclui Edgar Chauque.
O Centro de Integridade Pública, uma organização não-governamental moçambicana que monitoriza os processos eleitorais, estima que até agora morreram 10 pessoas, dezenas ficaram feridas e cerca de 500 foram detidas, no contexto dos protestos e confrontos durante a greve e manifestações de quinta e sexta-feira, que se sucederam a iguais confrontos violentos em 21 de Outubro, também convocados por Mondlane.
A Renamo diz que vai divulgar contagem paralela e que venceu em duas províncias
A Resistência Nacional de Moçambique (Renamo), principal força da oposição, prepara a divulgação dos resultados da contagem paralela das eleições gerais, em que se declara vencedora em duas províncias, declarou o seu mandatário. Geraldo Carvalho disse que, após a divulgação dos resultados pela Comissão Nacional de Eleições, que ainda carecem de validação do Conselho Constitucional, a Renamo “manteve-se calma” enquanto trabalha nos dados da contagem paralela, lembrando que não é “a favor dos resultados veiculados” pelos órgãos oficiais. “Adianto a dizer que consta que em duas províncias a Renamo leva vantagem no que diz respeito à eleição de governador de província e de assembleias provinciais”, disse, referindo que o partido aguarda igualmente pelo pronunciamento do CC. “Esperamos que o Conselho Constitucional desta vez faça o seu papel como deve ser, lembrando-se do que são as suas obrigações”, apontou. Estevão Chavisso – Moçambique “Agência Lusa” in “Jornal Tribuna de Macau”




quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Timor-Leste - Violência contra vendedores de rua em Díli revela tendências autoritárias

Uma organização não-governamental (ONG) afirmou que a violência contra os vendedores ambulantes em Díli revela “tendências autoritárias” e um “desrespeito pelos direitos humanos básicos”, que está a provocar “divisão e conflito” na sociedade.


“A aplicação brutal da ‘lei e ordem’ não só está a levar a violações dos direitos humanos, mas também a provocar divisão e conflito dentro da sociedade”, advertiu a Fundação Mahein (FM), numa análise divulgada na sua página oficial. “Em vez de recorrer à violência para intimidar os pobres a conformarem-se, os líderes devem refletir sobre a sua própria responsabilidade na situação atual deste país”, salientou a ONG.

Em causa está a campanha de despejos e demolições iniciada este ano pelo Governo, através da Secretaria de Estado dos Assuntos de Toponímia e Organização Urbana, para eliminar construções ilegais e atividades económicas não licenciadas, e que, em alguns casos, tem sido exercida com violência.

O último incidente ocorreu na semana passada, quando oficiais daquela Secretaria de Estado e elementos da polícia se envolveram numa luta com vendedores ambulantes em Díli, tendo um homem sido ferido com um tiro alegadamente disparado por um membro das forças de segurança. “O discurso público que justifica o uso da violência também é preocupante. Declarações sugerindo que as forças do Estado têm justificação para usar violência porque ‘caso contrário as pessoas não ouvem’ contradizem os princípios de uma República Democrática, fundada no Estado de Direito e no respeito pela dignidade humana”, afirmou a Fundação Mahein.

Para a ONG, aquelas afirmações lembram a “ditadura militar indonésia, um Estado que justificava a brutalidade e a violência em nome da ordem e da estabilidade”. “A FM receia que a normalização da violência estatal para impor ordem crie um precedente perigoso para as futuras interações entre o Estado e os cidadãos”, advertiu.

Para a FM, o comércio ambulante e as construções ilegais são sinais de “problemas estruturais mais profundos” e revelam falhas das autoridades na “modernização da economia e da sociedade”. “Em vez disso, focaram a maior parte da sua energia a competir pelo poder e, quando no poder, a implementar megaprojetos ou esquemas que enriquecem as elites e compram apoio político”, acusou a ONG.

A organização disse também que a campanha da secretaria de Estado “contrasta fortemente com a impunidade de que gozam as elites políticas e económicas de Timor-Leste”. “Enquanto cidadãos comuns são perseguidos, espancados e têm as suas casas demolidas e os bens destruídos, as elites gozam de imunidade para violações muito mais graves da lei”, afirmou a FM.

Para a fundação, a “violência” e as “táticas repressivas” não são a solução para aqueles problemas e apelou ao Governo para “reconsiderar a abordagem”, focando-se na análise às “causas profundas da informalidade e da pobreza em Timor-Leste”. In “Ponto Final” - Macau


quinta-feira, 9 de novembro de 2023

Timor-Leste - Governo avalia ordem pública após confrontos entre grupos de artes marciais

O Governo de Timor-Leste esteve reunido, em Conselho de Ministros, para avaliar medidas para repor a ordem pública no país, depois de registados confrontos entre grupos rivais de artes marciais no distrito de Bobonaro


“O Conselho de Ministros reuniu com agenda única só para ver como resolver a situação de Bobonaro. Todos nós sabemos que não é só em Bobonaro, mas que já aconteceu em vários sítios. O Conselho de Ministro está preocupado com a situação”, afirmou à Lusa o secretário de Estado da Comunicação Social, Expedito Dias Ximenes.

Os confrontos foram registados na quinta e sexta-feira entre duas aldeias no município de Bobonaro, envolvendo dois grupos rivais de artes marciais, e que provocaram sete feridos e a destruição de várias casas.

O secretário de Estado da Comunicação Social disse também que no encontro participaram o comissário-geral da Polícia Nacional de Timor-Leste (PNTL), Henrique da Costa, e o diretor-geral do Serviço Nacional de Inteligência (SNI), Longuinhos Monteiro, para informarem sobre a situação em Timor-Leste, “em geral e em especial” em Bobonaro. “Ainda não deliberamos nada. Vamos voltar a reunir-nos para discutir o assunto”, acrescentou o secretário de Estado da Comunicação Social.

O Conselho de Ministros deliberou, em comunicado, que está a “proceder à recolha de todas as informações necessárias junto de todas as entidades relevantes, com vista à tomada de decisão a curto prazo relativamente às medidas a serem adotadas para a reposição da ordem púbica”.

Num relatório divulgado, em Julho, a Fundação Mahein – Monitorização e Advocacia do Setor de Segurança admite existirem “preocupações válidas relativamente à atividade” dos grupos de artes rituais e marciais e à “sua contribuição para a violência, desordem e instabilidade”, mas salienta que “muitos dos riscos associados” aqueles grupos não são isolados, nem iniciados pelos próprios. “Por exemplo, a violência comunitária é uma ocorrência frequente em Timor-Leste e muitas vezes não envolve os grupos de artes marciais e rituais”, refere o documento.

Segundo a Fundação Mahein, muitos incidentes denominados de violência dos grupos de artes marciais têm início em disputas entre indivíduos, que aumentam quando outros membros dos grupos se juntam para defender os seus companheiros. “Da mesma forma, durante períodos de instabilidade política e crise, os grupos de artes marciais participaram na violência e contribuíram para a agitação, mas não foram nem os principais instigadores, nem os únicos participantes”, salienta o relatório.

Para a Fundação Mahein, a “instabilidade política em Timor-Leste pós-independência tem sido impulsionada por um conjunto complexo de fatores, particularmente histórias de conflito armados, competição entre elites, instituições fracas e falhas no processo de construção do Estado”.

O relatório analisa igualmente que o discurso público sobre os grupos de artes marciais pode contribuir “inadvertidamente” para a sua popularidade entre os jovens e aumentar a violência, bem como a possibilidade de serem manipulados “por parte de elites que desejam provocar tensões sociais para fins políticos”. In “Ponto Final” – Macau com “Lusa”

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Brasil - Violência pesa cada vez mais na decisão dos brasileiros de mudar para Portugal

A insegurança e violência no Brasil estão entre as principais razões que levaram os brasileiros chegados nos últimos anos a Portugal a deixar o país, somando-se assim aos motivos políticos, econômicos e sociais, segundo associações de imigrantes.

“Sem dúvida nenhuma que a violência no Brasil é um dos principais motivos que levam os brasileiros a querer mudar de país, tendo Portugal (…) como destino preferido”, afirmou a presidente da Associação Sociocultural Luso-brasileira de Apoio à Integração em Portugal (UAI), com sede em Braga, Alexandra Gomide.

Para ela, o impacto direto desse fator na decisão de emigrar percebe-se desde logo pelo tipo de comunidade que tem chegado a Portugal, composta por “muitas famílias”.

“São os pais tentando trazer os filhos para um ambiente mais seguro”, disse.

“A gente vê hoje mais famílias inteiras a mudarem-se do que pessoas individuais em busca de uma vida melhor, o fator inicial da imigração”, reforçou.

Mas também porque “a grande maioria” dos imigrantes brasileiros que chegam à UAI nos últimos anos “referem isso” mesmo, ou seja, dizem que “querem trazer os filhos para um ambiente mais seguro”, frisou.

Por isso, Alexandra Gomide coloca a violência “em primeiro lugar” na lista dos fatores com mais peso na decisão de emigrar dos brasileiros que nos últimos anos chegaram a Portugal.

Apesar de considerar que aquela decisão acaba sempre por ser o resultado de “um somatório de fatores”, onde a instabilidade política “desgastante” no Brasil e a procura de um emprego melhor e melhores condições de vida também são fatores de peso.

Portugal, “além de oferecer segurança, pode oferecer uma boa educação e um bom sistema de saúde”, afirma.

O país também oferece outras facilidades, por ser um país que fala português e um destino onde o processo de obtenção de documentos e da cidadania pode ser mais rápido.

A UAI está a atender “em média 80 novas famílias por mês”, adiantou.

Outro indicador que no entender de Alexandra Gomide é revelador de que a insegurança e a violência que hoje se vive no Brasil tem um peso significativo nas decisões de emigrar é que “as grandes cidades [do Brasil] são as que mais perdem brasileiros”.

“A grande maioria vem das grandes cidades, Rio de Janeiro, muitos, pelo menos aqui em Braga (…)”, adiantou.

Ressalvando, porém, que isso não quer dizer que não cheguem a Portugal muitos brasileiros também vindos de pequenas cidades: “Porque, na verdade, a gente vive um contexto no Brasil em que a violência está bem disseminada”, salientou.

“Às vezes a pessoa vive no interior, nem lida tanto com essas situações, mas no noticiário passa tanta coisa negativa, tanta coisa ruim que o medo ali já foi instalado. Por isso, às vezes, a pessoa nem viveu [a violência] num contexto real, mas sai de medo de vir a acontecer”, acrescentou.

Quando emigrou para Portugal, há seis anos, a insegurança e a violência já era “uma coisa que incomodava” e com a qual os brasileiros aprenderam a lidar, recordou.

“Tem determinadas situações que para a gente já faz sentido, o andar abraçado com a bolsa, o não usar o telemóvel na rua. (…) A gente vive numa tensão extremamente grande lá. Mas passa a ser normal”, confessou. “Aqui a gente aprende a viver livre”, concluiu.

Já para a presidente da Casa do Brasil de Lisboa, Cyntia de Paula, a insegurança e a violência no país da América Latina é apenas um dos vários fatores que hoje pesam na decisão dos brasileiros de emigrarem, mas até não é dos mais relevantes para alguns grupos.

“A questão da emigração recente [de brasileiros] é multifacetada”, porque “são muitos os motivos pelos quais as pessoas escolhem emigrar”, afirmou.

Na sua opinião, “está muito ligada à questão econômica e política”, a primeira muito por causa da subida da inflação, que começou a sentir-se no Brasil muito antes do que em Portugal, e a segunda pelo discurso do atual Governo, liderado por Jair Bolsonaro, com o qual as pessoas não se identificam, ou que gera receios de segurança para minorias étnicas ou raciais ou mesmo para certas comunidades como a LGBT, ou até ativistas.

O executivo de Jair Bolsonaro “não tem um discurso claro contra qualquer forma de violência” e “não há um discurso de igualdade, de defesa dos direitos humanos de respeito pelas minorias”, neste momento no Brasil, justificou. Pelo contrário, o discurso do executivo brasileiro é até, por vezes, “xenófobo e homofóbico”, podendo “fomentar a discriminação e a violência”, considerou.

Isso faz com que haja “uma maior procura desses grupos, pelo descontentamento político e por luta política de proteção” por Portugal.

Por outro lado, salientou, “o Brasil é imenso e a relação com a violência é diferente, dependendo da cidade de onde vem [o imigrante brasileiro] (…)”, referiu, acrescentando que “nas cidades pequenas, essa questão é percepcionada de uma forma diferente de quem vem das grandes cidades”, frisou.

Assim, considerou que é “importante”, quando se fala das motivações dos brasileiros para emigrar, “pensar no Brasil em termos continentais e não como um bloco único de pessoas, com realidades econômicas e sociais todas iguais”, porque o país “é muito diferente de um sítio para o outro” e hoje “chega [a Portugal] gente de qualquer lugar do Brasil”.

Assim, concluiu: “Claro que algumas pessoas e alguns grupos” vêm pela questão da insegurança e da violência, “sobretudo das grandes cidades” onde ela se sente mais. “Mas as pessoas não vêm só dessas cidades”.

Por isso, esse motivo “pode influenciar, sim, alguns processos migratórios, mas as motivações são muito variadas” para os imigrantes brasileiros, desde o querer vir estudar, ou trabalhar, à procura de melhores condições de vida, ou mesmo querer empreender, frisou. In “Mundo Lusíada” – Brasil com “Lusa”

 

sexta-feira, 17 de junho de 2022

Moçambique - Afunda e Angola sobe no Índice Global de Paz

Moçambique teve uma das maiores quedas no Índice Global de Paz, para a 122.ª posição em 163 países, devido ao terrorismo no país, enquanto Angola escalou 14 lugares, para 78.º, de acordo com o relatório publicado esta semana

Moçambique caiu 11 lugares, a segunda queda mais alta no indicador de proteção e segurança, atrás apenas da Ucrânia, devido ao conflito no país com grupos terroristas, refere a análise do Instituto de Economia e Paz (IEP).

Isto resultou num aumento do número de refugiados, de manifestações violentas e de terror político.

“No entanto, o impacto do terrorismo melhorou e as mortes por conflitos internos também reduziram”, notou o fundador e diretor do IEP, Steve Killelea, que atribuiu o progresso à colaboração de Maputo com o Ruanda e a Comunidade Africana de Desenvolvimento no combate ao Estado Islâmico.

A província de Cabo Delgado é rica em gás natural, mas aterrorizada desde 2017 por rebeldes armados, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo extremista Estado Islâmico.

Há 784 mil deslocados internos devido ao conflito, de acordo com a Organização Internacional das Migrações (OIM), e cerca de 4000 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED.

Desde julho de 2021, uma ofensiva das tropas governamentais com o apoio do Ruanda a que se juntou depois a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) permitiu recuperar zonas onde havia presença de rebeldes, a norte, junto à Tanzânia, mas a fuga destes tem provocado novos ataques noutros distritos usados como passagem ou refúgio temporário.

Pelo contrário, Angola subiu 14 lugares no Índice para 78.º lugar devido a melhorias na redução de manifestações violentas, do impacto do terrorismo, e melhoria das perceções sobre a criminalidade, embora registe um forte custo económico da violência no país.

“Mostrou também um compromisso maior com o financiamento de [missões de] manutenção da paz e reduziu os gastos com as forças armadas como percentagem do PIB [Produto Interno Bruto] e importou menos armas”, salientou Killelea, em declarações à agência Lusa.

Dos restantes países lusófonos analisados, Timor-Leste manteve-se em 54.º lugar, a Guiné Equatorial desceu seis posições para a 59.ª e a Guiné-Bissau caiu nove para a 110.ª posição da lista de 163 países. O Brasil manteve-se no 130.º lugar.

O Índice Global de Paz, atualmente na 16.ª edição, faz uma análise sobre as tendências da paz, o valor económico e como desenvolver sociedades pacíficas, usando 23 indicadores qualitativos e quantitativos em três domínios: o nível de segurança e proteção social, a dimensão do conflito doméstico e internacional em curso, e o grau de militarização. In “Milénio Stadium” – Canadá com “Lusa”


terça-feira, 7 de junho de 2022

Angola – 45 anos depois, ossadas de Nito Alves entregues à família

A entrega das ossadas de Alves Baptista (Nito Alves), Jacob João Caetano (Monstro Imortal), Arsénio José Lourenço Mesquita (Sianuk) e Ilídio Ramalhete, mortos no 27 de Maio, vão ser entregues às famílias na próxima quarta-feira, informou a Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP)


Francisco Queiroz, coordenador da CIVICOP, que falava no final da quarta reunião ordinária, anunciou que os quatros homens terão "uma cerimónia com características políticas em que os ossos serão colocados nas respectivas urnas em locais apropriados no quartel-general das Forças Armadas".

O ministro Francisco Queiroz referiu igualmente que estão previstas intervenções das famílias e um discurso do Executivo.

O 27 de Maio, data que marca um dos períodos mais violentos da história de Angola enquanto país independente, surgiu do movimento que ficou conhecido por "Fraccionismo", que teve como rosto Nito Alves, então dirigente de topo do MPLA e ministro do Interior sob a Presidência de Agostinho Neto.

Depois do fracasso da acção de Nito Alves, para o qual as forças militares cubanas que estavam em Angola foram relevantes, seguiram-se muitos e violentos meses de perseguição aos aliados do então ministro do Interior.

O resultado foi o massacre de milhares de pessoas e a detenção de outras tantas, de forma arbitrária, pensando-se que muitas foram vítimas de vinganças pessoais sem quaisquer ligações ao momento político-militar e ao movimento de fracção.

Ainda hoje não se sabe ao certo quantas pessoas morreram durante a repressão do 27 de Maio. Segundo a Amnistia Internacional, terão sido 30 mil. Segundo a Fundação 27 de Maio, o número de vítimas ascende a mais de 60 mil. In “Novo Jornal” - Angola

Actualização da notícia pelo "Novo Jornal" em 13 de junho de 2022, aqui.


sexta-feira, 3 de junho de 2022

Angola - Violência e desnutrição das crianças preocupa a Unicef

A violência contra a criança, a desnutrição, as diversas formas de pobreza e os desafios no acesso a serviços que facilitam a sobrevivência das crianças e das suas famílias, como a saúde e o saneamento, constituem as principais preocupações para o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em Angola, apelando à atenção imediata do Governo

Esta preocupação consta de uma declaração da Unicef em Angola por ocasião do 01 de Junho Dia Internacional da Criança.

No capítulo da violência contra a criança, segundo o documento, a Unicef reconhece com satisfação as acções do Governo e dos seus parceiros para aumentar a cultura da denúncia, fortalecer os mecanismos de resposta integrada e acompanhamento dos casos denunciados por meio da linha 15015.

"No sector da saúde considera-se urgente responder aos casos de desnutrição com acções que incluem a disponibilização de suplementos nutricionais, capacitação dos técnicos de saúde e envolvimento comunitário na identificação dos casos atempadamente", refere o documento.

De acordo com a declaração, as crianças desnutridas correm maior risco de morrer e quando sobrevivem podem ter consequências irreparáveis quando não são atendidas a tempo.

"A Unicef considera prioritário o apoio ao Governo no programa de combate à desnutrição que entre Janeiro e Março de 2022, permitiu que mais de 116000 crianças fossem rastreadas nas unidades de saúde e comunidades das províncias do Cunene, Huíla e Namibe", reconhece o documento., que sublinha ainda que mais crianças podem ser salvas se for feito algum investimento para a expansão desta abordagem para outras comunidades e unidades de saúde.

"O investimento em programas de protecção social tem sido um caminho para reduzir a pobreza em muitos países do mundo e com impacto nas famílias e crianças. Neste quesito Angola dá passos importantes com o fortalecimento do sistema de protecção social por meio da expansão dos Centros Integrados de Acção Social e com a implementação dos programas de atribuição de renda às famílias, como o Kwenda e o Valor Criança, tendo este último beneficiado mais de 39000 crianças", acrescenta.

"Precisamos garantir o bem-estar das crianças, hoje, onde quer que elas estejam. Isso implica necessariamente conhecer a sua realidade, os problemas que enfrentam e encontrar soluções com o envolvimento de todos os sectores da sociedade", diz Ivan Yerovi, Representante do Unicef em Angola.

Segundo este responsável, neste ano em que se prevê a revisão das metas estabelecidas nos 11 compromissos com a criança, "é importante agir imediatamente para o bem-estar de cada criança e adolescente, pois o desenvolvimento de uma Nação mede-se também pela forma como elas são priorizadas".

Referiu que diante dos desafios que as crianças enfrentam nas diferentes etapas do seu desenvolvimento, requer-se uma resposta com acções da família, como primeiro nível de protecção da criança da sociedade, do Estado e de outros actores como sector privado.

"Ninguém deve ficar de parte nesta missão de assegurar um ambiente favorável para que cada criança desenvolva todo o seu potencial e tenha os seus Direitos garantidos", frisou.

De acordo ainda com a declaração, actualmente, a nível global vive-se uma crise no ensino e aprendizagem, agudizada pela pandemia da COVID-19, onde as habilidades básicas de leitura e matemática ainda não são do domínio de muitas crianças.

"Antes mesmo da pandemia, mais da metade de todas as crianças de 10 anos em países de renda média e baixa não conseguia ler ou entender uma história simples", diz o documento, apelando aos governos que alcancem e retenham todas as crianças na escola, que sejam avaliados os níveis de aprendizagem e que se priorize o ensino fundamental.

"Sem uma acção ambiciosa em habilidades como a leitura básica e a matemática, com foco nas crianças mais marginalizadas, não conseguiremos alcançar os ODS até 2030", finaliza o documento.

A Unicef promove os direitos e bem-estar de todas as crianças. Juntamente com vários parceiros, trabalhamos em 190 países e territórios para traduzir este compromisso em acções concretas, centrando especialmente os nossos esforços em chegar às crianças mais vulneráveis e marginalizadas, para o benefício de todas as crianças, em qualquer parte do mundo.

MPLA recomenda protecção das crianças

O MPLA exortou, a propósito deste dia, todas as forças vivas da Nação no sentido de promoverem, continuamente, acções que visam a protecção dos direitos das crianças, mormente a educação harmoniosa, a saúde, as condições de vida e ensino, que constituem prioridade absoluta da família, do Estado e da sociedade.

Numa declaração a respeito do Dia Internacional da Criança, o Bureau Político do MPLA reafirma o propósito de continuar a combater todas as manifestações humanas que atentam não só contra o desenvolvimento integral, mas também à exposição da criança às várias formas de exploração e risco.

"O Bureau Político do MPLA, em nome dos seus militantes, amigos e simpatizantes, apela a todas os angolanos no sentido de aproveitarem a data para realizar uma profunda reflexão em torno das medidas de promoção da melhoria do ambiente escolar da criança, a sua plena inserção e satisfação no seio familiar e comunitário, bem como mitigar as acções que motivam o abandono dos filhos, separação dos pais, violência, desnutrição, trabalho infantil e absentismo escolar, com particular atenção à crianças com necessidades especiais", lê-se no documento.

O MPLA advoga a realização de campanhas de divulgação e sensibilização para que os pais e encarregados de educação, professores e outros agentes formadores se dediquem, de forma abnegada, na árdua mas gratificante tarefa de defender a criança, pois são elas a maior garantia da continuidade da defesa dos nobres valores de cidadania, e que o dia-a-dia delas se resume na irradiação de sorrisos de esperança e fé num mundo melhor. In “Novo Jornal” - Angola