Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)
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quarta-feira, 18 de março de 2026

Internacional - Projeto Europeu REENFORCE impulsiona Agricultura Sustentável e Inovação em Coimbra

O setor agrícola europeu enfrenta o desafio crítico de conciliar a eficiência produtiva com a preservação da biodiversidade e a redução do impacto ambiental. Para responder a esta urgência, Portugal integra o consórcio internacional do projeto REENFORCE, uma iniciativa apoiada pelo programa Horizon Europe da União Europeia.


O projeto REENFORCE foca-se no desenvolvimento de soluções de baixo risco e base biológica para a proteção de culturas, utilizando técnicas de pulverização inteligentes e tecnologia de precisão para minimizar o uso de fitofarmacêuticos convencionais. Coordenado pela Agricultural University of Athens, o consórcio reúne instituições de referência da Grécia, Portugal e Bélgica.

A Clover Strategy, empresa sediada na Incubadora do Instituto Pedro Nunes (IPN), assume um papel central nesta parceria. Sendo a única empresa em Portugal com o reconhecimento de Boas Práticas de Laboratório para estudos de toxicidade ambiental em organismos terrestres e aquáticos, a Clover Strategy reforçará a sua capacidade científica através deste projeto.

Até 2029, a empresa participará num ambicioso programa de intercâmbio, prevendo o envio de colaboradores para missões na Bélgica e Grécia, e o acolhimento de especialistas nas suas instalações em Coimbra.

O REENFORCE assenta num modelo de destacamentos temporários entre os parceiros, visando: troca de conhecimento: promover a colaboração direta entre universidades e empresas; formação especializada: capacitação em gestão de I&D e competências científicas; e empregabilidade: reforçar a carreira dos investigadores e a ligação entre a academia e a indústria.

"O projeto REENFORCE é apoiado pelo programa Horizon Europe da União Europeia, no âmbito da ação HORIZON-WIDERA-2024-TALENTS-03". Esta iniciativa reforça a transição da Europa para uma bioeconomia resiliente e competitiva, posicionando Coimbra e o ecossistema do IPN na vanguarda da inovação tecnológica aplicada à sustentabilidade.

Sobre a Clover Strategy: Sediada na Incubadora do Instituto Pedro Nunes (IPN), a Clover Strategy é especialista em serviços de ecotoxicologia e avaliação de risco ambiental, detendo certificações únicas no mercado nacional para estudos de toxicidade em diversos organismos. Instituto Pedro Nunes - Portugal


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Internacional - Estudo mostra que a preferência das aves por frutos raros é importante para a manutenção da biodiversidade

Um estudo internacional, liderado pelo Centro de Ecologia Funcional (CFE) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), concluiu que a preferência das aves frugívoras por frutos raros desempenha um papel fundamental na manutenção da diversidade de plantas.


Com base em dados recolhidos de forma sistemática, ao longo de 12 anos, numa floresta em Coimbra, investigadores das universidades de Coimbra, Porto (Associação BIOPOLIS) e Córdoba (Argentina), analisaram de que forma a composição nutricional e energética dos frutos e a densidade de outras plantas influenciam as escolhas alimentares das aves e os serviços que estas prestam na dispersão de sementes.

Os resultados, publicados na revista científica Current Biology, mostram que as aves frugívoras preferem frutos raros, com características nutricionais mais distintivas em relação à vizinhança. Os especialistas verificaram, ainda, que as plantas beneficiam da proximidade de outras plantas com frutos, uma vez que assim conseguem atrair mais aves dispersoras de sementes para a mesma área.

«Esta preferência que as aves têm para comer frutos raros e dispersar as suas sementes mostram a importância das interações entre as espécies para a diversidade das plantas», considera Guadalupe Peralta, primeira autora do estudo e investigadora do Instituto Multidisciplinario de Biología Vegetal, CONICET, da Universidad Nacional de Córdoba.

A investigação fornece a primeira evidência empírica de que a tendência das aves para complementarem as suas dietas com nutrientes e frutos raros é um mecanismo importante para favorecer a dispersão de sementes das espécies localmente raras, contribuindo assim para a manutenção da biodiversidade vegetal à escala regional.

«É extraordinário que o simples facto de as aves tentarem diversificar a sua dieta, consumindo os frutos mais raros e estranhos que encontram, ajude essas plantas a não serem eliminadas por outras mais comuns e competitivas. Num certo sentido isto faz das aves as defensoras dos fracos e oprimidos na natureza e zeladoras da biodiversidade», realça Ruben Heleno, professor do Departamento de Ciências da Vida da FCTUC e investigador do CFE. Universidade de Coimbra - Portugal


quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Reino Unido - Novo estudo conclui que parques solares bem administrados podem ajudar a impulsionar populações de abelhas que estão em declínio

Estudo mostra que os parques solares podem fornecer um habitat para abelhas


As abelhas são cruciais para os ecossistemas. Elas polinizam plantas e plantações selvagens, mantendo os habitats saudáveis.

Mas muitas populações na Europa estão a diminuir devido às alterações climáticas e à perda de habitat.

Um novo estudo, publicado na Global Change Biology, analisa como os parques solares podem ajudar na conservação de abelhas no Reino Unido.

Por que as abelhas estão em declínio?

As populações de abelhas estão a diminuir globalmente.

Um estudo de 2023 na Nature projetou que cerca de 38 a 76 por cento das espécies de abelhas europeias atualmente classificadas como "Menos Preocupantes" devem sofrer perdas de pelo menos 30 por cento de território ecologicamente adequado entre 2061 e 2080. 2024 também foi o pior ano para as abelhas no Reino Unido, de acordo com o Bumblebee Conservation Trust.

Há uma série de fatores em jogo: mudanças no uso da terra, agricultura intensiva, espécies invasoras e doenças infecciosas afetam os polinizadores como as abelhas.

As alterações climáticas também desempenham um papel: intensificam condições climáticas extremas que podem ameaçar os habitats das abelhas e perturbar os ciclos de vida.

O habitat oculto da energia solar

Neste estudo, que se acredita ser o primeiro a investigar o papel dos parques solares na conservação da biodiversidade no futuro, os investigadores queriam ver como as abelhas se sairiam com esses parques. Esses parques podem oferecer uma oportunidade para a criação de habitat para a vida selvagem e contribuir tanto para a energia de baixo carbono quanto para a recuperação da natureza.

Os investigadores analisaram 1042 parques solares em operação na Grã-Bretanha, criando um modelo de alta resolução para simular a alimentação e a dinâmica populacional das abelhas. Isso permitiu prever a densidade de abelhas dentro e ao redor dos parques solares do Reino Unido, além de levar em conta os efeitos de diferentes cenários futuros, como mudanças no contexto e na configuração do habitat.

“O modelo prevê como as abelhas usam essas paisagens com base em recursos de forrageamento e nidificação”, afirma a Dra. Hollie Blaydes, Investigadora Associada Sénior da Universidade de Lancaster e primeira autora do estudo. “Esse aspecto do trabalho foi particularmente inovador – é incomum que uma modelagem como essa seja feita com tantos detalhes.”

A modelagem sugere que o número de abelhas em parques solares pode mais que dobrar se elas forem orientadas visando a biodiversidade. As flores silvestres nos parques fornecem uma rica fonte de alimento, especialmente em comparação com a relva.

Um “refúgio” para abelhas

Os efeitos de "impulsionamento das abelhas" do manejo de parques solares foram em grande parte limitados aos dos próprios parques. Ao forragear ao redor das centrais solares, as mudanças na paisagem tiveram um impacto maior nas densidades de mamangavas, o que, segundo os autores, sugere que "um único parque solar isolado geralmente não neutralizou a influência de mudanças mais amplas no uso da terra esperadas em cenários futuros". 

Mas, como muitos países constroem parques solares para cumprir compromissos de energia renovável, os autores insistem que eles devem considerar a “localização estratégica” para conectar habitats de zangões.

“Os parques solares podem ser refúgios para as mamangavas hoje e no futuro e podem contribuir para a mitigação da perda de habitat – se bem geridos”, afirma Blaydes. “Mas os parques solares por si só não serão capazes de neutralizar os efeitos de todas as futuras mudanças no uso da terra sobre as mamangavas e outras espécies da biodiversidade.” Euronews.green


sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Portugal - Cientistas descobrem que algas marinhas são um poderoso reservatório de carbono nas florestas marinhas

Cientistas alertam que as alterações climáticas estão a ameaçar a capacidade das algas de armazenar carbono e sustentar a biodiversidade


Cientistas descobriram que florestas marinhas na costa norte de Portugal desempenham um papel importante na captura e armazenamento de carbono.

A pesquisa pioneira vem do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR) e do Centro de Ciências Marinhas e Ambientais (MARE) de Portugal.

Pela primeira vez, investigadores mediram a quantidade de carbono sequestrado por algas marinhas nesses ecossistemas subaquáticos.

Mas eles alertam que as alterações climáticas estão a ameaçar a sua capacidade de armazenar carbono e sustentar a biodiversidade.

As florestas de algas marinhas de Portugal demonstram uma notável capacidade de armazenamento de carbono

O estudo, publicado na revista Scientific Reports, concentra-se nas duas espécies de algas predominantes ao longo da costa norte de Portugal: Laminaria hyperborea e Saccorhiza polyschides.

As florestas de algas marinhas são fundamentais para sustentar a biodiversidade marinha e a produtividade dos ecossistemas na área.

"Esses habitats são comuns na costa norte de Portugal, onde existem condições únicas para o seu desenvolvimento, e representam a fronteira mais meridional para algumas das espécies aqui encontradas", explica Francisco Arenas, do CIIMAR, que coliderou o estudo.

A pesquisa marcou a primeira análise quantitativa das reservas de carbono nos habitats de algas do norte de Portugal por meio de pesquisa de campo abrangente, medindo distribuição, densidade de biomassa, padrões de crescimento e composição de carbono.

"Foi a primeira avaliação do valor do carbono azul associado às florestas de algas em Portugal", diz Arenas.

As descobertas revelam que esses ecossistemas armazenam aproximadamente 16,48 gigagramas (Gg) de carbono em 5189 hectares — uma área equivalente a mais de 5000 campos de futebol.

Apesar de ocuparem um território relativamente modesto em escala global, essas florestas de algas marinhas podem capturar carbono numa escala semelhante ou maior do que ecossistemas mais extensos.

A quantidade de carbono armazenada por esses habitats de algas representa 14% do inventário de carbono azul documentado de Portugal, anteriormente limitado a pântanos salgados e pradarias de ervas marinhas.

As florestas marinhas de Portugal estão em risco devido às alterações climáticas

Estima-se que essas florestas de algas marinhas capturem um terço de todo o carbono sequestrado anualmente pelos habitats de plantas marinhas de Portugal.

Apesar disso, os cientistas por trás do estudo dizem que a contribuição das florestas marinhas para os esforços de mitigação climática tem sido historicamente negligenciada.

Eles são "frequentemente desconhecidos e subvalorizados, apesar do seu valor ecológico e económico extremamente importante na costa norte de Portugal", diz Arenas.

Além disso, essas florestas marinhas estão sendo ameaçadas pelas alterações climáticas.

“Já foi detetado um processo de tropicalização nas águas portuguesas , que coloca em risco a biodiversidade associada, bem como os serviços ecológicos que estas florestas prestam, incluindo a capacidade de capturar e armazenar carbono, conhecido como carbono azul, contribuindo para a mitigação das alterações climáticas”, acrescenta Arenas.

A tropicalização é um fenômeno ecológico global em que o aquecimento das temperaturas do mar está permitindo que espécies tropicais e subtropicais expandam seu alcance em direção aos polos.

A pesquisa propõe políticas direcionadas para vigilância, proteção e potencial restauração dessas zonas, enfatizando sua dupla importância como repositórios de carbono e habitats marinhos críticos.

Dada a emergência climática atual, os investigadores defendem a incorporação de florestas de algas marinhas em estruturas de proteção marinha e carbono azul como prioridades nacionais e internacionais.

"Com a Lei de Restauração da Natureza da União Europeia nos seus estágios iniciais de implementação, é urgente desenvolver e implementar técnicas eficazes de restauração ecológica, particularmente em habitats que são altamente vulneráveis, mas também têm alto potencial para fornecer serviços ecossistémicos, como florestas marinhas", diz Arenas. Euronews.green


sexta-feira, 23 de maio de 2025

Papua Nova-Guiné - O rato gigante do Monte Wilhelm

Se tem medo de ratos, então este texto não é para si. Após seis meses de expedição à ilha tropical da Nova Guiné, František Vejmělka, um cientista checo conseguiu captar, pela primeira vez, imagens do enigmático “rato-lanudo subalpino”, uma espécie rara que pode atingir até 85 centímetros de comprimento e pesar cerca de 2 quilos — o triplo do tamanho de um rato comum.



Com o nome científico Mallomys istapantap, este roedor distingue-se pelos seus pelos mais grossos, garras com cerca de 8 centímetros e dentes afiados. Vive exclusivamente em zonas montanhosas e remotas do Monte Wilhelm a cerca de 3700 metros de altitude. Trata-se de um animal noturno, herbívoro, que passa o dia escondido em tocas subterrâneas ou nas copas das árvores.

A espécie foi descrita cientificamente em 1989, com base em espécimes preservados em museus. Ainda não havia registos fotográficos — até à expedição conduzida por František Vejmělka, da Academia de Ciências da República Checa, que conseguiu finalmente captá-la em fotografia e vídeo. Como refere uma nota do Biology Centre CAS, além das primeiras fotos e vídeos, o cientista também registou as primeiras medições biométricas de machos e recolheu dados sobre a dieta, parasitas, padrões de atividade, movimento e outros aspetos do estilo de vida do animal.

“É surpreendente que um animal com estas dimensões e características tenha permanecido praticamente desconhecido da ciência”, afirmou o investigador ao jornal Daily Mail. “Quantas espécies ainda estarão por descobrir nas florestas tropicais de altitude?”, questionou.

“Se não fossem os caçadores indígenas que me acompanharam nas montanhas e me ajudaram a localizar os animais, jamais teria conseguido recolher estes dados”, diz Vejmělka na nota do Centro de Biologia. Durante a sua expedição trabalhou em estreita colaboração com diversas tribos locais enquanto pesquisava a diversidade de mamíferos do Monte Wilhelm (4509 m), o pico mais alto de Papua-Nova Guiné, da base ao cume.

Documentou e identificou geneticamente 61 espécies de mamíferos não voadores (roedores e marsupiais) encontrados ao longo da montanha.

A descoberta foi publicada na revista científica Mammalia e representa um contributo significativo para o conhecimento da biodiversidade ainda inexplorada das zonas montanhosas tropicais da Nova Guiné. In Sustentix” - Portugal

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

São Tomé e Príncipe - Abriga reunião sobre reservas da biosfera da Unesco

Ao todo, são 24 reservas em seis países de língua portuguesa. O evento que conta com a presença do primeiro-ministro do país africano termina nesta sexta-feira na Ilha de Príncipe



Representantes de um grupo de países que falam a língua portuguesa estão reunidos em São Tomé e Príncipe, esta semana, para debater temas ligados aos ecossistemas da Terra.

O 3º Encontro da Rede das Reservas da Biosfera da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, Unesco, ocorre no contexto da CPLP, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, que tem sede em Lisboa, Portugal.

Grupo inclui 196 milhões de hectares de biodiversidade

O novo primeiro-ministro são-tomense, Américo d’Oliveira dos Ramos, discursou esta terça-feira na reunião, que ocorre na Ilha de Príncipe.

Especialistas, representantes das Reservas da Biosfera e outros convidados devem refletir sobre o papel da biodiversidade em países lusófonos como Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe.

Segundo a Unesco, a Rede Temática do Programa Homem e Biosfera (MAB) foi aprovada em julho passado.

A Rede inclui 196 milhões de hectares que beneficiam mais de 104 milhões de pessoas que vivem nesses territórios.

Angola, Timor-Leste e Guiné-Equatorial querem entrar na Rede

Na semana passada, São Tomé e Príncipe realizou a 10ª Reunião dos Ministros do Meio Ambiente da CPLP e analisou a expansão do grupo com Angola, Timor-Leste e a Guiné-Equatorial, os demais integrantes do bloco.

Um dos temas a serem debatidos é sobre o turismo sustentável e a conservação da biodiversidade nos países do grupo.

O III Encontro da Rede das Reservas da Biosfera da Unesco na CPLP termina nesta sexta-feira. ONU News – Nações Unidas


sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Brasil - Degradação da Amazônia ameaça o clima global e a biodiversidade

O relatório internacional “Dez novas percepções sobre o Clima”, com a contribuição do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), destaca que a Amazônia está perdendo sua capacidade de regular o ciclo da água e remover carbono da atmosfera, o que pode ter impactos catastróficos em escala global.



A degradação da floresta, impulsionada por fatores como fogo, extração de madeira, expansão agrícola, construções e eventos climáticos extremos, reduzem a resiliência do bioma.

Perda de capacidade de remoção de carbono:

A Amazônia, que em 2022 acumulava 47,2 bilhões de toneladas de carbono em sua vegetação, já perdeu mais de 10,6 bilhões de toneladas devido à degradação. A diminuição da capacidade da floresta de absorver CO2 contribui para o aumento do aquecimento global. Estudos apontam que áreas de floresta impactadas pelo fogo de forma reiterada têm uma redução de até 68% na capacidade de conter dióxido de carbono (CO₂) na biomassa da vegetação. Queimadas únicas já reduzem em cerca de 50% o estoque de carbono nas áreas afetadas.

Impacto no ciclo da água:

A Amazônia regula 16% da água do planeta. A degradação da floresta afeta sua capacidade de influenciar os padrões de chuva na América do Sul por meio da evapotranspiração, prejudicando o clima regional. A fumaça das queimadas, por sua vez, pode reduzir a umidade liberada pela floresta, impactando os “rios voadores” que levam umidade para outras regiões.

Risco de colapso e savanização:

A continuidade da destruição da Amazônia pode levar a um ponto sem retorno, transformando-a em uma savana empobrecida. A perda de resiliência da floresta a torna mais vulnerável à seca, que se intensifica com o aquecimento global. Pesquisadores observam que, em vez de se transformar em uma savana, a floresta amazônica está se tornando uma floresta secundária, mais pobre e com menos estoque de carbono. As espécies florestais, mais sensíveis, são as mais afetadas pelo fogo, com risco de extinção local.

Ameaças à biodiversidade:

A Floresta Amazônica abriga uma diversidade única de espécies, e a perda de resiliência coloca em risco essa rica biodiversidade. O empobrecimento da floresta causado pelo fogo compromete serviços ecossistêmicos cruciais, como a regulação da chuva, o sequestro de carbono e a polinização.

Fatores de degradação e urgência de ação

Os principais fatores que contribuem para a perda de resiliência da Amazônia incluem a extração de madeira, queimadas, a proximidade a atividades humanas e secas. A combinação de extração de madeira e queimadas causa estresse na floresta, diminuindo sua capacidade de recuperação. As áreas mais próximas a estradas e assentamentos humanos são mais vulneráveis.

A realidade no Brasil é de um enfraquecimento das leis ambientais e da fiscalização, favorecendo a exploração ilegal de terras e o agronegócio predatório. O desmatamento, combinado com o fogo, torna-se um processo irreversível.

Medidas necessárias

O relatório e outras pesquisas apontam para a urgência de ações para proteger a Amazônia. É fundamental:

  • Fortalecer leis ambientais para combater a degradação em todos os países da Amazônia.
  • Continuar financiando programas de monitoramento e rastreamento de commodities.
  • Apoiar povos indígenas e comunidades locais no desenvolvimento de uma economia sustentável.
  • Priorizar a proteção da Amazônia com medidas robustas de preservação.
  • Promover uma economia que valorize os serviços ecossistêmicos da floresta, incentivando cadeias produtivas sustentáveis.
  • Limitar o desmatamento e as emissões de gases de efeito estufa.

Apesar da gravidade da situação, ainda há tempo para reverter a tendência de degradação da Amazônia. A colaboração internacional é essencial, pois o colapso da Amazônia afetaria não apenas o Brasil, mas o mundo todo.

A pergunta não é apenas quão perto estamos do colapso, mas o que estamos dispostos a fazer para evitá-lo. InEcoDebate” - Brasil


sábado, 4 de janeiro de 2025

Camarões - Biólogo luta para salvar peixes-boi africanos

Desde as suas primeiras observações no lago Ossa, em Camarões, o doutor em biologia marinha Aristide Takoukam Kamla luta para proteger os peixes-boi da África, uma espécie desconhecida e ameaçada, presente nas águas doces da costa oeste do continente



Para poder observar estes discretos mamíferos marinhos, é preciso esperar o amanhecer, quando a superfície do lago está plana como um espelho, seguir o rastro de bolhas e aguardar o animal subir para respirar.

Há mais de 10 anos, quando era estudante e investigador na Universidade de Dschang, em Camarões, Takoukam teve que remar por um longo tempo antes de conseguir ver estes habitantes das profundezas do lago.

“Esperava vê-los como no YouTube: em águas claras, saltando como golfinhos… uma ideia totalmente surrealista” vinda dos vídeos de peixes-boi da Flórida, muito diferentes dos africanos, explica o doutor em biologia de 39 anos com um sorriso no rosto.

Foi graças aos pescadores locais que ele aprendeu a avistar esses mamíferos, também conhecidos como vacas marinhas, nos 4500 hectares de águas sombreadas do Lago Ossa, localizado num parque natural no sudoeste de Camarões.

Agora, o peixe-boi africano é “seu animal favorito” e o tema do seu doutoramento na Universidade da Flórida, que em 2024 lhe rendeu o Prémio Whitley, a mais alta distinção no campo da conservação da biodiversidade.

Mistérios

Ao retornar de uma expedição com Takoukam, a investigadora americana Sarah Farinelli foi às lágrimas ao avistar cinco espécimes, incluindo uma fêmea acompanhada do seu filhote.

“É muito! Há alguns lugares na África onde é impossível vê-los”, explica a cientista que estuda estes animais na Nigéria.

Essa indefinição envolve estes animais em mistério: quantos Trichechus senegalensis existem nos Camarões, qual é a expectativa de vida deles, quando e para onde eles migram?

Eles habitam a costa oeste da África, entre a Mauritânia e Angola, mas “é uma espécie muito pouco estudada, em torno da qual ainda há muitos mistérios”, diz Takoukam.

Considerado “vulnerável”, este grande herbívoro marinho está na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Takoukam Kamla, fundador de uma organização de proteção de mamíferos marinhos na África (AMMCO), acredita que essa classificação da IUCN subestima “o status real desta espécie, que é alvo de caça ilegal” e cujo habitat está “constantemente ameaçado”.

No Lago Ossa, o único predador do peixe-boi é o homem. Há alguns anos, o peixe-boi ao molho era um prato comum em Dizangué, a cidade que reúne as vilas de pescadores nas margens do lago.

Agora a sua pesca é proibida, o prato desapareceu dos cardápios e uma estátua de gesso azul celebra a existência do animal. No entanto, as ameaças persistem.

Navegando por um rio local, Aristide aponta para uma refinaria artesanal de óleo de palma que despeja resíduos diretamente na água e polui o lago.

Pouco depois, ele discute indignado com um pescador que estendeu uma rede que poderia pegar um pequeno peixe-boi.

“Somos moradores locais, vivemos disso e nunca tivemos que suportar proibições em nossa casa”, protesta o pescador idoso sentado numa canoa. “Se quiserem nos impor proibições, terão que nos pagar todo mês”, insiste ele.

Unidos contra uma planta invasora

A relação entre cientistas e comunidades locais com práticas ancestrais de pesca não é fácil. No entanto, uma catástrofe em 2021 aproximou os dois mundos.

Uma planta invasora, a salvínia gigante, foi descoberta no meio do lago e o tornou inabitável tanto para os peixes quanto para os peixes-boi.

Os cientistas iniciaram uma “batalha biológica” usando gorgulhos “cyrtogabous salviniae”, um inseto microscópico que se alimenta apenas de salvínia, e pediram ajuda aos pescadores.

“Eles pegavam a salvínia infestada de gorgulhos e a espalhavam pelo lago”, lembra Thierry Aviti, pesquisador da AMMCO, a organização fundada por  Takoukam.

Depois de três anos, a planta praticamente desapareceu. “Chegou um momento em que não aguentávamos mais, mas eles mantiveram as suas promessas”, diz Thierry Bossambo, um pescador de Dizangué, ainda traumatizado pelos longos períodos sem pesca.

Aristide baseia-se nessa “relação de confiança” com os pescadores para evitar uma “ciência de paraquedas”, desvinculada das realidades locais.

Ele também quer desenvolver um circuito de ecoturismo para deter os caçadores ilegais. Para Gilbert Oum Ndjocka, guarda-florestal do parque nacional Douala-Edea, essa é uma “prioridade” para que “todas as partes interessadas sejam aliadas na conservação”. In “Plataforma” - Macau


sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Internacional - O método japonês de “microfloresta” está a transformar as cidades

As nossas cidades estão poluídas e superlotadas, mas plantar árvores em espaços urbanos pode aumentar a biodiversidade e criar espaços para a vida selvagem no futuro



Entre as ruas movimentadas, parques e centros comerciais, uma transformação verde está silenciosamente em andamento, trazendo a natureza de volta à expansão urbana das cidades. Microflorestas, pequenas áreas de árvores florestais densamente plantadas, estão a ser plantadas em todos os lugares, de Londres a Los Angeles. 

Mas o que são elas e como podem melhorar as nossas metrópoles construídas? 

O que são microflorestas e por que precisamos delas?

Mais de 420 milhões de hectares de floresta foram perdidos para outros usos desde 1990, de acordo com o Relatório sobre o Estado das Florestas do Mundo de 2020 da ONU.

Com mais de 85% da população mundial vivendo em áreas urbanas, as microflorestas nas cidades oferecem uma oportunidade essencial para combater o desmatamento.

A Técnica da Floresta Miyawaki, inventada pelo botânico e especialista em ecologia vegetal japonês, professor Akira Miyawaki, na década de 1970, é a inspiração para microflorestas em todo o mundo. 

Estas pequenas florestas orgânicas e diversas podem ser criadas em locais tão pequenos quanto nove metros quadrados, e usam apenas espécies nativas que, de outra forma, cresceriam naturalmente na área de plantio. Elas crescem até 10 vezes mais rápido do que florestas de monocultura, em apenas duas a três décadas.

Desde que o trabalho de Miyawaki começou, mais de 280 microflorestas foram plantadas.

A ONG Earthwatch Europe plantou 285 pequenas florestas desde 2022. Os seus lotes, compostos por 600 árvores, podem atrair mais de 500 espécies de animais e plantas nos primeiros três anos. Os locais incluem um campo desportivo e um parque em Haringey, no norte de Londres. Enquanto isso, o 'SUGi', um programa de plantio de árvores que visa restaurar a biodiversidade e reintroduzir espécies nativas, criou 230 'florestas de bolso' em 52 cidades ao redor do mundo, de Toulouse, França, a Saint George, na Roménia, e Madrid, Espanha.

Como as microflorestas beneficiam o meio ambiente?

Em áreas urbanas poluídas, as microflorestas podem ajudar a restaurar a qualidade do solo, da água e do ar, de acordo com o Woodland Trust . 

O seu pequeno tamanho permite o plantio em espaços urbanos relativamente limitados, muitas vezes aproveitando espaços não utilizados, como playgrounds de escolas, cemitérios e perto de estações de metro. Eles também podem ajudar a reduzir o impacto de chuvas pesadas e a manter cidades e vilas mais frescas.

As microflorestas podem criar mais meios para a vida selvagem nas cidades, como melros ou ouriços. Quando plantadas em camadas distintas, elas também podem desenvolver comunidades de plantas de arbustos e ervas menores, o que permite que as microflorestas se tornem autossustentáveis após apenas três a cinco anos de crescimento. 

“As nossas florestas de bolso oferecem uma infinidade de benefícios”, diz Elise Van Middelem, fundadora e CEO da SUGi.

“Talvez o mais importante, elas podem apoiar o bem-estar positivo das comunidades. De uma perspectiva psicológica, interagir com a natureza reduz o estresse físico e pode melhorar os sintomas de problemas de saúde mental, incluindo ansiedade ou depressão.”

“Elas tornam-se ímãs para a conexão humana . As pessoas descansam durante o calor do dia ou visitam para ler um livro; noutros momentos, a floresta torna-se um lugar de dança, aprendizagem, discussão e lazer. Elas são autossustentáveis em 2-3 anos de um ponto de vista ecológico, mas num nível muito mais profundo, os membros da comunidade tornam-se administradores da própria terra.”

Ela acrescenta: “Elas também impactam positivamente crianças e jovens. 140 das nossas florestas de bolso foram plantadas em escolas junto com quase 80.000 crianças. Plantar florestas de bolso oferece às crianças uma oportunidade única de se envolverem com a natureza e ver que as suas ações podem ter resultados ambientais tangíveis. Envolver a próxima geração com a natureza é essencial, porque para que queiramos proteger e cuidar da natureza, precisamos sentir uma conexão com ela”.

Quais são os desafios do plantio em áreas urbanas?

Apesar dos benefícios das microflorestas urbanas, também há problemas envolvidos no cultivo nas cidades. 

A exposição a poluentes, altas temperaturas e seca pode impedir o crescimento profundo das raízes e aumentar a probabilidade de doenças, de acordo com a Cities4Forests, uma aliança global que apoia a natureza nas cidades. 

Van Middelem também destaca o desafio de ganhar o apoio das comunidades no crescimento de microflorestas: “É necessário envolver efetivamente as partes interessadas na comunidade e obter a adesão dos residentes. Uma floresta de bolso não pode ser plantada sem a aprovação deles”, diz ela. “No entanto, nenhum desses desafios é intransponível.” 

Todas estas são questões devem ser consideradas, mas, com o tempo, as microflorestas podem ajudar a reduzir a poluição nas cidades, além de torná-las lugares mais agradáveis para se viver. Euronews.green


segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Europa – Universidade de Coimbra recebe apoio financeiro para monitorizar a biodiversidade de organismos terrestres em paisagens agrícolas

Uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) recebeu 2 milhões de euros para monitorizar a biodiversidade em paisagens agrícolas representativas do espaço europeu e contribuir com informação relevante para aumentar o realismo da avaliação de risco de pesticidas na Europa.


José Paulo Sousa, docente do Departamento de Ciências da Vida (DCV) e investigador do Centro de Ecologia Funcional (CFE), é o coordenador na UC do projeto internacional “EESE – EU Environmental scenarios for ERA of non-target organisms”.

«Este projeto pretende obter dados sobre a biodiversidade de diferentes grupos de organismos terrestres a nível europeu (organismos de solo, artrópodes, auxiliares, vertebrados e plantas), bem como contribuir para melhorar e tornar mais realista a avaliação de risco de produtos fitossanitários (PFs). Na União Europeia (UE), os documentos-guia que orientam a aprovação e o registo de PFs estão ultrapassados para alguns grupos de organismos, nomeadamente ao nível dos ecossistemas terrestres. Há assim a necessidade de atualizar esses documentos por forma a tornar o esquema de avaliação de risco mais robusto e mais realista», afirma o especialista.

De acordo com José Paulo Sousa, para atingir esse objetivo é necessário saber o que proteger quando um pesticida atinge o ambiente ou que riscos são ou não aceitáveis do ponto de vista ecológico, ou seja, há que definir objetivos de proteção. Nesse sentido, «é preciso definir os cenários ecológicos de determinada área de paisagem agrícola ou agroflorestal em que se utilizam pesticidas ou produtos farmacêuticos, bem como conhecer a biodiversidade em termos de fauna e flora, particularmente as espécies vulneráveis», considera.

Assim, a equipa da FCTUC vai iniciar os trabalhos de campo já no próximo ano. «Vamos monitorizar os ecossistemas terrestres na primavera, verão e outono, incluindo organismos do solo, invertebrados, vertebrados e plantas e obter dados de riqueza e/ou biodiversidade que, juntamente com a composição e estrutura das paisagens a amostrar, possamos contribuir para a construção dos referidos cenários ecológicos representativos que serão utilizados no processo de avaliação de risco do PFs», conclui o investigador.

Para além de liderarem toda a parte da monitorização e avaliação da biodiversidade de diferentes grupos em campo, em áreas de paisagem/cenários espalhados por toda a Europa, os especialistas vão também avaliar a sensibilidade de diferentes espécies de organismos terrestres seguindo uma nova abordagem de avaliação de efeitos ao nível das comunidades de organismos do solo.

O projeto EESE irá decorrer nos próximos quatro anos e integra uma linha estratégia da Autoridade Europeia de Segurança Alimentar que pretende destacar a relevância ecológica na avaliação de risco de pesticidas. Universidade de Coimbra - Portugal


segunda-feira, 2 de setembro de 2024

São Tomé e Príncipe - Pacto do Futuro é muito importante para o país, diz representante da ONU

São Tomé e Príncipe prioriza áreas como a biodiversidade e a transição energética para alargar as opções de desenvolvimento e as capacidades locais para enfrentar as vulnerabilidades.


Falando à ONU News, de São Tomé, o coordenador residente das Nações Unidas no país, Eric Overvest, declarou que a caminho da Cúpula do Futuro há clareza sobre as áreas de fragilidade que devem ser atendidas para melhorar a situação económica do arquipélago.

Consultas sobre reunião global

“Vulnerabilidades ambientais com as alterações climáticas que impactam setores-chave da economia, como por exemplo a agricultura e as zonas costeiras. Vulnerabilidade económica com a dívida grande e a dependência de poucos produtos de exportação. O tamanho da economia é pequeno e há dependência de importações de combustíveis e de produtos alimentares. Temos ainda a vulnerabilidade social, porque a pandemia da Covid-19 e a guerra entre a Ucrânia e a Rússia exacerbaram as vulnerabilidades sociais, sobretudo, devido às taxas de infecção muito altas.”

Este ano, consultas sobre a Cúpula do Futuro envolveram jovens de São Tomé e Príncipe que identificaram o potencial da diversidade biológica. A grande reunião de líderes globais que está agendada para setembro, em Nova Iorque, pretende redefinir o rumo para melhorar o presente e promover segurança no futuro.

“Os setores de crescimento estão todos ligados à biodiversidade com o ecoturismo e as exportações de cacau, da baunilha e do óleo de palma. São produtos certificados como biológicos e ecológicos. É a única maneira de um pequeno país como São Tomé e Príncipe ter competitividade no mercado internacional.”

Para a ONU, a cúpula de líderes é uma oportunidade para reconstruir a confiança e mostrar o poder da colaboração internacional no enfrentamento dos desafios atuais e emergentes.

Soluções para novos desafios

A proposta do Pacto para o Futuro, a ser validadas na cúpula, prevê confirmar a visão da Carta da ONU, renovar o multilateralismo, impulsionar a implementação de compromissos já existentes, acordar soluções para novos desafios e restaurar a confiança.

Para Eric Overvest, mesmo lidando com questões como alterações de clima, peso da dívida e dependência do exterior ainda há espaço na realidade são-tomense para promover a inovação e ação em novas áreas.

“São Tomé e Príncipe está a avançar neste processo, mesmo com recursos nacionais limitados pois estando alinhado ao Acordo de Paris e ao Plano de Contribuições Nacionalmente Determinadas, o país quer que 50% da matriz energética seja composta pelas energias renováveis até 2030. No entanto, o país já espera alcançar 40% da energia renovável até o final do próximo ano e, possivelmente, superar a meta de 50% antes de 2030. Este é um feito significativo considerando que São Tomé e Príncipe com a sua biodiversidade é um sumidouro de carbono.”

Overvest indicou que uma das metas para impulsionar o investimento em São Tomé e Príncipe é empoderar jovens e mulheres.

Qualidade de educação e transformação digital

O representante explicou que muitos são-tomenses de gerações mais novas têm optado por emigrar para outros destinos. Um dos fatores que incentivou o fenómeno foi o Acordo de Mobilidade dos países lusófonos.

A ONU em São Tomé e Príncipe tenta envolver este grupo etário na melhoria da qualidade de educação e transformação digital. Uma rede da juventude foi incluída nas consultas sobre o Pacto do Futuro e para falar de novos investimentos.

O coordenador do Sistema da ONU também defendeu a inclusão de género em terras são-tomenses. Ele ressaltou que o país já sente os efeitos positivos da lei de paridade prevendo 40% de representação do grupo nas instituições políticas e no governo. ONU News – Nações Unidas


segunda-feira, 29 de abril de 2024

Portugal - Cientistas da Universidade do Porto desvendam mistério secular sobre a cor dos cucos

A variação natural característica das espécies encontra-se, por vezes, restrita a um só sexo, criando um enigma ao qual os cientistas há muito procuram resposta. Num novo estudo publicado na conceituada revista científica Science Advances, um consórcio internacional coliderado por investigadores do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (BIOPOLIS-CIBIO) da Universidade do Porto, aplicou ferramentas de genómica de nova geração para estudar um mistério natural com mais de 200 anos – a fêmea de cuco “hepática”. O estudo revela a razão genética que explica o facto de fêmeas de diferentes espécies de cucos possuírem cores muito distintas.


Em 1788, o naturalista sueco Anders Sparrman, um discípulo do famoso Lineu, descreveu uma variedade de cucos arruivados à qual chamou “cuco hepático”, e que considerou tão distinta dos habituais cucos cinzentos que a catalogou como uma nova espécie de ave. Ao longo dos séculos seguintes, tornou-se claro para os naturalistas que os cucos hepáticos eram apenas uma variedade colorida do cuco-canoro europeu mais comum (Cuculus canorus), mas com uma particularidade: enquanto os machos de cuco são sempre cinzentos, as fêmeas podem ser ou cinzentas (semelhantes aos machos), ou ser da variante arruivada, apelidada “hepática”.

Esta descoberta tornou-se mais intrigante quando se descobriu que outras espécies de cuco, para além do mais famoso cuco-canoro europeu, também tinham a mesma variação cinzenta-ou-hepática restrita às fêmeas.

A cor é essencial para o estilo de vida parasítico dos cucos: a fêmea dispõe apenas de segundos para pôr os seus ovos nos ninhos de outras aves; para o fazer, o seu dorso cinzento e o peito barrado mimetizam a cor de aves de rapina como o gavião, afugentando temporariamente o hospedeiro. Os cientistas têm-se por isso debatido com várias questões: qual é a razão para esta cor alternativa, porque é que apenas as fêmeas são variáveis, e porque é que tantas espécies de cucos mostram esta variação?

“As diferenças de aspeto entre indivíduos de sexos diferentes são comuns em animais, mas variação que é restrita a um sexo é muito menos comum” explica Miguel Carneiro, investigador principal no BIOPOLIS-CIBIO e um dos autores do estudo.

“Um exemplo é a perda de cabelo com a idade, que afeta alguns homens e outros não, mas que não afeta as mulheres. Exemplos como este não são habituais, em particular em espécies selvagens, por isso esta oportunidade de estudar a variante hepática do cuco foi muito aliciante”, acrescenta o investigador.


A chave está numa mutação com cerca de 1 milhão de anos

“Nós começamos por estudar uma população de cucos da Hungria na qual as fêmeas hepáticas coexistem com fêmeas cinzentas,” descreve Cristiana Marques, coautora principal do estudo e estudante do doutoramento em Biodiversidade, Genética e Evolução da Faculdade de Ciências da U.Porto (FCUP), a desenvolver o seu projeto no BIOPOLIS-CIBIO.

Depois de os cientistas descodificarem os genomas dos cucos, encontraram algo estranho: “as fêmeas cinzentas e hepáticas têm um perfil genético comum, tão semelhantes como qualquer vizinho. No entanto, quando olhamos para os cromossomas sexuais, vimos que, no cromossoma W, que é um cromossoma específico das fêmeas de aves, eram tão diferentes que parecia que estávamos a olhar para duas espécies distintas”, explica a investigadora.

Será que as outras espécies de cuco poderiam ajudar a resolver esta questão? Os investigadores focaram-se, de seguida, no cuco-oriental, uma espécie asiática na qual as fêmeas também por vezes são da variante hepática. Quando consideraram a informação genética das duas espécies, a história das fêmeas hepáticas tornou-se mais clara: “Reconstruímos a árvore evolutiva destes cucos e descobrimos que, ao contrário do resto do genoma, no cromossoma W o parentesco é maior consoante a cor da fêmea. Ou seja, uma fêmea de cuco-canoro hepática tem um W mais semelhante ao de uma fêmea hepática de cuco-oriental, do que o da fêmea cinzenta da mesma espécie” acrescenta, por sua vez, Pedro Andrade, também investigador no BIOPOLIS-CIBIO e coautor do artigo. “Para chegar ao fundo da questão, testamos se esta partilha de variação ocorria devido ao acaso, por hibridação, ou se a variação era tão antiga que precedia as espécies atuais”.

“E os nossos dados sugerem que esta variação é efetivamente muito antiga. A mutação original ocorreu provavelmente há cerca de um milhão de anos, antes do aparecimento do cuco-canoro e do cuco-oriental atuais, e tem sido passada geração após geração à medida que as espécies evoluíram”, explica Cristiana Marques.

De acordo com a equipa, este é um excelente exemplo de como, por vezes, diferentes variedades da mesma característica podem ser vantajosas, em contraponto à visão mais clássica da evolução na qual uma variante se sobrepõe às outras e leva a mudanças nas populações ao longo do tempo.

Segundo Miguel Carneiro, “os resultados demonstram como é que variação restrita a um sexo pode ser determinada pelos cromossomas sexuais, o que à primeira vista parece intuitivo, mas que surpreendentemente até agora tinha sido difícil de demonstrar”.

Para os cucos, manter duas formas diferentes numa população poderá impedir os hospedeiros dos ninhos de aprenderem a distinguir as fêmeas das aves de rapina que mimetizam, salvaguardando a espécie.

Neste momento prosseguem esforços para demonstrar se estas cores têm facilitado o estilo de vida parasítico dos cucos ao longo da sua evolução. Universidade do Porto - Portugal





quinta-feira, 18 de abril de 2024

Brasil - Aposta na “diplomacia indígena” para a COP30

Em entrevista para a ONU News, a ministra dos Povos Indígenas destaca a preparação de jovens lideranças para incidência direta com negociadores. Defendeu a inclusão da demarcação de territórios no acordo final da conferência e disse que esse é um passo indispensável para que o Brasil cumpra compromissos climáticos


Como país anfitrião, o Brasil está a atuar para que a Cúpula do Clima da ONU de 2025, a COP30, tenha a “maior e melhor participação indígena”. A declaração foi feita pela ministra dos Povos Indígenas, durante a sua participação no Fórum Permanente das Nações Unidas sobre Questões Indígenas, em Nova Iorque.

Sonia Guajajara afirmou que, do ponto de vista dos povos tradicionais, o resultado mais importante da COP30 seria o “reconhecimento formal” da importância do conhecimento e dos territórios indígenas na resposta aos desafios do clima.

Demarcação de terras

“O Ministério dos Povos Indígenas está com essa iniciativa de formação de jovens indígenas e é o que nós estamos chamando de diplomatas indígenas, para que possam fazer uma incidência direta com os negociadores no momento ali da tomada de decisões. Acho que é muito importante essa orientação, esse olhar dos povos indígenas. Estamos pautando que as demarcações de territórios possam fazer parte também dos acordos dos textos oficiais, como parte dessa solução para a crise climática”.

Sonia Guajajara disse que é preciso incluir “a regularização fundiária dos territórios indígenas” como parte das medidas dos Compromissos Nacionalmente Determinados apresentados pelo Brasil para cumprir o Acordo do Clima de Paris.

“O alcance dessa meta não será possível se não incluir a demarcação das terras indígenas. É uma conta que já está dada, que já está feita. E como o Brasil tem um passivo muito grande de territórios ainda a serem reconhecidos, nós estamos com esse planeamento de avançar com a demarcação das terras indígenas para o alcance da meta de redução do desmatamento”.

Eliminação do garimpo ilegal

A preparação para a COP30 envolve ainda a criação de um comité internacional com representação de povos indígenas de várias partes do mundo, liderado pelo Brasil. O objetivo é reunir essas diversidades para fortalecer o “posicionamento dos indígenas como guardiões da Mãe Terra” e “maiores protetores da biodiversidade”.

Em relação à situação no estado do Pará, onde será realizada a COP30, Sonia Guajajara mencionou que o ministério está a planear ações de eliminação do garimpo ilegal das terras indígenas dos povos Munduruku e Kayapó. Destacou a preocupação com a eventual extração de minerais para a transição energética.

“Os grandes líderes mundiais estão a discutir a necessidade e as medidas para fazer essa transição. Mas não se está a haver muita adesão em ceder, em abrir mão de determinadas explorações. O Brasil tem discutido muito para fazer essa transição energética. Nós, do Ministério dos Povos Indígenas, temos defendido o processo de consulta. É muito importante que agora a Convenção 139 seja de facto implementada para garantir o consentimento livre prévio informado dos povos indígenas”.

É preciso “reflorestar mentes”

Citando o facto de que os povos indígenas representam apenas 5% da população mundial, mas protegem 82% da biodiversidade que ainda resta no planeta, a ministra disse que ameaçar os direitos indígenas significa ameaçar a biodiversidade.

“Nós não podemos ter vida no planeta se não há uma biodiversidade viva. Então é muito importante de olhar para os povos indígenas e entender a importância dos povos e dos territórios indígenas protegidos. Porque onde tem indígena a presença indígena é certeza de água limpa, de alimentação sem veneno, de floresta em pé da biodiversidade protegida. Então, como não considerar tudo isso?”

Sonia Guajajara declarou que é o momento de “reflorestar mentes”, criando uma mudança de comportamento, pensamento e projetos para que o futuro não esteja totalmente comprometido. ONU News – Nações Unidas


quinta-feira, 21 de março de 2024

Europa - Cientistas da Universidade de Coimbra avaliam impacto da utilização de pesticidas em vinhas da Bairrada

Uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) vai monitorizar e avaliar o impacto da utilização de produtos fitofarmacêuticos na biodiversidade das vinhas da Bairrada.


O projeto “Syberac - Mitigating the impacts of Chemicsls on Biodiversity”, que vai decorrer nos próximos quatro anos, recebeu um financiamento global de cerca de 5 milhões de euros, por parte da Comissão Europeia (Programa Horizonte Europa).

«Este projeto pretende contribuir para uma avaliação de risco dos produtos fitofarmacêuticos de forma holística, ao contrário da avaliação que é feita atualmente, produto a produto. Vamos olhar para a utilização destes compostos de uma forma integrada, em contextos específicos, tendo em conta outros fatores que podem alterar o seu impacto», explica José Paulo Sousa, docente do Departamento de Ciências da Vida (DCV) e investigador do Centro de Ecologia Funcional (CFE).

Neste sentido, continua o coordenador do projeto na UC, «a ideia é tentar perceber qual o efeito da composição e estrutura da paisagem e das práticas agrícolas ao nível do risco que os pesticidas têm na fauna auxiliar, que são os agentes que fazem o controlo biológico das pragas, e na fauna de solo, que é importante em termos da saúde do solo».

Portanto, para compreender qual o nível de exposição dos organismos aos pesticidas e até que ponto pode haver efeito dessa exposição em diferentes contextos de paisagem, os investigadores da FCTUC vão monitorizar a fauna auxiliar e de solo, assim como recolher amostras de solo e de vegetação, dentro e fora das vinhas.

«Acreditamos que o que for desenvolvido ao longo deste projeto pode auxiliar não só no cumprimento das metas traçadas por diferentes regulamentações europeias, mas também no desenvolvimento de novas abordagens para a avaliação de risco de pesticidas a nível europeu. Pretendemos ainda contribuir para um aumento da adoção de práticas de gestão ambientalmente sustentáveis no setor vitivinícola», conclui.

O projeto Syberac é coordenado pela Universidade de Wageningen, nos Países Baixos, e conta com a participação total de 12 instituições de vários países da Europa. Em Portugal, a UC conta com a colaboração de atores locais, como por exemplo as Caves Aliança, a Vadio Wines Unipessoal, Lda. e a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, I. P. (CCDR Centro, I. P.). Universidade de Coimbra - Portugal



segunda-feira, 18 de março de 2024

Internacional - Investigadora do CIIMAR dá o nome a nova espécie de esponja marinha

Joana Xavier foi surpreendida pela equipa que atribuiu o seu nome a uma nova espécie de esponja marinha redescoberta numa amostra com mais de 15 anos


Uma equipa internacional acaba de publicar um artigo científico no qual descreve oito espécies de esponjas marinhas, uma das quais foi “batizada” em homenagem à investigadora Joana Xavier, do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto (CIIMAR-UP). Esta espécie foi descrita com base num exemplar recolhido pela cientista da U.Porto numa gruta subaquática em Tenerife em 2007, quando ainda estava a fazer o seu doutoramento.

Apesar de estarem interessados em esponjas das ilhas Baleares no Mediterrâneo, os investigadores do Centro Oceanográfico das Baleares e do Museu da Evolução da Universidade de Uppsala acabaram por comparar amostras com outros locais e encontrar oito novas espécies para a ciência. Uma vez que uma delas tinha sido recolhida pela investigadora do CIIMAR Joana Xavier, e em reconhecimento da sua dedicação a avançar o conhecimento de espécies em mar profundo, resolveram atribuir-lhe o seu nome – Caminus xavierae.

Segundo Joana Xavier, “apesar de nessa altura mergulhar muito para recolher amostras para o meu doutoramento, não era costume fazer mergulhos em grutas. E este mergulho em específico foi feito precisamente para recolher um exemplar daquela que julgávamos ser Caminus vulcani, a pedido do meu colega Paco Cárdenas, último autor deste artigo, e que na altura também estava a fazer o seu doutoramento sobre a sistemática e evolução deste grupo taxonómico.”

Hoje, passados vários anos, e no seguimento da recolha de novas amostras nas Baleares pelos investigadores envolvidos neste estudo, percebeu-se que afinal esta amostra correspondia na realidade a uma nova espécie para a ciência que agora puderam descrever.

Um novo olhar sobre Caminus xavierae

A Caminus xavierae é uma esponja marinha em forma de almofada de cor castanha clara, e que possui um ósculo central (por onde sai a água) com margens elevadas, e inúmeros poros mais pequeninos (por onde entra a água) que formam um padrão estrelado na superfície da esponja.

Os elementos estruturais que constituem o seu esqueleto, são espículas siliciosas com morfologias distintas: algumas de maiores dimensões (estrôngilos e ortotrienas) e outras de menores dimensões (esterrasters, oxyasters e esférulas) que formam um córtex, uma espécie de “casca” superficial.

Para já, esta espécie só é conhecida desta gruta em específico pelo que seria importante perceber quão restrita é a sua distribuição.  

Um novo nome

Atribuir o nome de alguém a uma espécie é uma prática relativamente comum entre a comunidade de taxonomistas. Contudo, nunca estas escolhas são casuais.

“É obviamente uma grande honra termos uma espécie cujo nome nos é dedicado. É uma forma de homenagear alguém que admiramos pelas contribuições que têm feito neste campo do conhecimento – a taxonomia – que é tão importante e, no entanto, tão pouco valorizado” refere Joana Xavier, que já conta com mais duas espécies a ela dedicadas: a primeira – Calthropella (Calthropella) xavierae van Soest, Beglinger & de Voogd 2010, foi “batizada” pelo seu orientador de doutoramento, Rob van Soest. do Museu Zoológico de Amesterdão; e a segunda – Hymedesmia (Hymedesmia) xavierae Goodwin, Picton & van Soest 2011, por uma colega irlandesa, Claire Goodwin, também investigadora neste grupo.

Avançar o conhecimento sobre esponjas marinhas

Joana Xavier coordena a equipa de Biodiversidade e Conservação do Mar Profundo no CIIMAR que se dedica ao estudo de padrões de diversidade, distribuição e conectividade de espécies e habitas bentónicos de mar profundo, em particular os que são dominados por esponjas marinhas.

A equipa tem de momento a decorrer projetos dedicados a esta temática, que vão desde o desenvolvimento de uma base de conhecimento sobre as esponjas e corais da plataforma e talude de Portugal continental em colaboração com comunidades piscatórias locais no projeto o DEEPbaseline, ou a identificação dos principais hotspots de biodiversidade de espécies e habitats de esponjas em todo o Atlântico e Mediterrâneo no projeto SponBIODIV.

Dentro de alguns meses, abraçará mais três projetos que permitirão expandir estes estudos, nomeadamente para o desenvolvimento e aplicação de metodologias de baixo custo para melhor mapear, monitorizar e até restaurar estes habitats. Universidade do Porto - Portugal