Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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terça-feira, 18 de agosto de 2026

Internacional - Brasileiro viajou sete meses em estradas de 30 países africanos

O brasileiro Anderson Araújo relatou à Lusa o seu percurso por África, durante sete meses, onde atravessou 30 países ao volante de um Toyota Land Cruiser, num roteiro que começou em Angola e terminou em Portugal.


A viagem, com uma distância estimada de cerca de 42.000 quilómetros, que tinha uma previsão de três meses e se prolongou por mais quatro, não tinha um itinerário definido nem um número de países estabelecido, apenas a intenção de percorrer os caminhos menos conhecidos e de ir descobrindo as histórias e culturas dos povos ao longo do caminho.

“A ideia era simplesmente viajar e, eventualmente, dar a volta ao mundo”, diz Anderson Araújo, de 42 anos, que trabalha entre Portugal e Angola.

O gestor de projectos comprou, em 2019, um Toyota Land Cruiser 78 – um veículo muito comum em África, segundo explicou – depois de abandonar a ideia inicial de fazer a viagem de mota. O carro, de 2006, acabou por se tornar a sua casa durante grande parte do percurso e atravessou com ele cerca de 30 países do continente africano, com paisagens tão díspares que vão desde selvas densas ao deserto do Sahara.

Do automóvel observou os céus estrelados do continente, pores-do-sol cujas cores são indescritíveis, viu manadas de animais a correr parques selvagens à noite e fez do pouco que tinha o seu maior conforto “do lar”.

Na primeira fase da viagem passou pelas nações mais austrais e orientais.

Entre safaris, praias e montanhas, uma das experiências que mais o marcou aconteceu no Quénia, onde explorou uma cratera vulcânica e acabou por se perder com o guia que o acompanhava. “Estávamos perdidos, mas a situação estava sob controlo”, conta, explicando que o momento acabou por se transformar numa “experiência aleatória e fantástica”.

Outro momento que destaca foi a passagem pelo Burundi, um dos países mais pobres do mundo, que o surpreendeu pelo acolhimento das pessoas, sempre dispostas a ajudar.

A segunda etapa da viagem foi a África Central e Ocidental. Foi também nesta fase que surgiram alguns dos momentos mais difíceis, particularmente por ter apanhado malária no Senegal e ter sofrido uma tentativa de assalto na Nigéria, em Lagos.

Do Senegal – nação vizinha da Guiné-Bissau – seguiu-se outra etapa muito complicada, quando o objectivo era rumar ao norte de África e, posteriormente, à Europa. Daqui, teve o seu visto negado 10 vezes para a Mauritânia, sendo que, para si, seguir a viagem pelo Mali – país em conflito com grupos terroristas – não seria opção e, por isso, as alternativas começavam a escassear.

Quando finalmente conseguiu entrar na Mauritânia, atravessou parte do Sahara e pôde percorrer o famoso caminho dos vagões de minério de ferro. Uma experiência ilegal, mas que, nas suas palavras, é “turisticamente permitida”. São cerca de 12 horas num vagão cheio de ferro, sob um sol abrasador e uma sensação térmica de perto de 50 graus Celsius.

Da Mauritânia seguiu para Marrocos e, posteriormente, atravessou o Estreito de Gibraltar em direcção à Europa.

Apesar dos percalços que teve pelo caminho, o veículo não sofreu avarias graves. Teve um pneu furado e precisou de trocar um radiador, mas nunca ficou parado na estrada durante os cerca de 42.000 quilómetros.

“Eu acho que eu tenho mais sorte do que juízo”, afirma, lembrando que, quando começou a viagem, nem sequer sabia trocar um pneu e, para dificultar, o único idioma que domina é o português.

Ao longo da viagem, não sentiu dificuldades em abastecer o veículo, mas explicou que geriu os seus recursos e abastecia mais em países com combustíveis mais baratos.

Questionado sobre o impacto desta viagem na sua vida, diz que ainda não “assimilou bem a experiência” e que esta foi apenas a conclusão de uma etapa que, assim que possível, será retomada a partir da Europa.

Em termos de aprendizagens, destaca que os países são mais do que os preconceitos que, por vezes, lhes são incutidos e que pode haver surpresas.

“Há mais pessoas para ajudar do que para atrapalhar pelo caminho”, conclui. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”


sábado, 4 de julho de 2026

Cabo Verde - Novo romance de Mário Lúcio Sousa expõe “desmandos” dos ditadores africanos

Para a editora Maria do Rosário Pedreira, este é o “mais político” e mais “corajoso” romance do autor, ousando revelar que afinal os ex-colonizados podem fazer pior do que o colonizador


Afrocalipse, novo romance do escritor cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa, é uma viagem aos “desmandos” e aos “absurdos” do poder em África, num país nunca nomeado, onde um ditador permanece por mais de 40 anos.

“A minha intenção era mostrar o apocalíptico que nós vivemos, mostrar as desgraças, os desmandos, os absurdos que estão a acontecer. Infelizmente, que a palavra África nos permitiu encontrar uma palavra nova, fácil de leitura e de várias leituras. Mas a ideia fundamental é mostrar o apocalipse que nós vivemos em África e esse apocalipse tem a ver com os ditadores”, explica, em entrevista à Lusa.

Para a editora Maria do Rosário Pedreira, este é o “mais político” e mais “corajoso” romance do autor, ousando revelar que afinal os ex-colonizados podem fazer pior do que o colonizador.

“Os personagens estão lá, existem, eu não nomeei nenhum personagem e não me inspirei em nenhum personagem. Eu vi os factos históricos, vivi os factos históricos, li os factos históricos e achei que, independentemente do nome A ou B, aquela figura chamada presidente da república e outro que se chamou imperador em vários lugares da África e do mundo também, são a mesma figura”, sublinha o escritor.

Uma espécie de retrato-robô do ditador africano, que o autor ficciona depois de guiar o leitor por uma “bússola de eventos”, onde fixa nomes, lugares e a história, e que vão de Angola ao Zaire, do Ruanda à Libéria, da Guiné-Bissau à República Centro Africana.

“Os indivíduos têm a mesma conduta, a mesma paranoia, a mesma obsessão pelo poder, a mesma insanidade e desrespeito pelos seus semelhantes. É isso que o livro trata”, esclarece.

O escritor, que sempre disse que nunca sairia uma vírgula das suas mãos sobre os ditadores, explica a fórmula encontrada para a reflexão que propõe aos leitores com a nova ficção editada este mês em Portugal pela Leya.

“Eu disse que não escreveria a biografia ou uma história sobre nenhum desses ditadores em particular, mas coloquei-os todos no mesmo saco, utilizando intencionalmente essa palavra sobre a figura de um magistrado e escrevi sobre ele, porque realmente não merecem que seja eu o romancista a tratar disso”, esclarece.

Convencido que a verdade obedece à pesquisa dos historiadores, e que estes “farão melhor” do que o escritor, Mário Lúcio Sousa confessa o gosto por explorar os vários lados das personagens, inspiradas, neste caso, pelos factos, que expõe com a ironia que lhe é reconhecida.

Do Supremo que “vai fazer cocó ao mato”, ao chefe que forra a piscina a diamantes, outro que manda aviões a Paris todas as manhãs para trazer os croissants do pequeno-almoço, aos golpes de Estado e ao genocídio no Ruanda, ou ao assessor que é branco e que se chama Preto, Afrocalipse retrata a natureza humana com um desconcerto capaz de nos fazer sorrir.

“Deixando esse trabalho de pesquisa sobre a verdade histórica – os historiadores o farão melhor que eu -, gosto, nos meus romances, de ver vários lados dos personagens e que nem sempre é muito agradável falar deles com nomes e apelidos. Eu não os vou fixar na história, por isso, achei que a única vez que podia utilizar o nome verdadeiro de uma pessoa, é quando a senhora Ellen Sirleaf é eleita a primeira mulher presidente da África”, conta.

A mulher que governou a Libéria (2006/2018) representa a mudança em que o escritor acredita. Mulheres cansadas de décadas de medo, abuso e resignação, que lideram a transformação de um país marcado pelo delírio do poder.

“Isto no romance deu-me muito prazer, o facto de que não é fácil poupar, da primeira à quase última página, sem citar o nome de ninguém, para que, quando se citasse o nome, o livro praticamente fosse dedicado a ela. Ela dita amor, era mesmo uma dama africana, cheia de maternalismo, cheia de compreensão, de compaixão e de coragem”, conclui.

Com ironia, poesia e uma linguagem profundamente inventiva, Afrocalipse fala de feridas políticas e humanas, mas também da possibilidade de romper o ciclo.

O escritor e também músico cabo-verdiano, antigo ministro da cultura, é também autor de O Novíssimo Testamento (Prémio Carlos de Oliveira 2010), Biografia do Língua (Prémio Miguel Torga 2015 e Prémio PEN Clube de Narrativa 2016), O Diabo Foi Meu Padeiro (2019), A Última Lua de Homem Grande (finalista do Prémio LeYa 2022 e do Prémio Oceanos 2023) e O Livro Que Me Escreveu (2024).

30 anos de CPLP: “Continuamos a procurar os caminhos”

“Não esqueçamos que a Guiné Equatorial é um dos países que falam crioulo, em Ano-Bom. E o crioulo é um crioulo de base lexical português. Então, essas razões ampliam também o universo (…), é muito importante que essas regiões estejam na comunidade, que têm a língua como unidade”, reforça. “São todos bem-vindos, desde que não tragam os seus regimes para dentro da instituição”

O ex-ministro da cultura de Cabo Verde Mário Lúcio Sousa saúda os 30 anos da CPLP “num mundo em desintegração”, e sugere que se olhe “o processo e a intenção”, para lá dos “resultados”. “São 30 anos. 30 anos não significam nenhuma vírgula no cosmos da história, muito menos na história do cosmos. É um tempo para ainda se preparar, de nos conhecermos também, um tempo para nos conhecermos, nos projectarmos. O importante é que a instituição está ali a encontrar os seus caminhos, isso é importante”, afirma, em entrevista à Lusa. “Neste mundo em desintegração, ter uma comunidade dos países de língua portuguesa é bonito, porque é uma comunidade que ainda tem uma relação, que tem traços muito recentes do colonizador e colonizado, tem traços recentes do escravizador e escravo, tem traços recentes de dominador e dominado, e dentro disso conseguir ter uma instituição de diálogo e de preservação do património comum é muito louvável”, considera. Vê, por isso, “motivos de celebrações”, menos “pelos resultados, mas pelo processo e pela intenção”, concluindo que “vale a pena essa CPLP”. Considera ainda que a presença da Guiné Equatorial não representa qualquer ameaça, antes a oportunidade de mudança. “Não foi o regime que entrou, foi o país. E muita gente desse país não quer esse regime, e muitas vezes não distinguimos isso”, observa, apontando a instituição até como “um lugar de pressão para que se respeite os direitos humanos, para que se respeite a democracia, etc.”. “Amílcar Cabral foi muito claro quando chegou à Guiné-Conacri, em 1961, com a sua mulher, Maria Helena, portuguesa. Um dos críticos era o presidente Sékou Touré, que dizia ‘como é que vem lutar contra os portugueses e traz uma mulher portuguesa?’. E ele dizia que não vinha lutar contra os portugueses, foi lutar contra o regime fascista e colonialista português”, lembra. “Não esqueçamos que a Guiné Equatorial é um dos países que falam crioulo, em Ano-Bom. E o crioulo é um crioulo de base lexical português. Então, essas razões ampliam também o universo (…), é muito importante que essas regiões estejam na comunidade, que têm a língua como unidade”, reforça. “São todos bem-vindos, desde que não tragam os seus regimes para dentro da instituição”, conclui. In “Jornal Tribuna de Macau” – Macau com “Lusa”


sábado, 20 de junho de 2026

Moçambique - Enfatiza unidade, inclusão e futuro da lusofonia em reunião na ONU

Conferência em Nova Iorque sobre ODS 16 liga paz, justiça e governação eficaz. Ministro aponta urgência de diálogo inclusivo, valorização de línguas e foco na independência da economia até 2030


Nova Iorque acolhe a Conferência do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 16, ODS 16. Este ano, o lema é “Impulsionar a transformação e a ação coordenada para o desenvolvimento sustentável”.

O evento é coorganizado pela Itália, pela Divisão para Instituições Públicas e Governo Digital do Departamento de Assuntos Económicos e Sociais da ONU e a organização intergovernamental dedicada à promoção do Estado de Direito, IDLO.

Visão de inclusão para os próximos anos

A lista dos países avaliados inclui apenas dois de língua portuguesa: Moçambique e Timor-Leste; Antes da apresentação, o ministro moçambicano da Administração Estatal e Função Pública, Inocêncio Impissa, partilhou com a ONU News a visão de inclusão para os próximos anos assente em três bases.

“Neste encontro, aqui nas Nações Unidas, trazemos a nossa abordagem e a experiência moçambicana no quadro dos esforços de cumprimento do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 16, concretamente abordando as questões ligadas ao desenvolvimento sustentável, ligadas à paz e à justiça, mas também às questões de governação.”

O representante destacou as linhas de força que sustentam o crescimento previstos na Estratégia Nacional 2026-2044, uma visão na qual o país olha além das metas imediatas no fim desta década.

Resiliência ambiental

A primeira ação é a solidez financeira reestruturando a economia para garantir a sustentabilidade em longo prazo. A segunda é a adaptação ao clima ao integrar resiliência ambiental e resposta às mudanças climáticas no centro do planeamento.

Por fim, está a integração social para garantir que o crescimento económico se traduz em bem-estar real para a população, segundo Inocêncio Impissa.

O ministro mencionou o processo de diálogo nacional em curso que “foi desenhado para ser transversal e genuinamente participativo”.

“De facto, a consolidação da unidade nacional, que é um projeto grande no âmbito do diálogo nacional que está a ser feito, mas, acima de tudo, e como tem sido a linha geral do presidente da República para estes quatro anos que vêm, é a questão da criação das bases de desenvolvimento económico para a independência económica do nosso país, de Moçambique.”

O objetivo é garantir que a sociedade civil, comunidades e cidadãos sejam ouvidos. A premissa do ODS 16 de construir sociedades justas e inclusivas reflete-se na máxima assumida pelo ministério: em Moçambique, ninguém fica para trás.

O poder da lusofonia: cruzar línguas, unir nações

Com as celebrações dos 30 anos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, CPLP, no horizonte, o ministro Impissa defendeu uma ponderação sobre a identidade e a inclusão etnolinguística.

Para Moçambique, a riqueza reside na diversidade. O desafio e a beleza do futuro da lusofonia passam por encontrar o ponto de equilíbrio perfeito onde a língua portuguesa se cruza com idiomas nacionais e locais, sem que estas percam o seu espaço ou valor.

“É sempre bom rever e também trocar algumas impressões sobre o que é que nós pensamos sobre a África, sobre a lusofonia e ver como é que, naturalmente, podemos aprofundar as nossas relações de irmãos.”

O encontro em Nova Iorque serve também como palco para reforçar os laços de fraternidade com países como Angola e Cabo Verde, desenhando uma estratégia conjunta para o desenvolvimento de África e do espaço lusófono.

O ministro de Moçambique disse que o país reafirma o seu compromisso com uma governação moderna, inclusiva, resiliente e profundamente orgulhosa das suas raízes. Eleutério Guevane – Moçambique ONU News


terça-feira, 2 de junho de 2026

Brasil - Investirá 8,19 milhões de euros em bolsas para estudantes africanos em 2027

O Brasil investirá 47,7 milhões de reais (cerca de 8,19 milhões de euros) em bolsas de pós-graduação para 2600 estudantes do continente africano no próximo ano, anunciaram as autoridades brasileiras

O Brasil investirá 47,7 milhões de reais (cerca de 8,19 milhões de euros) em bolsas de pós-graduação para 2600 estudantes do continente africano no próximo ano, anunciaram as autoridades brasileiras.

Ao todo, serão 1600 bolsas de mestrado e 1000 bolsas de doutoramento para os estudantes realizarem parte da sua formação académica no Brasil em universidades e institutos de educação durante um período de até dez meses.

O anúncio ocorreu durante o 1.º Fórum de Reitores Brasil-África, realizado num centro de convenções na cidade de Brasília, que reuniu mais de 100 dirigentes do Ensino Superior.

O Presidente brasileiro, Lula da Silva, declarou no evento que o Brasil “não pode esquecer o compromisso histórico que tem com a África” e que o país tem “dívida histórica” com o continente pelos mais de 300 anos de escravidão.

Lula defendeu ainda a cooperação internacional como ampliação da diversidade e do conhecimento, ao lembrar que atualmente estão em vigor mais de 230 acordos entre as universidades brasileiras com instituições de ensino de 38 países do continente africano.

Lula disse ainda que “o pensamento crítico caminha lado a lado com a luta anticolonial”, assim como o combate ao racismo e todas as formas de discriminação.

Nesse contexto, o Presidente do Brasil voltou a defender a autonomia das universidades, a exemplo do que já ocorre no Brasil, e declarou que a educação é o caminho para superar desafios, entre eles de combate à fome e transição energética.

“A extrema-direita não tolera a autonomia das universidades. Querem calar professores e estudantes, e coibir a diversidade. Negam a ciência, censuram as artes e transformam a sala de aula em instrumento de dominação”, afirmou.

Segundo o Ministério da Educação do Brasil, atualmente mais de três mil estudantes africanos, de diferentes nacionalidades, estudam na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), e 4300 bolsistas africanos de graduação e pós-graduação estão espalhados pelas universidades brasileiras. In “Diário de Notícias da Madeira” - Portugal


domingo, 26 de abril de 2026

Cabo Verde - Redução do financiamento internacional pode comprometer combate à malária

Cidade da Praia — A investigadora e docente Lara Goméz alertou que a redução do financiamento internacional poderá comprometer o combate à malária, sobretudo em países africanos com menor capacidade financeira.


O alerta foi feito na sessão de abertura da quarta conferência internacional “Malária nos PALOP”, promovida pela Universidade Jean Piaget de Cabo Verde.

Segundo a investigadora, a diminuição dos apoios à saúde em África, incluindo através do Fundo Global, estará associada a mudanças políticas nos Estados Unidos, embora tenha ressalvado não dispor de dados totalmente confirmados.

Lara Goméz defendeu uma abordagem integrada no combate à doença, sublinhando a necessidade de articulação entre saúde humana, sanidade animal e ambiente, bem como o reforço da vigilância e da consciencialização das populações.

A docente considerou ainda que uma eventual redução da ajuda internacional poderá afectar países com fraca capacidade económica, ao limitar os recursos disponíveis para programas de combate à malária, incluindo em Cabo Verde.

Recordou que, após a pandemia da COVID-19, se registou um retrocesso nos indicadores da doença, com aumento da mortalidade, que ultrapassou as 600 mil mortes de crianças, maioritariamente em África, devido ao redireccionamento de recursos para o combate à pandemia.

Relativamente a Cabo Verde, indicou que o país já eliminou a malária por três vezes, mas enfrentou reintroduções associadas a casos importados.

Alertou que a presença de mosquitos e o aumento da sua densidade podem favorecer novos surtos, acrescentando que, entre o final de 2024 e 2025, foram registados casos de transmissão autóctone na zona de Fonton, entretanto controlados pelas autoridades sanitárias.

A conferência realiza-se pelo quarto ano consecutivo, no âmbito do Dia Mundial da Malária, com o objectivo de divulgar conhecimento científico e reforçar competências técnicas. In “Inforpress” – Cabo Verde com “Lusa”


sexta-feira, 3 de abril de 2026

África - Preços do cacau afundam 65% em apenas dois anos

A Costa do Marfim e o Gana continuam a dominar largamente a produção global, assegurando mais de metade da oferta mundial, seguidos por países como Nigéria e Camarões. Esta concentração geográfica confere à região um papel determinante na formação dos preços internacionais


A evolução recente do preço do cacau nos mercados internacionais tem sido marcada por uma forte correcção, com quedas acumuladas na ordem dos 65% em cerca de dois anos, depois de um período de máximos históricos que alimentou expectativas de escassez prolongada. Depois de um pico de 11.675 USD/ton que aconteceu em Dezembro de 2024, o preço nos mercados internacionais tem vindo a cair até ao mínimo de 2798 USD/Ton em Janeiro deste ano, tendo no I trimestre de 2026 valorizado ligeiramente. Esta inversão reflecte, em primeiro lugar, um ajustamento entre oferta e procura, após um ciclo de forte valorização impulsionado por choques climáticos na África Ocidental e por constrangimentos logísticos globais.

Com a normalização parcial das colheitas, sobretudo na Costa do Marfim, e a reposição de stocks por parte das grandes indústrias transformadoras, os preços começaram a ceder, num movimento também influenciado pela desaceleração do consumo em mercados-chave, como a Europa e EUA, pressionados por inflação e perda de rendimento disponível. A isto junta-se a componente financeira, com investidores a reduzirem posições especulativas em commodities agrícolas, acelerando a trajectória descendente das cotações. É neste contexto de volatilidade que se reafirma a centralidade da África Ocidental no mercado mundial do cacau.

A Costa do Marfim e o Gana continuam a dominar largamente a produção global, assegurando mais de metade da oferta, seguidos por países como Nigéria e Camarões. Esta concentração geográfica confere à região um papel determinante na formação dos preços internacionais, mas também expõe o mercado a ciclos de instabilidade, dado que qualquer perturbação climática ou fitossanitária nestes países tem impacto imediato na oferta global.

Apesar deste domínio africano, começa a desenhar-se uma reconfiguração gradual do mapa produtivo, com a América Latina a ganhar protagonismo. O Equador destaca-se como o principal produtor fora de África, consolidando uma estratégia assente na qualidade, nomeadamente no segmento de cacau fino e de aroma, destinado a nichos premium da indústria do chocolate. Peru, República Dominicana e Colômbia seguem o mesmo caminho, ainda que com volumes mais modestos, mas com maior incorporação de valor. Esta aposta evidencia uma tentativa de fugir à lógica tradicional de exportação de matéria-prima, procurando capturar uma fatia mais significativa da cadeia de valor.

Já a Indonésia, que no passado ocupou posições cimeiras no ranking mundial, enfrenta actualmente uma trajectória mais errática. Continua a ser o maior produtor asiático, mas tem perdido competitividade devido ao envelhecimento das plantações, à menor renovação tecnológica e a problemas de produtividade, factores que têm limitado o seu peso relativo no mercado global.

Apesar da diversidade crescente de produtores, o destino do cacau mantém-se altamente concentrado. A esmagadora maioria da produção mundial é exportada para a Europa, onde se localizam as principais indústrias de transformação e fabrico de chocolate. Este desequilíbrio estrutural evidencia uma clivagem persistente: os países produtores, maioritariamente em África e na América Latina, continuam dependentes da exportação de cacau em bruto, enquanto o valor acrescentado é capturado nas economias industrializadas, perpetuando uma relação desigual numa das cadeias agroindustriais mais relevantes à escala global. Hermenegildo Ferreira – Angola in “Expansão”


quinta-feira, 2 de abril de 2026

África - Boicota Cimeira Africana das Energias em Londres

"Não participamos em ambientes onde jovens moçambicanos são discriminados apenas com base na cor da pele e não nas suas qualificações ou méritos decorrentes da experiência", justificou o presidente da Câmara de Energia de Moçambique, Florival Mucave. Outros produtores de petróleo africanos juntaram-se ao boicote


Os ministros africanos do Petróleo anunciaram um boicote à Cimeira Africana das Energias (AES), que terá lugar de 12 a 14 de Maio em Londres, por "sérias preocupações" relacionadas com o conteúdo local, argumentando que esta é "uma prioridade inegociável" para a indústria petrolífera do continente.

A decisão, divulgada pela Câmara de Energia Africana, é anunciada dias depois de Moçambique acusar a entidade organizadora, a Frontier Energy Network, de "discriminação", por se recusar a pôr fim à política de não contratação de profissionais negros e resistir aos apelos para divulgar dados sobre a diversidade da força de trabalho.

"A Cimeira Africana de Energias obtém a maior parte das suas receitas de África, mas o seu padrão de discriminação equivale a um bloqueio intencional aos profissionais negros", resume a Câmara Africana de Energia (AEC, na sigla em inglês), num comunicado onde anuncia a decisão de Moçambique de se retirar da Africa Energies Summit 2026, numa altura em que o país está a reiniciar megaprojetos de gás e a pressionar para que os projectos sejam abertos a talentos locais.

Já o presidente da Câmara de Energia de Moçambique, Florival Mucave, afirma que "em 2026, este não é o comportamento que se espera de quem quer que seja que utilize o nome de África", descartando a ida do país a Londres. "Não participamos em ambientes onde jovens moçambicanos são discriminados apenas com base na cor da pele e não nas suas qualificações ou méritos decorrentes da experiência", justifica.

A decisão de Moçambique acabou por ser seguida por outros países produtores de petróleo e gás africanos, que, ao boicotar o evento em Londres, enviam uma mensagem clara. "Se Gayle Meikle, da Irlanda, e Daniel Davidson, da Escócia, alterarem a sua política para que seja mais inclusiva, muitos africanos trabalharão com eles. As políticas de exclusão não reflectem os nossos valores nem os da indústria petrolífera.

A Frontier tem uma oportunidade incrível de fazer o que está certo", frisou NJ Ayuk, presidente executivo da Câmara Africana de Energia. Por outro lado, as nações produtoras de petróleo do continente enviam "um forte sinal" de que as plataformas do sector que operam sob a bandeira da energia africana "devem reflectir os valores e os objectivos de desenvolvimento do continente", acrescenta.

Compromisso com África

A Câmara Africana de Energia lembra que, em todos os sectores do oil & gas, tantos os mercados emergentes como os já estabelecidos estão a integrar políticas de conteúdo local, como forma de catalisar a criação de emprego, a participação local e o desenvolvimento de competências. Para isso, têm feito alterações à regulamentação interna, como mostram a Lei de Desenvolvimento de Conteúdo da Indústria do Petróleo e do Gás da Nigéria (NOGIC) e a Lei de Conteúdo Local de Angola, que "proporcionaram uma base sólida para a implementação do conteúdo local".

A Câmara Africana de Energia aponta ainda o projecto Greater Tortue Ahmeyim (GTA) no Senegal e na Mauritânia, que não só destina uma parte do gás a cada mercado interno, como apresenta uma estratégia de conteúdo local multifacetada centrada na cadeia de abastecimento, no desenvolvimento da força de trabalho e no investimento social.

Aponta ainda o projecto EG LNG na Guiné Equatorial como "um importante impulsionador" do conteúdo local. Em funcionamento desde 2007, o projecto "tem colocado ênfase no desenvolvimento e integração da força de trabalho local por meio de várias iniciativas que promovem a participação e um apoio económico mais amplo". Isabel Bordalo – Angola in “Expansão”


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Estados Unidos da América - Fela Kuti, inventor do Afrobeat, torna-se o primeiro africano a receber um Grammy pela sua carreira

Este prémio reconhece toda a sua obra e finalmente coloca a lenda nigeriana no topo do cenário musical mundial


Quase trinta anos após a morte do pioneiro do Afrobeat, no último domingo, 1.º de fevereiro, ele recebeu um prémio póstumo histórico na cidade de Los Angeles, onde Fela Anikulapo Kuti se juntou ao seleto grupo de lendas mundiais homenageadas com o Grammy Awards.

Ao lado de nomes como Carlos Santana e Whitney Houston, o "Presidente Negro" tornou-se o primeiro artista do continente africano a receber este prémio pelo conjunto da obra. Para este músico que fundiu jazz, funk e raízes africanas numa arma de resistência, este prémio confirma o que a África já sabia: o seu génio é universal.

Mas, por trás do glamour da cerimónia, este prémio também serve como um lembrete do preço da liberdade. Fela não era um artista de salão. As suas canções ecoavam o movimento anticorrupção e antimilitarista, o que lhe rendeu prisões e perseguições ao longo da vida. Se o Afrobeat moderno domina o mundo hoje, é porque Fela abriu o caminho com autenticidade crua. A sua prima, Yemisi Ransome-Kuti, celebrou esta vitória e afirmou categoricamente que "não devemos esperar a morte de grandes homens para celebrar o seu impacto".

O legado de Fela continua vivo graças aos seus filhos, Femi e Seun, assim como o seu neto, Made, que mantêm viva essa chama musical. Este Grammy não é apenas uma peça de museu; é um novo impulso para uma obra de 50 álbuns que se recusa a envelhecer.

Em 2026, a homenagem em Los Angeles prova que a voz de Fela Kuti, embora nascida nos clubes de Lagos, não conhece fronteiras.

Fela nunca procurou a aprovação do mundo; foi o mundo que, no fim, se curvou à sua verdade. Além do troféu, este triunfo é o de uma África que não precisa mais pedir permissão para existir ou brilhar. O "Presidente Negro" nos legou muito mais do que ritmos: ele restaurou a dignidade e a voz do continente. Quase trinta anos após a sua morte, o seu saxofone ainda ressoa como um lembrete eterno de que o coração pulsante da música mundial reside aqui, nesta terra que agora se recusa a ser silenciada. Fernando Mbuy – Guiné Equatorial in “Real Equatorial Guinea”


quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Angola - Feira Cultural “Ano Novo Chinês” promove intercâmbio entre China e África

A Marginal de Luanda vai ser o palco da segunda edição da Feira Cultural “Ano Novo Chinês”, que vai decorrer durante dois dias, 31 do corrente mês e no dia primeiro de Fevereiro (Sábado e Domingo), com o objectivo de assinalar o intercâmbio interpessoal e cultural entre China e África, designação atribuída este ano no âmbito da cooperação entre os dois continentes


Para acolher as tradições neste evento festivo, que decorre sob o lema “Ano dos Intercâmbios Interpessoais e Culturais China-África”, as actividades visam unir famílias, renovar rituais e assinalar a passagem para um novo ano. Para além das apresentações artísticas, a feira vai exibir stands empresariais, mostras gastronómicas e espaços interactivos, onde o público vai experimentar caligrafia, artes manuais e outros elementos tradicionais.

O festival vai contar ainda com a presença de pratos típicos chineses, preparados especialmente para a celebração, de forma a permitir que os visitantes promovam a culinária associada ao Festival da Primavera.

Segundo Cristiano Sun, adido da Embaixada da China e responsável pela Cooperação Cultural em Angola, o evento constitui uma oportunidade para maior aproximação dos povos, bem como criar entendimento cultural mútuo e permitir com que o público angolano conheça de perto o ambiente festivo que marca o início do ano na China. In “O País” - Angola


quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

África - Fundação Tony Elumelu abre candidaturas para Programa de Empreendedorismo 2026

A Fundação Tony Elumelu (TEF) anunciou a abertura oficial das candidaturas para o Programa de Empreendedorismo 2026, uma das mais abrangentes iniciativas privadas de apoio ao empreendedorismo em África, destinada a jovens empreendedores dos 54 países do continente.


O programa volta a apostar no financiamento directo, formação empresarial e mentoria especializada como instrumentos para impulsionar o crescimento económico inclusivo e sustentável.

As candidaturas decorrem de 1 de Janeiro a 1 de Março de 2026 e estão abertas a empreendedores com ideias de negócio inovadoras ou empresas em fase inicial. O processo de submissão é feito através da plataforma digital TEFConnect. Os candidatos seleccionados terão acesso a cinco mil dólares norte-americanos em capital semente não reembolsável, formação empresarial intensiva, mentoria personalizada e integração na maior rede pan-africana de empreendedores.

Desde a sua criação, em 2015, o Programa de Empreendedorismo da Fundação Tony Elumelu tem registado um impacto expressivo no desenvolvimento económico e social do continente. Ao longo de mais de uma década, a Fundação já financiou mais de 24 mil empreendedores africanos, capacitou cerca de 2,5 milhões de cidadãos, contribuiu para a criação de mais de 1,5 milhões de postos de trabalho e impulsionou a geração de aproximadamente 4,2 mil milhões de dólares em receitas.

Intervindo no lançamento da edição de 2026, o fundador da Fundação Tony Elumelu e presidente do Grupo Heirs Holdings, Tony O. Elumelu, reiterou a sua convicção de que o futuro de África depende do investimento estruturado no seu capital humano. “Os empreendedores são o futuro de África”, afirmou, defendendo uma mudança de paradigma na abordagem ao desenvolvimento do continente.

Segundo Tony Elumelu, África não carece de ajuda externa, mas de investimento estratégico nos seus próprios talentos, sobretudo na juventude. “Quando capacitamos os empreendedores, criamos emprego, estimulamos o crescimento económico e transformamos positivamente as comunidades onde estes negócios operam”, sublinhou.

Para além do impacto económico, o programa distingue-se pelo seu forte compromisso com a inclusão e a igualdade de género. Actualmente, 46 por cento dos empreendedores apoiados pela Fundação são mulheres, representando uma das mais elevadas taxas de participação feminina em programas de empreendedorismo à escala continental.

A Fundação Tony Elumelu tem ainda consolidado a sua presença através de parcerias estratégicas com instituições internacionais de relevo, como a União Europeia, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o Banco Africano de Desenvolvimento, a Google e o UNICEF Generation Unlimited, entre outras, permitindo alargar o alcance do programa a diferentes sectores e geografias.

Com o lançamento do Programa de Empreendedorismo 2026, a Fundação reafirma o seu compromisso com a erradicação da pobreza, a criação de emprego e a promoção de um crescimento económico inclusivo em África, apostando no talento, na inovação e no espírito empreendedor da juventude africana. In “O País” - Moçambique


quinta-feira, 21 de agosto de 2025

África e Japão assinam mais de 300 acordos de cooperação na 9.ª edição da TICAD 2025

Mais de 300 acordos foram assinados durante 9.ª edição da Conferência Internacional de Tóquio sobre o Desenvolvimento de África (TICAD 2025), que decorre na cidade de Yokohama, Japão, onde Angola participa com uma delegação chefiada pelo Presidente da República, João Lourenço


Neste particular, Angola contribuiu para a ampliação das relações de África com o Japão com assinatura de sete acordos, assinados quarta-feira, nos sectores das águas, saúde, cultura e infra-estruturas marítimas.

Os dados foram apresentados, esta quinta-feira, durante a apresentação pública, testemunhada pelos co-presidentes da TICAD, nomeadamente o Primeiro-Ministro japonês, Shigeru Ishida, e o Presidente da União Africana, João Lourenço, facto que confirma o crescente interesse do Japão pelo mercado africano.

Os 300 acordos entre Japão e África, que superaram a edição anterior foram rubricados por corporações empresariais, institutos, agências e outras entidades japonesas com parceiros africanos de um grande número de países, soube o JA Online de fonte oficial. In “Jornal de Angola” - Angola


quarta-feira, 18 de junho de 2025

África – Mensagem do Presidente da União Africana transmitida ao Presidente de Transição do Burkina Faso

Uma mensagem verbal do Chefe de Estado de Angola na qualidade de Presidente da União Africana, João Lourenço, para o Presidente de Transição do Burkina Faso, Ibrahim Traoré, foi transmitida, terça-feira, em Ouagadougou, pelo ministro das Relações Exteriores, Téte António

Foto: MIREX

A missiva do Chefe de Estado angolano foi entregue na qualidade de Presidente da União Africana e exprime a solidariedade para com o povo burkinabe, assim como evoca os esforços para a pacificação, reconciliação nacional e estabilidade política no continente africano, de acordo com um comunicado de imprensa do MIREX.

Durante a audiência, Téte António disse ao Presidente de Transição do Burkina Faso que a sua missão a este país da África Ocidental transcreve-se no âmbito da Presidência da União Africana focada na partilha de experiência de Angola no reforço da construção da paz e do desenvolvimento económico de África.

O momento serviu ainda para as duas personalidades debruçarem-se sobre questões inerentes a instabilidade provocada pelos grupos jihadistas e terroristas e do impacto de insegurança nos países do Sahel.

Ibrahim Traoré agradeceu, também, a iniciativa do estadista João Lourenço, que é também o Presidente da União Africana pelo contacto de auscultação dos problemas que afligem a região de Sahel e em particular do Burkina Faso. In “Jornal de Angola” - Angola



sexta-feira, 6 de junho de 2025

África - Um quintal para jogos de guerra e extração de riquezas

Precisamos de mais vozes. Precisamos de intelectuais que falem, de escritores que denunciem, de estudantes que pensem

12 de Maio de 2025. O norte do Burkina Faso sangra. Mais uma vez. Como sangra o norte de Moçambique, como sangrou o Ruanda, como sangra a Nigéria, o Mali, a RDC e qualquer pedaço de terra onde o cheiro do ouro, da droga ou do petróleo se misture ao sangue de jovens pobres. Dezenas de civis e militares foram executados no domingo na cidade de Djibo, cercados e abatidos como se as suas vidas fossem meros grãos de areia na vastidão da indiferença africana e internacional. Segundo as notícias que circulam e da fonte Lusa vieram de motorizadas e viaturas, centenas deles, os chamados “extremistas islâmicos”, atacando destacamentos, esquadras e lares de famílias anónimas. Mataram homens na frente das esposas e filhos. Deixaram corpos no chão quente da terra vermelha de África. O Burkina Faso é apenas um dos palcos de uma guerra longa, suja, e que quase sempre não tem nome nem rosto. E quando tem, não são os rostos certos.

Porquê África? Por que sempre aqui? Quem ganha com essa dor? E por que os nossos mortos não têm memória?

A pergunta que me atormenta não é só “porquê?” — mas por quem o terrorismo em África, para quê e até quando?

A guerra invisível tem nomes. Muitos. Al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI): herança das guerras sujas da Argélia nos anos 90. Estado Islâmico no Grande Saara (EIGS): explosão do caos após a queda de Kadhafi.

Boko Haram, um movimento que começou denunciando a corrupção na Nigéria e terminou como mercenário religioso de guerras subterrâneas. Ora Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) a aliança jihadista que unificou facções para dominar o Sahel. Entre outros Burkina Faso, Chade, Congo, Nigéria, Moçambique e outros.

Mas raramente contam de onde vieram, quem os ensinou a manejar as armas, quem os financia, e o mais importante: quem ganha com a sua existência. Esses grupos dizem lutar por Deus, mas alimentam-se de ouro, tráfico, miséria e abandono. Alguns começaram como movimentos locais de autodefesa. Hoje são milícias transnacionais armadas até aos dentes, em motos ou pickups, com GPS, drones e metralhadoras ocidentais.

Mas a verdade é que não nasceram do nada. Foram produto de décadas de abandono, má governação, manipulação étnica e religiosa, e sobretudo da geopolítica internacional que continua a tratar África como um quintal para jogos de guerra e extração de riquezas.

Esses grupos não surgem do nada. São filhos bastardos da Guerra Fria, do fracasso dos Estados pós-coloniais e das intervenções “humanitárias” que destroem mais do que salvam. A Guerra Civil da Argélia (1990–2002) deixou desertos cheios de combatentes desempregados, que se espalharam. Quando o Mali caiu em golpe em 2012, o Sahel ficou exposto. O deserto tornou-se estrada da morte. Em 2011, a NATO destruiu a Líbia e, as armas circularam livremente. Armas pesadas, mísseis e milhares de soldados tribais dispersaram-se pelo Sahel. As fronteiras coloniais artificiais feitas a régua e compasso por franceses e britânicos facilitaram. Assim nascia o inferno onde também hoje eterniza o norte de Moçambique.

A religião é só a capa. Por dentro, há ouro, urânio, petróleo, tráfico humano e cocaína vinda da América Latina. O Sahel é rota de tudo. E quem controla a rota, controla o poder.

Hoje, grupos “jihadistas” controlam zonas ricas em ouro, urânio, diamantes e tráfico de drogas, enquanto as capitais africanas fingem governar territórios onde nunca colocaram os pés.

Porquê sempre África?

Porque África continua colonizada, mesmo sem colónia. Porque os Estados são frágeis, porque os sistemas de ensino estão em ruínas, porque metade da população é jovem, sem futuro, sem emprego, e a jihad aparece como única via de sentido e redenção.

As fronteiras foram desenhadas com régua por europeus. Dividiram povos, juntaram inimigos, e criaram bombas-relógio. Agora explodem.

África tornou-se o território perfeito para este tipo de guerra porque aqui o Estado é frágil, a educação falida, as forças armadas mal pagas e as comunidades divididas.

As potências coloniais nunca deixaram de facto os seus interesses. Mantêm-se presentes nos negócios de segurança, petróleo, mineração e consultoria militar. Precisam de zonas instáveis para justificar presenças militares e negócios opacos.

Aqui, o jovem não sonha com a universidade. Sonha com uma Kalashnikov e a promessa de salário mensal ou virgindades prometidas no paraíso. Num continente onde mais de 60% da população tem menos de 25 anos e vive sem emprego, o terrorismo floresce como planta nativa.

Quem financia? Quem ganha?

Por detrás das siglas jihadistas estão rotas de cocaína sul-americana para a Europa, tráfico de armas da Líbia, e mineração ilegal em zonas sem lei.

Os chamados “extremistas religiosos” controlam minas de ouro e extorquem empresários locais.

Vendem segurança onde o Estado não chega. Alguns governos africanos mantêm acordos secretos para evitar ataques a certas áreas.

Ninguém sustenta uma guerra por décadas sem dinheiro. Os financiadores vêm do tráfico de drogas, do resgate de sequestros, da mineração ilegal. Mas também de grandes silêncios: de Estados que fingem não ver, de multinacionais que exploram recursos em zonas de conflito, de alianças que usam os grupos armados como peões em jogos maiores.

Companhias internacionais de segurança, empresas de exploração de recursos naturais e traficantes internacionais movimentam milhões com esta instabilidade.

E, claro, países estrangeiros mantêm bases militares sob o pretexto de combater o terror — quando o verdadeiro interesse é garantir acesso estratégico a recursos e controlar rotas comerciais.

Em África a morte tem patrocinadores. A miséria tem acionistas. No fundo, este terrorismo é a versão moderna da lógica colonial: dividir para reinar, enfraquecer Estados africanos, garantir zonas de instabilidade que justificam interferência externa e impossibilitam o crescimento de governos fortes.

Essa guerra é também filosófica. Ela reatualiza o controlo colonial sob nova roupagem. A miséria programada, o caos funcional, o terrorismo como estratégia de contenção populacional.

Matam-se jovens pobres para que o sistema rico sobreviva.

A religião é instrumentalizada. A identidade é manipulada. A violência torna-se o idioma das relações internacionais. E o africano comum, sem voz, é o sacrifício contínuo em nome de uma ordem que nunca o inclui.

A religião é apenas um pretexto. O verdadeiro motor desta guerra é económico e político.

As populações locais tornam-se prisioneiras entre o exército nacional corrupto, mercenários privados e jihadistas, sem saber quem é o inimigo e quem é o salvador.

Nestes estados de conflitos os chefes dizem que combatem o terrorismo. Mas o que se vê é militarização, censura e países onde jornalistas e ONG são impedidos de reportar. As mortes desaparecem dos comunicados. A dor é apagada dos discursos oficiais.

As juntas militares não são solução. São mais um sintoma. A população continua refém. Sem Estado, sem proteção, sem futuro.

E se gritássemos mais alto?

Chega de silêncios. Chega de aceitar que a África seja o palco perpétuo da dor do mundo.

Precisamos de mais vozes. Precisamos de intelectuais que falem, de escritores que denunciem, de estudantes que pensem.

A maior tragédia africana não é só a violência. É o silêncio intelectual e académico cúmplice.

Universidades discutem teorias europeias enquanto aldeias desaparecem. Escritores e filósofos calam-se para não incomodar governos militares ou embaixadas financiadoras.

África precisa de uma geração que denuncie, que acuse, que escreva, que nomeie os mentores desta guerra invisível.

Que diga alto: não é guerra santa, é guerra pelo ouro, pela droga e pelo controlo geopolítico. E que convoque a filosofia, a história, a antropologia e a política para desmontar esse teatro macabro.

A guerra invisível é real. E só deixará de existir quando a pensarmos de frente, quando a nomearmos, quando a desmontarmos. Porque o terrorismo é uma construção. E tudo o que é construído pode ser demolido. John Kanumbo – Moçambique in “O País”


domingo, 19 de janeiro de 2025

África - A colossal barragem que pode ‘destruir’ uma nação milenar e secar o maior rio do mundo

Não há um país no mundo que dependa tanto de um rio como o Egipto do Nilo: e num mundo cheio de conflitos, o grande medo do Cairo não é um exército estrangeiro ou terroristas, mas sim a água, em particular uma possível escassez. Essa preocupação é real há pouco mais de uma década, isto porque, no coração do Nilo Azul, nas terras altas da Etiópia, está a Grande Barragem do Renascimento Etíope (GERD), uma obra monumental que encarna as aspirações de desenvolvimento de um país e, ao mesmo tempo, o epicentro das tensões geopolíticas entre duas potências regionais que agora estão ‘condenadas’ a entender-se.



Este titã de betão, com uma capacidade de armazenamento de 74 mil milhões de metros cúbicos e uma potência hidroelétrica de 6450 megawatts, promete transformar a economia etíope, mas ao mesmo tempo ameaça perturbar o delicado equilíbrio abastecimento de água do Nilo, o rio que tem sido a força vital do Egipto durante milénios.

O arranque dos trabalhos neste colossal projeto deu-se em 2013, sendo que a tensão entre Egipto e Etiópia já era palpável: afinal, tratam-se de duas das maiores e mais populosas economias de África – o Cairo solicitou veementemente a interrupção das obras, uma vez que boa parte dos seus 112 milhões de habitantes necessitam do rio Nilo – e do seu caudal atual – para viver. A Etiópia defendeu que precisa da barragem para gerar a energia de que os seus 126 milhões de habitantes necessitam.

No final de 2023, a Etiópia anunciou com grande orgulho que o enchimento da barragem tinha sido concluído, ultrapassando obstáculos e enfrentando duras ameaças do Egipto e do Sudão, que temem que a barragem afete os níveis das águas do Nilo. Exigiram que Adis Abeba, a capital da Etiópia, deixasse de as encher até que se chegasse a acordo sobre os mecanismos para o fazer. Não só o enchimento foi concluído, como em 2024 a construção foi concluída e foram acionadas duas turbinas, com capacidade para gerar 400 megawatts cada. Estas turbinas juntaram-se a outras duas já em funcionamento, que geraram 375 megawatts cada, perfazendo um total de 1550 megawatts.

A GERD é a maior barragem de África e já está entre as maiores do mundo. O seu muro de 145 metros de altura e 1,8 quilómetros de comprimento, frisou a publicação espanhola ‘El Economista’, é um colosso concebido para gerar electricidade suficiente para abastecer toda a Etiópia e exportar energia para os países vizinhos. Para Adis Abeba é um símbolo de orgulho nacional e de autossuficiência, para o Cairo um risco existencial.

“Para os egípcios, a construção da barragem é uma questão que ameaça a sua existência: um dos exemplos mais claros de um país que é prisioneiro da geografia. O Nilo é a força vital do país e do seu povo”, indicou o escritor e especialista em geografia e geopolítica, Tim Marshall. Ou seja, se a Etiópia decidir fechar a torneira por necessidade ou por ameaça, isso poderá significar o fim do seu vizinho. “Não é que a Etiópia pretenda fechá-la completamente, mas terá capacidade para o fazer”, sustentou o especialista, algo mais do que suficiente para manter os egípcios acordados durante a noite.

“O Egipto é um país em grande parte desértico, pelo que 95% dos seus 112 milhões de habitantes vivem nas margens do delta do rio. O Cairo teme que a mera retenção de 10% da água, por apenas alguns anos, deixe desempregados cinco milhões de agricultores, reduzir a produção agrícola para metade e desestabilizar ainda mais o país”, afirmou Marshall.

Conflito faraónico

A tensão entre a Etiópia e o Egipto sobre o controlo do Nilo não é nova. Desde os tempos faraónicos que as águas deste rio têm sido alvo de disputas e alianças. No entanto, a Grande Barragem levou esta questão a um nível febril. As negociações, mediadas por organizações internacionais e países vizinhos, têm progredido lentamente, com acordos temporários que não respondem às preocupações fundamentais de cada nação.

A Etiópia insiste que tem o direito de utilizar os recursos hídricos para o seu desenvolvimento, referindo que mais de 60% da sua população não tem acesso à eletricidade. O Egipto, por seu lado, exige garantias de que o enchimento e o funcionamento da barragem não comprometerão as suas necessidades de água, especialmente durante os períodos de seca.

Neste complexo panorama, o Sudão desempenha um papel crucial como país intermediário entre a Etiópia e o Egipto. Embora o Sudão possa beneficiar desta grande barragem através de um melhor controlo das cheias e de eletricidade mais barata, também teme os efeitos adversos da gestão unilateral da água por parte da Etiópia.

A diplomacia tentou atenuar estas tensões, mas com resultados limitados. As Nações Unidas, a União Africana e países como os Estados Unidos mediaram as negociações, mas os acordos alcançados até agora foram frágeis e temporários. O Egipto alertou que “todas as opções estão em cima da mesa” se não for garantido um caudal de água adequado, o que inclui implicitamente a possibilidade de conflito armado. In “Executive Digest” - Portugal