Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
Mostrar mensagens com a etiqueta Análise. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Análise. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Portugal - Cientista da Universidade de Coimbra explora novas abordagens para a análise de sistemas oscilatórios

Uma publicação científica em que participa Ricardo Gafeira, diretor do Observatório Geofísico e Astronómico (OGA) da Faculdade de Ciências e Tecnologia de Coimbra (FCTUC) e investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, oferece uma revisão abrangente sobre as ferramentas de análise de sistemas que apresentam padrões oscilatórios e periódicos.

Este artigo, publicado na revista Nature Review Methods Primer, destaca a necessidade crescente da aplicação de ferramentas sofisticadas, integrando teorias avançadas e, mais recentemente, tecnologias de inteligência artificial para uma análise mais precisa e eficaz destes fenómenos.

De acordo com o astrofísico, estes sinais oscilatórios podem ser observados em vários campos, tais como na sismologia, na engenharia, na matemática aplicada, bem como nas ciências biológicas, sociais, económicas, físicas e computacionais.

«Com a disponibilidade crescente de grandes volumes de dados de alta complexidade, torna-se imperativo o recurso à computação de alto desempenho e técnicas de processamento de dados eficientes. A aplicação destes métodos, fundamentados teoricamente e com ampla aplicabilidade a uma variedade de sistemas oscilatórios, representa uma oportunidade única para colaborações interdisciplinares, essenciais para acelerar os avanços futuros nesta área», considera Ricardo Gafeira, coautor do artigo científico.

A publicação fornece considerações detalhadas sobre a aplicação e limitações das diversas ferramentas de análise, apresentadas sob uma perspetiva multidisciplinar. São tidas em conta as exigências dos objetivos científicos e as características específicas dos sinais, como os níveis de ruído, as não linearidades, a variabilidade temporal, o comprimento de onda e a cadência.

«Destinada a uma audiência alargada e multidisciplinar, esta publicação pretende servir como referência essencial para a seleção e utilização adequada de ferramentas de análise de sistemas oscilatórios. Acompanha esta iniciativa um repositório de acesso livre, que disponibiliza várias ferramentas de análise de forma intuitiva e acessível para todos os utilizadores», conclui. Universidade de Coimbra - Portugal


quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Moçambique – Uma análise de Ungulani Ba Ka Khosa às eleições gerais de 2024

Para quem, como eu, tem acompanhado, ao longo de mais de quarenta anos, como professor e, acima de tudo, escritor, o percurso da Frelimo, em tanto que Frente de libertação de Moçambique e, subsequentemente, como Partido de orientação marxista, desembocando em Partido sem estratégia ideológica, estas eleições não me surpreenderam de todo


Ao acompanhar a leitura dos resultados feita pelo Presidente da Comissão Nacional de Eleições, veio-me à mente a durabilidade no poder de um outro partido do sul global, o PRI (partido revolucionário institucional), do México, que esteve no poder entre 1929 e 2000. 71 anos no poder. Longo e asfixiante tempo! As críticas que se faziam, nas sucessivas eleições, centravam-se na fraude eleitoral, na sucessiva repressão contra os eleitores, na sistemática violação dos princípios democráticos, na falta de lisura no trato da coisa pública. Tal e qual a nossa situação. 

A propósito, o grande Poeta e intelectual mexicano Octávio Paz, dizia, com a linguagem que lhe era característica: “Os moralistas escandalizam-se diante das fortunas acumuladas pelos antigos revolucionários, mas não reparam que a este florescimento material corresponde outro verbal: a oratória transforma-se no género literário de pessoas prósperas. Mais que um estilo é uma marca, um distintivo de classe.

Ao lado da oratória e das suas flores de plástico, triunfa e se propaga a sintaxe bárbara nos jornais; as inépcias nos programas de televisão; a desonra diária da palavra nos alto-falantes e nos rádios, a cafonice enjoativa da publicidade – toda esta asfixiante retórica, ao mesmo tempo nauseabunda e açucarada, de gente satisfeita e amodorrada por comer demais. Sentados sobre o México, os novos senhores e os seus cortesãos e parasitas lambem os beiços diante de gigantescos pratos de lixo florido.

Quando uma sociedade se corrompe, a primeira coisa que gangrena é a linguagem. A crítica da sociedade, em consequência, começa com a gramática e com o restabelecimento dos significados.”  Atenção intelectuais e sociedade civil! Li, algures, por entre os textos que circulam nas redes, uma máxima que me encantou e que restabelece, de facto, os significados: “O povo não é prejudicado pela greve. O povo está em greve por ser prejudicado.” 

É profundo. E é a resposta popular à recente política editorial dos média, e não só, em dar enfoque aos prejuízos económicos resultantes das manifestações. Uma manifestação, a ideia não é minha, li-a algures, é sempre um simulacro de revolução. Ela visa inquietar o poder, abanar os alicerces corroídos, provocar rupturas, e influenciar as decisões do governo. Não esqueçamos que o nosso modelo democrático funda-se na representatividade, na delegação do poder. Se a árvore que nos representa não dá frutos, é  preciso repensar na sua utilidade dentro do nosso espaço  vital.

No nosso caso, a população quer mudanças profundas, está cansada da esperança prometida, quer que a realidade do dia a dia mude radicalmente, em actos e propostas urgentes; mas o poder, anquilosado na cadeira que o sustenta há mais de 49 anos, não quer ver a realidade que está nas ruas. E isso pode ser fatal para um partido que já foi uma Frente de Libertação e que soube, a seu jeito, adaptar-se aos conturbados momentos da luta de libertação. Mas quando se transformou em Partido, a ortodoxia e o conservadorismo tomou as rédeas do que era o movimento de libertação. Afirmações desconexas e infantis do comandante geral da polícia, bem como o comunicado tão fora do tempo histórico, como o que foi proferido pela senhora Alcinda Abreu, em nome da Comissão Politica da Frelimo, revelam uma pobreza intelectual e ideológica tão confrangedora que me custa afirmar que a Frelimo está à deriva, desconectada da realidade, e muito longe de um ancoradouro sustentável. Mas está mesmo! 

Reencontrem-se e dialoguem com esta juventude que representa o Futuro. O futuro pertence-lhes! E a nós também. Ungulani Ba Ka Khosa – Moçambique in “Moz Entretenimento” com “Facebook”


quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Mídia errou nas previsões das eleições americanas

Os seguidores de Donald Trump estão felizes, demais mesmo, com a enorme vitória do ex-presidente e podem mesmo rir da imprensa em geral que errou feio nas previsões e que teria carregado nas tintas ao fazer a caricatura do fanfarrão. "Houve um verdadeiro naufrágio da mídia" disse o apresentador da rádio Europe1 ao comentar as previsões anunciadas pela imprensa de que as apurações levariam dias ou mesmo semanas, num clima de tensão, vista a quase paridade de votos entre Donald Trump e Kamala Harris. Naufrágio, segundo ele, porque, muito ao contrário do que previa a imprensa, tudo se resolveu em algumas horas, sem conflitos e Trump ganhou com grande diferença.
Na rádio Europe1, o apresentador Pascal Praud se deu ao luxo de mostrar, em curtos extratos sonoros, como certos comentaristas nas rádios francesas estatais tratavam o candidato Trump, inclusive comparando-o a Hitler. E poderia ter citado também muitos jornais de renome, como o The New York Times, que decidiram apoiar Kamala Harris.
Muitos outros comentaristas de rádios deviam também estar rindo dos comentaristas francamente anti-Trump durante todos estes meses, inclusive no Brasil naquelas rádios que sempre apoiaram Bolsonaro. Ainda na Europe1, um convidado logo depois de anunciada a vitória de Trump, dizia "os Estados Unidos não são a Universidade de Harvard e nem Nova York". Certo, mas tudo isso são juízos de valor, que não invalidam as opiniões dos comentaristas anti-Trump, entre os quais me encontro.
O erro da mídia não foi o de ter desqualificado Trump como candidato à presidência dos EUA, mas o de ter acreditado e divulgado um clima favorável a uma vitória da candidata Kamala Harris, baseando-se em sondagens que ignoravam a América profunda, seu miolo interior com seu patriotismo e seu fundamentalismo religioso. Isso a ponto de discutir a reação dos trumpistas no caso de uma derrota, quando a vitória de Trump foi ampla, decidida em poucas horas e incluiu maioria no Senado e no Parlamento.
Ou seja, embora os democratas não vissem ou não quisessem ver, havia um clima de insatisfação popular, bem explorado pelas redes sociais com suas fake-news e contando com o apoio do especialista na matéria Elon Musk com sua plataforma X. De nada adiantou a tentativa democrata de obter o apoio das mulheres e da população negra. Como disse um dos convidados da Europe1, "Trump ganhou no supermercado" e eu acrescentaria também "nas igrejas evangélicas", mais fortes que no Brasil.
O que poderá ocorrer num governo cujo presidente detém todos os poderes, inclusive o da Suprema Corte, onde três magistrados tinham sido nomeados por Trump no seu primeiro mandato? Essa situação de poder absoluto pode levar a perigosos abusos, sabendo-se das ambições desmedidas do presidente eleito.
Nos EUA, não se pode acumular mais de duas presidências, por exigência constitucional, exceto - vamos imaginar - se um deputado propor, o Senado aprovar e a Suprema Côrte ratificar. Não devo ser o primeiro a pensar, mas isso agora poderá ser possível.
Embora o ucraniano Zelenski tenha sido com o presidente francês Macron um dos primeiros a cumprimentar Trump por sua vitória, isso em nada deve mudar a promessa trumpista de acabar com o apoio americano à Ucrânia e à OTAN, deixando o campo livre para a Rússia.
Trump também prometeu acabar com o problema da imigração ilegal nos EUA, impedindo a entrada dos latinos e de outras nacionalidades no território americano e inovando com a deportação dos imigrantes ilegais para seus países. Como existem muitos brasileiros ilegais nos EUA, a maioria bolsonaristas e trumpistas, seria o caso de se perguntar se Bolsonaro poderá intervir em favor desses imigrantes.
Outra pergunta é a de como serão as relações de Trump e de seu amigo e provável ministro Elon Musk com o Brasil e com Lula que, numa entrevista a uma revista francesa, tinha declarado esperar uma vitória de Kamala Harris. Rui Martins – Suíça
____________________

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

segunda-feira, 1 de julho de 2024

Portugal – Startup da Universidade do Porto no "top 11" mundial da «Nature»

Nascida no INESC TEC e incubada na UPTEC, a Seedsight é capaz de analisar sementes e grãos em menos de um minuto, maximizando a disponibilidade de alimentos


O prémio anual da prestigiada revista Nature, atribuído a spinoffs de base científica – cuja investigação seja original e inovadora e com potencial comercial –, selecionou a Seedsight como uma das 11 melhores empresas a nível mundial.

Incubada na UPTEC – Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto, e nascida no INESC TEC – Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência, a Seedsight tornou possível, pela primeira vez no mundo, a análise de sementes e grãos em menos de um minuto, maximizando, assim, a disponibilidade de alimentos.

A sobrevivência dos sistemas alimentares, nomeadamente a qualidade, disponibilidade e acessibilidade de alimentos essenciais como os cereais e as sementes, é um dos grandes desafios atuais. O tempo e o elevado custo dos processos de avaliação da qualidade dos grãos fazem com que grandes quantidades de matérias sejam descartadas por degradação ou por baixa qualidade. Mas Portugal está na linha da frente na resolução desse problema, com uma plataforma que cataloga diretamente sementes e grãos e que tem, ao mesmo tempo, capacidade de validar a sua qualidade, assim como prever a sua produtividade (por exemplo, quantas toneladas de farinha poderá originar) através de análises biomoleculares e biofísicas de baixo custo, em menos de um minuto.

Com o desenvolvimento desta tecnologia, a Seedsight tem por objetivo de dotar a cadeia agroalimentar com o conhecimento necessário para melhorar o processo de decisão na aquisição de matérias-primas de produtos alimentares. Esta solução vai permitir lutar contra o desperdício alimentar e a fraude, enquanto asseguram a sustentabilidade ao longo da cadeia de valor.

“Atualmente tem-se registado um aumento de 18-20% nos custos associados com matérias-primas alimentares como o trigo, milho, arroz, aveia, e quinoa, apenas devido a perdas de produtividade em fases precoces na cadeia de valor pela ineficiência dos processos de seleção dos grãos – os quais são demorados e de alto custo”, explica Joana Paiva, CEO da Seedsight.

Acresce a este facto o problema da contaminação de cereais, e outras mercadorias, por micotoxinas, pesticidas metais pesados, alergénios, micro e nanoplásticos, bactérias, vírus, entre outros agentes patogéneos, e os grãos escolhidos e adquiridos por indústrias transformadoras – que podem, por vezes, ser de pouco valor (qualidade inferior) e necessitar de ser misturados com matéria-prima adicional (cereais melhoradores), mais cara, em fases posteriores/tardias da sua conversão em produto alimentar.

“Através de tecnologias blockchain, deep learning, inteligência artificial e sensores óticos, a nossa plataforma tecnológica otimiza a identificação das melhores sementes, espécies, origens e fornecedores de cereais, aos preços mais competitivos; ao mesmo tempo que nos dá outras métricas relacionadas com valores-chave na nossa cadeia alimentar, como a rastreabilidade e a segurança”, explica Joana Paiva.

Com a plataforma Seedsight os intervenientes no comércio agrícola – traders, brokers, agregadores de pequenos agricultores, intervenientes na indústria moageira, agricultores, etc. – conseguem fazer escolhas mais inteligentes na definição e controlo de grãos adaptados à sua realidade através de práticas que contribuem para o aumento da sustentabilidade. Através de um processo de triagem aplicado a lotes completos de grãos, a plataforma prevê otimizar a eficiência de verificação de qualidade, reduzindo significativamente os custos de aquisição e aumentando a produtividade.

“De acordo com o estudo de mercado realizado, modelos apontam para que a nossa plataforma consiga uma redução de 8% nos custos relacionados com a triagem do melhor cereal, até 89% na redução do tempo de aquisição dos melhores grãos e 20% de aumento da produtividade na transformação do cereal em produtos finais, aumentando a rastreabilidade e transparência, abordando eficazmente os desafios da indústria”, refere Joana Paiva.

Startup acumula distinções internacionais

De destacar que a Seedsight já foi nomeada uma das 100 startups europeias do momento, pela Techstars Deep Tech Berlim, recebeu o “2023 Women in AG Award” na maior feira europeia de tecnologia agroalimentar – a AGRITECHNICA -, que decorreu na Alemanha, e ficou no Top 17 dos finalistas do ParticleX Urbantech Global Challenge 2024, uma iniciativa focada no mercado asiático.

Atualmente, a Seedsight também se encontra a realizar alguns estudos pilotos com parceiros em África para a deteção de micotoxinas no âmbito do programa Validate.Global promovido pelos Impact Hubs Vienna, Kigali e Accra. A spinoff também se encontra integrada no projeto europeu EPICENTRE, tendo sido finalista do último cohort do Global Entrepeurnership Center em Dusseldorf, na Alemanha.

“A tecnologia fotónica desenvolvida pela Seedsight tem como objetivo aumentar a qualidade das sementes e dos grãos, alcançando uma melhoria até 10 vezes superior. Para além de ser um importante passo para a negociação de commodities, este processo é vital para a segurança alimentar a nível mundial, traduzindo-se numa proposta de valor decisiva para os clientes e para os investidores”, destaca Martin Schilling, Diretor Executivo da Techstars Berlin e Membro da Administração da Associação Alemã de Startups.

A Seedsight, spinoff do INESC TEC, que criou as condições de base para o nascimento da empresa, numa estratégia assente no apoio ao empreendedorismo deep tech, está também incubada na UPTEC. A spinoff concluiu ainda recentemente um dos mais prestigiantes programas de aceleração do mundo, de acordo com a revista Forbes, – o Techstarts – e tem vencido uma série de prémios, a nível mundial. Universidade do Porto - Portugal


sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Moçambique - História, ficção e memória: diálogos entre Ungulani Ba Ka Khosa e Marcelo Panguana*

Assim não, senhor Presidente, de Ungulani Ba Ka Khosa, foi a minha última leitura de 2023.

Um livro surpreendentemente cáustico, um autêntico manifesto. Livro premonitório de um autor preocupadíssimo com o seu tempo, com o rumo dos acontecimentos em Moçambique.

As vozes que se encontram nesta obra de ficção narrativa (bastante porosa, diga-se de passagem) dialogam, de forma áspera, desencantada e contundente, com as vozes que transportamos dentro de nós, espicaçando a apatia dos ‘João Merda’ e ‘Catarina Punheta’ desta vida, nomes de baptismo passíveis de se encontrar num país “que já nasceu fodido”, com uma moçambicanidade “hipócrita” e sem raízes.

A obra indaga o nosso destino colectivo, como nação política, nação cultural, nação económica, prenhe de debates estruturantes constantemente adiados.

Passa em revista a questão identitária sublinhando a matriz Bantu, o complexo de inferioridade em relação ao europeu, a aventura socialista, os campos de reeducação, a miragem da cidade de Unango que estava a ser construída “com enxadas e machados”, as execuções sumárias, a fome, a guerra, a paz sem reconciliação, o capitalismo selvagem, as talácuas, essas formigas “verdadeiramente vorazes” que “formam um tapete à medida que devassam a floresta, devorando tudo à sua passagem”, os “esquadrões da morte”, o “desnorte” governativo, as eleições como “legitimação” de “novas trapaças”, enfim, a necessidade de reavaliar as nossas utopias de sociedade e de progresso. Dedicado à geração 8 de Março, é um livro intenso, actual, que vale a pena ser debatido.


A hora maconde

Foi arriscado ler A hora maconde, de Marcelo Panguana, a seguir ao romance Assim não, senhor Presidente, da autoria de Ungulani Ba Ka Khosa. Um título estava a seguir ao outro na cabeceira e caí na tentação de fazer comparações. Não estava no plano.

Ambos os livros exploram à partida uma boa matéria-prima: a História de Moçambique como colónia portuguesa (Panguana) e como país independente (Ba Ka Khosa). Mas os livros têm personalidades diferentes, à luz das estratégias discursivas usadas por cada um dos autores para tecnicamente nos apresentarem uma prosa com entrosamento, ritmo e clímax bem delineado.

Objectivamente, a proposta de Panguana não tem um início tão arrebatador quanto à de Ba Ka Khosa. Enquanto este autor agarra o leitor à primeira e usa técnicas que prolongam o seu interesse até ao fim, com o texto a evoluir em forma de espiral em direcção ao desfecho, a voz do narrador de Panguana só se encontra consigo lá mais para o meio da história e perde alguma assertividade na busca do clímax.

Entretanto, o romance de Marcelo Panguana é um relato da guerra numa perspectiva bem interessante: a de um oficial negro do exército colonial português em conflito com a sua consciência por estar a combater guerrilheiros nacionalistas.

A proposta literária de Marcelo Panguana faz um notável retrato do perfil psicológico da tropa colonial na frente de combate.

De permeio, exalta a paradoxal beleza das paisagens no teatro das operações em Cabo Delgado e enaltece a cultura maconde que, coincidentemente, este ano viu o mapiko consagrado como património universal pela UNESCO.

(Um aparte castrense: achei interessante a revisitação feita à eficiência logística do exército colonial que conseguia assegurar serviços de socorro e regularmente distribuir correio, vinho e mantimentos nos lugares mais recônditos onde estivesse um soldado português, um assunto com bastante actualidade quando se discute a relação entre a logística e o moral combativo das nossas forças armadas no presente).

Voltemos à técnica. A composição das personagens em A hora maconde poderia ter sido favorecida por algum barro adicional, por forma a que os níveis de verosimilhança conseguissem estar à altura do ângulo escolhido pelo autor para contar a história dos últimos anos da guerra colonial e prender o leitor do princípio ao fim, sem oscilações acentuadas de interesse.

A minha expectativa pode ter sido inflacionada pela força do título, extraordinariamente bem conseguido, e pela trajectória do autor, recheada de distinções.

Para terminar esta brevíssima nota de leitura, não vá alguém pensar que tenho a veleidade de esgotar a complexidade deste livro nestes parcos parágrafos, subscrevo as observações que Nelson Saúte fez do trabalho bastante confrangedor de revisão.

A Alcance Editores devia ter um maior controlo da qualidade dos seus produtos. É imperativo que a editora proteja a sua marca, a dignidade das suas colecções e o prestígio de autores da estirpe de Marcelo Panguana e Ungulani Ba Ka Khosa. Daniel da Costa – Moçambique in “O País”

* Título do editor.

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Brasil - Judeus de esquerda, Estado étnico, teocrático e secular

Como os judeus da esquerda brasileira estão reagindo e interpretam a guerra de Israel contra o Hamas? Uma boa síntese para essa indagação foi possível por iniciativa do canal Diário do Centro do Mundo, com um debate entre dois intelectuais esquerdistas judeus, um de formação e origem comunista, o conhecido jornalista Breno Altman, e o advogado e professor de formação anarquista, Pietro Nardella-Dellova, como ambos explicaram durante o debate.

O encontro começou com a discussão do que consistia na questão básica: é possível ser sionista e ser a favor do povo palestino? E surgiu a primeira divergência justamente sobre a essência do sionismo.

Aqui é preciso se buscar um resumo, uma definição de sionismo e como foi estruturado. Sirvo-me de uma definição acadêmica da Escola de Política Aplicada, da Universidade Sherbooke do Canadá:

“Movimento doutrinal e político cujo objetivo é a construção, consolidação e defesa de um estado judeu na Palestina, perto de Jerusalém. O movimento é assim chamado em referência à colina de Sião, em Jerusalém, onde a cidadela de Davi foi erguida nos tempos antigos. O fundador do sionismo é Theodor Herzl, político e jornalista judeu húngaro (1860-1904). Em resposta ao anti-semitismo presente em toda a Europa (caso Dreyfus em França, pogroms na Rússia), publicou um manifesto fundador do sionismo intitulado “Der Judenstaat, Versuch einer Modernen Lösung der Judenfrage” (O Estado Judeu, em busca de ‘uma moderna resposta à questão judaica) em 1896, onde apresentou sua tese sobre a necessidade de os judeus criarem seu próprio estado. Em 1897, um congresso judaico reunido em Basileia (Suíça), sob a presidência do próprio Herzl, deu origem ao movimento sionista. Um ano depois, foi criado um banco colonial judeu, que em 1901 levou à criação do Fundo Nacional Judaico, cujo objetivo era adquirir terras na Palestina, região anteriormente ocupada por populações judaicas. No entanto, já em 1882, estudantes judeus da Rússia, os “Amantes de Sião”, iniciaram as primeiras formas de colonização.

Foi apenas em 1917 que os sionistas conseguiram marcar pontos políticos com a “Declaração Balfour” (Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico) que aceitou, em nome do Reino Unido, a criação de uma “casa nacional judaica” na Palestina. Em 1948, o Estado de Israel foi finalmente proclamado, provocando fortes reações árabes.

Sempre ameaçado por segmentos das comunidades árabes, o sionismo está hoje intimamente ligado à defesa ideológica e política do Estado de Israel, bem como à promoção das suas políticas de defesa. O sionismo se opõe ao anti-semitismo”.

Parece-me também necessário acrescentar que ao judaismo só se chega por herança étnica de pai/mãe para filhos.

Para Pietro Nardella não existe um conceito único de sionismo: “penso no sionismo como uma defesa do Estado e quando o sionismo é de esquerda, progressista, é possível se pensar em questões sociais e na questão palestina ou no estabelecimento de um Estado palestino.”

Nada a ver com a opinião de Breno Altman: “é possível como uma fantasia, não como demonstrou a realidade histórica. Todas as correntes do sionismo acabaram por chegar à essência do sionismo. Embora haja muitos sionistas que se reivindicam de esquerda e pensam individualmente de uma maneira mais generosa, o sionismo, na sua essência, é colonialista e racista. Não existe nenhuma harmonia na defesa de um Estado palestino com o sionismo. Porque o sionismo é outra forma de racismo. É evidente que se o sionismo se propôs construir um Estado étnico numa região ocupada por outros povos, ele assumiu uma característica racial, porque a proposta herzliana de um estado judeu, não é de um estado nacional, mas de um Estado étnico nacional, uma concepção racista, e de uma vertente colonial com a expulsão dos povos que ocupam a região. Isso o que fez o sionismo socialista do Mapai de Ben-Gurion ou o sionismo revisionista de Jabotinsky.”

Na mesma linha de pensamento, Altman cita que, no processo africano de descolonização, não houve nenhum país criando um Estado etnicamente negro. Mesmo na África do Sul onde havia o colonialismo segregacionista criado pelos boers, ao terminar o apartheid não se criou um Estado negro, mas um Estado democrático nacional sem caráter étnico ou religioso. “Ora, disse Altman, o sionismo desde o princípio se propôs a criar um Estado com um grupo étnico cultural com raízes ancestrais religiosas. Israel é um Estado supremacista racial sem igual em todo mundo; nem as teocracias do Oriente Médio se baseiam no caráter étnico da população, mas no caráter religioso, coisa altamente condenável, mas que não constituem uma doutrina racista”.

“Quando se começou a implantar o sionismo, os judeus eram apenas 10% da população”, diz Breno. E isso leva à criação de um Estado colonial, que expulsa e precisa se militarizar, seja com Ben Gurion ou com Netanyahu”.

Depois de duas horas de debates ou de reafirmações recíprocas de seus pontos de vista, o professor Pietro se despediu reafirmando a necessidade de se criar um Estado palestino e sua condenação do Hamas. Breno com sua habitual verve enfatizou a representatividade dos palestinos de Gaza pelo Hamas sem entrar na questão da rivalidade do grupo com a Autoridade Palestina.

Não houve tempo para outros tipos de discussão e talvez nem o próprio Altman esteja se preocupando com o contraponto ao Estado sionista étnico judeu. Trata-se do Estado religioso teocrático islâmico ao qual alguns países do Oriente Médio aderiram ou estão aderindo. O sionismo restringe a sua própria expansão por ser étnico, enquanto o islamismo se expande por seu aspecto proselitista e missionário, não havendo nenhuma barreira étnica às conversões, como, aliás, ocorreu com o próprio cristianismo.

Seria o caso de se perguntar, qual o mais perigoso, o Estado étnico, que se restringe com suas exigências, ou o Estado religioso que se expande e se impõe com o objetivo de criar uma teocracia mundial?

Neste caso, perde importância o conceito de posse de territórios, substituído pelo conceito de valores e direitos humanos. As atuais teocracias islâmicas (e o Hamas tem um projeto de teocracia islâmica para a região) significam um avanço ou um retrocesso para o Oriente Médio e para a humanidade em geral? Seja nas tão discutidas questões do feminismo e do gênero e mesmo na liberdade de cada um dispor de sua vida ou implicam no retorno a um fundamentalismo religioso comportamental ultrapassado que restringe o espaço vital das mulheres, da liberdade sexual e de tantos outros direitos com os quais já nos acostumamos e nem nos damos conta nas democracias laicas ou seculares?

Na avaliação da atual guerra, na condenação de Israel por seu bombardeios das populações civis não estaria faltando, principalmente por parte das mulheres independentes donas de seus corpos, dos jovens laicos, livres e de todos os gêneros, deixarem claro nas manifestações serem favoráveis apenas aos palestinos e não ao projeto de teocracia islâmica do Hamas, que representaria um enorme retrocesso para a região? Com a perda das liberdades seculares e o surgimento de outros tipos de arbitrariedades, restrições religiosas, perseguições e crimes que se cometem contra mulheres e LGBTs no Irão, a teocracia islâmica mais conhecida e modelo para o Hamas? Rui Martins – Suíça

________________

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

 

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Internacional - Esquerda dividida diante do massacre

A nova união popular ecológica e social das esquerdas francesas não chegou a uma unanimidade diante do ataque do Hamas a Israel. Uma declaração ambígua de Jean-Luc Mélenchon, do partido La França Insoumise, e um comunicado dos seus deputados na Assembléia Nacional, falando da "ofensiva armada das forças palestinas conduzida pelo Hamas" praticamente rachou a união das esquerdas francesas.

Mélenchon não condenou claramente o ataque do Hamas à população civil israelense, como fizeram os outros partidos de esquerda, chegando a justificá-lo com a frase "toda violência desenfreada contra Israel e à Gaza só prova uma coisa: a violência só produz e reproduz ela mesma" embora apelasse à solução "dos dois Estados".

Diante da violência das imagens da tomada de reféns e da execução de civis, principalmente no local do encontro musical rave, onde foram mortos cerca de 260 jovens indefesos, tanto o partido comunista como o socialista tinham condenado "os atos terroristas" como "inaceitáveis e injustificáveis". O partido comunista tinha defendido, há alguns meses, uma resolução qualificando Israel como um "regime de apartheid".

No Brasil, o dirigente do Partido da Causa Operária, Rui Costa Pimenta, não adotou nenhuma posição ambígua com relação ao ataque do Hamas, mas se considerou solidário com o Hamas que "está organizando a resistência do povo palestino".

Por sua vez, o blog “Náufrago da Utopia”, representativo de uma esquerda independente, publicou um comentário no qual acentua "Não podemos concordar com os métodos do Hamas, de ataque indiscriminado a civis, e nem com sua ideologia de fundamentalismo religioso - inspirado no Irão -, mas não é possível fechar os olhos aos crimes sistemáticos cometidos pelo governo de Israel contra os palestinos." E critica a política sionista e terrorista de Israel com relação aos palestinos de Gaza.

Nada confortável a posição da Suíça, que até hoje não considera oficialmente o Hamas como uma organização terrorista. Por diversas vezes, o Conselho Federal tem explicado não haver base jurídica para isso enquanto a ONU não tomar essa decisão. Foi assim que agiu com relação aos movimentos Al-Qaida e Estado Islâmico, proibidos na Suíça. O mesmo acontecerá com o Hamas, se o Conselho de Segurança das Nações Unidas declarar o Hamas organização terrorista.

O presidente da Federação suíça das comunidades israelitas denunciou na imprensa que "o Hamas está livre de movimento na Suíça, onde pode coletar dons e gerir suas finanças", mesmo se tratando de um movimento antidemocrático, contrário à dignidade humana e antissemita, que prega a morte dos judeus, evocando o mito de uma conspiração mundial judaica e negando a existência do Estado de Israel.

As pressões dentro do parlamento suíço são também no sentido de serem cortadas as subvenções enviadas aos palestinos de Gaza, para evitar que sejam desviadas pelo Hamas. 

Embora alguns considerem ter sido reforçada a posição do dirigente israelense Benjamin Netanyahu com o clima de união nacional contra o Hamas, provocado pelo ataque e massacres cometidos, essa situação tende a ser transitória e de curta duração. Apesar do êxito da iniciativa de Netanyahu de reforçar seus poderes e diminuir a competência da Corte Suprema (ação semelhante à que está sendo tentada pela extrema-direita no Senado brasileiro para jugular o STF), contando com o apoio da extrema direita e dos ultra-ortodoxos israelenses, seu governo não pode explicar a facilidade com que o Hamas invadiu o território israelense, usando mesmo de parapentes, e como recebeu, provavelmente do Irão, a teocracia islâmica aliada, e armazenou tantas armas, munições e obuses sem levantar suspeitas. O valor simbólico dessa invasão, massacres e bombardeios de Israel pelo Hamas, é enorme e corresponde a um atestado de incompetência de Netanyahu que, mesmo a direita israelense nunca poderá perdoar. A juventude laica e a esquerda israelenses que, desde janeiro enchiam as ruas de Israel contra o plano de plenos poderes de Netanyahu, reforçada agora por muitos israelenses históricos, cobrarão a queda do candidato a ditador.

Ainda hoje, quatro dias depois do ataque do Hamas, a televisão européia mostra novas cenas de horror, captadas por câmeras de videovigilância no kibbutz de Be´eri, perto de Sderot, a alguns quilômetros da fronteira com Gaza, onde viviam 1200 habitantes. Centenas de homens, mulheres e crianças foram ali mortos e mesmo decapitados e massacrados. Outros foram levados como reféns.

Depois de consultar muito material sobre o 7 de outubro, me lembro de um filme recente visto há dois meses no Festival de Cinema de Locarno. E me lembro do que agora poderia considerar como ingenuidade ou ilusão, tanto do diretor e produtores do filme O Soldado Desaparecido, como de mim mesmo ao participar da entrevista concedida à imprensa pelo diretor Dani Rosenberg. É verdade, apesar da faixa de Gaza não ser uma solução para os palestinos que ali vivem, existia a esperança de que logo haveria a possibilidade de uma colaboração pacífica entre israelenses e palestinos. Talvez decorrente de um anunciado próximo acordo de Israel com a Arábia Saudita.

Faltou-me, e ao realizador franco-israelense Dani Rosenberg também, ter lido um documento bem recente da Organização Internacional do Trabalho sob o título A Situação dos Trabalhadores dos Territórios Árabes Ocupados, no qual se revelam tensões existentes e a precariedade laboral nessas áreas. Em tais situações, ser otimista diante de crises não solucionadas, equivale à irresponsabilidade de fechar os olhos ou, pior ainda, torcer para que dê certo! Convido o leitor a ler O soldado israelense desaparecido, publicado no OI, em 23 de agosto.

O filme é irreal! Eu me penitencio pelo meu comentário e puxo as orelhas do realizador Dani Rosenberg.

Vejam só: "Shlomi, um soldado israelense, deserta, abandona sua tropa em Gaza e corre para ir se encontrar com sua namorada em Jerusalém, para outro tipo de embate... na cama. A conclusão é lógica: se todos os soldados fizessem o mesmo, não haveria mais guerra." Isso só no reino do faz-de-conta!

Mas o realizador do filme, que tem metade de minha idade, não deixou por menos: "Dani Rosenberg, o realizador do filme, deplora a obrigatoriedade dos jovens israelenses, na verdade ainda adolescentes, serem obrigados a um amadurecimento prematuro, que significa o fim de uma juventude natural. Numa entrevista publicada pelo jornal do Festival, Rosenberg saúda a criação de um movimento em Israel colocando em questão a obrigatoriedade incontestável de servir o exército".

O que teria dado tanto otimismo a Rosenberg, se antes se preocupava com o risco de Israel ser bombardeado pelo Irão?

Por que esse temor? Porque o Irão, teocracia islâmica, e o Catar, onde houve a Copa do Mundo, são os dois grandes amigos do Hamas e inimigos de Israel. O Irão, para quem se esqueceu, é o país onde está presa a militante Narges Mohammadi, prêmio Nobel da Paz, e onde foi assassinada pela polícia de costumes a jovem Mahsa Amini, de 23 anos. A jovem foi presa por não ter coberto seus cabelos com o véu e morreu três dias depois por traumatismo craniano. O islamismo restringe a liberdade e os direitos femininos e as obriga a usarem roupas cobrindo todo seu corpo. O Hamas foi criado em 1987 por palestinos islâmicos com o objetivo de criar um estado palestino islâmico e destruir Israel.  O Fatah, criado por Yasser Arafat, é laico, defende a criação de dois Estados e tem maioria na Cisjordânia. Rui Martins – Suíça 

_____________________

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.


sábado, 27 de agosto de 2022

Angola – Análise às declarações dos observadores das organizações internacionais africanas ao desenrolar do ato eleitoral

O que disseram os observadores das organizações internacionais regionais africanas.

Devido a manipulação dos factos e discursos (especialmente em língua inglesa) na nossa comunicação social pública, cria-se a falsa ideia de que todos os observadores declaram estas eleições livres, justas e transparentes.

No entanto, foi surpreendente a forma crítica como, especialmente as missões da SADC, da UA, da associação das comissões eleitorais da nossa região, da região dos Grandes Lagos e da ECCAS se pronunciaram tão assertivamente, sobre os flagrantes desvios dos padrões eleitorais previstos nos instrumentos continentais e na nossa própria Constituição e algumas leis.

Entre muitos aspectos referiram-se, abertamente à vergonha da parcialidade da comunicação pública, na cobertura das campanhas a favor do partido no poder, à estranha interferência do Mat no processo eleitoral, da composição partidarizada da nossa CNE e lamentaram, em alguns casos, que recomendações anteriormente feitas neste sentido, tivessem voltado a ser ignoradas. Recomendaram, finalmente, como lhes compete, que todos os conflitos eventualmente subsequentes, sejam resolvidos no quadro dos mecanismos legais previstos.

Só não se pronunciaram, naturalmente, sobre o como o nosso TC, da forma como foi composto e se subordina ao partido no poder (preferiria dizer ao “sistema”), poderá decidir com imparcialidade, na última instância das controvérsias. Claro que seria exigir-lhes demais. Assim como o seria se lhes pedíssemos que se pronunciassem sobre a “atipicidade” das nossas estranhas e deletérias eleições parlamentares/presidenciais ou vice-versa. Marcolino Moco - Angola

 

segunda-feira, 8 de junho de 2020

CPLP - Situação “preocupante” na Guiné-Bissau será discutida pelos embaixadores da Organização

O secretário-executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) disse que a situação na Guiné-Bissau “é preocupante” e será analisada na próxima reunião do Comité de Concertação Permanente (CCP-CPLP), marcada para dia 18.

“A situação na Guiné-Bissau é preocupante. Nós vamos ter proximamente uma reunião aqui em Lisboa, ao nível dos embaixadores, onde certamente essa matéria será abordada”, afirmou o embaixador Francisco Ribeiro Telles, em declarações aos jornalistas, após ter recebido as credenciais da embaixadora Isabel Amaral Guterres, enquanto representante permanente de Timor-Leste junto da CPLP, em Portugal.

A CPLP tem estado em Bissau “de uma forma bastante ativa” a acompanhar a evolução da situação no país, acrescentou.

O secretário-executivo da CPLP recebeu as cartas credenciais da embaixadora Isabel Amaral Guterres, enquanto representante permanente de Timor-Leste junto da CPLP, cargo para o qual foi nomeada em janeiro deste ano.

A Guiné-Bissau tem vivido desde o início do ano mais um período de crise política, depois de Sissoco Embaló ter ganho as eleições e sido reconhecido pelos parceiros internacionais como Presidente da República, apesar de existirem queixas de irregularidades pela candidatura de Domingos Simões Pereira.

Na sequência da sua tomada de posse, o Presidente guineense demitiu o Governo do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), liderado por Aristides Gomes, e nomeou para o cargo Nuno Nabian, líder da Assembleia do Povo Unido -Partido Democrático da Guiné-Bissau (APU-PDGB).

O dirigente da APU-PDGB formou um Governo com o Movimento para a Alternância Democrática (Madem-G15), o Partido da Renovação Social (PRS) e elementos do movimento de apoio ao antigo Presidente guineense, José Mário Vaz, e do antigo primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior.

No âmbito da mediação da crise política na Guiné-Bissau, a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) emitiu, em abril, um comunicado no qual reconheceu Umaro Sissoco Embaló como Presidente e instou as autoridades a nomear um novo Governo, que respeite os resultados das legislativas de 2019, num prazo que terminou em 22 de maio.

Domingos Simões Pereira, líder do PAIGC, não aceitou a derrota na segunda volta das presidenciais de dezembro e considerou que o reconhecimento da vitória do seu adversário é “o fim da tolerância zero aos golpes de Estado” por parte da CEDEAO.

A União Europeia, União Africana, ONU, Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) e Portugal elogiaram a decisão da organização sub-regional africana por ter resolvido o impasse que persistia no país, mas exortaram a que fossem executadas as recomendações da CEDEAO, sobretudo a de nomear um novo Governo.

O Supremo Tribunal de Justiça remeteu uma posição sobre o contencioso eleitoral para quando forem ultrapassadas as circunstâncias que determinaram o estado de emergência no país, declarado no âmbito do combate à pandemia provocada pelo novo coronavírus.

Além de Timor-Leste e da Guiné-Bissau são Estados-membros da CPLP, Portugal, Angola, Moçambique, Brasil, Guiné Equatorial, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde. In “Mundo Lusíada” - Brasil com “Lusa”

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Moçambique – Economia cresceu 2,9% no 3º Trimestre de 2017 face ao período homólogo de 2016

A economia cresceu 2,9% no III Trimestre de 2017, comparativamente ao III trimestre de 2016
 
No terceiro trimestre de 2017, o Produto Interno Bruto a preços de mercado (PIBpm), registou em termos homólogos um crescimento na ordem de 2,9% (Gráfico 1.1 e quadro 1b), para um acumulado nos primeiros três trimestres de 3,0%.

Análise sectorial

O desempenho da actividade económica no terceiro trimestre de 2017 é atribuído em primeiro lugar ao sector primário que cresceu 10,1% (Gráfico 1.2), com destaque para o ramo da Indústria de extracção mineira com uma variação de 19,4%, não obstante o crescimento do ramo da pesca em cerca de 22,8%. Segunda posição é ocupada pelo sector terciário, com um crescimento de 3,2% induzido pelo ramo dos transportes, armazenagem e serviços auxiliares dos transportes e informação e comunicações com uma contribuição de cerca de 6,7%. O sector secundário, teve uma variação negativa de 4,9%, atribuída ao recuo no desempenho do ramo da electricidade, gás e água em cerca de 4,7%.




O ramo da agricultura, pecuária, caça, silvicultura, actividades relacionadas e pesca, teve maior participação na economia no terceiro trimestre de 2017 com um peso no PIB de 21,4% (Gráfico 1.3), seguido dos ramos dos transportes armazenagem e actividades auxiliares dos transportes, e o da informação e comunicações com um peso conjunto de 12,4 %. O ramo do comércio e serviços de reparação ocupa o terceiro lugar, com 11.3%, seguido dos ramos da Indústria transformadora, com um peso de 8,1%. Aluguer de imóveis e serviços prestados às empresas, administração pública e educação, com 6,6%, 7,3% e 7,5% respectivamente. Os restantes ramos de actividade em conjunto tiveram um peso de 25,4%.

Para mais informações aceda aqui. Instituto Nacional de Estatística de Moçambique